sexta-feira, 25 de abril de 2025

POR UM PAÍS MELHOR



CULTIVAR A ÉTICA O RESPEITO E A SOLIDARIEDADE


A educação é uma ferramenta essencial para transformar vidas e moldar um futuro mais promissor. Ela começa em casa, no afeto e nos valores transmitidos pela família, e se enriquece através do conhecimento, da convivência e do conteúdo aprendido nos bancos escolares. É o alicerce para um mundo repleto de oportunidades.

Uma pessoa que recebe uma base sólida de educação no ambiente familiar e tem acesso a uma formação escolar de qualidade tem um potencial extraordinário para impactar positivamente sua família, sua comunidade, sua cidade e até mesmo o mundo. Isso vai muito além de alcançar sucesso profissional ou financeiro; trata-se de cultivar ética, respeito, solidariedade e o cuidado com os outros, com o bairro, com a cidade e com o país.

Educação bem fundamentada não apenas abre portas, mas também constrói pontes para uma sociedade mais justa, igualitária e repleta de esperança. Juntos, podemos sonhar, realizar e construir um amanhã brilhante!


 

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A "PRACA" do PREFEITO DA CIDADE.

lendas e mitos urbanos


Durante muitos anos, alimentava o desejo de viver uma pequena temporada em um hotel fazenda. Após muitas pesquisas em sites especializados, deparei-me com um local que atendia exatamente às nossas expectativas. Fizemos as malas e partimos rumo a uma cidadezinha remota, em busca de nosso destino.

À medida que o cenário se desenrolava diante de nossos olhos, acompanhávamos atentamente o GPS, garantindo que estávamos no caminho certo. Algumas horas depois, a voz do dispositivo nos orientou: "Siga pela estrada de terra". O aviso trouxe um curioso ar de antecipação, como se algo inesperado nos aguardasse.

Foi então que, ao lado da estrada, surgiu um menino trajando apenas um calção, segurando uma vara de pescar. Paramos e perguntamos:
– Onde fica o Hotel Fazenda chamado "O Último Berro"?
– Sei não, seu moço. Só vou pescar no rio ali adiante – respondeu com desinteresse.
– Não tem por aqui um hotel antigo que hospeda pessoas? – arrisquei novamente.
– Ospeida? O que é isso? Não sei não. Só vou pescar e levar os peixes lá pra dona do casarão. Vocês vão lá? Tudo lá é mal-assombrado. Meu pai trabalhou lá e ficou todo quebrado, diz que saiu correndo com medo do fantasma do antigo dono. Naquele tempo, o tal coronel Biguá Dente de Ouro mandava em tudo e possuía muitos escravos. Agora meu pai trabalha na oficina ali, lá perto de onde eu moro.

A conversa deixou uma sensação inquietante no ar, mas seguimos o trajeto. Encontrar o local revelou-se uma tarefa difícil; tudo parecia deserto e envolto em uma atmosfera de estranheza. Seria mesmo assombrado?

Antes de chegar, cruzamos uma pequena propriedade com uma porteira peculiar: apenas dois mourões sem a parte móvel que a sustentava. No topo de um dos mourões, uma placa desgastada indicava que ali funcionava uma oficina de conserto de carros – certamente do pai daquele menino. A cena era tão singular que decidi fotografá-la. Contudo, ao me aproximar, um cão enorme correu em minha direção, feroz. Não tive alternativa senão retornar ao carro apressado, deixando a foto para trás. Mesmo assim, as palavras da placa ficaram gravadas em minha memória.

Mais adiante, passamos por uma pracinha minúscula, quase esquecida pelo tempo. Ali, uma outra placa destoava completamente de qualquer padrão:

"Proibido jogá lixo nesce local. Multa di R$ 500,00. Por ordem do sinhor prefeito."

A escrita grotescamente errada era intrigante e despertava um misto de curiosidade e desconforto. Alguém teria deixado aquela placa propositalmente, como um aviso ou brincadeira macabra? O mistério apenas crescia, fazendo aquele lugar parecer ainda mais inusitado.

Ao finalmente chegarmos ao casarão/hotel, a inquietação continuava. Conversando com uma funcionária, perguntei sobre a propriedade e as curiosas placas que havíamos encontrado pelo caminho. Ela me respondeu:
– Ah, aquele era o lugar onde o Coronel Dente de Ouro maltratava os escravizados. Vocês viram o Dente? Dizem que é ele quem vem assustar os clientes à noite. O Coronel morreu há anos, mas as histórias dizem que ele e o neto aparecem em noites de lua cheia, com aquele sorriso sinistro e o brilho do dente refletindo. Foi assim que o carro do neto caiu na ribanceira, e ele também morreu... Lá não resta mais ninguém.

Nota do Autor
Lendas e mitos urbanos são pequenas histórias de caráter fabuloso ou sensacionalista muitas vezes com elementos de mistérios ou também com temas horripilantes, amplamente divulgadas pelos personagens da velha guarda, de forma oral, que constituem um tipo de folclore moderno. 

                  

Veja outros contos e crônicas clicando no link abaixo:

Toninho Vendramini Slides - Sergrasan



segunda-feira, 21 de abril de 2025

CHICÃO, O ETERNO BOLEIRO E SUAS PÉROLAS INESQUECÍVEIS

                           A GORDUCHINHA BEIJOU A REDE...


Chicão foi aquele tipo de jogador genuíno, o "boleiro raiz", que conquistava a torcida mais pelo carisma do que pelo talento. Atuou em um dos grandes clubes de São Paulo, mas, como acontece com todos os atletas, o tempo lhe cobrou o preço. Sua técnica já não era a mesma e, no final da carreira, encontrou espaço em um clube menor do interior, ainda na divisão principal. Mas isso não diminuiu seu brilho—pelo contrário, tornou-se ídolo local.

Jogando como volante, era peça fundamental na organização das jogadas, distribuindo a bola pelo meio de campo. A torcida adorava seu estilo aguerrido e, especialmente aos domingos, as moças suspiravam com sua presença em campo. O carinho da torcida era tão grande que ele recebia flores antes dos jogos, gesto que retribuía com simpatia e elegância. Sempre atento aos fãs, fazia questão de dar atenção especial às crianças que o abordavam pedindo um cumprimento ou um afago.

Mesmo com dificuldades na expressão verbal, sua espontaneidade compensava qualquer problema com as palavras. Nas entrevistas, ele arrancava risadas, e foi justamente essa autenticidade que o ajudou a construir sua aura lendária.

De boleiro a político—ou quase

A fama extrapolou os limites do futebol e Chicão decidiu se aventurar na política. Sua popularidade garantiu uma enorme quantidade de votos, tornando-se vereador da cidade. No entanto, sua vocação para a política era bem menor do que sua paixão pelo futebol. Faltava a muitas reuniões porque preferia estar nos gramados, e sem projetos concretos, sua carreira política teve vida curta.

Mas foi nos microfones que seu carisma se revelou ainda mais. Suas entrevistas geraram momentos icônicos, como quando um repórter pediu que ele saudasse o público e ele respondeu com toda simplicidade:
"Boa noite, microfone!"

Ou quando, lesionado e impossibilitado de jogar, gritou palavras de incentivo ao seu substituto no alambrado e garantiu:
"Comigo ou sem-migo, o time vai ganhar!"

A cidade inteira repetia suas frases como bordões! E quando sua equipe jogou em Belém do Pará, soltou outra pérola histórica:
"É uma satisfação muito grande jogar aqui nesta terra onde nasceu Jesus Cristo!"

Da bola ao microfone—e a confusão que virou lenda

Após o fim da carreira, o clube tentou ajudá-lo conseguindo um emprego em uma rádio esportiva, onde começou como assistente de repórter. Seu entusiasmo era enorme, e ele gostava de estar próximo ao campo, vivendo intensamente cada jogo. Mas seu jeito irreverente também gerou episódios memoráveis.

Certa vez, substituindo um repórter que teve uma emergência intestinal durante uma transmissão, foi chamado para descrever uma jogada e soltou sem pensar:
"Nosso lateral tem pé de bosta, se fosse eu teria feito o gol."

O coordenador correu para alertá-lo, pedindo para ter cuidado com as palavras. Mas Chicão era Chicão—e sua espontaneidade era incontrolável. Durante uma tempestade que interrompeu um jogo, ouviu o locutor dizer:
"Chove torrencialmente pelos quatro cantos do gramado."

E completou sem hesitar:
"Inclusive no meio!"

Mas foi seu último erro no microfone que selou seu destino. Ao ser chamado para ajustar o som da transmissão, sem perceber que estava no ar, disparou:
"Aqui embaixo é uma merda só! É choque para tudo quanto é lado, até meu rabo tá pegando fogo!"

O presidente da rádio, furioso, dispensou Chicão e toda a equipe envolvida naquele desastre de transmissão. Com o tempo, os patrocinadores abandonaram a emissora, e as frases do Chicão viraram folclore na cidade, sendo contadas e recontadas como verdadeiras pérolas do futebol.

Curiosidades sobre Chicão

  • Seus bordões eram citados até na capital, ganhando espaço em colunas esportivas de jornais.

  • Mesmo sem grandes habilidades políticas, seu carisma conquistava os eleitores, que ainda lembram dele com carinho.

  • Após sua saída da rádio, ninguém soube seu paradeiro, tornando sua história uma verdadeira lenda urbana.

A trajetória de Chicão é uma mistura de paixão pelo futebol, espontaneidade e humor involuntário. Um personagem marcante, que deixou sua marca no esporte e na cultura popular de sua cidade!

                           conheça outros textos curiosos e engraçados.                   

domingo, 20 de abril de 2025

ZEZINHO MUÇAMBÊ O ARTESÃO E FOTÓGRAFO DE MIL FACES


UM CONTO INSPIRADO
 EM UM PERSONAGEM QUE VIVEU EM ALGUMA CIDADE DO INTERIOR

José Epaminondas de Albuquerque Martins, ou simplesmente Zezinho, partiu do Nordeste com um sonho: transformar sua vida em São Paulo. Com a bênção de sua mãe e o coração apertado por deixar o pai e os oito irmãos, ele seguiu viagem, carregando apenas uma matula e uma imensa vontade de vencer.

 

Desde cedo, Zezinho demonstrava talento. Em sua terra natal, criava peças de artesanato que encantavam nas feiras dominicais. Suas mãos habilidosas e sua imaginação fértil transformavam materiais simples em verdadeiras obras de arte. Mas ele queria mais. Inspirado pelo fotógrafo lambe-lambe da praça, sonhava em aprender a capturar momentos e eternizá-los em imagens.

 

Ao chegar à metrópole, Zezinho se deparou com desafios. Conseguiu um ponto na praça, onde expunha suas peças em caixotes improvisados. Para complementar a renda, fez sociedade com um mascate e comprou uma câmera fotográfica. Assim, entre o artesanato e as fotografias, começou a construir sua reputação.

 

Foi nesse vai-e-vem que conheceu uma mulher com quem dividiu teto e aflições. Mas a relação azedou ao descobrir que ela se prostituía enquanto ele trabalhava. Desiludido, Zezinho aceitou a proposta de um fotógrafo profissional, Sr. Cícero, para trabalhar em seu ateliê no interior. Lá, ele aprimorou suas técnicas e ganhou o apelido de "Zezinho das Artes", por nunca abandonar o artesanato.

 

Com o tempo, Zezinho abriu seu próprio negócio, inovando com fotografias coloridas e cobrindo eventos sociais, esportivos e religiosos. Tornou-se figura conhecida, participando de carnavais e campeonatos, e até colaborava com o jornal local. Mas sua saúde começou a dar sinais de alerta. Uma tosse persistente o incomodava, e ele recorria a um xarope caseiro de muçambê, que carregava em um frasco no bolso. O hábito lhe rendeu um novo apelido: "Zezinho Muçambê".

 

Apesar do sucesso, o destino foi cruel. Em um dia chuvoso, Zezinho não apareceu para trabalhar. Preocupado, um funcionário foi até sua casa e o encontrou sem vida, ao lado do frasco de muçambê. O velório foi marcado por homenagens emocionadas, mas o enterro virou um caos. Uma chuva torrencial interrompeu o cortejo, e o caixão foi abandonado na rua. Vagabundos o arrastaram para uma barraca de flores, e a polícia, sem opções, deixou o corpo ali até o dia seguinte.

 

Na manhã seguinte, o caixão havia desaparecido. O mistério permanece até hoje, alimentando histórias de assombração e curiosidade na cidade. Zezinho Muçambê, com sua vida cheia de altos e baixos, deixou um legado de talento, resiliência e um enigma que nunca será desvendado.





sexta-feira, 18 de abril de 2025

ANTONIO VENDRAMINI (MEU AVô) E O LEGADO DO CARRO DE BOI


DESDE PEQUENO FASCINAVA PELO FUNCIONAMENTO 

Antonio Vendramini, conhecido pelo apelido de Tonella, nasceu em Treviso, Itália, em 1882. Como muitas famílias europeias da época, seus parentes decidiram migrar para o Brasil, buscando novas oportunidades. Chegaram ao Estado de São Paulo e se instalaram no Distrito de Banharão, em Jaú, onde trabalharam arduamente na lavoura de café. O trabalho era extenuante, mas, com esforço e dedicação, conseguiram adquirir terras próprias e iniciar seu próprio cultivo.

Desde pequeno, Tonella se fascinava pelo funcionamento dos carros de boi. Passava horas observando a montagem das carroças usadas para transportar as sacas de café até as ferrovias, onde seriam embarcadas na Maria-Fumaça rumo aos portos. Sua curiosidade e empenho o levaram a se tornar carreiro, dominando a arte de conduzir os bois e cuidar do carro para que seu eixo "cantasse" durante o percurso—um som característico que, na cidade, despertava curiosidade e, no distrito, atraía olhares atentos.

O canto do carro de boi também desempenhava um papel social. Ao entrar na cidade, atraía pessoas ansiosas para saber quem chegava e quais novidades trazia. Já no Banharão, o som chamava a atenção das moças, que corriam até as portas para ver os condutores Tonella e Anduim, que sorridentes acenavam com seus chapéus. O trabalho exigia técnica, paciência e respeito pelos animais, especialmente pelos bois malhados, que eram mais dóceis e fáceis de treinar.

Com o tempo, novas formas de transporte surgiram. As tropas de burros, das quais Tonella foi pioneiro em Jaú, passaram a agilizar o transporte das sacas de café até a estação de trem. Mais tarde, os cavalos entraram na vida dele, proporcionando espetáculos rurais e apresentações em circos e feiras.

O carro de boi foi um símbolo de progresso para a família Vendramini e para tantas outras. Hoje, tornou-se uma lembrança de tempos passados, preservada em festivais e encontros que celebram sua importância na história rural brasileira. O legado de Tonella e sua dedicação ao trabalho permanecem vivos, carregados na memória de sua família e na cultura do país.

JOÃO-DE-BARRO O CONSTRUTOR DA FLORESTA



fiquei sabendo que o casal é unico

A tarde de verão que era majestosa, repentinamente, transformou-se em um céu carregado de nuvens. Vieram os relâmpagos, cortando o horizonte com fios de luz, e ouvi o rugido grave dos trovões, estremecendo o solo e anunciando a tempestade. Logo, uma pesada chuva desabou, trazendo consigo o cheiro da terra molhada que subia como um perfume selvagem.

Olhei para o solo barrento na beira do meu gramado e percebi o frêmito de asas agitadas se espalhando pela lama, onde os pássaros, ávidos, disputavam a colheita inesperada da terra. O banquete estava servido: inúmeras larvas e insetos brotavam das entranhas do solo, expostos pela água que os desalojava.

Ali estava acontecendo o cio... Sedenta de amor, a terra sorvia a chuva como um amante sedento, esperando ansiosa pelo toque gentil da semente. Pedia a fecundação para que, em sua gestação, gerassem novos frutos, complementando seu estado de felicidade, acariciando suas novas crias e propiciando, aos seres humanos, alimentos saudáveis para a continuidade das espécies.

A cena era maravilhosa. Busquei em meu embornal, no quartinho de ferramentas, algumas sementes que estavam esperando esse momento sublime. Enquanto semeava nas covas mais fundas, os pássaros continuavam a procurar os insetos para alimentar os filhotes, que soltavam trinos altos, pedindo aos pais por comida. Foi nesse instante que ouvi um cantar mais estridente, bem próximo, ali naquele barro vermelho.

Era um casal de João-de-barro que, freneticamente, pedia passagem, chegando até dar voos rasantes perto da minha cabeça, expulsando-me do local; queriam aquele barro para iniciar a construção de seu ninho.

Observei, alegremente, o trabalhão incessante do casal e segui-os com os olhos para ver aonde levavam, nos bicos, as pelotas de barro. Cada pelotinha era encaixada na estrutura, como um operário que molda sua obra-prima com precisão e determinação. Notei, com alegria, que a construção se iniciava bem na minha área de lazer, na terça do telhado, acima do fogão de lenha.

Logo escureceu e o trabalho operário dos dois parceiros terminou, e o meu de observador também. Recolhi-me aos meus aposentos e busquei uma literatura em que pudesse ter mais informações a respeito desse magnífico pássaro.

Fiquei sabendo que o casal é único, ou seja, são parceiros até que a morte os separe. No dia seguinte, logo pela manhã, fui fazer as vezes de ferrenho observador, ficando contente em vê-los na obcecada tarefa da construção do ninho.

A tarefa de construção continuava; era um vai e vem desenfreado do casal, no transporte das pelotinhas de barro sob o telhado, colocando-as na base sobre a viga de madeira. O entusiasmo era grande, e quando se ausentavam, era porque estavam trançando pequenas raízes em outro local, para fortalecer as paredes do ninho. Nesse momento, corri para a torneira do jardim, peguei uma vasilha com água e coloquei em cima daquele barro perto do gramado que já estava secando, facilitando a árdua jornada dos "passaritos".

E assim fui ajudando os dois naquela empreitada. Era maravilhoso acompanhar a mesma rotina, que durou vários dias. Logo fui me municiando de dispositivos para poder observá-los à distância; então, arrumei um binóculo e uma câmera digital, para ir registrando a evolução da obra!

Com os olhos compridos, pude enxergá-los melhor na execução, sem espantá-los; e valeu a pena ficar observando. A evolução que meus olhos presenciavam era impressionante! Tudo tão perfeito: a circunferência ao redor da viga que suportava a edificação, os contornos de feixes de raízes formando uma malha, como se fosse um alicerce, o desenho da porta de entrada com a proteção contra intrusos.

Depois de terminada a casinha, iniciou-se um namoro meio maroto nas árvores próximas ao ninho, até que um dia não mais notei a presença do macho. Percebi, então, que ele examinava as redondezas para verificar a fertilidade da alimentação para os futuros filhotes, enquanto a fêmea iniciava a postura dos ovos.

Após o terceiro dia do início do choco, notei que quem alimentava a fêmea no ninho era outro macho, bem maior que aquele que a ajudou na construção da morada. Sim, porque ela não podia sair, garantindo que todos os ovos tivessem sucesso no nascimento dos filhotes.

O que teria acontecido? Fiquei em observação mais detalhada até que, na tarde do quarto dia, houve uma luta feroz no galho da árvore, culminando com a retirada do intruso, que tentava assumir o papel de condutor da família antes que os filhotes viessem ao mundo.

Seria uma traição? Certamente não, pois o macho não edificou uma parede na porta... Diz uma lenda do cancioneiro popular rural que, quando isso acontece, ele condena a fêmea dessa forma e parte para uma reclusão até a morte. Talvez fosse um macho viúvo querendo aproveitar a oportunidade para formar uma nova parceria, que foi, energicamente, repudiada.

Fiquei extremamente feliz em ver que tudo correu bem; depois de vários dias de choco, nasceram três belos filhotes, que o macho alimentou.

Passado todos esses dias, a fêmea saiu de seu confinamento e também ajudou o companheiro na criação das pequeninas aves que, logo, se tornaram bem maiores e seguiram seus destinos, sabe-se lá por onde.

E assim, o ciclo se perpetua. O casal parte, os filhotes seguem seu destino, e em algum outro telhado, sob um novo céu de verão, recomeçará a dança da vida. Esse tema encantador continuará servindo de inspiração para poetas, compositores de moda-de-viola, seresteiros, também de escritores e cronistas, relatando, através de canções, e “proseando no conto de causos”.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

EGITO: A CASA DA ALMA


Ao aproximarmos da cidade ainda dentro do avião...

O nome do Egito tem origem na palavra grega Aegyptus, derivada do termo antigo Hik up tah, que significa "a casa da alma". Esse solo milenar continua a seduzir e fascinar gerações, encantadas por sua grandiosa história, suas pirâmides e os lendários faraós, como Ramsés II e Tutancâmon.

A civilização egípcia está entre as mais antigas e duradouras do mundo, com uma trajetória que remonta a mais de 3.000 anos antes de Cristo. Seu legado, imortalizado em monumentos e tradições, continua a desafiar o tempo e a nos surpreender.

O Cairo: A Joia do Oriente

Situada no coração das rotas entre Ásia, África e Europa, a cidade do Cairo é um verdadeiro tesouro do Oriente. Suas famosas pirâmides, rodeadas por minaretes que misturam passado e presente, fazem da região um lugar único, onde a história pulsa a cada esquina.

Ao nos aproximarmos da cidade ainda dentro do avião, avistamos, lá do alto, o magnífico panorama das pirâmides. O impacto visual foi deslumbrante, um espetáculo inenarrável que parecia nos conectar a uma era distante.

Naquela noite, uma experiência mágica nos aguardava: um show de luzes e sons projetado sobre as pirâmides. Imagens e vozes ecoavam no tempo, como se os próprios faraós estivessem ali, guiando-nos por sua gloriosa história.

A Grande Pirâmide e Seus Mistérios

Pela manhã, do hotel Intercontinental Pyramids Park, vislumbramos no horizonte o complexo monumental das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, construídas para abrigar os corpos dos faraós e garantir-lhes a eternidade.

Após explorar os imponentes monumentos sob o sol escaldante, nosso guia, Sr. Sahid, nos propôs uma jornada ao interior da pirâmide. Adquirimos os bilhetes e aguardamos nossa vez de entrar. A passagem era estreita, um túnel em declive onde só um grupo reduzido poderia avançar. A cada passo, a sensação de mistério aumentava.

Ao descermos, nos deparamos com corredores adornados com hieróglifos, narrando a vida do faraó desde seu nascimento até sua entrada triunfal na câmara mortuária, onde repousava seu sarcófago.

Ali dentro, um beduíno nos recebeu com um olhar enigmático, como se revivesse os dias do sepultamento do faraó. Mesmo sem entender suas palavras, sentíamos o peso da história e a energia daquele espaço ancestral.

Uma Queda Entre Milênios

Enquanto explorava os detalhes entalhados nas rochas, dei alguns passos para trás e, sem perceber, pisei em um espaço vazio. O chão parecia se abrir e me senti sendo puxado para baixo. A queda foi leve, mas meu coração disparou. Seria a maldição do faraó? Teria eu perturbado seu descanso eterno?

O beduíno gritou algo incompreensível. Minha esposa também exclamou um alerta. E, naquele instante, meu pensamento flutuou por milênios. Eu me sentia diante do próprio faraó, como se o reverenciasse e expressasse meu respeito por sua história e por tudo que seu povo construiu.

Após recuperar o equilíbrio, percebi que o ambiente ao meu redor era um testemunho vivo da grandiosidade egípcia. Tesouros saqueados, escrituras preservadas e mistérios ainda por descobrir mostravam a importância de preservar esse legado.

A Eternidade Gravada nas Pedras

A história egípcia resistiu ao tempo e continua a ser estudada por arqueólogos e egiptólogos do mundo inteiro. A descoberta da Pedra de Roseta por Champollion permitiu decifrar os segredos dessa civilização extraordinária.

Mais de cinco mil anos se passaram, mas os obeliscos e monumentos seguem imponentes, desafiando o tempo. O que mais estará oculto sob as areias e montanhas do Egito? Que novos mistérios ainda aguardam para serem revelados?

O Cairo não é apenas um lugar; é um portal para a imortalidade de uma civilização que continua a nos ensinar e fascinar.



PANORAMA VISTO DA VARANDA


NÃO ESPERE UMA OCASIÃO ESPECIAL.

Hoje, há edifícios que tocam o céu e estradas que se estendem sem fim,
mas os temperamentos se tornaram pequenos e os pontos de vista, estreitos.

Gastamos mais, desfrutamos menos.
Construímos casas maiores, mas nossas famílias diminuíram.
Multiplicamos compromissos e reduzimos o tempo para o que realmente importa.
Temos mais remédios, mas menos saúde; mais conhecimento, mas menos sabedoria.

A tecnologia nos conecta, mas será que nos aproximamos?
A liberdade se amplia, mas os corações se sentem aprisionados.
Os supermercados estão cheios, mas as refeições são apressadas e sem alma.

Estamos na era das casas impecáveis, mas dos lares despedaçados.
Dos armários abarrotados, mas dos sorrisos escassos.

Por isso, não espere uma ocasião especial.
Cada dia que você vive é especial.

Sente-se na varanda e admire a paisagem, mesmo que o céu esteja nublado.
Deixe o vento bagunçar seus cabelos e o sol aquecer sua pele.
Abrace mais. Ria alto. Permita-se saborear o presente.

Não guarde seu melhor perfume—use-o quando tiver vontade.
Não adie aquela ligação, aquele café, aquela viagem.
Escreva aquela carta que nunca enviou.

Diga aos seus amigos, aos seus familiares, o quanto os ama.
Porque a vida não se mede em anos, mas em momentos.

E cada instante é único—e pode ser o último.

Clique no link - ( será remetido ao site  viagens mundo afora) 

terça-feira, 15 de abril de 2025

O MURO DAS LAMENTAÇÕES


O PEDIDO COMPRIMIDO ENTRE AS PEDRAS ANCESTRAIS




A ansiedade nos dominava. Eu e minha esposa, impelidos por uma emoção quase palpável, cruzávamos as vielas estreitas de Jerusalém como peregrinos em busca de um destino sagrado. O brilho em nossos olhos denunciava a expectativa de chegar ao coração da cidade antiga, um enclave histórico envolto por muralhas imponentes, testemunhas silenciosas de séculos de devoção.

Ali, onde o tempo parece se dobrar sobre si mesmo, encontramos o epicentro espiritual de Jerusalém. Nomeado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, essa região abriga as marcas indeléveis das principais crenças do mundo.

Cada um de nós trouxe consigo desejos e súplicas, convertidos em bilhetes humildes destinados a serem inseridos nas rachaduras do lendário Muro das Lamentações. À medida que caminhávamos, algo inexplicável começava a se insinuar em nossos corpos. Sentíamos uma presença, um arrepio profundo que percorria a espinha e tornava os passos mais lentos, quase reverentes.

O ar fervilhava com o som de vozes em murmúrio constante, enquanto cornetas esculpidas em chifres de carneiro ecoavam pelo espaço, conduzindo religiosos em procissões que carregavam o Torá. Ao fundo, entrelaçavam-se ao som desses rituais as preces muçulmanas que ecoavam dos minaretes, criando uma sinfonia única e avassaladora. O coração pulsava mais forte, acelerado pela intensidade do momento.

Era impossível não ser envolvido pela atmosfera contagiante que nos cercava. A euforia se instalava, misturada a uma reverência silenciosa. Queríamos avançar rapidamente, absorver cada detalhe, testemunhar o cenário tantas vezes visto em filmes e fotografias—mas que agora, finalmente, estava diante de nós.

Cercados por uma diversidade impressionante de pessoas, percebemos a predominância das vestes árabes, mulheres cobertas por trajes negros, revelando apenas os olhos que, em alguns casos, ainda se escondiam atrás de óculos escuros, criando um mistério fascinante e digno de ser registrado. Judeus ortodoxos e rabinos, igualmente envoltos em negro, caminhavam apressadamente, suas barbas longas e os tradicionais fios encaracolados sobre os ombros conferindo um ar quase cerimonial.

Ali, naquele instante, eu me perguntava sobre o significado dessa confluência de três grandes religiões, cada uma com sua história, suas tradições e suas dores, mas unidas por um mesmo ideal: a fé.

A criação do Estado de Israel foi fruto do destino e da luta de um povo que, ao mesmo tempo sofrido e determinado, luta incessantemente por seu direito de permanecer nessa terra sagrada—uma terra impregnada de misticismo, movida por crenças profundas. Mas os que perderam suas terras para essa ocupação encontram dificuldade em aceitar essa nova configuração.

Jerusalém, palco de tantas promessas e tantos conflitos, guarda em seus templos e ruas as pegadas do próprio Cristo. Jesus, o Astro-Rei, majestoso e soberano, contempla aqueles que vêm de todas as partes do mundo para reverenciá-Lo, buscar Suas lições, sentir Suas marcas eternizadas pela cidade. O Monte das Oliveiras, a Via Dolorosa, o Santo Sepulcro—todos testemunham a trajetória que há mais de 2000 anos inspira corações e esperanças.

E nós, diante desse cenário inigualável, depositamos nossos bilhetes entre as fendas do muro. Fé. Saúde. União familiar. Dignidade. Olhos atentos à beleza do mundo e à necessidade de estender a mão aos que mais precisam.

Antes de nos afastarmos, contemplei o oceano de pedidos comprimidos entre as pedras ancestrais. Se pudesse dar voz a todos aqueles bilhetes, talvez encontrasse ali as dores mais profundas e os anseios mais sinceros, como dobras do tempo registrando os dramas individuais e os clamores por paz em uma região marcada por fé, disputa e poder.


AGRADEÇO AS OPORTUNIDADES QUE NOS SÃO DADAS DIARIAMENTE PARA EVOLUIR.




domingo, 13 de abril de 2025

STADEN, O AVENTUREIRO EUROPEU NO BRASIL


STADEN, O AVENTUREIRO EUROPEU NO BRASIL




Hans Staden, aventureiro, marinheiro e cronista alemão do século XVI, deixou uma marca inconfundível na história brasileira. Nascido em Homberg, Alemanha, em 1525, ele embarcou em uma jornada que o levaria a experiências extraordinárias e desafiadoras no Brasil.

Depois de sobreviver a uma série de naufrágios em suas viagens, Staden encontrou uma certa tranquilidade ao se estabelecer na Ilha de Santo Amaro, atual Guarujá, São Paulo. Lá, serviu como arcabuzeiro em uma fortaleza, tornando-se amigo dos índios tupiniquins e do governador-geral Tomé de Souza.

Tudo mudou dramaticamente em janeiro de 1554, quando ele foi capturado pelos tupinambás, inimigos declarados dos tupiniquins. Para Staden, esses indígenas eram vistos como seres selvagens, conhecidos por suas cerimônias ritualísticas e práticas de antropofagia. Seu destino parecia ser o caldeirão. No entanto, levado para a região de Ubatuba, ele conseguiu escapar da morte usando uma combinação de fé, inteligência e teatro.

Staden afirmou ser francês (um povo aliado dos tupinambás) e fingiu estar constantemente doente, atribuindo pequenos fenômenos naturais à ira de seu Deus. Esse comportamento gerou desprezo e temor entre os índios, garantindo sua sobrevivência. Após nove meses e meio de horror, ele finalmente conseguiu escapar em um barco francês.

De volta à Alemanha, Staden documentou suas aventuras no livro A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Devoradores de Homens. Publicada em 1557, a obra é considerada uma importante fonte histórica, oferecendo um vislumbre dos costumes indígenas e das percepções europeias da época. Seu relato é um testamento de um período fascinante e pouco conhecido da história brasileira, ainda ecoando cinco séculos depois.

Hans Staden morreu em 1579, na cidade de Wolfhagen, Alemanha, mas sua memória permanece viva, até mesmo em lugares como Ubatuba, onde uma rua leva seu nome em homenagem a sua história marcante.



UM ENCONTRO INESQUECIVEL NO CLUBE


NAQUELE SABADO LA NO CLUBE ENCONTREI UM CANTOR FAMOSO

QUEM SERIA? COMO ACONTECEU? 

Naqueles tempos em que eu frequentava a sauna do Clube, cenário habitual dos nossos encontros de sábado à tarde, um episódio especial ficou gravado na memória. O bar do local era nosso ponto de encontro, onde amigos de longa data se reuniam para compartilhar histórias, atualizações e, claro, uma dose generosa de risadas. Sempre acompanhados das famosas "caipirinhas," bebida que é orgulho nacional e tão apreciada mundo afora, nossas tardes eram um verdadeiro alívio da rotina.

Em um sábado específico, notei uma aglomeração próxima ao bar. Intrigado, ainda aguardava o convite dos meus amigos para entrar na roda. Até que um deles chamou:
— Oi, Vendra, venha aqui! É o Altemar Dutra. Ele vai se apresentar hoje à noite no salão de bailes.

Altemar Dutra! O famoso cantor e seresteiro que encantava o Brasil e além com sua voz inconfundível. Não pude conter a empolgação e juntei-me aos demais. Fomos apresentados, e a conversa logo fluiu, recheada de perguntas sobre sua carreira e histórias das viagens que suas canções o levaram a fazer.

Mesmo com o clima descontraído e amistoso, havia quem abusasse um pouco dessa amizade relâmpago. Alguém do grupo pediu que ele nos presenteasse com uma interpretação ao vivo, ali mesmo. E Altemar, com toda a generosidade, atendeu. Sua voz preenchia o ambiente, transportando-nos para outra época, embalada por melodias que falavam de amor, saudade e sonhos.

Foi um momento único, desses que a vida nos dá como presente. Terminamos aquela tarde com a certeza de que estávamos vivendo algo especial, regados por boas bebidas, boa música e, principalmente, boa companhia.

Acesse site sobre meus textos de viagen e curiosidades, clicando na frase. 

sábado, 12 de abril de 2025

O TEATRO DE JUNDIAI ATRAVÉS DO TEMPO

 



Do Abandono à Revitalização: Uma Vitória de Toda Jundiaí

No final do ano de 2012, recebi da Secretaria Municipal de Cultura uma série de livros relacionados com a nossa cidade, em razão de haver participado do projeto Versos da Primavera de Autores Jundiaienses. O evento, além da publicação de um livro, realizou uma conferência e, em seu clímax, resultou na colocação de cartazes e banners pelas calçadas e parques, ampliando o alcance da literatura na cidade. Foi uma satisfação imensa ver o meu poema Acalanto exibido em forma de banner na Avenida Nove de Julho e no Parque Botânico Eloy Chaves.

Dentre esses livros, alguns relacionados ao Teatro Polytheama despertaram minha atenção especial. Ao desfolhá-los, uma onda de emoção tomou conta de mim: cada imagem era como uma janela para o passado. Lá estavam as fotos do Cine Polytheama na década de 1950, época em que, nas matinês de domingo, assistia filmes em preto e branco, como Gordo e o Magro, Os Três Patetas, e as aventuras de Zorro e seu inseparável amigo, o índio chamado “Tonto”. Tudo era apresentado em episódios, mantendo viva a expectativa para os próximos capítulos e alimentando a paixão pelas aventuras idolatradas pelos meninos da época.

A empolgação durante os filmes era tanta que os mais ousados até atiravam pedras na tela, tentando atingir os inimigos do Zorro, que, em desabalada carreira montado em seu cavalo Silver, percorria as pradarias americanas “caçando” bandidos mal-encarados e índios desgarrados de suas tribos. Anos depois, chegaram as grandes produções cinematográficas em Cinemascope, projetadas em uma tela côncava que proporcionava uma sensação de imersão e efeitos especiais jamais vistos. Foi então que o Cine Polytheama trouxe para Jundiaí clássicos inesquecíveis, como Sansão e Dalila, O Manto Sagrado e O Poderoso Chefão, marcando uma época de ouro do cinema.

Infelizmente, a popularização dos videocassetes tornou mais cômodo assistir aos filmes em casa, provocando o declínio dos cinemas. Em uma tentativa desesperada, passaram a exibir filmes pornográficos, o que levou ao abandono dos espaços. O Polytheama, antes tão vibrante, tornou-se um abrigo para pombas, como se fossem fantasmas do passado protagonizando uma tragédia do presente.

A Luta de Jundiaí pelo Resgate de um Patrimônio

Os jundiaienses sentiram profundamente o abandono do Polytheama, mas não desistiram. Com união e empenho, a cidade conseguiu recuperar esse precioso patrimônio sociocultural. Reinaugurado em dezembro de 1996, o Teatro Polytheama hoje conta com modernos equipamentos de som e luz, além de conforto e segurança para 1326 espectadores distribuídos em plateia, frisas, camarotes e galerias. Mais do que um marco arquitetônico, o Polytheama se tornou um templo de expressão artística, simbolizando o poder da cultura em renascer das cinzas do esquecimento.

 LEIA OUTROS TEXTOS FORMATADOS EM MEU SITE:

Toninho Vendramini Slides - Sergrasan

UMA NOITE INESQUECIVEL EM MILÃO

A NOITE DAS ZANZARAS



Em uma de nossas viagens pela Europa, enquanto vivíamos na Itália, tivemos o prazer de nos hospedar em um belo hotel nos arredores de Milão (Milano). Estávamos um pouco afastados do centro, mas o local oferecia uma tranquilidade única.

Uma noite, ao regressarmos ao hotel, deparamos com uma aglomeração inesperada: artistas de um festival internacional da canção estavam hospedados ali. Na manhã anterior, já havíamos percebido algo especial — no saguão, ouvia-se uma verdadeira sinfonia de línguas e dialetos. Foi então que soubemos que muitos dos convidados do festival estavam no hotel.

Curiosos, fomos até a recepção e pedimos a programação do evento. Entre os nomes listados, artistas de renome mundial! Na noite anterior, Celine Dion havia se apresentado. Para nossa surpresa, o destaque daquele dia era uma brasileira: Vanessa da Mata. Rapidamente garantimos nossos ingressos para o espetáculo.

Quando chegou a hora de ir, o hotel providenciou um táxi para nos levar. O motorista, um típico italiano — expansivo e cheio de gestos — começou a falar sobre as "zanzaras". No início, achamos que ele se referia a algum tipo de inseto perigoso. Não demorou muito para que fôssemos, literalmente, picados! Era verão, e as "zanzaras", que mais pareciam mosquitos, estavam por toda parte, causando irritação e deixando nossa pele marcada.

Combinamos com o motorista que ele nos buscaria após o show. Durante a apresentação, encontramos muitos brasileiros que viviam na Itália e aproveitamos para trocar impressões sobre a saudade do Brasil. Para nós, que também estávamos fora há bastante tempo, foi um momento emocionante.

Ao final do espetáculo, chamamos nosso motorista novamente. Mas, claro, não escapamos das malditas "zanzaras" durante o trajeto de volta! Ao chegar ao hotel, outro episódio inusitado nos aguardava: no gramado impecável do jardim, um grupo animado jogava bola e, aos gritos, reconhecemos algumas palavras familiares — eram brasileiros!

Descobrimos que aquele grupo era ninguém menos que o Olodum, que se apresentaria no dia seguinte. Animados, conversamos, tiramos fotos (infelizmente não tenho autorização para compartilhar) e observamos o gerente do hotel se aproximando, gesticulando freneticamente, enquanto reclamava em italiano sobre o estrago no gramado e na fachada do hotel — agora carimbada pelas bolas.

Depois da "pelada", o grupo se reuniu no saguão e fomos atrás. Contaram-nos que vinham do Japão, onde outro grupo do Olodum estava se apresentando. Durante a conversa, mais picadas das "zanzaras" nos alcançaram, gerando reações hilárias, que incluíam expressões bem brasileiras como "lazarento" e "fdp". Um deles comentou: "Isso vai dar samba".

Foi aí que as "zanzaras" viraram inspiração! Entre risos e batuques, o Olodum improvisou o samba "A Noite das Zanzaras", que varou madrugada adentro, cheio de palavrões (é verdade), mas memorável.

Essa foi mais uma das situações engraçadas em uma de nossas aventuras pelo mundo!

Curiosidade sobre as zanzaras: Na Itália, "zanzara" é o termo para "mosquito". Durante o verão, especialmente nas regiões mais quentes, esses insetos podem ser um verdadeiro incômodo — conhecidos por suas picadas persistentes e pelo ruído irritante que fazem ao voar. 

Acesse o link abaixo meu site com formatações.


quinta-feira, 10 de abril de 2025

UMA MANHÃ INUSITADA ENTRE PÁSSAROS E GUARIBAS





UM LUGAR CHAMADO PAI JACÓ

Em uma manhã de sábado, acordei com o tradicional gorjeio dos pássaros saltitando nas árvores próximas ao meu quarto. Abri a porta-balcão e, respirando profundamente o frescor do dia, fiz uma saudação de louvor por estar à frente de mais um capítulo da vida.

Deixei-me levar por pensamentos, refletindo que cada dia é uma dádiva única e deveria ser bem aproveitado. Quem sabe em outra ocasião não teria a mesma chance? Com horas livres à frente, decidi caminhar pelas áreas verdes do meu condomínio.

Enquanto me preparava, um som estridente vindo de uma pequena mata no final da rua despertou minha curiosidade. O som desafiava meu instinto explorador e, sem programar muito, resolvi investigar. Ao chegar, olhei para o alto das árvores, procurando por pássaros raros ou pequenos animais silvestres.

De repente, aquele som, tão peculiar, soou novamente. Meu coração acelerou, e comecei a buscar de um lado para o outro. Meus olhos rodopiavam, minha curiosidade era quase palpável. Cada movimento das árvores parecia esconder um segredo, e o sol, em pequenos clarões entre as folhagens, me cegava momentaneamente.

Foi então que, de forma súbita, senti algo explodir sobre minha cabeça. Uma dor forte me atingiu. Era um caroço de uma fruta desconhecida. Olhei novamente para cima, e lá estava ele: um pequeno animal dependurado em um grande galho seco. Seus movimentos ágeis o tornavam quase invisível, mas sua presença era inegável.

Percebi que ele saboreava uma fruta com tamanho deleite que quase me fez querer provar também. Após devorá-la, o malandro lançou outro caroço, que por pouco não me atingiu novamente. "Ô, seu mal-educado!", gritei. E ao lado dele, lá estava um companheiro, tão debochado quanto. Os dois pareciam rir de minha indignação com uma "cantoria" que ecoava pela mata.

Não satisfeitos, ainda soltaram um esguicho em minha direção, trazido pelo vento. Antes que me atingisse, pulei para trás, mas acabei tropeçando e caindo sentado sobre a guia da rua. Levantei-me, indignado. Quando olhei para o alto, os dois haviam desaparecido. Foram rápidos, deixando-me apenas com a memória da aventura.

Em casa, consultei a enciclopédia e descobri que se tratavam de guaribas, uma espécie de primatas notórios por seus sons estridentes. Curioso, mas agora mais precavido, decidi: da próxima vez que ouvir tais sons, "recomendo" aos vizinhos investigarem. Quem sabe, terão a mesma sorte que eu de cruzar o caminho



domingo, 6 de abril de 2025

O ENCONTRO E AS MEMÓRIAS

 

O Encontro e as Memórias

A noitinha entrava pela janela como uma visitante discreta, anunciando o fim do dia. Os últimos raios de sol despediam-se lentamente, levando consigo um brilho suave que ainda percorria minha mente. Naquele instante, pensamentos inesperados começaram a surgir, trazendo consigo reflexões que há muito eu não fazia.

Foi então que um som repentino da campainha interrompeu minha divagação. Olhei pela janela e enxerguei uma figura encapotada, protegida contra o frio que já começava a tomar conta da noite. Havia algo familiar na postura daquela pessoa, e minha curiosidade cresceu. Decidi ir até o portão.

Ao encarar o visitante, demorei alguns segundos para reconhecer sua figura, agora marcada pelos anos. Mas, ao ouvir sua voz, as lembranças inundaram minha mente. Era o Chicão! Um misto de surpresa e nostalgia tomou conta de mim. Afinal, depois de tantos anos, ele havia reaparecido. O que o teria trazido até aqui? Não éramos mais os jovens de outrora, e o tempo havia feito seu trabalho, mas o brilho de nossas memórias ainda estava intacto.

Com poucas palavras, Chicão iniciou um mergulho no passado.

— Lembra dos tempos do ginásio? Formávamos o grupo "Os OITO". Ah, como éramos inseparáveis! Passávamos tardes na lanchonete do Seu DADA, dividindo um refrigerante e um misto-quente, porque nossas mesadas mal davam para mais que isso.

Suas palavras trouxeram à tona as noites que passávamos no centro da cidade, rindo, sonhando e planejando o futuro. A última vez que estivemos juntos naquele lugar foi para celebrar o fim dos estudos. Fizemos um pacto, recordou ele: nos reencontraríamos 50 anos depois, para abrir aquele envelope guardado dentro do lustre da lanchonete. Lá haviam registrado suas previsões para o futuro – expectativas que agora se tornaram um mistério esquecido pelo tempo.

— Investigando, descobri que apenas nós dois sobrevivemos — disse Chicão, sua voz carregada de melancolia. — Foi difícil localizar você, mas aqui estamos. E, agora, precisamos cumprir nosso pacto.

Concordei. No dia seguinte, partimos rumo à cidade que nos viu crescer. Ao chegarmos, porém, encontramos um cenário transformado. A lanchonete havia sido substituída por uma casa lotérica. O Seu DADA, segundo o novo proprietário, havia levado algumas relíquias consigo ao sair da cidade.

Não desanimamos. Depois de algum esforço, encontramos o idoso, que se lembrou vagamente do envelope.

— Está na minha gaveta — disse ele, com um olhar curioso. — Achei que alguém viria buscá-lo um dia.

Chicão, com mãos trêmulas, abriu o envelope. Mas o papel, amarelado e desgastado pelo tempo, não guardava mais as palavras que havíamos escrito. Não havia nada além de manchas e traços apagados.

Diante do papel vazio, o silêncio nos envolveu. As palavras se perderam, mas as memórias permaneceram. Chicão e eu começamos a refletir sobre o significado daquela busca.

O passado, por mais distante que esteja, não é apenas um arquivo de momentos vividos. É também um convite à introspecção. Revisitar memórias não é apenas reviver o que foi, mas entender o impacto que esses episódios tiveram em nós, moldando quem somos hoje.

E, ao mesmo tempo, fica a pergunta: vale a pena tentar capturar o passado, ou é mais sábio seguir em frente, deixando que ele viva no coração e nas lições que nos ensinou? Talvez, afinal, o real valor do pacto que fizemos não estivesse no conteúdo do envelope, mas no reencontro e na jornada que ele proporcionou.


Acesse o site abaixo e leia outros textos.

Toninho Vendramini Slides - Sergrasan



CAMINHOS QUE NOS LEVARAM AO COLISEU DE ROMA











Caminhos que nos levaram ao Coliseu de Roma

Naquela manhã ensolarada, a expectativa era palpável. Sentíamos a alegria contagiante ao percorrer as ruas da eterna Roma, cidade repleta de encantos e memórias dos nossos antepassados. Caminhávamos pelas praças e vias, sentindo na pele o calor intenso do verão europeu.

De posse das informações fornecidas pelo gerente do hotel, incluindo um mapa da cidade e das linhas do metrô, caminhamos alguns metros até percebermos que a distância à estação exigia um táxi. Chegamos à praça que antecede a entrada para as galerias subterrâneas e, antes de descermos, nos permitimos apreciar a bela paisagem composta por monumentos históricos que contavam histórias de um passado de conquistas.

Próximo dali, uma fonte de águas resplandecentes chamava atenção. Os respingos refrescavam nossas cabeças, aliviando o calor e trazendo conforto à mente. Vibração e euforia tomavam conta de nós, e cada detalhe era registrado na memória. A abundância de fontes espalhadas pelas praças, abastecidas por antigos aquedutos, remetia à Roma dos Césares, imperadores que conquistaram territórios vastos e construíram o presente da belíssima Itália.

Nosso destino era o Coliseu, obra monumental iniciada pelo imperador Vespasiano e concluída por Tito. Símbolo das conquistas romanas, era palco de espetáculos que encantavam o povo da cidade, com festas pagãs marcadas por luxúria, paixão e morte. Ao nos aproximarmos, a nostalgia veio à tona, trazendo à mente momentos glorificados de outros tempos.

Descemos os degraus da estação, compramos os bilhetes no sistema automático e aguardamos o trem. E assim começou nossa verdadeira odisseia nos trilhos do metrô de Roma.

Na plataforma, não havia muita movimentação. Logo, o comboio aproximou-se rapidamente, com uma parada brusca. Enquanto eu conferia o itinerário no mapa, minha esposa Dija entrou no vagão. Para minha surpresa, as portas se fecharam em um instante, e o trem partiu acelerado. Fiquei paralisado ali na plataforma, vendo Dija se distanciar. Sua figura diminuía na janela de vidro até desaparecer completamente.

Sem saber o que fazer, lembrei-me de nosso combinado: desceríamos na estação Coliseu. Esperei cinco minutos pelo próximo trem e embarquei, imaginando o que ela estaria pensando. A preocupação era tamanha que comecei a rir alto, despertando curiosidade em quem estava por perto. A cada parada, olhava pela janela, tentando encontrá-la.

Cheguei à estação e, finalmente, avistei Dija ao longe. Meu vagão parou bem distante de onde ela estava. Tirei meu boné, acenei e corri em sua direção. Nos abraçamos com alívio, rimos muito e nos perguntamos o que faríamos se não houvesse esse reencontro. Todo o nervosismo foi esquecido ao avistarmos, à distância, o colossal teatro de arena.

E assim ficou registrada mais uma passagem engraçada e memorável de nossa viagem à Itália.

........................................................................................................................................................................

MITOLOGIA MARÍTIMA: ENTRE LENDAS E HORIZONTES

Odisseus em seu retorno à ilha de Ítaca . O mar sempre foi um palco fértil para o nascimento de mitos e lendas . Muito disso se deve à imag...