| ESTAÇÃO DA SAUDADE |
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Antonio Vendramini Neto –
Face Book.
Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
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Antonio Vendramini Neto –
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Antonio Toninho Vendramini Neto
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Palavras
escritas para quem partiu, para quem ficou, para quem nunca soube.
Cartas que não pedem resposta — apenas repousam no papel.
✍️
Se este
caderno tocar alguém, mesmo que por um instante,
então ele
cumpriu seu destino:
ser ponte
entre o que fui e o que ainda sou.
Toninho
Vendramini
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Contado por
Pois bem, meus amigos(as)... Senta que vou te contar um causo que parece mentira, mas juro que aconteceu — ou pelo menos foi assim que me contaram, e eu acredito. Foi num tempo em que os trens ainda cortavam o interior de São Paulo, cuspindo fumaça e soltando apitos que entravam no ouvido e mexiam com a alma da gente.
Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.
Há tempos, quando os trens ainda cortavam o interior paulista com seus vagões rangentes e apitos que ecoavam na alma, aconteceu um causo que até hoje é lembrado nas rodas de prosa da cidade de Barnabina. Era uma daquelas locomotivas a vapor, cuspindo fumaça que se espalhava por léguas, e que levava gente e histórias por trilhos esquecidos.
Naquele dia, o vagão de primeira classe — que de primeira só tinha o nome — estava mais para terceira, com bancos de madeira gastos e um cheiro que misturava poeira, suor e fumo. Sentado à frente, num desses bancos, estava um sujeito de aparência bravia, que chamaremos de Zé Grandão. Usava um chapéu de peão ensebado, suava como chaleira no fogo e fumava um picadão enrolado na palha que guardava num bolsinho da cueca. O fumo vinha das bandas de Minas, e ele o afinava com um canivete que mais parecia uma peixeira.
Zé Grandão era grande, forte e de modos rudes. Atrás dele, uma senhora de meia idade segurava firme uma sacola que exalava um cheiro bom, daqueles que despertam lembranças de infância. O aroma atiçava a fome do valentão, que lançava olhares de cão danado para a sacola, como se quisesse arrancá-la das mãos da mulher.
Foi então que surgiu o rapaz do carrinho de lanches, empurrando seu arsenal de balas, bombons e quitutes. Zé Grandão, faminto e desajeitado, levantou-se para ver o que havia, tropeçou no carrinho e espalhou tudo pelo corredor. Sem cerimônia, começou a recolher os doces e enfiá-los nos bolsos, sem pagar um tostão.
A confusão se armou. O rapaz correu até o chefe do trem, que chegou com seu boné da companhia ferroviária, mas ao ver o tamanho do Zé, encolheu-se como cachorro que levou pontapé. Os passageiros torciam pelo chefe, mas Zé Grandão o agarrou pelo pescoço e o trancou no minúsculo sanitário do vagão, onde o pobre berrava por socorro.
O maquinista, ouvindo a gritaria, deixou o ajudante na locomotiva e correu até o telegrafista. Mandou um telegrama urgente para a próxima estação, avisando da confusão. O trem parou na pequena cidade de Barnabina — batizada em homenagem à esposa do fundador, o senhor Barnabé.
Ao saber do tumulto, Barnabé foi até a estação, mas mal pisou no chão e já levou um rabo de arraia do Zé Grandão, que se gabava de ter secado uma garrafa de pinga durante a viagem. Com medo, Barnabé resolveu agradar o valentão e o convidou para ser delegado da cidade, cargo vago desde que o anterior havia tombado num confronto com jagunços.
Zé Grandão aceitou. Tirou dos bolsos os doces que havia surrupiado e começou a distribuí-los, adoçando os ânimos e conquistando os moradores. Virou figura popular, botou ordem na cidade e se gabava de visitar as casas para receber guloseimas das senhoras, que o temiam e o agradavam.
Foi numa dessas visitas que conheceu o doce de jabuti — não o animal, mas uma geleia de jabuticaba feita por Dona Maroca. Bastava uma colherada para acalmar o valentão. Ele mesmo batizou a iguaria, dizendo que aquele doce era mais valente que ele.
🍇 Receita simbólica do Doce de Jabuti (geleia de jabuticaba)
• 1 kg de jabuticabas maduras
• 500 g de açúcar cristal
• Suco de 1 limão
Modo de preparo: Lave bem as jabuticabas e leve ao fogo com o açúcar e o suco de limão. Cozinhe até que as frutas estourem e a mistura engrosse. Passe por uma peneira, volte ao fogo até atingir ponto de geleia. Sirva com carinho — e, se possível, com respeito à memória de Zé Grandão.
O FINAL DO VALENTÃO
O tempo passou, e um dia Zé Grandão foi encontrado morto à beira da estrada, perto da linha do trem. Dizem que foi acerto de contas, dizem que foi destino. Mas toda vez que o trem passa por ali, o maquinista apita demoradamente, como quem presta homenagem ao fim da carreira do valentão — para alívio dos moradores de Barnabina, que enfim puderam adoçar a vida sem medo.
Antonio Toninho Vendramini Neto
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| O EGITO DE MUITAS LEMBRANÇAS |
Viajar é mais do que deslocar-se no espaço — é mergulhar em histórias, reencontrar sentimentos e fortalecer laços. Esta crônica é um tributo à amizade, à cultura e aos momentos inesperados que transformam simples trajetos em lembranças eternas. Do Cairo a Assuã, passando por Jerusalém, cada passo foi marcado por descobertas e reencontros que merecem ser celebrados.
Do Cairo a Assuã: trilhos que conduzem memórias
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Ilha Elefantina: onde o Nilo nos levou ao inesperado
Ao chegarmos em Assuã, fomos informados que o trajeto até o hotel seria feito por barco, atravessando o majestoso Nilo até a encantadora Ilha Elefantina. O resort que nos acolheu parecia flutuar entre o tempo e a tradição. E foi ali, como num presente inesperado, que assistimos a um casamento típico egípcio — uma celebração vibrante, repleta de danças, músicas e cores que pareciam dançar com o vento do deserto.
Não apenas leia — clique no negrito nas palavras e mergulhe."
Fomos convidados a participar. E, como se a hospitalidade fosse uma arte milenar, nos serviram iguarias da gastronomia egípcia que encantaram nossos sentidos. Entre elas, o Mahshi, um prato tradicional feito com legumes recheados de arroz temperado com ervas e especiarias, cozidos lentamente em molho de tomate. Uma receita que carrega o sabor da terra e o afeto das mãos que a preparam.
🍽️
Receita de Mahshi (Charuto de Legumes Egípcio)
Ingredientes:
• 1 berinjela, 1 abobrinha e 1 pimentão (ou folhas de uva)
• 1 xícara de arroz cru
• 1 cebola picada
• 2 tomates picados
• 2 colheres de sopa de salsinha e hortelã picadas
• Sal, pimenta síria e cominho a gosto
• Suco de 1 limão
• 2 colheres de sopa de azeite
• 1 xícara de molho de tomate
Modo de preparo:
1. Corte os legumes em formato de barquinhas ou retire o miolo para rechear.
2. Misture o arroz com os temperos, tomate, cebola, ervas, limão e azeite.
3. Recheie os legumes com essa mistura e acomode-os em uma panela.
4. Cubra com o molho de tomate e cozinhe em fogo baixo por cerca de 40 minutos.
🧳
O desencontro e o reencontro com Vanderlan
Foi no desembarque que sentimos a ausência de nosso querido amigo Vanderlan — uma figura cativante, cuja habilidade em se comunicar é marca registrada. Por um erro da agência, seu nome constava no próximo horário do trem, e ele viajou sozinho. Imagino os pensamentos que o acompanharam: a expectativa do reencontro, a saudade da família, o desconforto de não estar em seu lar.
Mas Vanderlan é um homem de espírito leve. Ainda mais depois de sua visita a Jerusalém, onde, no Monte das Oliveiras, fez orações pela família e agradeceu pela transformação em sua vida. De proprietário de lotérica a corretor de imóveis bem-sucedido, sua trajetória inspira.
Quando finalmente nos reencontramos, tudo se iluminou. O sorriso, o abraço, a alegria — tudo voltou a pulsar com intensidade. Eu e minha esposa sentimos que a amizade se fortaleceu ainda mais. Com Vanderlan, Márcia, Thaís e Thiago. Com Elvira, Cícero e Davi. Com Ayala, Mila e o pequeno Miguel. A imagem que guardamos de cada um foi enriquecida por essa viagem repleta de cultura, guiados por Osama, que nos presenteou com conhecimentos preciosos.
Reflexões dessa travessia
Essa experiência criou um elo que não queremos desfazer. E, graças à internet, podemos manter viva essa corrente de afeto e memória. Que essa conexão continue firme, como o Nilo que atravessamos, como os trilhos que nos conduziram, como os abraços que nos acolheram.
De Jundiaí, São Paulo, enviamos um abraço caloroso — cheio de saudade, gratidão e o sabor eterno do Mahshi.
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Antonio Toninho Vendramini Neto
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Uma Odisséia pela Riviera Ligure
Algumas viagens são meros deslocamentos; outras, transformam-se em encontros com o tempo, com a natureza, e consigo mesmo. Este relato é uma celebração dos instantes em que o mar sussurra segredos antigos, as pedras falam de história, e os aromas da terra despertam emoções esquecidas. É também um tributo à beleza silenciosa das vilas italianas, onde cada passo parece traçado por mãos invisíveis que desenham poesia na paisagem.
"Clique nas palavras em negrito e vá além do texto."
Uma visão e um contexto
Ao despedirmo-nos da efervescente Roma, o trem nos levou ao coração da Ligúria, onde o tempo corre lento e as paisagens parecem sonhadas por deuses antigos. Gênova foi nosso ponto de partida — e também de contemplação — para as vilas que pontuam a costa com cores vivas e histórias profundas.
Baseados ao lado da estação Brignole, nos lançamos, em dias intercalados, ao curso da ferrovia La Spezia. Cada viagem era um rito: o deslizar sobre trilhos, a curva do litoral, o olhar fixo nas encostas que sustêm vinhedos centenários, como se a terra tivesse sido moldada para o prazer de quem passa.
Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore não são meras vilas — são versos que se encontram com o mar. Em cada uma, descobrimos sabores, texturas, vozes e silêncios. O vinho branco Sciacchetrà embalava os almoços sob tendas acolhedoras, acompanhando frutos do mar e o dourado do pesto genovês, enquanto o sol fazia o mar brilhar como ouro líquido.
Vernazza foi uma canção: sob um promontório guardado por um castelo, caminhamos entre vielas e igrejas góticas, ouvimos ecos de piano, e vimos mãos depositarem sonhos em forma de euros num chapéu velho no chão. Em Corniglia, o mundo parecia suspenso — uma vila encravada no rochedo, onde o trem ecoa como um sussurro no subterrâneo, e o horizonte se estende como um abraço.
Em Manarola, os vinhedos em terraços eram versos na encosta, e os barcos repousavam nas ruas estreitas como personagens adormecidos. Riomaggiore, escondida entre rochas, guardava a Via dell’Amore — caminho que não percorremos com os pés, mas que sentimos no espírito.
Santa Margherita Ligure surgiu depois, como uma pausa vibrante entre a contemplação e o movimento — ali tomamos café sob risos italianos e almoçamos no Ristorante Antonio, envoltos por praças monumentais e mares que refletem palácios. E então veio Portofino — o suspiro final, o promontório que divide dois golfos e une memórias. Ali, sentados diante do Golfo Paradiso, vimos o tempo aquietar-se, como se todo o universo pedisse licença para repousar.
Nossa viagem terminou, mas não acabou. A Riviera Ligure continua em nós, como uma página que se escreve ao vento, na lembrança das rosas desenhadas nas janelas, nos vinhos sorvidos à sombra dos vinhedos, e na certeza de que há lugares onde a alma reconhece o eterno.
🌟
Este é o meu caderno.
Aqui, escrevo como quem
costura o tempo com palavras.
Cada texto é uma janela aberta para o mundo —
um mundo que vivi, sonhei ou apenas imaginei com olhos de quem nunca deixou de
se encantar.
Não escrevo para guardar. Escrevo para
libertar.
Libertar memórias, afetos, lugares e pessoas
que ainda vivem em mim.
Cada linha é um convite, cada frase uma travessia.
Antonio Toninho Vendramini Neto
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Às vezes, o tempo não nos permite reviver os lugares que amamos, mas nos concede o privilégio de guardar memórias como relíquias. Escrevo para preservar uma delas — a de um primo que, mesmo tendo partido, permanece presente nos gestos, nas histórias e nas lembranças de uma geração que viu o trem passar... e parar por amor.
"O negrito nas palavras é o convite. O clique, a resposta"
Este texto é uma homenagem àquele que viveu intensamente cada chegada e partida. Um retrato vivo do Banharão — um bairro que hoje é apenas topografia, mas outrora pulsava como estação de encontro, sonhos e pandeiro. Que essa história sirva de afago à sua família, e ao Brasil que silenciou suas ferrovias, mas não suas lembranças.
A História
Era fim de tarde, céu tingido em tons laranja queimado. O trem da cidade onde residia e que levaria o jovem ao Banharão estava quebrado. O compromisso, no entanto, não era negociável: a amada o aguardava na estação de tijolos e madeira, de olhar ansioso e coração acelerado lá no Banharão.
Perguntou ao chefe da estação se havia outro trem. O homem, de boné gasto e olhos de quem já vira muitos amores passarem por ali, respondeu:
— Há, sim. Mas ele não para no Banharão. Vai direto pra Jaú.
O jovem olhou para os trilhos como quem procura resposta em linhas paralelas.
— Então vou. Depois me viro.
O chefe hesitou, depois soltou um suspiro longo:
— Boa sorte, rapaz. Que São Bento guie seus passos.
Durante a viagem, cada rangido dos trilhos soava como um lembrete da distância. Ao se aproximar do vilarejo do Banharão, correu pelos vagões como quem carrega pressa e esperança. Encontrou o maquinista na cabine dos controles.
— Senhor! Preciso que pare na estação do Banharão. Minha noiva está lá, esperando. Não há outro meio de chegar. É só por hoje.
O maquinista olhou o rapaz com olhos de compaixão. Um aceno breve. O trem, então, freou diante da estação. Só ele desceu.
— Ei! — gritou o guarda da estação, espantado — Como conseguiu descer aqui? Não é parada programada.
O jovem ergueu a cabeça, sorriu com ironia e respondeu:
— Sou o presidente.
O guarda soltou uma risada cansada e acolhedora.
— Vá com paz, meu irmão.
Agora, em silêncio, presto minha homenagem:
Banharão é mais do que um ponto no mapa — é o lugar onde nasci. E toda vez que falo sobre ele, é como se voltasse aos trilhos da minha própria origem. Talvez por isso essa história mexa tanto comigo: ela não é só do Nego, é também um pouco minha.
Hoje, os trilhos estão cobertos de mato, a estação virou memória... mas quem teve o privilégio de viver aquele tempo sabe: algumas histórias não precisam de cimento para permanecerem erguidas. Meu primo — o Nego — não era apenas alguém que pegava o trem. Ele era o próprio apito da locomotiva, o som do pandeiro nas festas, a gargalhada que ecoava nos corredores da vida.
Ele se foi, sim. Mas segue entre nós, sempre que alguém se apaixona com coragem, enfrenta obstáculos por amor, ou faz do impossível um motivo pra sorrir.
Eu desejo a ele — como o guarda lhe disse naquela noite — que vá com paz, meu irmão. E que o Banharão o receba lá em cima, como estação que acolhe quem chega depois de longa viagem.
✍️
Encerramento
Se este texto tocar alguém, mesmo que por um instante,
então ele
cumpriu seu destino:
ser ponte
entre o que fui e o que ainda sou.
"Escrevo para inquietar silêncios. Depois, siga os rastros: os mais lidos abaixo, as palavras à direita."
Antonio Toninho Vendramini Neto
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As estações ferroviárias, hoje silenciosas, foram em outros tempos o coração pulsante das pequenas cidades do interior.
Reuniam negócios, encontros e sonhos — e às vezes, até o cinema se rendia ao seu charme. Este relato é uma janela aberta para essa era perdida, vivida e recordada com afeto por quem cresceu entre trilhos e amizades genuínas. Uma história que mistura juventude, futebol, encontros improváveis e um toque de Hollywood em Louveira. Que este texto desperte nas novas gerações o encanto pelo passado e a curiosidade pelo que já foi cenário de filmes e histórias reais.
Estação de Memórias
Em tempos antigos, quando eu cursava o antigo ginásio escolar, formamos uma turma de rapazes da mesma idade que adorava conversar. Era uma época sem celulares — hoje tão inseparáveis — e as amizades se construíam no olho no olho, nas conversas longas e nas caminhadas pelas ruas.
Entre nós, havia também algumas mocinhas que moravam em Louveira, uma pequena cidade vizinha a Jundiaí, onde resido até hoje. Louveira, conhecida por sua produção de frutas, especialmente uvas e morangos, sempre teve um charme interiorano, com suas paisagens bucólicas e a famosa estação ferroviária de arquitetura inglesa.
Certa vez, por falta de um professor, fomos dispensados mais cedo das aulas. Aproveitamos para acompanhar os colegas luverdenses até a estação, onde pegariam o trem de volta para casa. Essa caminhada rendeu boas conversas e, com o tempo, uma bela amizade entre nós.
Um dos rapazes nos convidou para visitar Louveira. Como tínhamos um time de futebol — cheio de pernas de pau, diga-se — fomos desafiados a jogar contra o time local, o Primavera. Chegando lá, descobrimos que o adversário era quase profissional. Levamos uma surra memorável e voltamos no trem da tarde para Jundiaí, sob muitas gozações.
A estação de Louveira era o coração da cidade. Coberta por uma estrutura inglesa, com detalhes arquitetônicos que lembravam estações europeias, ela se tornava ponto de encontro aos domingos. Ali aconteciam feiras de legumes, artesanato e o tradicional footing — o desfile das moças pela plataforma, enquanto os rapazes observavam e paqueravam.
Como estávamos quase sem dinheiro, o pai de uma das meninas, o senhor João — gerente do único banco da cidade — nos alocou em casas de conhecidos. Fui parar na casa de uma jovem simpática, e ali ouvi histórias fascinantes contadas pelo próprio senhor João.
Ele nos falou sobre um filme americano que teve cenas gravadas na estação de Louveira. O longa era estrelado por Glenn Ford, ator canadense naturalizado americano, famoso por papéis em clássicos como Gilda (1946), Blackboard Jungle (1955) e 3:10 to Yuma (1957). Segundo o senhor João, a estação foi transformada em um cenário de faroeste, com cavalos e apetrechos trazidos de São Paulo por trem. Glenn Ford e outros artistas vieram pessoalmente para as filmagens, e a cidade parou para assistir.
O filme em questão era The Americano (1955), dirigido por William Castle. Nele, Glenn Ford interpreta Sam Dent, um cowboy texano que viaja ao Brasil para entregar touros Brahman a um fazendeiro chamado Barbosa. Ao chegar, descobre que Barbosa foi assassinado e se vê envolvido em uma trama de traições e perigos. A estação de Louveira foi usada como cenário para representar uma cidade brasileira fictícia, com ambientação típica de faroeste.
Anos depois, já aposentado e atuando como consultor, passei a trabalhar em Valinhos, cidade vizinha que também preserva seu charme interiorano. A estrada velha que liga Jundiaí a Valinhos passa ao lado da estação de Louveira, e sempre que eu cruzava por ali, minha mente voltava àquelas cenas e lembranças.
Um dia, ao encerrar minhas consultorias em Valinhos, parei na estação de Louveira. Hoje, ela funciona como espaço cultural da prefeitura, já que os trens de passageiros deixaram de circular em 2001. A estrutura foi restaurada, mas conserva sua alma. Na bilheteria, quadros com fotos dos artistas americanos que ali estiveram decoram as paredes, como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta.
Assim, essa estação se tornou um símbolo das minhas memórias — de amizades, descobertas, derrotas futebolísticas e histórias de cinema. Um passado que vive apenas nas lembranças de quem teve o privilégio de vivê-lo.
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