quarta-feira, 22 de julho de 2026

A AMIZADE TAMBÉM ESCREVE POEMAS

 


"A tecnologia guarda arquivos; a poesia guarda vidas."


A poesia que nem o tempo consegue apagar

Há amizades que o tempo não mede em quilômetros, mas em lembranças. Assim é a amizade que cultivo há muitos anos com o poeta português Jorge Humberto. Embora separados pelo Atlântico, sempre estivemos próximos pela palavra escrita, pela admiração mútua e pelo prazer de compartilhar a poesia.

Durante muito tempo, tive a alegria de receber seus poemas e transformá-los em apresentações ilustradas. Eram imagens escolhidas com carinho, procurando acompanhar a delicadeza de cada verso. Hoje, por problemas em seu computador, meu amigo já não consegue abrir aqueles antigos arquivos. As imagens desapareceram, os textos deixaram de surgir na tela e parte desse trabalho ficou perdida no tempo.

Mas foi justamente aí que compreendi uma verdade muito bonita: a poesia nunca dependeu das imagens para existir.

Elas ajudavam a emocionar os olhos. Os versos, porém, sempre falaram diretamente ao coração.

É esse sentimento que encontro em "Teu Inconstante Amor".

Jorge Humberto nos conduz às recordações de um amor que nasceu envolto pela beleza da juventude, pelo brilho das manhãs e pelo encanto do mar. Tudo parece sólido, promissor, construído com esperança. O poeta vai erguendo esse pequeno universo com a delicadeza de quem acredita que alguns sentimentos possam durar para sempre.

Entretanto, como tantas vezes acontece na vida, o céu muda de cor.

Sem recorrer ao exagero ou ao drama, seus versos mostram que também os sonhos conhecem o entardecer. O amor perde o rumo, as certezas se desfazem e resta apenas a silenciosa companhia da saudade. É uma tristeza contida, elegante, profundamente humana, daquelas que dispensam explicações porque cada leitor, em algum momento da vida, já experimentou algo semelhante.

Talvez seja justamente essa simplicidade que torna a poesia de Jorge Humberto tão verdadeira. Ela não procura impressionar. Apenas fala baixinho ao coração de quem lê.

Tenho a alegria de compartilhar este belo soneto com os leitores do Vendramini Letras. É também uma forma de celebrar uma amizade construída entre Portugal e Brasil, unida pela literatura, pelo respeito e pelo carinho de tantos anos.

Os computadores envelhecem. Os arquivos podem desaparecer. As imagens, por vezes, se perdem.

Mas os poemas...

Ah, os poemas encontram sempre um novo caminho para continuar vivendo

E agora, convido você a fazer o que realmente importa nesta publicação: ler.

Leia sem pressa. Permita que cada verso encontre seu próprio lugar dentro de você. Tenho certeza de que, ao chegar ao último verso, compreenderá por que alguns poemas permanecem vivos muito depois que o tempo apaga as imagens.

TEU INCONSTANTE AMOR

 

Jovens, belos e apaixonados,
levávamos a vida encantados,
nas manhãs grávidas de sol,
nas ondas do mar ao arrebol.

Na distância criámos o ninho,
raminhos e flores de azevinho.
E foram tantas as esperanças,
tantas e alicerçadas alianças,

que alcei vôo: e fomos nós,
bastando-nos um ao outro.
Porém, escureceu-se o céu,

da cintura do universo ao cós
vulgo da ganga. Nado morto,
que descreu e me pôs no breu. 

Jorge Humberto
12/07/2026

Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este não é apenas um poema sobre um amor que mudou com o tempo. É também uma lembrança de que a vida transforma pessoas, modifica caminhos e, às vezes, apaga registros que pareciam eternos.

Felizmente, há coisas que resistem.

A amizade sincera resiste.

A boa literatura resiste.

E a poesia, quando nasce do coração, sempre encontra novos leitores, novos caminhos e novos horizontes.

Meu abraço fraterno ao amigo Jorge Humberto, com a gratidão de quem teve a alegria de caminhar ao seu lado por tantos anos, unidos pela palavra escrita.

Que este soneto continue atravessando o Atlântico, levando consigo a mesma sensibilidade com que foi criado e encontrando abrigo no coração de todos aqueles que ainda acreditam na força transformadora da poesia.

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