Primeiro o café, depois a conversa — aqui o texto vem depois, com calma.
Autor de crônicas que unem sensibilidade e estratégia. Autor de diversos livros e presença marcante em eventos como a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, dedica-se hoje integralmente à escrita, celebrando lembranças e imortalizando histórias humanas.
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Mostro aqui, um mini-conto, carregando um mistério sutil e que dá destaque à visão perturbadora de Mr. Anthony. O título provoca curiosidade e sugere a dualidade entre realidade e ilusão na mente do protagonista.
A sala de estar mergulhava em uma penumbra suave, iluminada apenas por um
tímido feixe de luz que se infiltrava pela fresta da janela daquela imensa casa
onde Mr. Anthony viveu seus últimos dias.
Era 22 de setembro de 2007. Sobre sua escrivaninha, uma agenda ostentava
essa data como um lembrete do tempo que escapava. Seu pensamento vagava pelas
paredes da memória, onde o passado se fazia presente em uma espetacular
sucessão de nostalgias.
Nervoso, ele tentava ordenar o emaranhado de pensamentos furtivos que o
assaltavam—arrependimentos, impulsos reprimidos e decisões nunca tomadas.
Sonhos da juventude que a vida, por caminhos incertos, havia lhe arrancado sem
piedade.
Mas agora já era tarde. O tempo lhe escapava, e suas ideias inquietantes o
consumiam. Pegou a caneta e começou a escrever o que lhe veio à mente: uma
relação de suas posses em forma de testamento. O fato de não ter herdeiros o
atormentava.
Foi então que um ruído inesperado interrompeu sua concentração—uma pedra
estilhaçava a vidraça. Lentamente, ele se levantou e abriu a cortina. Do lado
de fora, um menino lhe acenava alegremente. Por um momento, Anthony permaneceu
imóvel, observando-o com um olhar aturdido, até que, como num passe de mágica,
o garoto desapareceu em meio às frondosas árvores que rodeavam o casarão.
Seria uma visão de sua mente perturbada? O desejo inconsciente de ter um
filho para quem pudesse deixar sua herança?
Na mansão, um casal de empregados cuidava dos jardins e das tarefas
domésticas, zelando pelo lar que agora se tornava um mausoléu de lembranças.
Anthony voltou para sua escrivaninha e fez sua última anotação às 17 horas.
No dia seguinte, foi encontrado sem vida pela esposa do jardineiro, que há
tempos se dedicava a atender seus últimos caprichos.
Com as mãos trêmulas, a mulher olhou para a agenda aberta sobre a mesa e viu
anotações que não conseguia compreender. Estavam escritas em inglês, em
caligrafia quase indecifrável. Apesar disso, uma revelação se destacava:
deixava todos os seus pertences para aquele menino que acreditava ser seu
filho.
Atônita, a mulher correu para chamar o marido. Ao encontrá-lo, exclamou:
— José, ele morreu! Deixou tudo escrito sobre a mesa!
O jardineiro, que entendia o idioma, leu atentamente o testamento até se deparar com a parte que os deixou perplexos: Anthony deixava seus bens para o filho do casal. Mas como poderia? Eles nunca tiveram filhos.
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Acredito que a escrita é uma arte em constante evolução, refinada pelo hábito, pela observação e, principalmente, pelo desejo de transmitir emoções e ideias de forma mais autêntica. O retorno de vocês, leitores, me motiva a buscar sempre o melhor.
Atuei nas
áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com
experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos,
compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a
conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.
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Antonio Vendramini Neto –
Face Book.
Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
