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(No silêncio da memória, conto os segredos de Banharão. O trote da mula-sem-cabeça ainda ecoa no coração)
Memórias e Mistérios da Velha Banharão, o texto vem logo a seguir:
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VENDRAMINI LETRAS
"O idioma muda, mas a essência permanece. Clique em Translate à direita e mergulhe nas crônicas."
"The language changes, but the essence remains. Click Translate on the right and dive into the chronicles."
Aqui, não é apenas um espaço de
escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um
instante em memória coletiva da alma Humana.
"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."
VAMOS A ELAS
Histórias guardam um poder raro: o de manter vivos aqueles que já partiram. Quando a lembrança é compartilhada, ela transforma o passado em presente e o cotidiano em encantamento. Este texto é mais do que uma homenagem ao meu avô Tonella e à minha avó Santa—é um tributo à magia oral, à sabedoria ancestral e ao mistério que ronda os cantos esquecidos do Brasil profundo.
Tive a felicidade de conviver muito de perto com Tonella, pois morávamos juntos com minha família e compartilhávamos o mesmo quarto até o dia de seu falecimento, quando eu tinha dezesseis anos. Essa convivência me permitiu conhecer, em detalhes, suas histórias, sua força e sua essência.
Tonella tinha o dom de contar causos e “estórias” de sua vida no sertão da velha Banharão, distrito da cidade de Jaú, onde nasceu a maioria dos nossos parentes. Seus relatos eram vívidos, cheios de emoção, e conseguiam transportar qualquer ouvinte para tempos remotos, onde bravura e mistério se entrelaçavam.
Com o avançar da idade, já sem forças para cuidar da plantação de café e dos animais, a família decidiu mudar-se para Jundiaí em busca de melhores condições de vida. Na juventude, porém, meu avô era um homem forte e destemido. Sua especialidade era treinar cavalos para espetáculos circenses, além de domar burros e mulas para o árduo trabalho nas lavouras. Essa habilidade lhe rendeu fama na região e bons ganhos financeiros, permitindo-lhe até comprar um Ford "Bigode" novinho. Curiosamente, apesar da coragem para enfrentar animais selvagens, ele tinha receio de dirigir o carro, deixando essa tarefa para meu pai, Vico.
Minha avó, segundo o velho Tonella, era uma benzedeira convicta e também parteira. Com o tempo, aperfeiçoou seus rituais, incorporando gestos e palavras que conferiam um toque ainda mais místico às suas práticas. Ela molhava ramos de uma planta do quintal em "água benta" e os agitava sobre a cabeça das pessoas, pronunciando palavras que pareciam vir de um tempo esquecido.
A tradição das mulheres benzedeiras da família remonta a gerações e tem raízes profundas nas terras europeias, mais precisamente nos confins da cidade de Treviso, na bela Itália. No entanto, com o passar dos anos e a chegada do modernismo, as jovens descendentes se afastaram das crenças antigas, deixando que a tradição se perdesse pelos caminhos da vida.
Ainda sobre os trabalhos de benzedura de minha avó, era comum ver gente vinda de longe para passar pelas suas mãos, buscando cura ou um bom parto. Durante o ritual, ela balbuciava frases em um idioma ancestral e difícil de compreender. Acreditava-se que aqueles que se sentavam no pequeno banco de madeira para receber suas bênçãos poderiam ter visões da temida mula-sem-cabeça. E então, instigados pelo medo e pelo misticismo, confessavam seus pecados e saíam dali acreditando estarem livres de seus males.
O tropel da mula-sem-cabeça, segundo meu avô, era um aviso. Quando o "doente" ouvia o som inquietante dos cascos rodeando a casa, era proibido olhar, nem mesmo por uma fresta da janela, sob o risco de ficar cego. As histórias contadas por minha avó eram envoltas em mistério e temor, e geravam respeito entre os que buscavam sua ajuda.
Ainda segundo Tonella, minha avó—ou mia nonna, meglio conosciuta come la vecchia signora—alertava sobre os perigos do pecado: moças que se entregassem a um amor proibido antes do casamento, comadres que se envolvessem com compadres, ou mesmo uma mulher que se casasse com um padre, todas estavam fadadas a se transformar na terrível mula-sem-cabeça.
Dizia também que ela aparecia nas noites de sexta-feira e, ao encontrar um pecador, sugava-lhe os olhos, as unhas e os dentes, soltando fogo pelas narinas. Se a vítima sobrevivesse, acreditava-se que a cura havia sido alcançada. E para aqueles que, tomados pelo medo, desejavam evitar o encontro com a criatura, bastava não cruzar correndo diante de uma cruz à meia-noite.
Mio Gran Finale:
Os mitos e lendas brasileiras percorrem os lares de nosso povo, despertando temor e alimentando a imaginação, assim como fazia minha avó Santa e seu fiel escudeiro, o marido, meu avô Tonella. Essas histórias vagam por diversos lugares ao mesmo tempo, mudam nomes e características, mas nunca desaparecem. Permanecem vivas, misturando-se às crendices e ao lado sombrio do inconsciente coletivo.
E enquanto houver alguém disposto a ouvir e lembrar, o tropel da mula continuará ecoando pelas noites da memória.
"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História.
"Cada interpretação abre uma janela para novos horizontes."
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