quarta-feira, 28 de outubro de 2026

ONDE VÔ - UM PRESENTE CHAMADO MEMÓRIA




Há lembranças que não se apagam com o tempo — elas se transformam. O que antes foi tristeza, hoje é ternura.

 O que foi ausência, hoje é presença em forma de saudade serena. Em 2017, nossa família viveu um momento de dor com a partida precoce de Norberto. 

Mas hoje, com o coração mais leve e os olhos voltados para o que ele deixou, escolhemos homenageá-lo com gratidão.

Norberto não foi apenas um primo querido — foi um espírito sensível, um observador da vida, um poeta da simplicidade. E é com essa leveza que revisitamos seu manuscrito, encontrado sobre sua mesa de trabalho, como quem encontra um tesouro escondido no tempo.

“ONDE VÔ”
(Encontrado em sua mesa de trabalho)

Os lugar onde vô
Nem eu sei escolher.
Quando o zóio piscô,
Já cheguei, sem querer.

Sem querer, também não!
Eu so vô se eu gosto
E, se lá não for bão,
Curto da maneira que eu posso.

Normalmente, fica afastado
Do que se chama civilização.
Nunca vô apressado,
Presto muita atenção.

Pode sê o mato crescendo,
Ou, então, a cachoeira caindo.
Eu ali, quieto, só vivendo.
E a natureza explodindo.

O Vento batendo depressa
Como com pressa de ir embora;
A verde mata atravessa
E parte para o mundo afora,

Trazendo e levando perfume,
Arrastando as foia do chão.


 Encerramento

Hoje, ao reler essas palavras, não sentimos apenas a ausência — sentimos a presença. A tristeza daquela data se transformou em dádiva: um convite à contemplação, à poesia, à natureza, à vida. 

Norberto segue “vôando” por aí, em cada brisa que toca a pele, em cada folha que dança no chão. 

E nós, sua família, seguimos com ele — mais leves, mais atentos, mais vivos.

Palavras escritas para quem partiu, para quem ficou, para quem nunca soube.

 Não pedem resposta — apenas repousam no papel.

.................

"Cada crônica é uma viagem sem fronteiras. Quer ler em outro idioma? 

Clique em Translate à direita do blog e siga comigo."  "Each chronicle is a journey without borders. Want to read in another language? Click Translate on the right side of the blog and come along."

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Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias

 Sou um contador de histórias do cotidiano. Escrevo crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilho palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

ENTRE PEDRAS E ESPERANÇA: OUTONO NO LESTE EUROPEU.


PAZ E TRANSCENDÊNCIA
OUTONO NO LESTE EUROPEU

Entre pedras que guardam memórias e histórias que resistem ao tempo, ergue-se este espaço como um abrigo para o espírito. Cada texto é uma ponte, conduzindo o leitor por caminhos de fé, sensibilidade e cotidiano. Aqui, o silêncio se torna palavra, o chá se faz companhia e a chama das velas ilumina reflexões.

Mais do que páginas, este é um convite: contemplar, respirar e reencontrar-se com a essência da vida. Que cada leitura seja um instante de pausa, um gesto de beleza e um reencontro com a esperança que nunca se apaga.

 Poema — Travessia

(Este poema nasceu durante uma viagem ao Leste Europeu, onde Eu e minha esposa encontramos inspiração nas paisagens, nas igrejas antigas e no silêncio das ruas de pedra.)

Código
Entre pedras e passos lentos,
o tempo sussurra segredos antigos.

Há luz nas frestas, há fé nos ventos,
e um coração que busca abrigo.

O silêncio veste o instante,
o olhar repousa no infinito.

Entre o humano e o divino,
floresce o simples — e o bonito.

🍵


Receita Europeia — Chá Inglês Tradicional

Ingredientes

3 colheres de chá preto (English Breakfast ou Earl Grey)

  • 2 xícaras de água filtrada

  • Leite quente ou em temperatura ambiente

  • Açúcar, mel ou adoçante (opcional)

  • Rodela de limão (opcional)

Modo de preparo

  1. Ferva a água até cerca de 95°C.

  2. Pré-aqueça o bule ou xícara.

  3. Adicione o chá e despeje a água quente.

  4. Deixe em infusão por 3 a 5 minutos.

  5. Retire o chá e finalize com leite.

  6. Adoce a gosto e sirva com serenidade. 

Encerramento
Que este espaço seja mais do que leitura — seja um instante de alma.
Entre pedras e esperanças, o tempo se faz poesia.



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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

ORAÇÕES AOS CÉUS


Este pequeno poema nasceu da inspiração silenciosa de uma noite repleta de contemplação e entrega espiritual. Foi escrito no recolhimento íntimo de um momento de oração, quando a alma repousa e o coração se abre ao diálogo com o sagrado. Cada verso reflete uma vivência interior – um encontro entre o silêncio da noite e a esperança da fé. A escolha das palavras foi simples, mas carregada de emoção e significado. 

🙏

Poema: No Silêncio da Noite

A noite chegou...
Cheia de quietude.
A espera foi sublime
Em meu canto de louvor.

Veio soberba,
Em toda a sua plenitude.
Vou conversar com o Senhor...

Ouço vozes
Em um acalanto divino.
O pensamento vagueia
Pelas nuvens,
Ao sabor da brisa.

Que venham as bênçãos,
Em forma de destino...


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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

BARCELONA: ENTRE O GÓTIGO E OS SONHOS DE GAUDI



Caminhos que contam histórias

Quem visita Barcelona dificilmente resiste ao charme do Bairro Gótico, o coração medieval da cidade. Suas ruas estreitas e praças escondidas guardam segredos de séculos, como a muralha romana ainda visível em alguns pontos.
As famosas Ramblas, com sua atmosfera vibrante, são mais que uma avenida: são um espetáculo de cores, artistas de rua e aromas que conduzem até a Praça Catalunha, onde fontes e esculturas dão boas-vindas aos visitantes.
 Passeio elegante
O Passeig de Gràcia, construído no século XIX, é hoje um dos endereços mais sofisticados da Europa. Além das lojas de luxo, guarda tesouros arquitetônicos como a Casa Milà (La Pedrera) e a Casa Batlló, duas obras-primas de Antoni Gaudí que parecem saídas de um conto surreal.
 A obra-prima inacabada
A Sagrada Família é muito mais que uma catedral: é um manifesto artístico. Iniciada em 1882, teve seu rumo transformado quando Gaudí assumiu o projeto aos 31 anos.
 Curiosidade: 
As colunas internas lembram palmeiras que se erguem como florestas de pedra.
 Detalhe curioso:
 As bases das colunas evocam o casco de tartarugas, símbolo da harmonia entre céu e terra.

 Visão ousada: 
Quando concluída, terá 18 torres, cada uma representando figuras bíblicas.

Gaudí dedicou 43 anos de sua vida à obra, vivendo os últimos 16 praticamente dentro da igreja. Sua devoção cresceu junto com cada pedra erguida.
 Legado eterno
Ao falecer em 1926, apenas oito torres estavam prontas. Hoje, a Sagrada Família segue em construção, misturando técnicas modernas com o espírito visionário de Gaudí. A previsão é que esteja concluída em meados do século XXI, tornando-se o maior templo cristão da Europa.

 Curiosidade extra:
 Barcelona é uma das poucas cidades do mundo onde você pode caminhar por ruas romanas, medievais e modernistas em menos de uma hora.


Meu Blog Vendramini Letras

Vendramini Letras não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.



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5. BIOGRAFIA CURTA

Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

sábado, 17 de outubro de 2026

A JANELA DA VIDA

 

A Janela da Vida: Sonhos Aprisionados no Tempo dos Coronéis

Introdução

Naquele Brasil profundo, em cidades pequenas onde o poder se concentrava nas mãos dos coronéis, muitas jovens eram mantidas sob vigilância, como se fossem parte do patrimônio da família. O pai, obcecado em não “perder” sua propriedade, fechava portas e cortava caminhos. Mas havia também a mãe, que via além das grades invisíveis e reconhecia na filha não um bem a ser guardado, mas uma mulher com desejos e sonhos. É nesse cenário que se desenrola a história de uma vida contemplada da janela — palco de esperanças, testemunha de silêncios e confidente de segredos.


A janela que guardou sonhos e silêncios — testemunha de uma vida que se desenrolou entre o dentro e o fora.

A Janela da Vida

Era uma pequena cidade do interior, com apenas uma rua calçada e todas as outras de terra batida. Ali se concentrava o comércio, o correio e o ponto do ônibus que, uma vez por semana, seguia para a cidade grande.

Essa rua desembocava numa pracinha diante da igreja, onde se erguia um casarão imponente. Pertencia a um comerciante coronel que guardava sua filha como um tesouro: bela demais para ser exposta ao mundo. A moça, confinada, assistia à vida pela moldura da janela — seu palco, seu mirante, sua esperança de ser cortejada.

Todos os dias, antes mesmo do sol nascer, já estava arrumada, regando as flores da soleira. Recebia cumprimentos e saudações dos moradores que iam e vinham, e ali, entre sorrisos e acenos, deixava escapar seus sonhos.

Na solidão, escrevia em uma caderneta suas ansiedades e aspirações. Foi nela que registrou o desfile de sua vida, até o momento em que partiu para outra dimensão.

A mesma janela, agora guardando o tempo
e os segredos de uma vida.


A menina debruçou na janela...

Brincou de boneca, papai e mamãe.
Viu o mundo desfilar.

A menina-moça debruçou na janela...

Vestiu o primeiro soutien, sentiu-se mulher.
Aquarela colorida, sonhos de baile e valsa.

A mocinha debruçou na janela...

Primeiro amor, primeiro beijo.
Voou pelas alturas, navegou no Danúbio Azul.

A jovem debruçou na janela...

Guardou segredos, colheu frutos.
Descobriu o encanto e a dor da paixão.

A mulher debruçou na janela...

Um filho habitou seu mundo.
As fantasias se apagaram, restou a realidade.

A senhora debruçou na janela...

Viu o tempo desmoronar.
Buscou conforto na fé, conversou com Jesus.

Da cadeira de balanço da sala de estar, repassou toda a sua vida.
Viu a janela se fechar.
As cortinas se serraram.
E sua luz, enfim, se apagou.

Gran Finale

E quando as cortinas se cerraram, não foi apenas uma janela que se fechou. Foi o fim de uma era em que tantas mulheres foram aprisionadas pelo medo e pelo poder dos coronéis. Mas sua luz, mesmo apagada, permanece como lembrança de que nenhum olhar pode ser totalmente aprisionado: os sonhos sempre encontram uma forma de atravessar a vidraça.

A janela que guardou sonhos e silêncios — testemunha de uma vida que se desenrolou entre o dentro e o fora.”

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O DIABO DA TECELAGEM JAPY


TALVEZ SEJA O VENTO...

Corria o ano de 1958, quando o Brasil se tornou campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e ouvi a final pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema que, naquele dia, jurava torcer pelo Brasil.

No auge do segundo tempo, num avanço de Pelé, a voz do locutor sumiu. Foi um desespero. Gritavam para o Serafim acertar o rádio, enquanto ele não sabia se mexia no botão ou se servia mais um rabo-de-galo. Estava tão alegre que já não cobrava nada — nem os petiscos da molecada, nem a bebida dos mais velhos.

Depois do jogo, subi na carroceria de um caminhão e rodei a cidade em festa. Cheguei em casa tarde, para o desespero dos meus pais.

No dia seguinte, voltei ao botequim em busca das novidades. Foi ali que ouvi, pela primeira vez, que o Diabo havia atacado mulheres da Tecelagem Japy, lá pelas bandas da Vila Arens. Diziam que surgia de um capão de mato, urrando, vestido de vermelho, com uma capa preta que rodopiava no ar.

O assunto tomou a cidade. O jornal noticiou. A rádio comentava. O delegado Joaquim Linguiça investigou, mas não encontrou nada além da trilha por onde as mulheres passavam antes do turno das cinco.

Uma semana depois, o Diabo atacou novamente. As trabalhadoras juravam que ele tinha rosto horrível e urros capazes de gelar o sangue. Algumas voltavam para casa molhadas de medo. Outras não voltavam mais à fábrica.

O Serafim dizia que agora iam trabalhar escoltadas por maridos e filhos. A tecelagem era quase só de mulheres, muitas já antigas de casa. Produziam menos, comentava-se, e isso preocupava o dono, o turco Salim.

Dentro da fábrica, ninguém segurava mais a situação. O gerente e o chefe do pessoal, Gerubal Pascoal, prometeram proteção policial. Dois guardas ficaram de prontidão na mata. Mesmo assim, numa madrugada fria, o urro ecoou outra vez. Houve correria, marmitas perdidas, chinelos abandonados pelo caminho.

O delegado perdeu a paciência e chamou Epaminondas, um jagunço grande e valente, para resolver o caso. Armado, passou a fazer tocaia no mato, à espera do Diabo.

Enquanto isso, comentava-se que o medo estava dando resultado: mulheres pediam demissão, outras mudavam de cidade. As moças novas produziam bem. O nome da fábrica corria a região.

Até que, numa manhã, o Diabo voltou.

Saltou do mato envolto na capa, urrando como sempre. Epaminondas não correu. Gritou um palavrão e disparou.

O corpo caiu.

Quando o delegado chegou, percebeu que a máscara estava frouxa. Ao retirá-la, o espanto foi geral: o Diabo era Gerubal Pascoal, o chefe do pessoal da fábrica.

Depois, soube-se que a mulher dele havia costurado a fantasia. Gerubal fizera tudo por medo de perder o emprego e não sustentar a família. O turco Salim fugiu do país. A fábrica faliu. Muita gente ficou sem receber nada.

Hoje, o prédio está abandonado. Dizem que, nas manhãs frias, ainda se ouvem urros vindos do mato.

Talvez seja o vento.
Ou talvez o Diabo ainda cobre o que lhe foi negado.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."

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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O CARCARÁ ALADO DO SERTÃO PERNAMBUCANO

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 "O idioma muda, mas a essência permanece. Clique em Translate à direita e mergulhe nas crônicas." 

 "The language changes, but the essence remains. Click Translate on the right and dive into the chronicles." 

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

 O Carcará Alado: Entre o Sertão 

e o Mistério de 1986


“Naquele voo, o destino parecia testar os limites da fé e da paciência.”

 Petrolina, o início

Em 1986, fui enviado a Petrolina, Pernambuco, para preparar o terreno de uma fábrica de alimentos recém-construída. Coube a mim, na área de recursos humanos, planejar convênios, benefícios e até um restaurante dentro da fábrica — iniciativa inédita na região, destinada a garantir dignidade e nutrição aos futuros trabalhadores. Era o prenúncio de uma nova era para o sertão.

 O Bandeirante inquieto

Na volta, preferi embarcar em um pequeno avião Bandeirante, que me levaria de Petrolina até Salvador. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade: os voos diretos para São Paulo só aconteceriam uma semana depois, e eu não podia ficar ocioso na cidade, pois tinha compromissos urgentes em São Paulo.

O barulho ensurdecedor, a descida brusca em plena estrada de terra para recolher um malote, e a decolagem imediata sem parar transformaram o trajeto em um verdadeiro teste de nervos. Ali percebi que, por mais que o trabalho exija coragem, há limites que não se deve ultrapassar. Prometi nunca mais repetir a experiência em aeronaves tão pequenas.

 O pássaro ferido em Salvador

De Salvador, embarquei em um avião comercial de maior porte rumo a São Paulo. Mas o destino parecia querer me testar: a aeronave apresentou um vazamento de óleo e sequer chegou a sair do solo. O voo foi cancelado, e fomos hospedados às pressas em Juazeiro, na Bahia. Na madrugada seguinte, após reparos, retornamos ao aeroporto. O ambiente estava carregado de emoção: pessoas vestidas de preto, lágrimas discretas, e um falatório intenso entre os passageiros. A revelação veio: havia um corpo a bordo, aguardando transporte para São Paulo.

 O cortejo aéreo

Durante toda a viagem, minha mente ficou tomada pela expectativa de saber quem era o falecido. O número de acompanhantes, o clima de velório improvisado e os cochichos incessantes indicavam tratar-se de alguém importante. Seria um político? Um figurão da região? O mistério só se desfez em São Paulo: tratava-se de um antigo governador de Pernambuco, que havia falecido e seria sepultado ali. Um protagonista silencioso de uma viagem que ele nunca mais voltaria a fazer.

 A lição do inesperado

Chegar a São Paulo foi um alívio indescritível. Mas mais do que o destino, ficou a lição: a vida profissional não é feita apenas de relatórios e metas, mas também de imprevistos que nos lembram da nossa vulnerabilidade. O corpo a bordo, o avião ferido, o pouso improvisado — tudo isso compôs uma narrativa que transcende o trabalho. É a lembrança de que, no afã de cumprir nosso dever, também participamos de histórias maiores, carregadas de humanidade e memória.

 Fecho literário

“Naquele voo de 1986, o sertão encontrou a capital, e o trabalho encontrou a morte. O carcará alado que me levou de Petrolina a São Paulo carregava não apenas passageiros, mas também a história de um homem público que partia para sempre. E eu, testemunha involuntária, aprendi que nossas viagens profissionais podem se transformar em crônicas da vida, onde o inesperado nos lembra que somos todos passageiros de um mesmo destino.”

Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

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Há lembranças que não se apagam com o tempo — elas se transformam. O que antes foi tristeza, hoje é ternura.  O que foi ausência, hoje é pr...