sábado, 17 de outubro de 2026

A JANELA DA VIDA

 

A Janela da Vida: Sonhos Aprisionados no Tempo dos Coronéis

Introdução

Naquele Brasil profundo, em cidades pequenas onde o poder se concentrava nas mãos dos coronéis, muitas jovens eram mantidas sob vigilância, como se fossem parte do patrimônio da família. O pai, obcecado em não “perder” sua propriedade, fechava portas e cortava caminhos. Mas havia também a mãe, que via além das grades invisíveis e reconhecia na filha não um bem a ser guardado, mas uma mulher com desejos e sonhos. É nesse cenário que se desenrola a história de uma vida contemplada da janela — palco de esperanças, testemunha de silêncios e confidente de segredos.


A janela que guardou sonhos e silêncios — testemunha de uma vida que se desenrolou entre o dentro e o fora.

A Janela da Vida

Era uma pequena cidade do interior, com apenas uma rua calçada e todas as outras de terra batida. Ali se concentrava o comércio, o correio e o ponto do ônibus que, uma vez por semana, seguia para a cidade grande.

Essa rua desembocava numa pracinha diante da igreja, onde se erguia um casarão imponente. Pertencia a um comerciante coronel que guardava sua filha como um tesouro: bela demais para ser exposta ao mundo. A moça, confinada, assistia à vida pela moldura da janela — seu palco, seu mirante, sua esperança de ser cortejada.

Todos os dias, antes mesmo do sol nascer, já estava arrumada, regando as flores da soleira. Recebia cumprimentos e saudações dos moradores que iam e vinham, e ali, entre sorrisos e acenos, deixava escapar seus sonhos.

Na solidão, escrevia em uma caderneta suas ansiedades e aspirações. Foi nela que registrou o desfile de sua vida, até o momento em que partiu para outra dimensão.

A mesma janela, agora guardando o tempo
e os segredos de uma vida.


A menina debruçou na janela...

Brincou de boneca, papai e mamãe.
Viu o mundo desfilar.

A menina-moça debruçou na janela...

Vestiu o primeiro soutien, sentiu-se mulher.
Aquarela colorida, sonhos de baile e valsa.

A mocinha debruçou na janela...

Primeiro amor, primeiro beijo.
Voou pelas alturas, navegou no Danúbio Azul.

A jovem debruçou na janela...

Guardou segredos, colheu frutos.
Descobriu o encanto e a dor da paixão.

A mulher debruçou na janela...

Um filho habitou seu mundo.
As fantasias se apagaram, restou a realidade.

A senhora debruçou na janela...

Viu o tempo desmoronar.
Buscou conforto na fé, conversou com Jesus.

Da cadeira de balanço da sala de estar, repassou toda a sua vida.
Viu a janela se fechar.
As cortinas se serraram.
E sua luz, enfim, se apagou.

Gran Finale

E quando as cortinas se cerraram, não foi apenas uma janela que se fechou. Foi o fim de uma era em que tantas mulheres foram aprisionadas pelo medo e pelo poder dos coronéis. Mas sua luz, mesmo apagada, permanece como lembrança de que nenhum olhar pode ser totalmente aprisionado: os sonhos sempre encontram uma forma de atravessar a vidraça.

A janela que guardou sonhos e silêncios — testemunha de uma vida que se desenrolou entre o dentro e o fora.”

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

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Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O DIABO DA TECELAGEM JAPY


TALVEZ SEJA O VENTO...

Corria o ano de 1958, quando o Brasil se tornou campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e ouvi a final pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema que, naquele dia, jurava torcer pelo Brasil.

No auge do segundo tempo, num avanço de Pelé, a voz do locutor sumiu. Foi um desespero. Gritavam para o Serafim acertar o rádio, enquanto ele não sabia se mexia no botão ou se servia mais um rabo-de-galo. Estava tão alegre que já não cobrava nada — nem os petiscos da molecada, nem a bebida dos mais velhos.

Depois do jogo, subi na carroceria de um caminhão e rodei a cidade em festa. Cheguei em casa tarde, para o desespero dos meus pais.

No dia seguinte, voltei ao botequim em busca das novidades. Foi ali que ouvi, pela primeira vez, que o Diabo havia atacado mulheres da Tecelagem Japy, lá pelas bandas da Vila Arens. Diziam que surgia de um capão de mato, urrando, vestido de vermelho, com uma capa preta que rodopiava no ar.

O assunto tomou a cidade. O jornal noticiou. A rádio comentava. O delegado Joaquim Linguiça investigou, mas não encontrou nada além da trilha por onde as mulheres passavam antes do turno das cinco.

Uma semana depois, o Diabo atacou novamente. As trabalhadoras juravam que ele tinha rosto horrível e urros capazes de gelar o sangue. Algumas voltavam para casa molhadas de medo. Outras não voltavam mais à fábrica.

O Serafim dizia que agora iam trabalhar escoltadas por maridos e filhos. A tecelagem era quase só de mulheres, muitas já antigas de casa. Produziam menos, comentava-se, e isso preocupava o dono, o turco Salim.

Dentro da fábrica, ninguém segurava mais a situação. O gerente e o chefe do pessoal, Gerubal Pascoal, prometeram proteção policial. Dois guardas ficaram de prontidão na mata. Mesmo assim, numa madrugada fria, o urro ecoou outra vez. Houve correria, marmitas perdidas, chinelos abandonados pelo caminho.

O delegado perdeu a paciência e chamou Epaminondas, um jagunço grande e valente, para resolver o caso. Armado, passou a fazer tocaia no mato, à espera do Diabo.

Enquanto isso, comentava-se que o medo estava dando resultado: mulheres pediam demissão, outras mudavam de cidade. As moças novas produziam bem. O nome da fábrica corria a região.

Até que, numa manhã, o Diabo voltou.

Saltou do mato envolto na capa, urrando como sempre. Epaminondas não correu. Gritou um palavrão e disparou.

O corpo caiu.

Quando o delegado chegou, percebeu que a máscara estava frouxa. Ao retirá-la, o espanto foi geral: o Diabo era Gerubal Pascoal, o chefe do pessoal da fábrica.

Depois, soube-se que a mulher dele havia costurado a fantasia. Gerubal fizera tudo por medo de perder o emprego e não sustentar a família. O turco Salim fugiu do país. A fábrica faliu. Muita gente ficou sem receber nada.

Hoje, o prédio está abandonado. Dizem que, nas manhãs frias, ainda se ouvem urros vindos do mato.

Talvez seja o vento.
Ou talvez o Diabo ainda cobre o que lhe foi negado.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."

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Escritor | Criador de conteúdos culturais

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O CARCARÁ ALADO DO SERTÃO PERNAMBUCANO

Blog Vendramini Letras

 "O idioma muda, mas a essência permanece. Clique em Translate à direita e mergulhe nas crônicas." 

 "The language changes, but the essence remains. Click Translate on the right and dive into the chronicles." 

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

 O Carcará Alado: Entre o Sertão 

e o Mistério de 1986


“Naquele voo, o destino parecia testar os limites da fé e da paciência.”

 Petrolina, o início

Em 1986, fui enviado a Petrolina, Pernambuco, para preparar o terreno de uma fábrica de alimentos recém-construída. Coube a mim, na área de recursos humanos, planejar convênios, benefícios e até um restaurante dentro da fábrica — iniciativa inédita na região, destinada a garantir dignidade e nutrição aos futuros trabalhadores. Era o prenúncio de uma nova era para o sertão.

 O Bandeirante inquieto

Na volta, preferi embarcar em um pequeno avião Bandeirante, que me levaria de Petrolina até Salvador. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade: os voos diretos para São Paulo só aconteceriam uma semana depois, e eu não podia ficar ocioso na cidade, pois tinha compromissos urgentes em São Paulo.

O barulho ensurdecedor, a descida brusca em plena estrada de terra para recolher um malote, e a decolagem imediata sem parar transformaram o trajeto em um verdadeiro teste de nervos. Ali percebi que, por mais que o trabalho exija coragem, há limites que não se deve ultrapassar. Prometi nunca mais repetir a experiência em aeronaves tão pequenas.

 O pássaro ferido em Salvador

De Salvador, embarquei em um avião comercial de maior porte rumo a São Paulo. Mas o destino parecia querer me testar: a aeronave apresentou um vazamento de óleo e sequer chegou a sair do solo. O voo foi cancelado, e fomos hospedados às pressas em Juazeiro, na Bahia. Na madrugada seguinte, após reparos, retornamos ao aeroporto. O ambiente estava carregado de emoção: pessoas vestidas de preto, lágrimas discretas, e um falatório intenso entre os passageiros. A revelação veio: havia um corpo a bordo, aguardando transporte para São Paulo.

 O cortejo aéreo

Durante toda a viagem, minha mente ficou tomada pela expectativa de saber quem era o falecido. O número de acompanhantes, o clima de velório improvisado e os cochichos incessantes indicavam tratar-se de alguém importante. Seria um político? Um figurão da região? O mistério só se desfez em São Paulo: tratava-se de um antigo governador de Pernambuco, que havia falecido e seria sepultado ali. Um protagonista silencioso de uma viagem que ele nunca mais voltaria a fazer.

 A lição do inesperado

Chegar a São Paulo foi um alívio indescritível. Mas mais do que o destino, ficou a lição: a vida profissional não é feita apenas de relatórios e metas, mas também de imprevistos que nos lembram da nossa vulnerabilidade. O corpo a bordo, o avião ferido, o pouso improvisado — tudo isso compôs uma narrativa que transcende o trabalho. É a lembrança de que, no afã de cumprir nosso dever, também participamos de histórias maiores, carregadas de humanidade e memória.

 Fecho literário

“Naquele voo de 1986, o sertão encontrou a capital, e o trabalho encontrou a morte. O carcará alado que me levou de Petrolina a São Paulo carregava não apenas passageiros, mas também a história de um homem público que partia para sempre. E eu, testemunha involuntária, aprendi que nossas viagens profissionais podem se transformar em crônicas da vida, onde o inesperado nos lembra que somos todos passageiros de um mesmo destino.”

Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO


A despedida de Alfredo Lobão, transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga com o tom nostálgico e poético da história.

Alfredo Lobão gostava do palco que o salão de baile lhe oferecia. Quando a música começava, conduzia a sua musa com passos largos e vistosos, rodopiando com a clara intenção de prender os olhos da plateia e recolher os aplausos da noite. O problema é que Maria Eufêmia era pesadona. Num desses passes mais ousados e cheios de vaidade, o equilíbrio falhou e Lobão deixou-a cair estatelada no meio do salão. O escândalo foi imediato. Entre a vergonha do tombo e os risos abafados do público, seguiu-se uma discussão azeda: Maria Eufêmia deplorou a sua falta de jeito, cobriu-o de insultos e cortou ali mesmo qualquer conversa ou relação.

Humilhado por aquela cena medíocre, Lobão ficou arredio dos bailes durante algum tempo. Mas o bicho da dança e do orgulho voltou a morder-lhe e, passada a tempestade, resolveu dar uma passeada pelo clube. O azar bateu-lhe à porta logo na entrada. Na portaria estava um funcionário novo que não conhecia as velhas manhas de Lobão, habituado a ser um autêntico "entrão" que nunca pagava um centavo. O porteiro barrou-o. Lobão insistiu, a confusão escalou de tom e o próprio presidente do clube acabou por intervir, expulsando-o definitivamente do local.

Com o orgulho desfeito em pedaços, Lobão não hesitou. Chamou um táxi e seguiu direto para a estação rodoviária. Naquela mente fervilhante, a decisão estava tomada: era preciso deixar o Estado de São Paulo e recomeçar no Rio de Janeiro. Já dentro do ônibus interestadual, enquanto a paisagem desfilava na noite, uma pergunta insistentemente martelava-lhe a cabeça: "Onde é que eu vou ficar?". Foi aí que a intuição lhe soprou o destino ideal: o bairro do Estácio, o berço do samba e o reduto dos últimos malandros do Rio.

Ao desembarcar, a realidade impôs-se ao bolso. Com pouco dinheiro na carteira, o orçamento apenas deu para alugar um quartinho modesto, bem nos fundos de uma pensão barata. A convivência, contudo, não começou da melhor forma. Nas madrugadas, quando a necessidade o obrigava a ir ao sanitário, Lobão atravessava o longo corredor comum despido de preconceitos — e vestido apenas de cuecas. O hábito escandalizou a vizinhança e gerou um bate-boca monumental com a dona Fifi, a rigorosa dona da pensão.

Sem ambiente na pensão e com o orgulho ferido pelos risinhos de quem o via deambular de cuecas pelo corredor, Alfredo Lobão caiu definitivamente na desgraça local. No bairro, a sua pose de conquistador paulista desfez-se rapidamente. Os vizinhos, em tom de troça, passaram a chamar-lhe Fred, o Gatinho. Desalentado, mas sem perder o palpite, Fred fez da rua o seu verdadeiro refúgio. Foi ali, misturando-se com a boemia e os terreiros, que ele testemunhou e viveu a própria transformação da cidade.

Nas décadas seguintes, Fred viu o Rio de Janeiro mudar à força da especulação imobiliária, empurrando as gentes para os morros e subúrbios. Viu o samba, que conhecera miúdo no centro, galgar as encostas e consolidar-se como a voz nacional daquela população, maioritariamente de pretos e mulatos. O bairro do Estácio de Sá tornou-se o grande propulsor dessa revolução cultural, servindo de reduto para os "antigos malandros". Para as classes dominantes de outrora, aqueles homens de passo cadenciado eram vistos como figuras perigosas; mas para Fred, eles eram poetas da sobrevivência — homens espertos, de refinado gosto musical, capazes de compor um samba inteiro no simples olhar para uma mulata descendo a ladeira.

O tempo passou, o Rio modernizou-se e aquela velha malandragem romântica quase desapareceu. Alfredo Lobão envelheceu com a paisagem. O terno mudou, mas ele permaneceu no Estácio, transformando-se no último remanescente de uma era que o asfalto tentava apagar. Hoje, para garantir o sustento e ganhar algum dinheiro, o outrora orgulhoso bailarino vende o seu passado precioso em forma de entrevistas, cobrando cada centavo aos repórteres da atualidade que o procuram na mesa do bar.

É de manhã no último reduto,
Sol a pino como manda o figurino.
O botequim abriu as suas portas
Para receber o famoso malandro!
Chegou cheio de pose e prosa...
Terno de linho branco... Rosa na lapela...
Chapéu panamá com moldura preta,
Sapato bicolor com salto carrapeta.
— Epaminondas... Cadê o repórter?
— Aí do seu lado, mestre.
— Trouxe a grana? Que bom... Agora vou falar...

O jovem jornalista ajeitou o gravador na mesa de madeira, fascinado pelo terno de linho imaculado daquele homem.
— Mestre Fred, dizem que o senhor trocou a elegância de São Paulo pelo Estácio por causa de um tombo... O que o Rio lhe deu que os paulistas não entenderam? E vale a pena cobrar de nós para contar esse passado?
Fred ajeitou o chapéu panamá, deu um gole na cerveja e soltou um riso de canto de boca, com aquela fala macia de quem conhece a vida:
— Rapaz, em São Paulo eu era um "entrão" que buscava aplauso de plateia cega. O Rio me deu o chão, a ladeira e a verdade do samba. E sobre a grana... não estou vendendo segredos, estou cobrando o ingresso para o único museu vivo que restou desta era. Vocês pagam para ver o futuro, mas sou eu quem guarda a chave do passado. Quer saber de Noel e dos malandros de verdade? Então escuta...

Fui boémio cheio de bravata,
Do tempo da gravata,
Também bacana, lá de Copacabana.
Amigo da noite e de Noel,
Com jeito moleque
Do samba de breque...
Do tempo que escrevia música no papel...
De embrulho ou de pão, e com a mão...
Recinto ritmado e perfumado,
Morena carioca rebolando,
Tudo preparado...
Para despertar o velho malandro.
No bairro do Estácio...

Onde o ontem e o hoje se cruzam na mesa do bar. Ali, cobrando cada tostão aos jornalistas do presente, Fred guardava no bolso o preço da sua história — o último malandro a fazer da própria vida a sua última e mais bela composição.

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UM CONTO ABORDANDO O FINAL DO REINADO DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II



A memória de São João Paulo II, nascido Karol Józef Wojtyła, continua viva e pulsante no coração dos fiéis e da história da Igreja. Seu pontificado, encerrado em 2 de abril de 2005, permanece como um marco de fé, coragem e humanidade. Hoje, ao revisitarmos esse conto, entrelaçamos realidade e imaginação com reverência, como quem contempla um vitral iluminado pela luz divina.

O seu longo reinado — o terceiro mais duradouro da história — foi marcado por encontros com líderes mundiais e gestos de profunda empatia com os humildes. Naquele momento derradeiro, o mundo se unia em oração na Praça São Pedro, envolta por estátuas de santos e pela esperança de um milagre. O Papa, já reconhecido como santo por muitos, parecia sentir a alma em levitação, prestes a deixar o corpo terreno.

A doença e a idade avançada não apagaram sua missão. Guardava um segredo, talvez espiritual, talvez simbólico, que desejava revelar. Seu confessor, o cardeal Joseph Ratzinger, compreendia seus gestos com a precisão de quem partilhou anos de devoção e serviço. A Bíblia repousava ao lado, marcada por um crucifixo e anotações íntimas. O colóquio entre os dois, feito de sussurros e lágrimas, selava o início de uma nova era.

A Guarda Suíça, com seus trajes desenhados por Michelangelo, permanecia firme à porta, como há séculos. Dentro, os assessores rezavam ou preparavam os protocolos do funeral. Aquele reduto religioso tornava-se palco de um silêncio sagrado.

Recordo, com emoção, a missa campal que assisti com minha esposa, sob chuva persistente. João Paulo II presidia os ritos com serenidade, enquanto os fiéis permaneciam firmes no solo sagrado. Ao fundo, a Basílica de São Pedro, erguida sobre o túmulo de Simão Pedro, testemunhava séculos de fé e poder. A história do Vaticano, com seus mil habitantes e mais de um bilhão de fiéis representados, é uma monarquia espiritual onde o trono é conquistado pelo voto dos cardeais.

Na Capela Sistina, onde a arte e a fé se encontram, vislumbrei o cenário ideal para este conto. Ali, após o funeral, os cardeais se reuniram sob a liderança de Ratzinger. A fumaça branca anunciou ao mundo: “Habemus Papam!”. Bento XVI surgia à janela, emocionado, prometendo seguir os passos do querido João Paulo II.

Mas o conto ganha contornos de ficção. Surge Ângelus Nero I, o “anjo negro”, eleito em segredo. Despojado das vestes papais, parte pelo mundo como um homem comum, evangelizando com uma linguagem universal. Após anos de peregrinação, retorna ao Vaticano como assessor direto de Bento XVI, preparando o caminho para uma nova era de paz.

A utopia se desenha: dois papas, um visível, outro oculto, unidos pela missão de unir os povos sob uma única fé. Quando o mundo estiver pronto, o novo líder falará da janela papal: “Povos de todas as raças, hoje começa uma nova era: é o ano I; sem um Papa para conduzi-los, o mundo falará um único idioma e haverá somente uma religião para os povos de boa vontade.”

Assim, entre realidade e ficção, reverenciamos a figura de São João Paulo II — um estadista da fé, um peregrino da paz, um santo da humanidade.


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A JANELA DA VIDA

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