segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS - ELE AINDA CAVALGA...


Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."



SENTA QUE LÁ VEM MAIS UMA, DAQUELAS LÁ DOS SERTÕES NORDESTINOS

ONDE LAMPIÃO AINDA CAVALGA

Crônica literária

Há lugares onde a História termina nos livros. No sertão, ela continua sendo contada entre um café quente, um verso de cordel e a sombra comprida de um fim de tarde.

Viajar é colecionar paisagens, mas algumas viagens nos oferecem muito mais do que aquilo que os olhos conseguem registrar. Há lugares que deixam fotografias na memória e outros que, além das fotografias, nos entregam pessoas, histórias e personagens que continuam conosco muito depois de a viagem terminar. Foi assim que aconteceu comigo em uma viagem de recreio com a família a Aracaju, capital de Sergipe.

Logo nos primeiros dias, a cidade me chamou a atenção pela organização de suas ruas centrais, que formam um curioso tabuleiro de xadrez, e pelo conjunto de lugares que fomos conhecendo durante o city tour: a Catedral, a Colina de Santo Antônio, de onde se descortina uma bela vista panorâmica da cidade, a Praia de Atalaia e o Mirante do Calçadão da 13 de Julho. Mas, entre todos esses lugares, foi o Mercado Municipal que realmente despertou minha curiosidade.

Havia ali qualquer coisa diferente.

Não era apenas um mercado onde se compravam produtos. Era um pedaço vivo do Nordeste, com seu artesanato, seu folclore, seus cheiros, suas cores, sua música e, principalmente, sua gente. Entre uma banca e outra, encontravam-se vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, músicos e personagens que pareciam ter saído diretamente de algum daqueles folhetos de cordel que contam histórias de geração em geração. Foi também ali que avistei um contador de histórias que me chamou a atenção.

Comentei com minha esposa que deveríamos voltar ao mercado em outro dia, com mais calma, para conhecer melhor suas peculiaridades. Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquela decisão acabaria tendo um papel importante na história que eu levaria comigo daquela viagem.

Em outro dia, seguimos rumo aos Cânions do Rio São Francisco. À medida que nos afastávamos de Aracaju, a paisagem ia se modificando e as terras áridas começavam a anunciar o sertão. De repente, porém, surgiu diante de nós um contraste impressionante: o projeto de irrigação chamado Califórnia, onde a água transformava a paisagem e fazia nascer plantações de quiabo, uva, acerola, coco, maçã, feijão e outras culturas. Era como se a terra, depois de enfrentar durante tanto tempo a dureza do sol, tivesse encontrado uma maneira de responder à seca com abundância.

Mais adiante, às margens do Velho Chico, erguia-se a imponente Usina Hidrelétrica de Xingó, cujo reservatório formava os cânions de uma beleza que dificilmente pode ser descrita apenas por palavras.

O passeio foi feito de catamarã, e fomos avançando lentamente pelas águas enquanto os paredões de pedra se erguiam ao nosso redor. Admiramos paisagens deslumbrantes e passamos pela Gruta do Telhado, que despertava a curiosidade de todos. No retorno, ainda visitamos o Museu de Arqueologia, cujo acervo era proveniente das escavações realizadas na região do reservatório.

Quando voltamos a embarcar no catamarã, o cicerone tomou a palavra. Falava com entusiasmo, daquele jeito peculiar de quem não está simplesmente transmitindo informações aos turistas, mas contando uma história que conhece e aprecia.

Foi então que mencionou Lampião.

Contou que, dois dias antes, na pequena cidade de Piranhas, havia acontecido uma missa em homenagem à morte do famoso cangaceiro. Segundo ele, fora uma grande concentração popular, com gente vinda de diversos lugares para lembrar Lampião e seu bando. Ali perto, na Grota do Angico, Lampião havia sido morto juntamente com seus companheiros, surpreendidos pelas forças policiais conhecidas como volantes.

O nome ficou ressoando em minha cabeça.

Lampião.

Eu já conhecia alguma coisa sobre o personagem, como praticamente todo brasileiro conhece, mas ouvir aquela história naquele lugar, tendo diante dos olhos o próprio Rio São Francisco e aquelas paredes de pedra que pareciam guardar segredos de outros tempos, produziu em mim uma curiosidade diferente.

Quem teria sido, afinal, aquele homem?

Um bandido?

Um herói?

Um homem cruel transformado em lenda?

Ou talvez todas essas coisas ao mesmo tempo, dependendo de quem contasse a história?

O pacote turístico incluía o almoço em um restaurante rústico à beira da represa e, quando nos aproximávamos das mesas, o cicerone fez outro anúncio que aumentou ainda mais minha curiosidade:

— Depois do almoço, não deixem de conhecer Dona Expedita, filha de Lampião, que os receberá com sua filha Vera.

Aquela informação mudou completamente o meu interesse pelo passeio.

Dona Expedita, filha de Lampião.

A mulher nos recebeu com simplicidade e, aos poucos, foi contando um pouco de sua história. Disse que, ao nascer, fora entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos e que, até a morte de Lampião e Maria Bonita, havia sido visitada por eles apenas três vezes.

Então disse algo que me surpreendeu:

— Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava no colo para conversar.

A frase ficou comigo.

Até aquele momento eu vinha tentando conhecer Lampião como personagem histórico. De repente, porém, sua filha me apresentou uma outra imagem: a do pai que a colocava no colo.

Era uma lembrança simples, quase doméstica, e talvez justamente por isso tão forte.

Naquele instante compreendi que, por trás de toda figura histórica, existe uma pessoa que foi pai, filho, irmão, amigo ou inimigo de alguém. A História registra os grandes acontecimentos, mas muitas vezes é a memória das pessoas comuns que consegue devolver humanidade aos personagens que o tempo transformou em lenda.

Voltamos para Aracaju, mas Lampião continuou comigo.

Eu queria saber mais sobre aquela figura que atravessava as fronteiras de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia e que parecia ter sobrevivido ao próprio tempo.

Foi então que me lembrei do contador de histórias que havia visto no Mercado Municipal.

No último dia da viagem, voltamos ao mercado.

E encontrei um verdadeiro espetáculo nordestino.

Havia lojas, barbeiros, cabeleireiras, manicures, vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, grupos de forró, dançarinos e tocadores. Era um daqueles lugares onde o comércio e a cultura parecem ter feito um acordo para viverem juntos.

Fui direto à bancada dos causos e das lendas.

E lá estava ele, cercado de gente e de repentistas.

Foi ali que conheci João Firmino Cabral, mestre da literatura de cordel, um homem que parecia compreender que determinadas histórias não foram feitas para permanecer quietas dentro de livros: elas precisam ser ditas, ouvidas e novamente contadas.

Naquele momento, João lia trechos de um livreto chamado Lampião — Herói ou Bandido.

Parei para ouvi-lo.

Ao final, comprei um exemplar e pedi que o autografasse. Trocamos cartões e falei sobre minha paixão por escrever. Confesso que, depois de tudo que havia ouvido, de herói eu ainda tinha dificuldade para enxergar Lampião.

João, porém, não parecia preocupado em me convencer de coisa alguma.

Ele simplesmente contava.

E talvez seja justamente aí que esteja a força do cordel.

O cordelista não precisa dar a última palavra. Ele apresenta o personagem, coloca a história diante do povo e deixa que cada ouvinte tire suas próprias conclusões.

Foi assim que João me contou uma passagem envolvendo Padre Cícero.

Segundo o causo, Padre Cícero teria mandado um recado a Lampião:

— Virgulino, meu afilhado, venha urgente! A Coluna Prestes quer invadir Juazeiro, saquear a cidade, queimar o mercado e matar o povo romeiro.

Lampião teria atendido ao chamado. Ao entrar em Juazeiro, os invasores, sabendo de sua presença, recuaram. Em agradecimento, recebeu o título simbólico de Capitão e, ao partir, teria cantado pelas ruas:

— O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!

João continuou contando outras curiosidades.

Lampião havia sido criado com sete irmãos, três dos quais também se tornariam companheiros de cangaço. Sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês e possuía habilidade com o couro, confeccionando seus próprios chapéus e indumentárias.

A imagem que se formava diante de mim era cada vez mais complexa.

Não era apenas o homem bruto da peixeira.

Era também um personagem cheio de contradições, capaz de produzir medo e admiração, violência e poesia, brutalidade e cuidado com a própria aparência.

Talvez fosse justamente essa mistura que tivesse permitido que sua figura ultrapassasse a História e entrasse definitivamente no imaginário popular.

Mas a História tinha uma data para encerrar a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, na margem sergipana do São Francisco, uma tropa alagoana surpreendeu o bando. O combate durou poucos minutos e, entre os mortos, estava o temido Lampião.

Terminava ali a saga do pernambucano que havia entrado para o cangaço depois do assassinato do pai e que, juntamente com três irmãos, jurara vingança. Ele se juntara ao bando de Sinhô Pereira e, quando este deixou o cangaço, o jovem Virgulino, então com apenas 24 anos, assumiu o comando.

Nascia o Lampião que entraria para a história.

Durante anos, perseguiu-se e foi perseguido pela caatinga, até chegar àquele desfecho.

Depois de sua morte, muitas histórias começaram a circular. Falava-se de tesouros enterrados, de ouro, de dinheiro e das riquezas que os cangaceiros teriam escondido pelo sertão. Quanto mais o tempo passava, mais a fronteira entre o que realmente acontecera e aquilo que o povo imaginava parecia desaparecer.

E talvez seja exatamente assim que nascem as lendas.

A História conta o que aconteceu.

O povo acrescenta aquilo que gostaria de ter visto acontecer.

E o contador de histórias mistura as duas coisas com tanta habilidade que, depois de algum tempo, ninguém mais sabe onde termina uma e começa a outra.

Foi então que percebi que Lampião, embora morto há décadas, continuava vivo.

Não como homem.

Como personagem.

Vivo na memória popular, nos livros, nos folhetos de cordel, nos causos contados nas feiras e nas conversas de quem conhece o sertão.

E, depois de tudo o que havia ouvido e visto, senti vontade de deixar minha própria imaginação entrar naquela história.

Foi assim que nasceu o causo que segue.

LAMPIÃO E O “LAMPARINA”

Conta-se que uma pequena cidade do sertão já não aguentava mais as passagens do bando de Lampião. A vila ficava justamente numa das rotas utilizadas pelos cangaceiros e, sempre que apareciam, deixavam atrás de si medo, confusão e uma população obrigada a suportar as exigências daqueles homens.

O prefeito, cansado de viver naquela situação, resolveu tomar uma providência. Reuniu alguns jagunços e contratou-os para proteger a cidade. Os homens se instalaram no galpão da Prefeitura, armados e cheios de confiança, pois sabiam que Lampião poderia aparecer novamente a qualquer momento.

Numa noite escura, o bando se aproximou da cidade e Lampião decidiu acampar ali mesmo, ao pé do fogo. Chamou o cabra Azulão e mandou que levasse um bilhete ao prefeito, exigindo dinheiro e comida para seus homens.

Azulão partiu.

Ao chegar à cidade, percebeu logo que havia alguma coisa diferente. Nas entradas da vila havia jagunços armados, vigiando as ruas. Um deles, ao ser perguntado sobre o motivo daquela movimentação, respondeu que estavam ali a mando do prefeito para espantar o bando de Lampião.

Azulão não se intimidou. Foi até a Prefeitura e entregou o bilhete.

O prefeito, sentindo-se protegido pelos novos defensores, respondeu com uma coragem que talvez não tivesse demonstrado sozinho:

— Manda Lampião ir tomar no rabo! Aqui quem manda sou eu. Que venham, se tiverem coragem. Agora tenho proteção.

Azulão voltou e contou tudo a Lampião.

O cangaceiro ficou furioso.

— Quantos cabras tem na vila?

Azulão hesitou.

— Sei não, capitão. Tem gente escondida, não contei.

Lampião perdeu a paciência.

— Seu inútil! Não serve pra nada!

Mandou então alguns homens descerem o morro para observar melhor a situação. Os jagunços, ao perceberem que se tratava de gente do bando de Virgulino, trataram logo de desaparecer. A valentia que parecia tão grande quando estavam protegidos pela escuridão e pelas armas se dissolveu rapidamente diante da realidade.

Quase todos fugiram.

Restou apenas o chefe.

Na manhã seguinte, Lampião mandou seu irmão Bico-Fino verificar o terreno.

Pouco depois, ele voltou.

— Meu irmão, só tem um cabra. Os outros fugiram.

Lampião sorriu.

— Então vamos!

O bando entrou na cidade.

O prefeito, desesperado, correu até o chefe dos jagunços e gritou:

— Dê um fim nesses bandidos!

O homem, ainda tentando manter a fama de valente, abriu a janela e chamou:

— Venham aqui! Vamos acabar com eles!

Esperou.

Nada.

Chamou novamente.

Silêncio.

Foi então que percebeu que estava sozinho.

Mesmo assim, saiu para a rua.

E lá estava Lampião, esperando por ele, com a peixeira na mão.

O homem que até poucos minutos antes se julgava o grande defensor da cidade começou a perder a valentia. As pernas tremiam e o medo tomou conta de seu corpo.

Lampião olhou para ele e perguntou:

— Ué, seu frouxo, tu não é macho? Sabe com quem está falando? Sou o temido Capitão Virgulino, o Rei do Cangaço. E tu, quem é?

O homem, já completamente desarmado pela própria covardia, encolheu-se, ajoelhou-se diante de Lampião e respondeu:

— Sou o Lamparina...

Fez uma pausa.

Olhou para o chão.

E completou:

— ...o Rei do Cagaço.

E foi assim que, depois de ouvir tantas histórias sobre Lampião, acabei criando mais uma.

Talvez tenha acontecido.

Talvez não.

Mas pouco importa.

No sertão, algumas histórias não precisam de certidão de nascimento.

Elas simplesmente começam a ser contadas.

Passam de uma boca para outra, ganham um detalhe aqui, outro ali, recebem uma risada, um exagero, uma lembrança e, quando percebemos, já se transformaram em parte da memória de um povo.

Foi o que aconteceu comigo naquela viagem.

Voltei para casa com fotografias dos cânions, lembranças do Velho Chico, o folheto de cordel de João Firmino e, principalmente, com a recordação daquela frase de Dona Expedita, quando falou do homem que era seu pai e não apenas do cangaceiro que o mundo conheceu.

Foi então que compreendi que Lampião poderia ter morrido naquela madrugada de julho de 1938, mas o personagem não morreu.

Ele continua vivendo no cordel, nos causos, nas feiras, nas conversas e na imaginação de quem ainda encontra prazer em sentar-se para ouvir uma boa história.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma lenda.

O homem desaparece.

A história permanece.

E, enquanto houver alguém disposto a contar, alguém disposto a ouvir e alguém disposto a acrescentar mais um pedaço de imaginação ao que já foi contado, Lampião continuará atravessando a caatinga.

Não necessariamente montado num cavalo.

Não necessariamente empunhando uma peixeira.

Mas cavalgando pela memória de um povo que aprendeu a transformar a própria história em literatura.

Foi assim que voltei de Sergipe.

Com a sensação de que não havia simplesmente conhecido um lugar.

Havia encontrado personagens.

E, entre eles, um que parecia insistir em permanecer no caminho.

Talvez seja por isso que, quando penso naquela viagem, ainda consigo imaginar o Velho Chico correndo silenciosamente entre os paredões, o mercado cheio de vozes, o cordel aberto nas mãos de João Firmino e, ao longe, perdido entre a poeira e a lembrança, um cavaleiro atravessando o sertão.

Lampião ainda cavalga.

Não pela estrada.

Pela memória.

E talvez continue cavalgando enquanto houver um sertanejo, um poeta, um cordelista ou simplesmente alguém disposto a dizer:

— Dizem que... 


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