CONTOS - VÁRIOS

JOGOS DE FUTEBOL


Nesta segunda parte, abordarei a passagem do tempo em que a molecada da rua estava com a mente voltada para os jogos de futebol, em que a rivalidade entre as ruas era imensa. Os redutos da “bola” estavam inseridos em dois contextos. O primeiro era o time da nossa rua. O segundo era a turma lá do final da Avenida Paula Penteado, o terrível time do São Cristovam, cuja sede era no bar que lhe tinha emprestado o nome.

Tinha um “moleque” já meio grande, que nos metia medo; era o famoso “tio Panca”, (apelido colocado por nós). Naquela época, as pessoas que se destacavam eram assim chamadas. Tratava-se de uma figura meio rocambolesca, andava todo se requebrando (no bom sentido), achava que era um ótimo jogador e exigia que os menores carregassem os seus pertences até o campo.

Nós, do lado de cá, éramos o TORINO, nome colocado em homenagem ao clube Italiano que veio jogar no Brasil; depois foi para a Argentina e, no voo de volta, houve uma queda, com apenas um sobrevivente que foi o Bacigaluppe, o goleiro, que ficou marcado pela tragédia e também por suas ótimas defesas. O time Italiano foi recomposto depois de algum tempo e existe até hoje.

A nossa equipe era dos jogos de “várzea”, entre nós, todos descalços, sem camisa e não tinha número de pessoas definidas: conforme chegava ia entrando.

Em alguma ocasião, fazíamos alguns joguinhos com a turma da rua de baixo e a de cima.

Antes das brincadeiras com a bola, tínhamos o divertimento do jogo de botão; e nos momentos que antecediam as partidas, no campo improvisado, em uma folha de compensado, pensávamos em formar um time com mais alguma organização. Achamos que deveríamos nos espelhar no São Cristovam, muito conhecido por aqueles lados e, um dia, resolvemos assistir a uma partida deles.

Ficamos empolgados e começamos a pensar em comprar um jogo de camisa etc., para jogar contra. As reuniões para tal eram na casa do Zé Macabro, também conhecido por Zé da Esquina. A casa dele era de dar medo, antiquíssima, com telhas quebradas e o madeiramento cheio de cupim; enquanto fazíamos os jogos, aquela serragem do bichinho caía em nossas cabeças. Todos diziam “algum dia esse telhado cai”. Cada um tinha um time, encarnado pelos queridos na época: Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Portuguesa, Juventus, Nacional, alguns gostavam dos times do Rio: Flamengo e Fluminense.
A turma que não estava jogando ficava vendo, da janela, a moçada descer a Rua Engenheiro Monlevade, se dirigindo para a Escola Anchieta.

Tínhamos uma  diversão que  era amarrar uma linha fininha em uma cédula de dinheiro da época e deixar na calçada; no momento em que as pessoas abaixavam para pegar, puxava-se a linha um pouquinho, abaixava novamente etc.; e continuávamos a puxar, até a pessoa desistir e olhar para cima e perceber a brincadeira e xingar.  Muita briga aconteceu por causa disso. As meninas daquele nosso reduto (irmãs e primas) assistiam a tudo do outro lado da rua, dando sonoras gargalhadas (Maria Clara, Maria Helena, Lení, Cecília, Verinha).

Depois de algum tempo, conseguimos comprar um jogo de camisa oficial; o valor pago foi resultado de várias rifas que fizemos, visando angariar fundos para os apetrechos e também a bola, o elemento principal.
Tudo pronto, fomos, um sábado à tarde, até a sede do time rival para marcar um jogo. Quem veio conversar foi o “Tio Panca”, que já queria saber quem era o nosso melhor jogador, se tinha alguma jogada preparada etc.

Percebemos que queria tirar de nós informações e não gostamos nada. O Aécio, que era um dos nossos jogadores, já queria brigar. Amenizamos a situação e ficamos conversando sobre os times da capital; logo, em seguida, veio nos oferecer cerveja e pinga.

Não éramos de bebida, mas para não fazer desaforo, o nosso r
elações-públicas, o popular Zé Macabro, (esse era bem mais velho que todos e chegado a uns “tragos”), falou que tínhamos que tomar uns goles; saímos de lá meio “alto” e, o jogo marcado para o próximo domingo.

No dia do jogo, fomos para o campo do “mina”, porque existia, dos lados, várias nascentes, e que ficava lá pelas bandas do bairro do Vianello. A batalha foi sofrida, o time deles era mais equilibrado, tomamos um sufoco e ficamos só no meio de campo e na retaguarda, com Arnaldo Gasparotto, conhecido por “Gaspar”, jogando muito no meio de campo. Na defesa, o zagueiro central Aécio, destruindo tudo. 

Ficamos, então, aguentando aquele “tranco”; não adiantou muito, no inicio do segundo tempo, levamos um gol.
Nosso técnico, que também era o Zé Macabro, ficava do lado da trave do time adversário, gritando e esbravejando; tendo na mão um copo de cerveja, pedia para atacarmos sem parar.

Em um dado momento, o nosso craque de bola, o “Crau”, avançou pela direita, deu dois dribles no zagueiro e chutou forte para o gol; a bola ia saindo pela linha de fundo, foi quando o nosso treinador que estava junto à trave, colocou aquele pezinho torto dentro do campo, e desviou a bola para a rede. Gooool! Foi uma festa, todos se abraçando.

Nesse momento, vimos o Zé levando muitas porradas dos jogadores do time adversário; na verdade, foi ele quem marcou o gol de forma irregular, mas o juiz, que era da nossa turma, validou.

Saímos em sua defesa e a briga se generalizou. Resultado: saímos todos meio pelados, correndo com as roupas nas mãos, retiradas do vestiário e colocadas atrás da trave por algum menino da turma; se fôssemos até lá, teria mais confusão, uma vez que, no intervalo, nos disseram que iríamos apanhar no final, se empatássemos ou ganhássemos o jogo.

Como éramos minoria, saímos correndo com aquele bando de gente atrás de nós, até perto da Av. Paula Penteado, onde era o nosso reduto; então, eles voltaram.

Fizemos outros jogos memoráveis, até que, um dia, o Aécio, que era o cara que praticamente “fundou” o time, mudou-se da Rua Zacarias, levando as camisas e bolas... Então, acabou o time Torino, da Rua Zacarias.

Depois de algum tempo, montamos outro time com o nome de GRENÁ, por causa da cor das camisas. Os jogadores eram os mesmos. Quem tomava conta do time era o meu primo, o Tecão. As confusões eram as mesmas, mas alguns jogadores novos apareceram, como por exemplo, o Airton Baiano e seus irmãos, que moravam também na Rua Zacarias.

Quem levava o time para jogar em locais distantes era o meu primo Serjão Gasparotto, que era vendedor de macarrão “Gallo”. O caminhão tinha algumas repartições internas e todo fechado; íamos lá dentro somente com uma porta aberta para não morrermos sufocados. Nos dias de semana, ele recrutava alguns parentes para ajudar na descarga dos pacotes de macarrão. Lembro-me que meu irmão Luizinho sempre estava presente, viajando até para outras cidades.  
Depois de algum tempo, veio o “futsal” (futebol de salão). 

Quem nos apresentou a novidade foi o Tecão, que, já famoso como “cartola”, tomava conta de um time chamado “Credi-City”, no qual fui convidado a jogar. O time era poderoso, fomos campeões da cidade por duas vezes. Tinha um jogador excepcional, o Ernestinho, que mais tarde jogou no time do Palmeiras e na seleção do Estado de São Paulo e, depois, no Unidos, do Toninho Gebram, que também foi campeão Estadual.

Após o sucesso do time em que eu e o Tecão participávamos, veio a idéia de formarmos um time de futsal. Nessa ocasião, o grupo de parentes e amigos tinha evoluído muito. Conseguimos harmonizar um belo time, (que ainda não tinha nome), formado pelo primeiro e segundo quadro e começamos a jogar no Ginásio Municipal, aos domingos pela manhã.

Nessa ocasião, assistíamos a vários jogos de outros times e, uma noite, fomos ver o primeiro jogo de um torneio que levava o nome de Marechal Mallet, patrocinado pelo Exército Brasileiro, aqui na cidade.

Nas conversas com as pessoas, recebíamos incentivo para participar no próximo ano, mas tínhamos que ter tudo organizado, nome do time, camisas etc.; passamos, então, a desenvolver ações para tal empreitada.

A fundação do time foi na casa do Junior, durante a noite; cada participante levou sugestões para o nome. O meu nome sugerido foi o de “Sardonicus”, que acabou sendo o escolhido pela madrugada afora, após muitas conversas com a geladeira que, diziam, andava pela sala, parecia um “robot”.
A origem do nome foi em razão do comportamento da turma; ao pé da letra, “sardonicus” quer dizer riso forçado e sarcástico.

Começamos com bastante organização, participando em torneios de menor expressão, até que chegou o segundo campeonato do Marechal Mallet.

Os times convidados pelo pessoal do exército eram da elite da cidade e fomos lembrados pelo nosso amigo Carlão. 

Soubemos, então, que o “Unidos”, campeão estadual, estava inscrito, com jogadores da estirpe do Ernestinho, Gerson, Cavalete, Airton, Gordo, Pezão; enfim, tinha até três times, um entrava na quadra e outros ficavam na reserva; todos eram craques da bola pesada, da região e da Capital, tudo “bancado” pelo Toninho Gebram.

Nesse torneio, que era em forma de eliminatórias, fomos “sorteados” para jogar com os Unidos. O retrospecto deles era só goleadas de dezoito, vinte e três a zero por aí afora.

Fomos para o jogo. Nos momentos que antecederam, o nosso amigo Carlão Iamonti, Juiz de bola no torneio, veio em nosso vestiário e falou que tínhamos que marcar no meio da quadra e segurar o jogo, para não levar goleada.

Fizemos isso no primeiro tempo e perdemos por um a zero. No segundo, não aguentamos o preparo de um campeão estadual; trocavam de jogadores como se fosse uma banalidade, um melhor que o outro. Quando a contagem aumentou e nos conscientizamos que não iríamos ganhar, pedimos o nosso driblador oficial, o Rui, para fazer umas graças em cima do Gerson, (jogador muito famoso, campeão e capitão da seleção estadual).

Não deu outra! Ele começou a driblar, jogar a bola no meio das pernas, até ele agarrar o Rui com as mãos e pedir para não fazer isso.  A nossa sensação dentro da quadra era de vitória, em razão de ouvirmos os aplausos ao nosso SARDÔNICUS, com a ousadia do Rui.

No final, em um momento sublime e devaneio virtual, sentimos que o adversário começou a nos respeitar, até que ouvimos o apito final do Carlão; quem sabe, a pedido do Gebram, terminou a partida, porque estavam passando vergonha.

Fomos aplaudidos e o Rui virou o herói da torcida, que lotou as dependências do Quartel.
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REMINISCÊNCIAS...
Quando terminei essa crônica, fiquei olhando as fotos do time e pensando onde estariam aqueles magníficos companheiros de momentos mágicos de nossas vidas.

Em um primeiro momento, refleti sobre os ausentes, levados pela vida a percorrer outros caminhos no reino do céu. O primeiro foi o meu primo Tecão, companheiro de outras jornadas futebolísticas, mais precisamente nos últimos anos, lá no campo do Paulista Futebol Clube, sempre incentivando os momentos difíceis do clube da terra querida.

Depois, foi a vez do Téia, Ramos e o Ismael. 


BARQUINHO DE PAPEL



A menina-moça estava sonhando acordada, naquela furtiva tarde, em sua carteira escolar. Fingia que estava ouvindo o seu professor naquela enfadonha aula de história geral. O mestre percebeu sua distração e não a despertou daquele sublime momento, para não causar um lapso em sua memória, apagando os registros que, até então, contabilizava.

Ainda naquele estado de transe, retirou de sua mochila o seu caderninho de segredos que não repartia com ninguém; registrou com rapidez o que estava em sua mente e o guardou, rapidamente.

O que teria escrito? Palavras que só sua mente poderia expressar naquelas poucas linhas. Foram sentimentos guardados na memória do tempo, de sua adolescência de doces crenças.

No intervalo tradicional, sentou em um banco de cimento em frente ao belo lago do seu recanto estudantil e, delicadamente, arrancou aquela página contendo as anotações e fez um barquinho, colocando-o na água. Como não se movimentava, assoprou com toda força para que levasse em frente as suas fantasias.
De repente, um vento forte o fez alçar voo, pousando em uma poça, deixando-a preocupada que alguém pudesse apanhar e desvendar o segredo das palavras.
E... mais que de repente, o servente da escola, que por ali passava, recolheu aquele pedaço de papel transformado em um barquinho e o levou para casa, uma vez que estava muito bonito e colorido.

Ao chegar, ofertou a sua neta, que o abriu e constatou que a menina da escola amava o professor que era o seu pai; e descobriu, naquele momento, que tinha ganhado uma irmã, apaixonada por seu pai.


O
ANDARILHO






Em um dia desses qualquer, o Prefeito de uma cidade grande parou o seu carro, por pouco tempo, em um cruzamento, aguardando o sinal de abertura para seguir o seu caminho habitual.
Sobre a calçada oposta, avistou uma pessoa maltrapilha e de idade avançada, parecendo ser da raça oriental, caminhando com dificuldade, sem um calçado para aqueles pés sujos, encardidos e machucados.

Estendia a mão para as pessoas e pedia uma ajuda, tinha fome e necessitava de um pedaço de pão ou de outra substância qualquer, para acalmar a dor.

Seu andar era lento, carregava sobre as costas um saco contendo quinquilharias, que um dia, certamente, fora de alguma utilidade. O Prefeito seguiu o seu caminho e ficou durante o trajeto, pensando naquela figura que, pelo espelho do retrovisor, foi ficando cada vez menor, até que, virando à esquina, não o viu mais.

Depois de alguns dias, iria passar no mesmo local e logo veio a sua mente a figura daquele homem: estaria ainda lá? Logo chegando, avistou-o. Desta feita, não seguiu;

Estacionou o carro no meio-fio e ficou observando suas atitudes.

Quando recebia uma atenção de uma pessoa caridosa, alisava a barbicha branca quase rala e fazia uma reverência, própria da raça oriental. Usava um capote marrom até os joelhos, uma calça preta e os pés continuavam sem calçados e aquelas feridas estavam em uma condição pior.

Outra pessoa ao seu lado também observava aquele personagem, que intrigava com seus gestos; logo mais, se acercou outra e já eram cinco indignados com a situação.

Trocaram algumas ideias e, no final, o prefeito solicitou a presença do SOS. Depois de uma meia hora, chegou uma assistente social, que se dirigiu ao senhorzinho.

O recolhimento foi feito sob os olhares de muitas pessoas. Entre os presentes, um senhor, que se chamava Salvador, foi consultado pela assistente se poderia acompanhá-lo até a entidade, para dar um apoio e conversar com o velhinho. Chegando ao recinto, foi explicado que o ancião poderia permanecer por lá, no máximo, dois dias.

No dia seguinte, comovido com o fato, Salvador foi até o local para conversar e verificar suas condições, encontrando-o com uma aparência melhor, sem aquele capote horrível e com calçados.

Começou então a ouvir a sua história...

Tinha uma família, esposa e seis filhos, que foram se casando e deixando o seu lar, até que o último, que era um filho adotivo, também se foi. Ficou com a mulher até a sua morte, o que o deixou em depressão e foi se sentindo muito sozinho; os outros filhos moravam distante, não vinham visitá-lo.

De vez em quando, o adotivo, que morava na mesma cidade, fazia uma visita, mas não podia ajudar, porque não tinha posses, diferente dos outros irmãos, que estudaram e estavam bem de vida.

Já doente e com depressão, não conseguia mais pagar o aluguel, até que, um dia, foi despejado e não teve outra opção a não ser viver pelas ruas; falou bem sobre o adotivo, mas reconheceu que ele não tinha recursos para cuidar dele.

Perguntado sobre sua religião, disse que frequentava um templo budista na cidade onde constituiu a família, onde estão os seus filhos legítimos.

Salvador solicitou uma conversa com o responsável pela entidade, para que pudesse permanecer mais um tempo, enquanto ele verificava se podia resolver melhor aquela situação e foi-lhe respondido que só com autorização do prefeito. Ele não teve dúvidas: solicitou uma audiência e obteve a permissão para mais alguns dias, pois o prefeito se lembrou do caso.

Com o desenrolar dos dias, Salvador foi à procura do filho adotivo, descobrindo que ele, Felício, trabalhava em sua própria fábrica de móveis, como ajudante, e não podia trazer o pai porque não tinha renda suficiente.

Salvador melhorou sua condição financeira, porque era um ótimo funcionário; e lhe deu uma cama para acomodar o Pai.

Depois de uma semana, foi até a casa de Felício para ver como estava a situação e se deu conta de que o velhinho ainda permanecia com aquele saco de quinquilharias que tinha quando vivia pelas ruas. De lá, tirou uma estatueta de um monge budista e entregou a Salvador, como prova de gratidão.

Neste momento, falou: “Eu me chamo Kenzo; agora, estou contente aqui com o meu filho adotivo, que me acolheu com sua ajuda”.


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UM CONTO ABORDANDO A FINAL DO REINADO DE JOÃO PAULO II





Essa narração não é bem a trajetória real dos acontecimentos... Na minha visão de escritor, a imaginação campeia solta em busca de um bom motivo para escrever uma crônica ou um conto, mas o fato da morte desse grande estadista foi verdadeiro. Estou falando do Papa João Paulo II, nascido Karol Jozef Wojtyla.

O seu longo reinado estava chegando ao fim. Sua morte se aproximava rapidamente. Aquele homem, já considerado pela humanidade como um santo, necessitava contar o segredo que guardou por tanto tempo. O povo, reunido em orações na monumental praça rodeada por  estátuas de santos, aguardava, em silêncio, o momento final.

Ele já enxergava a alma em levitação, querendo deixar o corpo terreno. Sua luta neste mundo foi produto de uma jornada de muita compreensão e perseverança entre os homens do povo e os Chefes de Estado com quem se reuniu inúmeras vezes, na busca incansável pela paz entre os seres humanos providos de bons pensamentos.

Sentia uma emoção incontrolável em razão da doença e do avanço da idade, mas tinha que revelar o que guardou por muito tempo. Imaginou como seriam os esforços de seu confessor para realizar a difícil tarefa da revelação, em razão de um mundo atormentado onde as religiões andam de olhos vendados, ignorando as vidas perdidas em guerras políticas e insanas dos fanáticos.

Em sua cabeceira encontravam-se seus assessores diretos, alguns em fervorosas orações, outros já providenciando o protocolo para os dias que se seguiriam ao seu funeral. Ele estava ali, inerte, e sem forças nos intramuros de seu reduto religioso.

Na porta de seus aposentos estavam seus soldados, com uniformes bufantes e coloridos desenhados por Michelangelo, com a arma medieval, a alabarda, uma espécie de lança com uma placa de metal em forma de meia-lua na ponta. São os tradicionais guardas suíços que fazem a proteção pessoal do Sumo Pontífice, no imenso palácio, há mais de quinhentos anos.

Na parede da minha memória sobrou uma lembrança e, em forma de “momentos do passado”, voltei a esse local, onde, com a minha esposa, assistimos a uma missa campal, com ele presidindo os sacerdotes nos procedimentos religiosos, embaixo de chuva e, mesmo assim, os fiéis permaneciam naquele solo sagrado. 

Ao fundo, enxergávamos a Basílica, erguida no mesmo local onde Simão Pedro, o primeiro Papa, havia sido crucificado no ano 67 d.C.. Foi daí que a Cidade do Vaticano começou a surgir, em 313, com a conversão do Imperador Romano Constantino ao cristianismo.

Foi a primeira grande aliança política da Igreja, que, a um só tempo, livrou-se das perseguições e pôde construir a Basílica de São Pedro com ajuda oficial.

A história da instituição religiosa, uma invejável trajetória de sobrevivência e expansão ao longo dos séculos, seguiu a lógica de qualquer país ou governo em busca do poder.
Nas vezes em que lá estive, consegui arrebanhar muitas informações, por ser um assunto de que gosto muito. Soube que, com apenas mil habitantes fixos, esse pequeno grande país, que é a cidade do Vaticano, realiza o milagre de falar em nome de mais de um bilhão de católicos, rebanho formado por uma em cada cinco pessoas da população mundial.

Chefiado pelo Papa, soberano com poderes absolutos, o Vaticano é uma inusitada monarquia em que o trono não é transmitido por herança, mas disputado no voto, em eleições quase sempre dramáticas, das quais os Cardeais, e só eles, participam na dupla condição de eleitores e candidatos.

Esse é o foco desse conto, com personagens reais e fatos imaginários, que abordarei daqui em diante. O enriquecimento do assunto se fez presente nas visitas internas que fizemos aos museus e outras dependências, culminando na Capela Sistina, que, além de ser um local de peregrinação, é onde se conhece um novo Papa, após os funerais do antecessor. Assim, vislumbrei um dia escrever sobre o assunto em forma de ficção, obra da fértil imaginação de quem começa a escrever.

Antes de seu suspiro final, João Paulo II mexe a cabeça para o lado esquerdo de sua cama onde, sobre um móvel centenário, havia uma antiga bíblia. Olhando firmemente, fez um sinal com os olhos ao assessor direto, o cardeal Joseph Ratzinger.

Este, sabendo e conhecendo todos os seus gestos transmitidos ao longo do secretariado, entendeu o recado e se aproximou com delicadeza e suavidade.

Apontou para a bíblia que continha um crucifixo separando algumas anotações feitas dias antes. Conversaram em voz praticamente inaudível, aos sussurros e lágrimas; ninguém se aproximou, compreendendo o colóquio religioso daquelas duas criaturas que se entenderam perfeitamente durante os longos anos de cumprimento do dever em nome de Jesus Cristo e Deus nosso Senhor.

Criou-se e instalou-se ali, O Peso de Um Segredo e o Limiar de Uma Nova Era.

Quase sem forças para andar tamanha era a carga que lhe pesava sobre os ombros, sentiu um baque profundo, empalideceu, suas pernas tremeram, sua voz recolheu-se em estado de profunda emoção e não conseguiu proferir uma só palavra aos demais presentes. Viu seu mentor partir, ajoelhou-se em grande respeito e recolheu-se em meditação na capela Sistina, fitando o painel do Juízo Final, de Michelangelo.

Olhando aquela magnífica obra de arte no teto da capela, bailou, em sua mente, a disposição que lhe pesou quando da revelação de João Paulo II, entregando-lhe a missão e a dificuldade que teria que desempenhar para a realização.

Imaginou que se fosse eleito Papa, deveria se espelhar no “drama” que viveu Miguelangelo com o Papa Julius II, transformando aquela empreitada em “agonia e êxtase” e pôde retratar, em um grande afresco, as pinturas na abóboda da capela.

Com esse pensamento, continuou em meditação, pediu ajuda celestial aos céus e desenvolveu um plano que começou arquitetar mentalmente. Não tinha muito tempo, pois, logo em seguida, vieram ao seu encalço, os representantes da sucessão, informando-lhe que, a partir daquele momento, se tornaria o “camerlengo’, figura que toma as rédeas da igreja até a eleição de um novo papa”. 

Essa condição foi uma das revelações; João Paulo já havia recomendado aos agentes da sucessão quem seria o camerlengo, fato que o ajudaria a se desincumbir da missão, pois ele seria o condutor da sucessão que aconteceria, na capela sistina, nos próximos dias após as solenidades do funeral.

La fora, na praça, o povo entoava canções de louvores ao seu belo reinado de vinte e seis anos; ao término, ecoavam as palavras na língua italiana, “Santo Súbito”.

Passadas todas as emoções do sepultamento, os cardeais de todo o mundo, que vieram para o funeral, começaram a se reunir na capela, sob a direção de Ratzinger, seus assistentes e a cúpula sucessória composta de cardeais com menos de oitenta anos.

Após vários dias de reuniões pela manhã, tarde e noite, o povo reunido na praça viu, finalmente, a fumaça branca sair pela chaminé da Capela. Antes, o que se viu durante dias foi a fumaça preta, informando que ainda não havia nenhuma decisão, mas, na manhã do quinto dia, saiu o veredicto; o representante da sucessão informou, da janela dos aposentos papal, a frase esperada por todo o mundo, uma vez que o evento estava sendo transmitido ao vivo por todos os meios de comunicação: “Habemus Papam!”.

O Cardeal Ratzinger tornou-se Bento XVI. Após alguns minutos, Sua Santidade chegou à janela, debruçou sobre a imensa toalha vermelha que forrava o local, aproximou-se dos microfones e disse: “Espero não me atrapalhar com a língua italiana, pois a emoção de conduzir esse enorme rebanho é muita”. Vou trabalhar como o meu antecessor, o querido João Paulo II.

Recolheu-se para seus aposentos e pediu, em baixa voz, ao seu camareiro que chamasse o Papa Ângelus Nero I. Como? Alguns dos seus íntimos assessores estranharam o fato. Mas o certo é que, na Capela Sistina, foram eleitos dois papas, dentro de muito mistério e segredo.

Começava a ser cumprida, pelas mãos da igreja católica e do novo Papa, a revelação do segredo informado ao então cardeal Ratzinger, por João Paulo II.

Como poderia ser a Igreja católica conduzida por dois Papas? O que se discutiu e foi acertado durante aqueles dias de reuniões e conferências dentro da capela foi o seguinte:

- O papa Bento XVI deveria e foi eleito o novo Papa, uma vez que era o sucessor natural de João Paulo II.

- O papa Ângelus Nero I (anjo negro), depois de conversar longamente com Bento XVI, despojou-se de suas vestes sacerdotais, travestiu-se de homem comum do povo e, já falando uma linguagem universal, saiu pelos subterrâneos do Vaticano, tomando rumo ignorado, com a missão de evangelizar os povos de todo o mundo para uma única religião.

Após anos de peregrinação pelo mundo, voltou ao Vaticano e ficou sendo o assessor direto de Bento XVI, sendo que, após a sua morte, será conduzido pelas mãos de representantes de todos os governos ao centro de um poder único, como Nações Amigas e Unidas, estabelecendo, finalmente, a paz no mundo.

E assim, o último Papa católico e o primeiro da raça negra transformar-se-ão em arautos da paz mundial, como símbolo de esperança de um mundo melhor.

Em seu discurso, falará daquela janela para o mundo em um único idioma; “Povos de todas as raças, hoje começa uma nova era: é o ano “I”; sem um Papa para conduzi-los, o mundo falará um único idioma e haverá somente uma religião para os povos de boa vontade”.



DEPOIS DA CHUVA











Os últimos pingos da chuva ainda caiam desordenadamente sobre a calçada empoeirada. A água acumulada ia lavando suas impurezas; Uma criança caminhava por ela com uma das palmas da mão estendida, suplicando por alguma oferenda que alguém lhe pudesse entregar, para saciar sua fome.

Nada encontrando, voltou para junto da mãe que estava na esquina com a roupa molhada, tentando secar o cabelo que cobria a testa enrugada, marcada pela vida sofrida que lhe pesava sobre os ombros.

Em um dos braços, carregava outro filho menor que reclamava, como o primeiro, da dor da fome e, não sabendo se expressar de outra forma, gritava incessantemente, de tal forma que despertou, em alguns transeuntes, uma piedade sem tamanho e sem ação, observando o sofrimento daquela família, sem nada fazer.

Outros passavam apressadamente ainda correndo da chuva e reclamavam da obstrução da calçada causada pela mãe e as crianças, sentadas sobre o frio e úmido chão.

A tarde foi caindo, quase virando noite e ninguém se apiedou daquelas três criaturas que lá permaneciam, agora também com frio.
Do outro lado da rua, estava uma monumental praça da bela metrópole, ostentando ornamentos de uma cidade com uma situação privilegiada para as questões administrativas, mas de pouca solidariedade com as pessoas de menor posse e flagelados.

Na esquina, havia uma antiga igreja de fachada simples, mas com um nobre sacerdote, que avistou aquelas pessoas, na calçada, com as roupas ainda molhadas.

Pediu ao idoso sacristão que fosse até o local e que as trouxesse para dentro. O sacerdote estava contrariando as ordens superiores, levando aquelas criaturas para dentro da igreja e oferecendo abrigo noturno, mas não se importou: agiu com fé na religião e com o coração. Solicitou, então, ao ajudante que preparasse um café com bolachas, enquanto procurava, no depósito, roupas que haviam sido recolhidas na última campanha do agasalho, pois o frio já estava presente no corpo daquelas pessoas.

A jovem senhora e seus dois filhos foram para esse depósito onde receberam roupas secas e colchões colocados sobre algumas tábuas, para poderem passar a noite.
 A mulher se viu diante de um pequeno altar de origem barroca, com um santo olhando fixamente para ela, velando o sono daquela inocente família.

No dia seguinte, logo cedinho, o sacerdote se aproximou da senhora junto com o idoso sacristão e quiseram ouvir a sua história.

Após o seu relato, o sacerdote identificou a pessoa e constatou, por informações de tempos atrás, tratar-se de sua meia-irmã. Abraçaram-se muitas vezes... E, deixando os filhos com o sacristão, o sacerdote pediu-lhe que levasse os dois para uma creche mantida pela igreja, e ela ficou fazendo serviços de limpeza no humilde santuário.
Na visão daquela mulher simples, um milagre aconteceu, pois tudo a levou a esse pensamento e a uma exclamação de alegria e contentamento.

Mas o que é um milagre? Como saber, com certeza, que algo milagroso aconteceu?

As respostas não são simples e dependem do ponto de vista de quem as responde. Popularmente e principalmente nos povos de crença nativa, a definição de milagre é bem menos rigorosa, atribuindo a uma intervenção maravilhosa do Senhor Deus, um acontecimento que não segue o que é habitual na natureza e não tem outra explanação.   

Foi um milagre o reencontro desses irmãos?




A LENDA DO NEGRINHO DO PASTOREIO




As lendas desse nosso País são as mais variadas; estão mais acentuadas nos lugarejos distantes da nossa selva de pedra. Elas vagueiam pelos rincões, onde existe uma menor concentração de pessoas. O “contador” solta o verbo e a imaginação, fazendo a mente de quem ouve percorrer céus, terras e mares, aumentados pela crendice, perpetuando em seu bojo, caminhos inimagináveis. 

Certa ocasião, em viagem de férias pelo Sul do Brasil, mais precisamente na cidade de Gramado, na serra gaúcha, em uma noite de muito frio, após sair de um concerto musical, eu e a esposa tivemos a ideia de tomar um chocolate quente. Informou-nos uma das pessoas, a existência de um local, em uma rua que é conhecida como “A Rua Coberta”.

Era bem perto e fomos a pé, e logo percebemos a cobertura de telhas em arco em um de seus trechos, onde os turistas aproveitam a bela estrutura, cheia de bares e bistrôs, com um palco, no qual um conjunto de moças e rapazes se exibe, cantando músicas do folclore sulino. Ao lado, tinha uma fogueira; ao redor, fileiras de espetos com aquelas carnes preparadas com muito carinho e bom gosto por aquele povo, amante do churrasco e um bom chimarrão.

O alegre cantor do grupo, com vestimentas próprias da região, em um dado momento, apanhou uma espécie de vara que servia para direcionar o sapateado sobre a plataforma de madeira, e com suas longas botas, fazia um repique maravilhoso, emitindo sons de um sapateado lá dos pampas, arrancando aplausos das pessoas que estavam assistindo. 

Com aquela “vara”, que mais parecia um cajado, veio até uma das mesas e começou a “prosear”, informando que a próxima atração, seria uma música sobre uma lenda conhecida por “O Negrinho do Pastoreio”; afastou-se, em seguida, para reintegrar o conjunto no início da canção.
No decorrer dos versos, lembrei-me que seus integrantes, pareciam aquele famoso conjunto, “Os Farroupilhas”, que tanto se apresentaram em shows, teatros e muito nas redes de televisões, época que ainda existiam esses musicais.

Terminada a apresentação, o cantor, a pedido do público, veio até o centro da rua onde estavam postadas as mesas; foi solicitado então, que falasse mais sobre a lenda contida na canção. Com muita empolgação e todo vestido a caráter, foi falando com aquele sotaque peculiar:

- Olha aqui, moçada, sou gaúcho vindo lá do cafundó da fronteira, terra de índio e bugre bravo.

- Ta bom, eu sei disso, falou uma moça que estava mais perto; - queremos saber de toda a lenda desse menino negrinho, como aconteceu?

- Foi no tempo da escravidão, um senhor muito poderoso e rico, tinha em sua fazenda, uma criação de cavalos que era a sua paixão e também o seu sustento, uma vez que vendia, de quando em quando, lotes para um mercador que vinha de longe buscá-los.

- O filho desse senhor, falou o cantor/contador da lenda, era fruto de uma união com uma moça fina da cidade, que morreu no parto, e muito querido e estimado pelo pai; e ele, de desgosto, não casou mais, entregando para esse filho, tudo o que tinha.

- Mas vou dizendo: era meio que sem vergonha e de pouca vontade na lida com os animais; escolheu um negrinho esperto, em uma noite na senzala, embaixo do casarão, para tomar conta da tropa. 

O contador sorveu uma talagada de chimarrão, cortou um naco de carne do espeto, mandou que trouxesse um copo de pinga, daquelas fabricadas no pé da serra, e virou tudo de uma única vez; o líquido desceu goela abaixo, arrancando um suspiro e um forte urro, despertando os sonolentos no fundo da rua.

Nessa empolgação, colocou mais lenha na fogueira, para aquecer os ouvintes, sentados em mesas próximas ao seu palco iluminado. Contava que o patrão do negrinho, certa vez, comprou uma tropa de cavalos tordilhos, tendo como líder, um belo cavalo baio, que foi entregue ao negrinho para pastorear.

E o filho do fazendeiro, como sempre, para judiar do negrinho, espantava a manada, para ver o pai ralhar com o menino.

No prosseguimento de sua narrativa, contou que um dia o negrinho voltou para o casarão, sem a tropa. O velho senhor já com cabelos brancos, barba comprida e com um chapéu que lhe cobria a fronte, deu um berro da varanda, pedindo explicações por que estava voltando sozinho.

- É patrão, o seu filho espantou novamente os tordilhos, e o baio não conseguiu arrebanhá-los e sumiram pelas coxilhas.

- Seu desgraçado, insuportável de uma figa, venha cá que vou lhe surrar de chicote.

- Ah. Patrão eu não tenho culpa, foi o seu filho que espantou os animais.

- Vou lhe dar um castigo; hoje à noite vamos às coxilhas (campina com pequenas elevações arredondadas) e, se não acharmos os cavalos, você vai ver uma coisa, o chicote vai comer solto no seu lombo, negrinho dos infernos.

Lá nas coxilhas nada foi visto. Então o senhor, cheio de rancor, tirou as vestes do negrinho e o colocou sentado sobre um formigueiro e lascou o chicote, deixando-o todo ensanguentado para ser comido pelos insetos.

Três dias se passaram e o senhor acabou encontrando o negrinho perfeitamente são, por obra e graça de Nossa Senhora, que era a sua protetora. Estava em pé ao lado do formigueiro, tendo ali próximo a tropa desaparecida e o cavalo baio que lhe servia de montaria.

Nasceu, então, essa lenda com o nome de Negrinho do Pastoreio, que se tornou o protetor dos animais e das pessoas perdidas. Sempre que alguém perde alguma coisa no campo, pede-lhe ajuda, acendendo um toco de vela à noite em um local escuro.

De repente, naquele palco iluminado, as luzes se apagaram, o que teria acontecido? Coloquei a mão no bolso e percebi que me faltava a carteira. Rapidamente, solicitei uma vela ao garçom e a acendi, pedindo que eu a encontrasse. Nesse momento, meu pé sentiu algo embaixo da mesa: era a carteira! Seria um milagre? Lógico que não, foi pura coincidência.

Com as luzes ainda apagadas, ouviu-se então um tropel de cavalo, o som vinha em nossa direção e pudemos ver o negrinho montado no cavalo baio. Das patas do animal, no local escuro, saiam faíscas de suas ferraduras no asfalto da rua encantada, momento em que as luzes foram acesas.

No lombo do baio, o negrinho falou comigo:

- Pois é, senhor, encontrou a sua carteira, não é mesmo? Eu ouvi o seu pedido e vim aqui mostrar a minha força mental, para que o povo dessa terra continue acreditando nessa lenda.

Vou sempre ajudar as pessoas que perdem alguma coisa.

- Obrigado, mas de onde você surgiu? Quem é você?

- Faço parte do grupo de teatro que se apresentou lá onde vocês assistiram à peça teatral.

- Boa noite a todos disse o artista, continuem visitando nossa cidade e os encantos de nossa serra gaúcha. E retirou-se num galope aturdido e emocionante, saudando a todos os presentes naquele reduto de emoções, proporcionando, tenho certeza, uma bela noite de cultura, tendo como pano de fundo as lendas de nossa terra.

Foi servido, então, um belo churrasco para encerrar aquela noite maravilhosa; enfiei a mão no bolso e senti que minha carteira estava lá pronta para pagar a conta.

Foi quando acordei de um sonho... Tudo foi fruto de minha fértil imaginação. No criado-mudo, da cama do hotel, estava, ao meu lado, um prospecto de uma empresa de turismo, informando que à noite haveria uma peça teatral e depois todos iriam para a ‘rua coberta’ dar um passeio e tomar um chocolate quente, típico do local.


A nossa cultura é muito rica, os nomes podem variar em algumas regiões, mas as “estórias” e aparições nunca são esquecidas. Temos um grande repertório ligados à natureza, envolvendo pessoas, animais, rios e estrelas. As crendices populares são um tesouro cultural que não podemos deixar que desapareçam. Tudo isso, deveria ser cultuado nas escolas, pois as crianças teriam o que contar para os seus descendentes, não deixando morrer essas lendas maravilhosas.





ANOS DOURADOS



Repassando algumas fotos e recortes de jornais, armazenados em uma caixa de papelão no meu armário de guardados, pude trazer, para o presente, algumas lembranças que estavam esquecidas nas paredes da memória.

Comecei a imaginar aqueles belos tempos, contemplando registros de uma época que muitas pessoas rotularam como “anos dourados”, da qual eu e muita gente da minha roda de amigos fazíamos parte.

Um recorte chamou mais atenção, pois trazia minha fotografia, tocando bateria na orquestra animadora das domingueiras matinais que funcionavam no Clube Grêmio dos Ferroviários. O início ocorria logo após a missa das nove horas, da tradicional igreja da Matriz.

A garotada que não ia ao cine Ypiranga assistir aos desenhos do Tom e Jerry corria para o Grêmio na rua logo abaixo da praça central para dançar o tal de rock, ritmo delirante daqueles tempos. A sensação era as músicas do Elvis Presley, astro americano que esbanjava categoria, e que eram tocadas nas rádios incessantemente; e nós, da orquestra, reproduzíamos loucamente, nessas domingueiras.

O nosso “Elvis” era o Ted Milton que tinha uma voz forte e parecida com a do famoso cantor. Ele estufava o peito e soltava a garganta e se requebrava todo nas músicas; Tutti Frutti, Blue Sued Shoes e, depois, as mais amenas, como Love Me Tender e Always On My Mind.

Depois de algum tempo, as domingueiras foram interrompidas, porque alguns membros da orquestra, que tocavam em baile do sábado, chegavam muito cansados. Eu, que só podia atuar aos domingos, gostava muito. Foi uma tristeza o fim daquilo tudo, porque já tinha virado um acontecimento regional, com pessoas vindas de vários lugares, para brincar e dançar o ritmo frenético.

Com isso veio a ideia de formar um conjunto musical que virou um trio, para tocar nas chamadas “brincadeiras dançantes”, copiadas dos filmes americanos. A primeira foi na casa de uma garota de quem nem me lembro mais do nome; fomos chamados pelos pais para saber o que era “aquilo”. E, depois de muita conversa, foi autorizada.

O local (uma grande garagem) era o ideal, porque havia por lá um piano, condição principal para juntar o acompanhamento (bateria e saxofone).

O trio não tinha nome, mas íamos sempre de camisa vermelha, calça e sapatos pretos. Dos componentes, eu era conhecido por Tony Vendra, cujo nome ficava estampado no surdo de pedal da bateria, comprado por meus pais, de tanto insistir para ter aquela parafernália maluca dentro de casa. Os outros dois, o Joel das “Candongas” ao piano e Joãozinho “Boa-Pinta” ao saxofone.

No dia marcado para “as dançantes”, meu pai pacientemente transportava em seu Ford os apetrechos da “batera” no porta-malas, que parecia uma “barca” de tão grande.

Já nessa época, imperavam as canções Italianas e as músicas eram as menos barulhentas, condição “imposta” pelos pais da moça; então, ficávamos nas músicas lentas, próprias para as danças de rosto colado, com muita “conversa fiada” ao pé do ouvido das meninas.

Na abertura, tinha uma música muito especial intitulada “Non Ho L’età” (“Não tenho idade”) cantada por uma menina do grupo, imitando a Gigliola Cinquetti, que, em seu conteúdo, falava que a garota ainda não tinha idade para namorar; e isso agradava os pais das meninas.

Começamos a ficar famosos, porque até os nossos professores mais jovens vinham assistir e também dançar. Na segunda-feira, na escola, era um falatório geral; ficávamos rodeados de meninas que vinham conversar sobre o que iríamos tocar nas próximas.

Em outras ocasiões, lá pelo meio da festa, era servido pela mãe da moça, para os mais grandinhos, o tal de “ponche”, uma bebidinha meio sem graça; então, “do nada”, aparecia uma garrafa de vodka com o conteúdo despejado na vasilha que continha a bebida (sem que ninguém percebesse).

Aquela bebida “ia para as cabeças” e muita gente começava a ficar alegre; muitas “declarações” eram faladas ao som do nosso trio. Desse momento, surgiu à idéia de, nos intervalos, fazer declamação de poemas e poesias, o que as meninas faziam com magistral postura poética.

No final, tinha muita gente que vinha de outros lugares; então, metade da turma ia para a rua e ficava dançando por lá, com muitos vizinhos gostando, e outros nem tanto, daquele movimento alegre e jovial. Havia “alguns” que “melavam o pé” e caíam no jardim da casa, depositando, nos vasos de flores, as comidas e bebidas sorvidas durante a festa.

Num desses eventos, fui convidado para me apresentar na rádio Difusora, aos sábados pela manhã, em um programa que tocava músicas a pedido de ouvintes, através de carta ou telefonema. Eu deveria atender aos telefonemas (tudo previamente combinado) e dizer que a música escolhida seria complementada com alguns versinhos (selecionados em conjunto com o programador), baseados naqueles feitos por mim e declamados pelas mocinhas, nas brincadeiras dançantes.

Eu topei logo de cara sabendo que a minha recompensa era receber entradas para os cinemas, oferecidas pelos cines Ypiranga e Marabá.

Antes de o programa ir para o ar, eu conversava com o locutor e programador para colocar somente músicas Italianas, que era a “coqueluche” do momento, com cantores maravilhosos da época, destacando alguns:


  • John Foster – Amore Scusami;
  • Lorella Vital – Se Non Avessi Piu Te;
  • Pino Donaggio – L’ultimo Romântico;
  • Sérgio Endrigo – Canzone Per Te.
  • Peppino Di Capri – Roberta;
  • Luigi Tenco – Ho Capito Che Ti Amo.
  • Domenico Modugno - Legata A Um Granello Di Sabbia, Piove e, Tu Si’Na Cosa Grande (Letra abaixo):
Canta Modugno:

Tu si’’na cosa grande per me. – Você é uma coisa grande para mim.
‘Na cosa Ca mi fà’nnamurà. – Uma coisa que me deixa apaixonado.
‘Na cosa Che si tu guarda a me. – Uma coisa que você olha para mim.
Me ne moro accussì guardanno a te. – Posso até morrer, assim, só olhando para você.
Vurria sapé na cosa da te. – Queria saber uma coisa de você.
Percchè cuanno te guardo accussì. – Se quando te olho assim.
Si pure tu te siente morì. – Você também se sente morrer.
Nom me o dice a num me fai capi. – Por que então não fala para mim?
Ma percchè. – Por quê?

Esse foi o grande Modugno que eu apreciava tanto, com belíssimas composições e um magnífico cantor. Chegou a vir ao Brasil onde se apresentou em São Paulo e Rio com grande sucesso. Todas essas músicas e astros marcaram o fim dos anos 50 e início dos 60, cuja época vivi, com muita alegria, sentindo, agora, uma saudade imensa dos Anni Moderni.






O CAMINHO DA CRUZ

O CAMINHO DA CRUZ Tudo estava quieto... Naquele momento, pressentia-se que alguma coisa pudesse acontecer a qualquer instante;...