CONTOS - VÁRIOS

JOGOS DE FUTEBOL

Nesta segunda parte, abordarei a passagem do tempo em que a molecada da rua estava com a mente voltada para os jogos de futebol, em que a rivalidade entre as ruas era imensa. Os redutos da “bola” estavam inseridos em dois contextos. O primeiro era o time da nossa rua. O segundo era a turma lá do final da Avenida Paula Penteado, o terrível time do São Cristovam, cuja sede era no bar que lhe tinha emprestado o nome.

Tinha um “moleque” já meio grande, que nos metia medo; era o famoso “tio Panca”, (apelido colocado por nós). Naquela época, as pessoas que se destacavam eram assim chamadas. Tratava-se de uma figura meio rocambolesca, andava todo se requebrando (no bom sentido), achava que era um ótimo jogador e exigia que os menores carregassem os seus pertences até o campo.

Nós, do lado de cá, éramos o TORINO, nome colocado em homenagem ao clube Italiano que veio jogar no Brasil; depois foi para a Argentina e, no voo de volta, houve uma queda, com apenas um sobrevivente que foi o Bacigaluppe, o goleiro, que ficou marcado pela tragédia e também por suas ótimas defesas. O time Italiano foi recomposto depois de algum tempo e existe até hoje.

A nossa equipe era dos jogos de “várzea”, entre nós, todos descalços, sem camisa e não tinha número de pessoas definidas: conforme chegava ia entrando.

Em alguma ocasião, fazíamos alguns joguinhos com a turma da rua de baixo e a de cima.

Antes das brincadeiras com a bola, tínhamos o divertimento do jogo de botão; e nos momentos que antecediam as partidas, no campo improvisado, em uma folha de compensado, pensávamos em formar um time com mais alguma organização. Achamos que deveríamos nos espelhar no São Cristovam, muito conhecido por aqueles lados e, um dia, resolvemos assistir a uma partida deles.

Ficamos empolgados e começamos a pensar em comprar um jogo de camisa etc., para jogar contra. As reuniões para tal eram na casa do Zé Macabro, também conhecido por Zé da Esquina. A casa dele era de dar medo, antiquíssima, com telhas quebradas e o madeiramento cheio de cupim; enquanto fazíamos os jogos, aquela serragem do bichinho caía em nossas cabeças. Todos diziam “algum dia esse telhado cai”. Cada um tinha um time, encarnado pelos queridos na época: Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Portuguesa, Juventus, Nacional, alguns gostavam dos times do Rio: Flamengo e Fluminense.
A turma que não estava jogando ficava vendo, da janela, a moçada descer a Rua Engenheiro Monlevade, se dirigindo para a Escola Anchieta.

Tínhamos uma  diversão que  era amarrar uma linha fininha em uma cédula de dinheiro da época e deixar na calçada; no momento em que as pessoas abaixavam para pegar, puxava-se a linha um pouquinho, abaixava novamente etc.; e continuávamos a puxar, até a pessoa desistir e olhar para cima e perceber a brincadeira e xingar.  Muita briga aconteceu por causa disso. As meninas daquele nosso reduto (irmãs e primas) assistiam a tudo do outro lado da rua, dando sonoras gargalhadas (Maria Clara, Maria Helena, Lení, Cecília, Verinha).

Depois de algum tempo, conseguimos comprar um jogo de camisa oficial; o valor pago foi resultado de várias rifas que fizemos, visando angariar fundos para os apetrechos e também a bola, o elemento principal.
Tudo pronto, fomos, um sábado à tarde, até a sede do time rival para marcar um jogo. Quem veio conversar foi o “Tio Panca”, que já queria saber quem era o nosso melhor jogador, se tinha alguma jogada preparada etc.

Percebemos que queria tirar de nós informações e não gostamos nada. O Aécio, que era um dos nossos jogadores, já queria brigar. Amenizamos a situação e ficamos conversando sobre os times da capital; logo, em seguida, veio nos oferecer cerveja e pinga.

Não éramos de bebida, mas para não fazer desaforo, o nosso r
elações-públicas, o popular Zé Macabro, (esse era bem mais velho que todos e chegado a uns “tragos”), falou que tínhamos que tomar uns goles; saímos de lá meio “alto” e, o jogo marcado para o próximo domingo.

No dia do jogo, fomos para o campo do “mina”, porque existia, dos lados, várias nascentes, e que ficava lá pelas bandas do bairro do Vianello. A batalha foi sofrida, o time deles era mais equilibrado, tomamos um sufoco e ficamos só no meio de campo e na retaguarda, com Arnaldo Gasparotto, conhecido por “Gaspar”, jogando muito no meio de campo. Na defesa, o zagueiro central Aécio, destruindo tudo. 

Ficamos, então, aguentando aquele “tranco”; não adiantou muito, no inicio do segundo tempo, levamos um gol.
Nosso técnico, que também era o Zé Macabro, ficava do lado da trave do time adversário, gritando e esbravejando; tendo na mão um copo de cerveja, pedia para atacarmos sem parar.

Em um dado momento, o nosso craque de bola, o “Crau”, avançou pela direita, deu dois dribles no zagueiro e chutou forte para o gol; a bola ia saindo pela linha de fundo, foi quando o nosso treinador que estava junto à trave, colocou aquele pezinho torto dentro do campo, e desviou a bola para a rede. Gooool! Foi uma festa, todos se abraçando.

Nesse momento, vimos o Zé levando muitas porradas dos jogadores do time adversário; na verdade, foi ele quem marcou o gol de forma irregular, mas o juiz, que era da nossa turma, validou.

Saímos em sua defesa e a briga se generalizou. Resultado: saímos todos meio pelados, correndo com as roupas nas mãos, retiradas do vestiário e colocadas atrás da trave por algum menino da turma; se fôssemos até lá, teria mais confusão, uma vez que, no intervalo, nos disseram que iríamos apanhar no final, se empatássemos ou ganhássemos o jogo.

Como éramos minoria, saímos correndo com aquele bando de gente atrás de nós, até perto da Av. Paula Penteado, onde era o nosso reduto; então, eles voltaram.

Fizemos outros jogos memoráveis, até que, um dia, o Aécio, que era o cara que praticamente “fundou” o time, mudou-se da Rua Zacarias, levando as camisas e bolas... Então, acabou o time Torino, da Rua Zacarias.

Depois de algum tempo, montamos outro time com o nome de GRENÁ, por causa da cor das camisas. Os jogadores eram os mesmos. Quem tomava conta do time era o meu primo, o Tecão. As confusões eram as mesmas, mas alguns jogadores novos apareceram, como por exemplo, o Airton Baiano e seus irmãos, que moravam também na Rua Zacarias.

Quem levava o time para jogar em locais distantes era o meu primo Serjão Gasparotto, que era vendedor de macarrão “Gallo”. O caminhão tinha algumas repartições internas e todo fechado; íamos lá dentro somente com uma porta aberta para não morrermos sufocados. Nos dias de semana, ele recrutava alguns parentes para ajudar na descarga dos pacotes de macarrão. Lembro-me que meu irmão Luizinho sempre estava presente, viajando até para outras cidades.  
Depois de algum tempo, veio o “futsal” (futebol de salão). 

Quem nos apresentou a novidade foi o Tecão, que, já famoso como “cartola”, tomava conta de um time chamado “Credi-City”, no qual fui convidado a jogar. O time era poderoso, fomos campeões da cidade por duas vezes. Tinha um jogador excepcional, o Ernestinho, que mais tarde jogou no time do Palmeiras e na seleção do Estado de São Paulo e, depois, no Unidos, do Toninho Gebram, que também foi campeão Estadual.

Após o sucesso do time em que eu e o Tecão participávamos, veio a idéia de formarmos um time de futsal. Nessa ocasião, o grupo de parentes e amigos tinha evoluído muito. Conseguimos harmonizar um belo time, (que ainda não tinha nome), formado pelo primeiro e segundo quadro e começamos a jogar no Ginásio Municipal, aos domingos pela manhã.

Nessa ocasião, assistíamos a vários jogos de outros times e, uma noite, fomos ver o primeiro jogo de um torneio que levava o nome de Marechal Mallet, patrocinado pelo Exército Brasileiro, aqui na cidade.

Nas conversas com as pessoas, recebíamos incentivo para participar no próximo ano, mas tínhamos que ter tudo organizado, nome do time, camisas etc.; passamos, então, a desenvolver ações para tal empreitada.

A fundação do time foi na casa do Junior, durante a noite; cada participante levou sugestões para o nome. O meu nome sugerido foi o de “Sardonicus”, que acabou sendo o escolhido pela madrugada afora, após muitas conversas com a geladeira que, diziam, andava pela sala, parecia um “robot”.
A origem do nome foi em razão do comportamento da turma; ao pé da letra, “sardonicus” quer dizer riso forçado e sarcástico.

Começamos com bastante organização, participando em torneios de menor expressão, até que chegou o segundo campeonato do Marechal Mallet.

Os times convidados pelo pessoal do exército eram da elite da cidade e fomos lembrados pelo nosso amigo Carlão. 

Soubemos, então, que o “Unidos”, campeão estadual, estava inscrito, com jogadores da estirpe do Ernestinho, Gerson, Cavalete, Airton, Gordo, Pezão; enfim, tinha até três times, um entrava na quadra e outros ficavam na reserva; todos eram craques da bola pesada, da região e da Capital, tudo “bancado” pelo Toninho Gebram.

Nesse torneio, que era em forma de eliminatórias, fomos “sorteados” para jogar com os Unidos. O retrospecto deles era só goleadas de dezoito, vinte e três a zero por aí afora.

Fomos para o jogo. Nos momentos que antecederam, o nosso amigo Carlão Iamonti, Juiz de bola no torneio, veio em nosso vestiário e falou que tínhamos que marcar no meio da quadra e segurar o jogo, para não levar goleada.

Fizemos isso no primeiro tempo e perdemos por um a zero. No segundo, não aguentamos o preparo de um campeão estadual; trocavam de jogadores como se fosse uma banalidade, um melhor que o outro. Quando a contagem aumentou e nos conscientizamos que não iríamos ganhar, pedimos o nosso driblador oficial, o Rui, para fazer umas graças em cima do Gerson, (jogador muito famoso, campeão e capitão da seleção estadual).

Não deu outra! Ele começou a driblar, jogar a bola no meio das pernas, até ele agarrar o Rui com as mãos e pedir para não fazer isso.  A nossa sensação dentro da quadra era de vitória, em razão de ouvirmos os aplausos ao nosso SARDÔNICUS, com a ousadia do Rui.

No final, em um momento sublime e devaneio virtual, sentimos que o adversário começou a nos respeitar, até que ouvimos o apito final do Carlão; quem sabe, a pedido do Gebram, terminou a partida, porque estavam passando vergonha.

Fomos aplaudidos e o Rui virou o herói da torcida, que lotou as dependências do Quartel.
.............................................................................................................................................
REMINISCÊNCIAS...
Quando terminei essa crônica, fiquei olhando as fotos do time e pensando onde estariam aqueles magníficos companheiros de momentos mágicos de nossas vidas.

Em um primeiro momento, refleti sobre os ausentes, levados pela vida a percorrer outros caminhos no reino do céu. O primeiro foi o meu primo Tecão, companheiro de outras jornadas futebolísticas, mais precisamente nos últimos anos, lá no campo do Paulista Futebol Clube, sempre incentivando os momentos difíceis do clube da terra querida.

Depois, foi a vez do Téia, Ramos e o Ismael. 


BARQUINHO DE PAPEL



A menina-moça estava sonhando acordada, naquela furtiva tarde, em sua carteira escolar. Fingia que estava ouvindo o seu professor naquela enfadonha aula de história geral. O mestre percebeu sua distração e não a despertou daquele sublime momento, para não causar um lapso em sua memória, apagando os registros que, até então, contabilizava.

Ainda naquele estado de transe, retirou de sua mochila o seu caderninho de segredos que não repartia com ninguém; registrou com rapidez o que estava em sua mente e o guardou, rapidamente.

O que teria escrito? Palavras que só sua mente poderia expressar naquelas poucas linhas. Foram sentimentos guardados na memória do tempo, de sua adolescência de doces crenças.

No intervalo tradicional, sentou em um banco de cimento em frente ao belo lago do seu recanto estudantil e, delicadamente, arrancou aquela página contendo as anotações e fez um barquinho, colocando-o na água. Como não se movimentava, assoprou com toda força para que levasse em frente as suas fantasias.
De repente, um vento forte o fez alçar voo, pousando em uma poça, deixando-a preocupada que alguém pudesse apanhar e desvendar o segredo das palavras.
E... mais que de repente, o servente da escola, que por ali passava, recolheu aquele pedaço de papel transformado em um barquinho e o levou para casa, uma vez que estava muito bonito e colorido.

Ao chegar, ofertou a sua neta, que o abriu e constatou que a menina da escola amava o professor que era o seu pai; e descobriu, naquele momento, que tinha ganhado uma irmã, apaixonada por seu pai.














O ANDARILHO

Em um dia desses qualquer, o Prefeito de uma cidade grande parou o seu carro, por pouco tempo, em um cruzamento, aguardando o sinal de ...