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quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SERENATA NA PASSARELA - ALFREDO LOBÃO, O ÚLTIMO ROMÂNTICO DA CALÇADA

 

O Bar da Esquina e o Lobão da Madrugada

Naquela rua esquecida pelo progresso, onde os postes acesos pareciam resistir ao tempo como velhos guardiões da memória, havia um bar que não tinha nome — apenas uma placa torta com a palavra “Cerveja” escrita à mão. Era ali que Alfredo Lobão reinava todas as noites, como um rei sem trono, mas com violão.

Alfredo não era bonito. Nem elegante. Mas tinha algo que os outros não tinham: presença. Chegava sempre com o mesmo ritual — violão nas costas, cigarro apagado no canto da boca, e um olhar que misturava melancolia com malandragem. Os cabelos desgrenhados e a barba de vários dias compunham o figurino de um boêmio que já não se importava com o espelho, mas sim com o aplauso da rapaziada.

Sentava-se à mesa de madeira encostada na calçada e começava a tocar. Não pedia licença. Não fazia cerimônia. Alfredo era da velha guarda, daqueles que acreditavam que a música cura, conquista e embriaga mais que qualquer bebida. E quando soltava seus urros entre os acordes — que ele chamava de “afinadas de alma” — o bar virava palco, e a rua, plateia.

 Os Amores e as Mentiras

Alfredo dizia que já tivera mais de cem mulheres. Algumas ele nomeava com carinho: “A Lúcia do samba”, “A Neide da praia”, “A Marlene do vestido vermelho”. Outras ele inventava na hora, só para impressionar os novatos. Mas todos sabiam que, no fundo, Alfredo era um romântico incurável, desses que se apaixonam por um sorriso e sofrem por um olhar que não volta.

Tinha um jeito peculiar de conquistar: cantava uma música, oferecia um gole de cachaça e contava uma história triste. Era irresistível — não pela beleza, mas pela autenticidade. Alfredo não fingia ser o que não era. E isso, às vezes, bastava.

 A Musa da Passarela

Numa dessas noites de lua cheia, quando o mar parecia sussurrar segredos à areia, ela apareceu. A moça da cidade grande. Blusa azul, decote generoso, calça preta colante e salto alto que fazia o toc-toc ecoar como tambor de desfile. Caminhava pela passarela de madeira como quem sabe que está sendo vista. E era.

Os corações solitários se agitavam. Os copos tremiam. E Alfredo, como se tivesse recebido um chamado divino, parou de tocar. Olhou. Sentiu. E compôs.


A música nasceu ali, entre um gole e um suspiro. E quando ele cantou, a moça parou. Sorriu. E seguiu. Alfredo nunca soube seu nome. Mas naquela noite, ela virou eternidade.

 O Último Uivo

Os anos passaram. O bar fechou. A rua ganhou asfalto. A passarela virou calçada de concreto. Mas Alfredo continuou indo, mesmo sem plateia. Sentava-se com seu violão e cantava para o vento, para o mar, para as lembranças.

Diziam que ele ainda esperava a moça da blusa azul. Que ainda afinava a garganta com urros. Que ainda acreditava que uma boa música podia mudar tudo. E talvez pudesse.

Porque Alfredo Lobão não era apenas um seresteiro. Era um monumento à boemia, à saudade e ao amor sem medida. Um conquistador de almas, mesmo que a sua estivesse sempre um pouco partida.


“Escrevo como quem recolhe o tempo com as mãos.”

         “O silêncio também tem voz — e às vezes, ela escreve comigo.”

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quinta-feira, 10 de abril de 2025

UMA MANHÃ INUSITADA ENTRE PÁSSAROS E GUARIBAS





UM LUGAR CHAMADO PAI JACÓ

Em uma manhã de sábado, acordei com o tradicional gorjeio dos pássaros saltitando nas árvores próximas ao meu quarto. Abri a porta-balcão e, respirando profundamente o frescor do dia, fiz uma saudação de louvor por estar à frente de mais um capítulo da vida.

Deixei-me levar por pensamentos, refletindo que cada dia é uma dádiva única e deveria ser bem aproveitado. Quem sabe em outra ocasião não teria a mesma chance? Com horas livres à frente, decidi caminhar pelas áreas verdes do meu condomínio.

Enquanto me preparava, um som estridente vindo de uma pequena mata no final da rua despertou minha curiosidade. O som desafiava meu instinto explorador e, sem programar muito, resolvi investigar. Ao chegar, olhei para o alto das árvores, procurando por pássaros raros ou pequenos animais silvestres.

De repente, aquele som, tão peculiar, soou novamente. Meu coração acelerou, e comecei a buscar de um lado para o outro. Meus olhos rodopiavam, minha curiosidade era quase palpável. Cada movimento das árvores parecia esconder um segredo, e o sol, em pequenos clarões entre as folhagens, me cegava momentaneamente.

Foi então que, de forma súbita, senti algo explodir sobre minha cabeça. Uma dor forte me atingiu. Era um caroço de uma fruta desconhecida. Olhei novamente para cima, e lá estava ele: um pequeno animal dependurado em um grande galho seco. Seus movimentos ágeis o tornavam quase invisível, mas sua presença era inegável.

Percebi que ele saboreava uma fruta com tamanho deleite que quase me fez querer provar também. Após devorá-la, o malandro lançou outro caroço, que por pouco não me atingiu novamente. "Ô, seu mal-educado!", gritei. E ao lado dele, lá estava um companheiro, tão debochado quanto. Os dois pareciam rir de minha indignação com uma "cantoria" que ecoava pela mata.

Não satisfeitos, ainda soltaram um esguicho em minha direção, trazido pelo vento. Antes que me atingisse, pulei para trás, mas acabei tropeçando e caindo sentado sobre a guia da rua. Levantei-me, indignado. Quando olhei para o alto, os dois haviam desaparecido. Foram rápidos, deixando-me apenas com a memória da aventura.

Em casa, consultei a enciclopédia e descobri que se tratavam de guaribas, uma espécie de primatas notórios por seus sons estridentes. Curioso, mas agora mais precavido, decidi: da próxima vez que ouvir tais sons, "recomendo" aos vizinhos investigarem. Quem sabe, terão a mesma sorte que eu de cruzar o caminho



MITOLOGIA MARÍTIMA: ENTRE LENDAS E HORIZONTES

Odisseus em seu retorno à ilha de Ítaca . O mar sempre foi um palco fértil para o nascimento de mitos e lendas . Muito disso se deve à imag...