Houve um tempo em que a molecada vivia com a cabeça voltada para o futebol. A rivalidade entre as ruas era enorme, e cada reduto tinha seu orgulho. Do nosso lado, éramos o Torino, inspirado no clube italiano marcado pela tragédia aérea, mas também pela bravura de seu goleiro Bacigaluppe. Do outro lado, estava o temido São Cristóvão, com sede no bar da Avenida Paula Penteado e liderado pelo folclórico “Tio Panca”, figura que nos metia respeito e arrancava risadas com seu jeito extravagante.
Nosso futebol era de várzea: descalços, sem camisa, sem número fixo de jogadores. Quem chegava, jogava. O campo tinha cheiro de terra batida, e cada arrancada levantava poeira que se misturava às gargalhadas da torcida improvisada — vizinhos, irmãs e primas, sempre atentos ao espetáculo. Antes das partidas, havia o ritual do jogo de botão, e as reuniões aconteciam na casa do Zé Macabro, com seu telhado antigo e serragem de cupim caindo sobre nossas cabeças.
Com rifas e muita persistência, conseguimos comprar camisas e bola oficial. O primeiro grande desafio foi contra o São Cristóvão. O jogo, no campo da “mina”, foi duro: eles dominavam, mas resistimos com Gaspar no meio e Aécio na defesa. Até que, num lance improvável, nosso treinador Zé Macabro, já meio “alto”, meteu o pé torto dentro do campo e desviou a bola para o gol. Festa nossa, confusão geral. O juiz, amigo nosso, validou. Resultado: briga, correria e fuga quase pelados pela rua. Era a essência da várzea: paixão, improviso e muita história para contar.
Com o tempo, o Torino acabou, mas nasceu o Grená, com as mesmas caras e novas aventuras. Íamos jogar até em outras cidades, escondidos no caminhão de macarrão do primo Serjão. Depois veio o futsal, apresentado pelo Tecão, e o poderoso Credi-City, campeão da cidade, com craques como Ernestinho, que chegou ao Palmeiras e à seleção paulista.
A evolução nos levou ao Sardonicus, nome curioso escolhido numa madrugada regada a risadas e histórias. Participamos do torneio Marechal Mallet, enfrentando gigantes como o Unidos, recheado de estrelas. Perdemos, claro, mas o driblador Rui arrancou aplausos ao ousar contra Gerson, capitão da seleção estadual. Saímos derrotados no placar, mas vitoriosos na alma: respeitados e aplaudidos pela torcida.
Reminiscências
Hoje, ao olhar as fotos, penso nos companheiros que já se foram: meu primo Tecão, sempre incentivador; Téia, Ramos, Ismael… Cada um deixou sua marca nesses momentos mágicos que moldaram nossa juventude.
O futebol foi mais que jogo: foi amizade, rivalidade, risadas e memórias que ainda ecoam como gritos de gol.
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Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.
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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
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