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sábado, 1 de agosto de 2026

O CARCARÁ ALADO

 

 O Carcará Alado: Entre o Sertão 

e o Mistério de 1986


“Naquele voo, o destino parecia testar os limites da fé e da paciência.”

 Petrolina, o início

Em 1986, fui enviado a Petrolina, Pernambuco, para preparar o terreno de uma fábrica de alimentos recém-construída. Coube a mim, na área de recursos humanos, planejar convênios, benefícios e até um restaurante dentro da fábrica — iniciativa inédita na região, destinada a garantir dignidade e nutrição aos futuros trabalhadores. Era o prenúncio de uma nova era para o sertão.

 O Bandeirante inquieto

Na volta, preferi embarcar em um pequeno avião Bandeirante, que me levaria de Petrolina até Salvador. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade: os voos diretos para São Paulo só aconteceriam uma semana depois, e eu não podia ficar ocioso na cidade, pois tinha compromissos urgentes em São Paulo.

O barulho ensurdecedor, a descida brusca em plena estrada de terra para recolher um malote, e a decolagem imediata sem parar transformaram o trajeto em um verdadeiro teste de nervos. Ali percebi que, por mais que o trabalho exija coragem, há limites que não se deve ultrapassar. Prometi nunca mais repetir a experiência em aeronaves tão pequenas.

 O pássaro ferido em Salvador

De Salvador, embarquei em um avião comercial de maior porte rumo a São Paulo. Mas o destino parecia querer me testar: a aeronave apresentou um vazamento de óleo e sequer chegou a sair do solo. O voo foi cancelado, e fomos hospedados às pressas em Juazeiro, na Bahia. Na madrugada seguinte, após reparos, retornamos ao aeroporto. O ambiente estava carregado de emoção: pessoas vestidas de preto, lágrimas discretas, e um falatório intenso entre os passageiros. A revelação veio: havia um corpo a bordo, aguardando transporte para São Paulo.

 O cortejo aéreo

Durante toda a viagem, minha mente ficou tomada pela expectativa de saber quem era o falecido. O número de acompanhantes, o clima de velório improvisado e os cochichos incessantes indicavam tratar-se de alguém importante. Seria um político? Um figurão da região? O mistério só se desfez em São Paulo: tratava-se de um antigo governador de Pernambuco, que havia falecido e seria sepultado ali. Um protagonista silencioso de uma viagem que ele nunca mais voltaria a fazer.

 A lição do inesperado

Chegar a São Paulo foi um alívio indescritível. Mas mais do que o destino, ficou a lição: a vida profissional não é feita apenas de relatórios e metas, mas também de imprevistos que nos lembram da nossa vulnerabilidade. O corpo a bordo, o avião ferido, o pouso improvisado — tudo isso compôs uma narrativa que transcende o trabalho. É a lembrança de que, no afã de cumprir nosso dever, também participamos de histórias maiores, carregadas de humanidade e memória.

 Fecho literário

“Naquele voo de 1986, o sertão encontrou a capital, e o trabalho encontrou a morte. O carcará alado que me levou de Petrolina a São Paulo carregava não apenas passageiros, mas também a história de um homem público que partia para sempre. E eu, testemunha involuntária, aprendi que nossas viagens profissionais podem se transformar em crônicas da vida, onde o inesperado nos lembra que somos todos passageiros de um mesmo destino.”

Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."

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Recanto das Letras

Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias 


sexta-feira, 31 de julho de 2026

LEMBRANÇAS DE UMA ÉPOCA QUE O PROGRESSO DESTRUIU









Que este blog seja um convite à contemplação: 

um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança. 


A foto que emoldura esta crônica é de 1986, retratando a estação ferroviária de banharão, localizada no município de Jaú, SP. Construída em 15 de novembro de 1941, ela foi um símbolo de progresso, administrada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro até 1971, quando passou para as mãos da Ferrovia Paulista S.A. Contudo, esse marco histórico não resistiu às mudanças; foi demolida em 1986, já abandonada e deteriorada. Assim começava o melancólico adeus às ferrovias no Brasil, que outrora movimentaram sonhos, pessoas e mercadorias.

Hoje, tudo o que resta são fragmentos: duas placas amarelas, alguns ladrilhos soterrados pelo mato e uma escadaria imponente que resiste ao tempo, encostada a um barranco. Lá em cima, uma antiga caixa d’água metálica e vestígios de um banheiro. Ao lado, as ruínas de uma igreja, com mármore e granito revelando o êxodo rural que desfigurou essa terra de esperança.

Revisito agora, na memória, aquele cenário encantador dos anos 1950, época de férias na fazenda dos meus avós. Era o refúgio do menino que buscava no campo o que hoje só encontra na saudade. As fazendas eram pura vida e alegria. Passeios de charrete, cavalos enfeitados e primos como guias dessas aventuras inesquecíveis. Tudo culminava em visitas aos casarões coloniais, onde o aroma do café torrado misturava-se com a língua materna, o dialeto da região de Vêneto, que fluía como música entre os descendentes italianos.

Meu avô materno, Giuseppe Gasparotto, o querido “Beppo,” recebia todos com entusiasmo. A fartura das mesas era de dar inveja: pão caseiro, broas, espigas de milho, leite fresco, ovos cozidos e frutas da estação – tudo temperado com mel do pomar. E o vinho! Ah, o vinho feito ali mesmo, que nem a molecada resistia... embora alguns acabassem sendo carregados de volta para as charretes.

O centro das conversas era sempre o café. Esse grão precioso era o sustento das famílias que ocupavam as colônias ao redor das fazendas. Era uma época em que as colheitas simbolizavam trabalho árduo, mas também união, festa e um constante pulsar de vida.

E então, há algo irresistivelmente poético na visão da estação ferroviária de banharão. Naqueles tempos, eu cavalgava pelas manhãs, guiado por meu avô Beppo, para admirar o movimento da estação. Lá, aprendi sobre o telégrafo – a magia tecnológica que conectava estações e permitia que o mundo se comunicasse em pulsos sonoros. Fascinava-me o movimento frenético das sacas de café sendo embarcadas nos vagões, destinadas ao porto de Santos. O ciclo de vida do café começava ali, conduzido pelas mãos calejadas dos carroceiros e engrandecido pelo fervor do povo.

O nome do meu avô paterno, Tonella, destacava-se entre os carroceiros. Ele não apenas trazia o café da própria fazenda, como também era contratado para transportar mercadorias de outras famílias. Seus famosos aboios, com comandos para as mulas, ecoavam como poesia nas estradas poeirentas. Era a trilha sonora da estação, do engenho de beneficiamento e do armazém abarrotado de histórias e trabalho. O velho patriarca encerrava seu dia na Igrejinha de Santo Antônio, agradecendo pela jornada concluída – a mesma igreja que, hoje, jaz em ruínas, denunciando o abandono de um bairro promissor.

Agora, ao recordar tudo isso, é impossível não me transportar, como em um sonho, de volta ao tempo em que tudo era mais simples e verdadeiro. O trem de passageiros chega à estação banharão, e eu embarco como aquele menino cheio de curiosidade e esperanças. Volto como homem, pai de família, morador de Jundiaí, carregado de emoções que permanecem vivas em minhas lembranças – do tempo em que as ferrovias uniam o Brasil e o progresso ainda era sinônimo de identidade.


Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

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Recanto das Letras

Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

terça-feira, 30 de junho de 2026

O CASAMENTO DO LOBISOMEM E A MÃE D'AGUA E A LENDA DO "CAIPORA" - RECEITA DE PAMONHA NO FINAL

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

Na vastidão das noites brasileiras, onde o silêncio é quebrado pelo canto dos grilos e o estalo das fogueiras, vivem histórias que não cabem nos livros — mas que se perpetuam nas bocas dos antigos. Esta é uma delas. Uma lenda que mistura desejo, floresta e mistério. E no final, como manda a tradição da roça, uma receita que aquece o corpo e a alma. 

A chama da fogueira dançava no coração da noite, iluminando os rostos atentos dos jovens indígenas ao redor. O velho cacique, com o olhar carregado de sabedoria e mistério, tragou lentamente seu cachimbo e começou:

Na pequena cabana do lenhador, a tarde se fez noite. Pela janela do casebre, via-se o clarão da vela sobre a mesa, iluminando o pedaço de pão endurecido que saciaria a fome daquele homem de músculos vigorosos. Seus golpes com o machado mantinham o fogo aceso para aquecer o ambiente nas noites frias e chuvosas de inverno. Morava sozinho. Como o sétimo filho de uma família que deixara o vilarejo, ficou para colher a última safra de milho a mando do pai, prometendo se reunir com os parentes ao término da colheita. Mas os meses se arrastavam, e sua solidão crescia.

Era um homem de modos estranhos, arredio e inquieto nas noites de luar. Contemplava a escuridão com olhares soturnos voltados à montanha que dominava o vale cortado por um riacho. Em uma dessas noites, enquanto aguardava algo inexplicável, acendeu um cigarro de palha. O luar crescente despertou algo em seu interior. Arrepiado, com sangue fervendo, saiu de seu casebre como um foguete, rumo à montanha. No cume, contemplou o vale e o riacho caudaloso. Foi então que avistou o corpo de uma mulher com um canto hipnotizante às margens da água.

Era a Mãe D’Água — criatura de beleza arrebatadora, olhos verdes e cabelos longos — que se banhava nas águas. Ele já percebia os pelos que cresciam em seus braços. Uivou ao céu e desceu em um trote desenfreado até o riacho. A mãe sabia de seu segredo, mas não estava ali para acalmá-lo. Seus instintos tomaram o controle. Pulou na água sem tirar a roupa — afinal, já estava coberto de pelos — e uniu-se à Mãe D’Água, embalado por sua dança nas ondas e por um desejo monstruoso que saciou sua sede de volúpia.

Quando o sol nasceu, o homem correu para refugiar-se da luz em seu casebre. A Mãe D’Água desapareceu, escondendo-se em uma caverna onde, meses depois, deu à luz a uma criatura única: o Caipora. De pés virados para trás e olhos penetrantes, tornou-se o protetor das matas e da caça. Pequeno e ágil, montado em um porco-do-mato, usava seu riso estridente para aterrorizar os caçadores desrespeitosos. Aqueles que encontravam seus rastros eram enganados por sua habilidade de despistar seguidores, deixando-os perdidos.

Com o tempo, o Caipora tornou-se uma figura lendária. Nos vilarejos, histórias de suas aparições em noites de luar alimentavam o imaginário popular. Os viajantes diziam vê-lo fumando cachimbo e pedindo cachaça, sempre com o propósito de preservar o equilíbrio das matas. Embora temido, era também respeitado como guardião da vida selvagem.

👹

Inspirada na colheita do lenhador e nos sabores da roça, esta pamonha é perfeita para acompanhar histórias contadas à beira da fogueira.

 Receita da roça:

 “Pamonha de milho verde com queijo

Ingredientes:

6 espigas de milho verde

1 xícara de açúcar

1 pitada de sal

1 colher de sopa de manteiga

150g de queijo minas cortado em cubos

Palhas de milho para embrulhar

Modo de preparo:

1. Retire as palhas das espigas com cuidado e reserve.

2. Rale os grãos ou bata no liquidificador com um pouco de água.

3. Misture o milho com açúcar, sal e manteiga até formar uma massa homogênea.

4. Coloque uma porção da massa sobre a palha, adicione um cubo de queijo e feche como um envelope.

5. Cozinhe em água fervente por cerca de 40 minutos.

6. Sirva quente, com café coado ou cachaça artesanal — como faria o Caipora.


 BIOGRAFIA CURTA 

Antonio Vendramini é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória — entre receitas simples e flores cultivadas com afeto. Em Vendramini Letras, compartilha palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.


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domingo, 21 de junho de 2026

O CICLO DOURADO: RESGATANDO A ESPERANÇA EM TEMPOS DE MUDANÇA


Muitas das culturas mais antigas possuem mitos e histórias folclóricas que narram a existência de um ciclo de idades, intrinsecamente ligado ao movimento dos céus. Em um momento de introspecção, refleti sobre a ideia de uma "era dourada", um período mítico de paz, harmonia, estabilidade e prosperidade.
Algumas crenças sugerem que essa era retornará à vida das pessoas após um ciclo de bem-aventurança e subsequente decadência progressiva. Outras visões defendem que seu retorno ocorrerá de forma gradual, como uma consequência natural dos acontecimentos.
Inspirado por essa filosofia, concebi um micro conto que ilustra minha visão:
O Segredo da Era Dourada
Em um vilarejo situado entre montes, à beira de um ribeirão, vivia um pastor já com longos anos de vida. Era uma figura de grande respeito entre os moradores, aclamado pelos anciãos durante suas oratórias dominicais na pequena igreja, pois detinha o genuíno poder das palavras.
Em uma noite de inverno rigoroso, ele reuniu os mais velhos ao redor de uma fogueira e profetizou, aos descrentes homens, uma mensagem de esperança por uma vida menos sofrida. Incentivou-os a prepararem a terra, aproveitando as chuvas recentes, para garantir uma safra de grãos mais abundante. Isso suavizaria os períodos de fome que se aproximavam, devido à escassez de chuvas na região.
Após ver o paiol da aldeia cheio, o pastor sentiu que sua jornada à frente daquele povo estava chegando ao fim. Com o passar do tempo, seu papel mudou. Ninguém mais lhe pedia conselhos sábios, e o louro das vitórias habituais não mais lhe cabia na fronte.
O poder e a liderança passaram para outro religioso, vindo de outras pradarias, que assumiu o destino daquelas pessoas.
A partir daquele dia, o dom de sua palavra permaneceu adormecido em sua memória. Seu saber esvaiu-se, o coração fraquejou, e seus pés cansados pararam a marcha de sua vida. Morreu ignorado por todos, mas feliz, pois sabia que havia semeado o grão que nutriria a comunidade futura, uma semente que um dia produziu flores e frutos maravilhosos.

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Antonio Toninho Vendramini Neto

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A FONTE DA ESPERANÇA




“A crônica é meu modo de conversar 
com o mundo sem levantar a voz.”

Na praça da pequena cidade, situada em frente à igreja, a atmosfera era de festa. O espaço, lotado, mal comportava a multidão. Era dia santo, e todos aguardavam ansiosamente o início da procissão, atravessando a praça com entusiasmo.

Em outros tempos, esse mesmo lugar testemunhou os proclamas do alcaide, que, diante da população reunida, anunciava impostos severos. Esses encargos, pagos com enorme sacrifício, faziam o povo amaldiçoar o velho administrador, cuja memória era perpetuada em uma estátua de granito branco. A obra, esculpida por um mestre vindo da cidade grande, nunca foi paga, deixando o artista indignado. Ele amaldiçoou o solicitante no dia em que partiu.

O alcaide era conhecido por desviar recursos públicos para o conforto de seu castelo, negligenciando o investimento em obras essenciais para a comunidade. Apesar disso, a cidade tinha um charme singular. Seus muros medievais cercavam construções seculares, vielas sombreadas e floreiras perfumadas. Nas janelas, senhoras faziam pedidos aos vendedores de frutas e verduras que circulavam pelas ruas estreitas.

Aquele dia, no entanto, era especial. Dias antes, o pároco recebeu um recado do Prefeito para ser anunciado na missa de domingo: algo importante seria revelado antes da procissão. O boato percorreu fronteiras, trazendo o escultor de volta à cidade, ansioso por receber pelo trabalho que tanto impressionava os moradores.

Na praça, o padre esperava impacientemente pelo mensageiro, que chegou ao som de cavalos galopantes. Após tomar um gole d’água oferecido por um aldeão, ele começou a ler o pergaminho:

— Por ordem de nosso querido Prefeito, informo que...

Nesse momento, um estrondo ecoou pelo céu, seguido por uma forte ventania que arrancou o pergaminho de suas mãos. O papel caiu próximo ao escultor, que, ao lê-lo, ficou profundamente abalado. A chuva repentina fez o povo buscar abrigo na igreja, enquanto o escultor, imóvel e tomado pela indignação, amassava o pergaminho e soltava urros.

Determinado, ele dirigiu-se a uma loja de ferragens, apanhou uma marreta e voltou à praça. Golpe após golpe, destruiu a estátua até restar apenas sua base. No último golpe, um jorro d’água alcançou seu rosto cansado. Ele havia atingido o velho aqueduto que abastecia a cidade.

Nesse instante, sua fúria deu lugar à clareza. Olhando para o povo ao redor, exclamou:

— Neste lugar construirei uma fonte, para refrescar os moradores nos dias de verão e para inspirar contemplação.

Pierluigi, um comerciante rico e amante das artes, que observava a cena, aproximou-se e disse:

Signor Domenico, serei seu patrono. Hospede-se em meus aposentos e dê início à obra. Financiei tudo por nossa gente, para trazer alegria à cidade.

Dom Cármino, enfurecido com a iniciativa, tentou impedir a construção, mas foi vencido pela união do povo, que apoiava o escultor e vigiava o local dia e noite. Curiosos perguntavam insistentemente:

— Signor Domenico, o que dizia o pergaminho?

Ele respondia:

— Não posso revelar. Com o tempo, todos entenderão meu gesto.

Quando a fonte foi concluída, a cidade celebrou com danças e músicas em homenagem às águas cristalinas e à primavera, que enchia as mãos de flores. A obra simbolizava um novo tempo de esperança e união.

Antes de partir, Domenico recebeu o pagamento de Pierluigi, que mais uma vez perguntou:

— Domenico, o que dizia o pergaminho que chegou às suas mãos?

O escultor sorriu e respondeu:

— “O cuore há speranza che scorre fonti” (O coração tem esperança, faz jorrar as fontes).

💢

Atuei nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.

 

 Toninho Vendramini

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

ALÉM DO HORIZONTE VERMELHO

 

O horizonte é mais do que um espetáculo visual: é um convite à reflexão. Cada pôr do sol carrega consigo mistérios, cores e significados que despertam emoções profundas. Ao contemplar esse cenário, somos levados a viajar para dentro de nós mesmos, em busca de paz, esperança e sentido para a existência.

Quantas pessoas já se perderam nesse panorama? São incontáveis. Alguns o observam do alto de uma montanha, outros à beira-mar, em viagens de carro, avião ou navio, ou ainda em lugares insólitos e indescritíveis.

Quando temos a oportunidade de contemplá-lo, nossa mente mergulha em uma retrospectiva íntima, vagueando por paisagens interiores em busca de paz — uma busca incessante, mas nem sempre alcançada.

Os olhos semicerrados percorrem esses cenários inenarráveis, como se estivéssemos em uma cabra-cega, tateando emoções. E por mais que tentemos abri-los, a carga de sentimentos nos impede, tamanha é a intensidade do momento.

Cada um pinta o seu próprio quadro. As cores variam, mas sempre predominam o branco da alma, o vermelho da vida e o azul do céu.

Qual será a força desse segredo, tão cheio de mistérios, que se esconde por trás de tamanha beleza?

Cabe a cada um imaginar e satisfazer seus desejos, traduzindo em sonhos e lutas a busca pela sobrevivência, pelo bem-estar dos que amamos e, sobretudo, pela humanidade. Somos responsáveis por moldar o mundo com nossas ações, na esperança de torná-lo melhor.

Alguns enxergam nesse horizonte o chamado para cuidar dos rios e das matas, celebrando a riqueza da fauna e da flora. Outros desejam que a paz entre os homens seja duradoura e que os amores sejam eternos. Fazemos votos fervorosos para que a compreensão entre os povos supere as diferenças, evitando guerras e mortes inocentes — sempre sob o pano de fundo do vermelho da dor.

Mas tudo se transforma quando nossos olhos se fixam nesse horizonte em busca de novas cores e significados. A natureza revela sua força, suavizando o céu e nos dando coragem para enfrentar o cotidiano. Nesse devaneio, a mente explode em pensamentos positivos, até que o azul da noite nos envolve, trazendo paz, leveza e descanso ao corpo e à alma.

Por mais que tentemos descrevê-lo, o espetáculo permanece indescritível. É o milagre dos matizes do crepúsculo, uma maravilha que deslumbra a visão e evoca a fé no superior.

Assim, mesmo diante da escuridão, vislumbramos a luz no fim do túnel. O sol, ainda que em seu ciclo derradeiro no horizonte, insiste em jorrar luminosidade, abrindo um caminho de esperança para que possamos seguir com serenidade, coerência e harmonia.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS - ELE AINDA CAVALGA...

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