Mostrando postagens com marcador Aventuras & Caminhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aventuras & Caminhos. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de junho de 2026

O CICLO DOURADO: RESGATANDO A ESPERANÇA EM TEMPOS DE MUDANÇA


Muitas das culturas mais antigas possuem mitos e histórias folclóricas que narram a existência de um ciclo de idades, intrinsecamente ligado ao movimento dos céus. Em um momento de introspecção, refleti sobre a ideia de uma "era dourada", um período mítico de paz, harmonia, estabilidade e prosperidade.
Algumas crenças sugerem que essa era retornará à vida das pessoas após um ciclo de bem-aventurança e subsequente decadência progressiva. Outras visões defendem que seu retorno ocorrerá de forma gradual, como uma consequência natural dos acontecimentos.
Inspirado por essa filosofia, concebi um micro conto que ilustra minha visão:
O Segredo da Era Dourada
Em um vilarejo situado entre montes, à beira de um ribeirão, vivia um pastor já com longos anos de vida. Era uma figura de grande respeito entre os moradores, aclamado pelos anciãos durante suas oratórias dominicais na pequena igreja, pois detinha o genuíno poder das palavras.
Em uma noite de inverno rigoroso, ele reuniu os mais velhos ao redor de uma fogueira e profetizou, aos descrentes homens, uma mensagem de esperança por uma vida menos sofrida. Incentivou-os a prepararem a terra, aproveitando as chuvas recentes, para garantir uma safra de grãos mais abundante. Isso suavizaria os períodos de fome que se aproximavam, devido à escassez de chuvas na região.
Após ver o paiol da aldeia cheio, o pastor sentiu que sua jornada à frente daquele povo estava chegando ao fim. Com o passar do tempo, seu papel mudou. Ninguém mais lhe pedia conselhos sábios, e o louro das vitórias habituais não mais lhe cabia na fronte.
O poder e a liderança passaram para outro religioso, vindo de outras pradarias, que assumiu o destino daquelas pessoas.
A partir daquele dia, o dom de sua palavra permaneceu adormecido em sua memória. Seu saber esvaiu-se, o coração fraquejou, e seus pés cansados pararam a marcha de sua vida. Morreu ignorado por todos, mas feliz, pois sabia que havia semeado o grão que nutriria a comunidade futura, uma semente que um dia produziu flores e frutos maravilhosos.

Meu Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

📌 Acesse meus espaços de cultura e amizade:

 🔗 YouTube 🔗 Slides e conteúdos 🔗 Blog Vendramini Letras

Antonio Toninho Vendramini Neto

sexta-feira, 19 de junho de 2026

LAMPIÃO, O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS E OS MISTERIOS DO SERTÃO



O "CABRA" LAMPIÃO VIRGULINO
O bandoleiro dos sertões nordestinos 

Durante uma viagem de recreio com a família à encantadora Aracaju, capital de Sergipe — fundada em 1855 e uma das primeiras cidades planejadas do Brasil — notei que suas ruas centrais formam um curioso tabuleiro de xadrez. Em um city tour, visitamos a Catedral, a Colina de Santo Antônio — com vista panorâmica da cidade — a Praia de Atalaia e o Mirante do Calçadão da 13 de Julho, onde se localiza o Mercado Municipal, que me fascinou.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

Comentei com minha esposa que deveríamos voltar ao mercado para explorar melhor suas peculiaridades culturais. Havia muito folclore, artesanato e um contador de histórias que me encantou. Em outro dia, seguimos rumo aos Cânions do Rio São Francisco, atravessando terras áridas até o projeto de irrigação chamado Califórnia, onde o contraste é surpreendente: plantações de quiabo, uva, acerola, coco, maçã, feijão e mais. Às margens do “Velho Chico”, ergue-se a imponente Usina Hidrelétrica de Xingó, com um reservatório de 60 km² que forma cânions de beleza estonteante.

O passeio foi feito em um catamarã. Admiramos paisagens deslumbrantes, como a Gruta do Telhado. No retorno, visitamos o Museu de Arqueologia, com acervo oriundo das escavações do reservatório. Já embarcados de volta, ouvimos o cicerone narrar com entusiasmo que, dois dias antes, na cidadezinha de Piranhas — a cerca de 20 km dali — houve uma missa em homenagem à morte de Lampião.

Segundo ele, foi uma grande concentração popular, com gente de todos os cantos, celebrando o cangaceiro e seu bando. Ali perto, Lampião foi morto junto a seus companheiros, tendo a cabeça decepada pelos “volantes”, como eram chamados os policiais da época. O cicerone contou passagens da vida do bandoleiro, despertando minha curiosidade sobre esse personagem que se tornou lenda no sertão.

O pacote turístico incluía almoço em um restaurante rústico à beira da represa. Ao nos aproximarmos das mesas, o cicerone anunciou:

— Após o almoço, não deixem de conhecer Dona Expedita, filha de Lampião, que os receberá com sua filha Vera.

A senhora, que vive em Aracaju, é dona do restaurante e foi uma atração à parte. Contou que, ao nascer, foi entregue pelo pai a um casal com onze filhos. Até a morte de Lampião e Maria Bonita, foi visitada por eles apenas três vezes. Disse:

— Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava no colo para conversar.

No retorno a Aracaju, fiquei pensando em saber mais sobre a lenda que atravessa as fronteiras de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. Lembrei-me do contador de histórias do mercado e, no último dia da viagem, voltamos lá.

O mercado é um espetáculo nordestino: lojas, barbeiros, cabeleireiras, manicures, vendedores de queijo, castanhas, manteiga de garrafa, artesanato, grupos de forró, dançarinos e tocadores de berimbau. Fui direto à bancada dos causos e lendas. Lá estava ele, cercado de gente e até repentistas. Conheci João Firmino Cabral, mestre da literatura de cordel, cujas obras são celebradas pelo povo.

Naquele momento, lia trechos do livreto “Lampião – Herói ou Bandido”. Ouvi com atenção e, ao final, comprei um exemplar com dedicatória. Trocamos cartões e falei da minha paixão por escrever. Confesso que, de herói, vi pouco. João contou que, certa vez, Padre Cícero mandou um recado a Lampião:

Virgulino, meu afilhado, venha urgente! A Coluna Prestes quer invadir Juazeiro, saquear a cidade, queimar o mercado e matar o povo romeiro.

Lampião atendeu ao chamado. Entrou em Juazeiro e, ao saberem de sua presença, os invasores recuaram. Em agradecimento, o prefeito lhe concedeu o título simbólico de Capitão. Ao partir, cantava pelas ruas:

— O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!

Criado com sete irmãos — três deles seus companheiros de cangaço — sabia ler, escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês e era habilidoso na costura de couro, confeccionando seus próprios chapéus e indumentárias. Os acessórios eram transpassados pelo pescoço, daí o nome “cangaço”, derivado de “canga”, peça que prende o boi ao carro.

Na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, margem sergipana do São Francisco, uma tropa alagoana surpreendeu o bando. O combate durou poucos minutos. Entre os onze mortos, estava o temido Virgulino Ferreira da Silva.

Era o fim da saga do pernambucano de pele queimada, cabelos crespos, braços fortes e quase cego do olho direito. Um “cabra” destemido, que invadia sítios, fazendas e até cidades. Entrou no cangaço após o assassinato do pai, em 1920, por um volante. Ele e três irmãos juraram vingança e se uniram ao bando de Sinhô Pereira. Quando este foi perseguido, passou o comando ao jovem Virgulino, então com 24 anos. Nascia o lendário Lampião.

Foram oito anos de perseguições pela caatinga até sua morte. Decapitados, suas cabeças foram expostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas. Lampião tinha 40 anos. Muitas lendas surgiram com sua morte. Uma delas fala de um tesouro enterrado no sertão. Dizem que levava 5 quilos de ouro e o equivalente a 600 mil reais em dinheiro. Só no chapéu, ostentava 70 peças de ouro puro.

Mesmo após sua morte, Virgulino Ferreira da Silva, o menino do sertão que virou Lampião, permanece vivo na memória popular. Sua história extraordinária parece destinada a nunca ser esquecida.

E depois de tudo o que ouvi e li, não poderia encerrar esta crônica sem deixar fluir um conto que brotou da minha imaginação…

🌶️ Entre a História e o Cordel

 O Sabor do Sertão

Antes de seguir com o conto que brotou da minha imaginação, quero abrir espaço para um tempero especial. Afinal, o cangaço não se fazia só de peixeira e poeira — havia também o cheiro forte da comida feita no mato, com o que se tinha à mão: um pedaço de caça, umas raízes, um punhado de farinha e muita coragem.

Dizem que Lampião, apesar de feroz, era exigente com a comida. Quando o bando acampava, os cabras se viravam com o que encontravam: uma perdiz, um tatu, às vezes até uma cobra. E com isso, faziam um ensopado que sustentava homem valente por dias.

Aqui vai uma receita inspirada nesse espírito — um prato que poderia ter sido servido sob a luz da lua, entre espinhos da caatinga e histórias ao pé do fogo.

🥘

Ensopado de Caça do Cangaço 

(com perdiz ou carne de cobra)

Ingredientes:

1 perdiz limpa (ou 500g de carne de cobra bem lavada e cortada em pedaços)

2 colheres de gordura de porco ou óleo de coco babaçu

1 cebola roxa picada

3 dentes de alho amassados

1 pimenta-de-cheiro (ou dedo-de-moça, se quiser mais ardência)

2 tomates maduros picados

1 colher de chá de colorau

1 folha de louro

Sal a gosto

Cheiro-verde ou coentro picado (se tiver)

1 litro de água quente

Farinha de mandioca para acompanhar

Modo de preparo:

1. Em uma panela de ferro (ou caldeirão de acampamento), aqueça a gordura e refogue a cebola, o alho e a pimenta.

2. Acrescente os pedaços da caça e deixe dourar bem.

3. Junte os tomates, o colorau, o louro e o sal. Misture tudo.

4. Cubra com água quente e deixe cozinhar por cerca de 40 minutos, até a carne ficar macia e o caldo encorpado.

5. Finalize com cheiro-verde ou coentro, se tiver.

6. Sirva com farinha de mandioca e, se quiser manter o estilo do cangaço, coma com as mãos e ao redor do fogo.

👹

Esse prato é mais que sustento — é memória viva do sertão. E agora, com o estômago cheio e o coração aquecido, seguimos para o conto que imaginei sobre Lampião e o “Lamparina

Lampião e o “Lamparina”

O povo de uma pequena cidade já não aguentava mais os ataques do bando de Lampião. A vila ficava bem na rota de fuga e esconderijo dos cangaceiros, e sempre que passavam por ali, deixavam um rastro de destruição. O prefeito era obrigado a liberar o depósito de mantimentos — destinado às famílias mais pobres — e, no meio da balbúrdia, as casas eram invadidas, as mulheres desrespeitadas, e ainda tinham que preparar comida para aqueles homens brutos.

Cansado da situação, o prefeito decidiu contratar uns jagunços para proteger a cidade. Eles se acamparam no galpão da Prefeitura, prontos para qualquer eventualidade, pois sabiam que Lampião voltaria em breve para mais uma estripulia.

Numa noite escura, o bando se aproximou da cidade. Lampião resolveu acampar ali mesmo, ao pé do fogo, e mandou o cabra Azulão levar um bilhete ao prefeito. O bilhete dizia:

— Seu filho de uma égua, amanhã quero cinco contos de réis na minha algibeira e comida pros meus meninos. Não tente me enganar, senão corto suas orelhas e sua língua, seu corno dos infernos.

Azulão partiu. Ao chegar à cidade, percebeu algo diferente: em cada entrada havia um jagunço armado. Conversou com um deles:

— Estamos aqui a mando do prefeito, pra espantar o bando de Lampião.

Mesmo assim, Azulão foi até a Prefeitura e entregou o bilhete. O prefeito respondeu:

— Manda o Lampião ir tomar no rabo! Aqui quem manda sou eu. Que venham, se tiverem coragem. Agora tenho proteção.

Azulão voltou e contou tudo. Lampião ficou furioso:

— Quantos cabras tem na vila?

— Sei não, capitão. Tem gente escondida, não contei.

— Seu inútil! — gritou Lampião, dando-lhe um chute no traseiro. — Não serve pra nada!

Logo mandou mais alguns homens descerem o morro para analisar a situação. Os jagunços, ao perceberem que se tratava de homens de Virgulino, bateram em retirada. Só o chefe, que dormia no galpão, ficou para enfrentar o bando no dia seguinte.

Lampião mandou seu irmão, Bico-Fino, verificar o terreno. Voltou dizendo:

— Meu irmão, só tem um cabra. Os outros fugiram.

— Então vamos! Quero ver a mulherada e encher a pança.

O bando invadiu a Prefeitura de supetão. O prefeito, desesperado, gritou para o chefe dos jagunços:

— Dê um fim nesses bandidos! Aproveitadores de mulher!

O chefe, sozinho, abriu a janela e chamou:

— Venham aqui! Vamos acabar com eles!

Silêncio. Ninguém respondeu.

Ele correu para o meio da rua e lá estava Lampião, esperando com a peixeira na mão. O jagunço, até então valentão, começou a urinar nas calças. Lampião disse:

— Ué, seu frouxo, tu não é macho? Sabe com quem tá falando? Sou o temido Capitão Virgulino, o Rei do Cangaço. E tu é quem?

Todo encolhido, ajoelhado aos pés de Lampião, respondeu:

— Sou o Lamparina... o Rei do Cagaço.

E assim acabei de criar mais uma estória, como tantas outras que povoam o imaginário sobre essa figura fascinante que continua viva na memória do povo sertanejo.


Um passeio por memórias, afetos e encantamentos.

Este meu blog não tem capa dura nem páginas numeradas.

Ele vive nas entrelinhas do tempo.

Cada texto é uma fresta — por onde escapa o que ainda pulsa.

Escrevo como quem conversa com o silêncio.

Como quem guarda o mundo em palavras pequenas.

Como quem acredita que lembrar é uma forma de amar.

📌 Acesse meus espaços de cultura e amizade:

 🔗 YouTube 🔗 Slides e conteúdos 🔗 Blog Vendramini Letras

Recanto das Letras

Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

🌿 Mensagem de Rodapé

 Comente sem medo! Vá mais abaixo - em Postar um Comentário

Aqui não importa escrever bonito ou certo — importa escrever com o coração. Pode ser uma frase curta, uma lembrança ou apenas dizer o que sentiu. Cada comentário é uma semente que ajuda este espaço a florescer.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

A FONTE DA ESPERANÇA




“A crônica é meu modo de conversar 
com o mundo sem levantar a voz.”

Na praça da pequena cidade, situada em frente à igreja, a atmosfera era de festa. O espaço, lotado, mal comportava a multidão. Era dia santo, e todos aguardavam ansiosamente o início da procissão, atravessando a praça com entusiasmo.

Em outros tempos, esse mesmo lugar testemunhou os proclamas do alcaide, que, diante da população reunida, anunciava impostos severos. Esses encargos, pagos com enorme sacrifício, faziam o povo amaldiçoar o velho administrador, cuja memória era perpetuada em uma estátua de granito branco. A obra, esculpida por um mestre vindo da cidade grande, nunca foi paga, deixando o artista indignado. Ele amaldiçoou o solicitante no dia em que partiu.

O alcaide era conhecido por desviar recursos públicos para o conforto de seu castelo, negligenciando o investimento em obras essenciais para a comunidade. Apesar disso, a cidade tinha um charme singular. Seus muros medievais cercavam construções seculares, vielas sombreadas e floreiras perfumadas. Nas janelas, senhoras faziam pedidos aos vendedores de frutas e verduras que circulavam pelas ruas estreitas.

Aquele dia, no entanto, era especial. Dias antes, o pároco recebeu um recado do Prefeito para ser anunciado na missa de domingo: algo importante seria revelado antes da procissão. O boato percorreu fronteiras, trazendo o escultor de volta à cidade, ansioso por receber pelo trabalho que tanto impressionava os moradores.

Na praça, o padre esperava impacientemente pelo mensageiro, que chegou ao som de cavalos galopantes. Após tomar um gole d’água oferecido por um aldeão, ele começou a ler o pergaminho:

— Por ordem de nosso querido Prefeito, informo que...

Nesse momento, um estrondo ecoou pelo céu, seguido por uma forte ventania que arrancou o pergaminho de suas mãos. O papel caiu próximo ao escultor, que, ao lê-lo, ficou profundamente abalado. A chuva repentina fez o povo buscar abrigo na igreja, enquanto o escultor, imóvel e tomado pela indignação, amassava o pergaminho e soltava urros.

Determinado, ele dirigiu-se a uma loja de ferragens, apanhou uma marreta e voltou à praça. Golpe após golpe, destruiu a estátua até restar apenas sua base. No último golpe, um jorro d’água alcançou seu rosto cansado. Ele havia atingido o velho aqueduto que abastecia a cidade.

Nesse instante, sua fúria deu lugar à clareza. Olhando para o povo ao redor, exclamou:

— Neste lugar construirei uma fonte, para refrescar os moradores nos dias de verão e para inspirar contemplação.

Pierluigi, um comerciante rico e amante das artes, que observava a cena, aproximou-se e disse:

Signor Domenico, serei seu patrono. Hospede-se em meus aposentos e dê início à obra. Financiei tudo por nossa gente, para trazer alegria à cidade.

Dom Cármino, enfurecido com a iniciativa, tentou impedir a construção, mas foi vencido pela união do povo, que apoiava o escultor e vigiava o local dia e noite. Curiosos perguntavam insistentemente:

— Signor Domenico, o que dizia o pergaminho?

Ele respondia:

— Não posso revelar. Com o tempo, todos entenderão meu gesto.

Quando a fonte foi concluída, a cidade celebrou com danças e músicas em homenagem às águas cristalinas e à primavera, que enchia as mãos de flores. A obra simbolizava um novo tempo de esperança e união.

Antes de partir, Domenico recebeu o pagamento de Pierluigi, que mais uma vez perguntou:

— Domenico, o que dizia o pergaminho que chegou às suas mãos?

O escultor sorriu e respondeu:

— “O cuore há speranza che scorre fonti” (O coração tem esperança, faz jorrar as fontes).

💢

Atuei nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.

 

 Toninho Vendramini

Às vezes, basta um clique para abrir novas histórias, que ajudam a manter este espaço vivo.

 Acesse meus espaços de cultura e amizade:

 🔗 YouTube 🔗 Slides e conteúdos 🔗 Blog Vendramini Letras 

O CASAMENTO DO LOBISOMEM E A MÃE D'AGUA E A LENDA DO "CAIPORA" - RECEITA NO FINAL




O nascimento do Caipora

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

Na vastidão das noites brasileiras, onde o silêncio é quebrado pelo canto dos grilos e o estalo das fogueiras, vivem histórias que não cabem nos livros — mas que se perpetuam nas bocas dos antigos. Esta é uma delas. Uma lenda que mistura desejo, floresta e mistério. E no final, como manda a tradição da roça, uma receita que aquece o corpo e a alma. 

A chama da fogueira dançava no coração da noite, iluminando os rostos atentos dos jovens indígenas ao redor. O velho cacique, com o olhar carregado de sabedoria e mistério, tragou lentamente seu cachimbo e começou:

Na pequena cabana do lenhador, a tarde se fez noite. Pela janela do casebre, via-se o clarão da vela sobre a mesa, iluminando o pedaço de pão endurecido que saciaria a fome daquele homem de músculos vigorosos. Seus golpes com o machado mantinham o fogo aceso para aquecer o ambiente nas noites frias e chuvosas de inverno. Morava sozinho. Como o sétimo filho de uma família que deixara o vilarejo, ficou para colher a última safra de milho a mando do pai, prometendo se reunir com os parentes ao término da colheita. Mas os meses se arrastavam, e sua solidão crescia.

Era um homem de modos estranhos, arredio e inquieto nas noites de luar. Contemplava a escuridão com olhares soturnos voltados à montanha que dominava o vale cortado por um riacho. Em uma dessas noites, enquanto aguardava algo inexplicável, acendeu um cigarro de palha. O luar crescente despertou algo em seu interior. Arrepiado, com sangue fervendo, saiu de seu casebre como um foguete, rumo à montanha. No cume, contemplou o vale e o riacho caudaloso. Foi então que avistou o corpo de uma mulher com um canto hipnotizante às margens da água.

Era a Mãe D’Água — criatura de beleza arrebatadora, olhos verdes e cabelos longos — que se banhava nas águas. Ele já percebia os pelos que cresciam em seus braços. Uivou ao céu e desceu em um trote desenfreado até o riacho. A mãe sabia de seu segredo, mas não estava ali para acalmá-lo. Seus instintos tomaram o controle. Pulou na água sem tirar a roupa — afinal, já estava coberto de pelos — e uniu-se à Mãe D’Água, embalado por sua dança nas ondas e por um desejo monstruoso que saciou sua sede de volúpia.

Quando o sol nasceu, o homem correu para refugiar-se da luz em seu casebre. A Mãe D’Água desapareceu, escondendo-se em uma caverna onde, meses depois, deu à luz a uma criatura única: o Caipora. De pés virados para trás e olhos penetrantes, tornou-se o protetor das matas e da caça. Pequeno e ágil, montado em um porco-do-mato, usava seu riso estridente para aterrorizar os caçadores desrespeitosos. Aqueles que encontravam seus rastros eram enganados por sua habilidade de despistar seguidores, deixando-os perdidos.

Com o tempo, o Caipora tornou-se uma figura lendária. Nos vilarejos, histórias de suas aparições em noites de luar alimentavam o imaginário popular. Os viajantes diziam vê-lo fumando cachimbo e pedindo cachaça, sempre com o propósito de preservar o equilíbrio das matas. Embora temido, era também respeitado como guardião da vida selvagem.

👹

Inspirada na colheita do lenhador e nos sabores da roça, esta pamonha é perfeita para acompanhar histórias contadas à beira da fogueira.

 Receita da roça:

 “Pamonha de milho verde com queijo

Ingredientes:

6 espigas de milho verde

1 xícara de açúcar

1 pitada de sal

1 colher de sopa de manteiga

150g de queijo minas cortado em cubos

Palhas de milho para embrulhar

Modo de preparo:

1. Retire as palhas das espigas com cuidado e reserve.

2. Rale os grãos ou bata no liquidificador com um pouco de água.

3. Misture o milho com açúcar, sal e manteiga até formar uma massa homogênea.

4. Coloque uma porção da massa sobre a palha, adicione um cubo de queijo e feche como um envelope.

5. Cozinhe em água fervente por cerca de 40 minutos.

6. Sirva quente, com café coado ou cachaça artesanal — como faria o Caipora.

💯 

 BIOGRAFIA CURTA 

Antonio Vendramini é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória — entre receitas simples e flores cultivadas com afeto. Em Vendramini Letras, compartilha palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.


 Acesse meus espaços de cultura e amizade:

 🔗 YouTube 🔗 Slides e conteúdos 🔗 Blog Vendramini Letras

Recanto das Letras

Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

QUANDO A TERRA DANÇA EM PUERTO VARAS

Crônica da Viagem ao Chile Um relato informativo sobre a viagem ao Chile, os encantos culturais de Puerto Varas e a inesperada experiência d...