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sábado, 19 de setembro de 2026

O BAR DA ESQUINA E O LOBÃO DA MADRUGADA

 

O Bar da Esquina e o Lobão da Madrugada

(Uma crônica de saudade e poesia)

Há histórias que resistem ao tempo, mesmo quando os bares fecham, as ruas mudam e as memórias parecem se dissolver no concreto. São histórias de boêmios, de músicos, de poetas — figuras que viveram intensamente a noite e deixaram marcas invisíveis nos corações que os ouviram. Alfredo Lobão é uma dessas presenças. E, ao narrar sua trajetória, não posso deixar de lembrar o soneto que recebi de meu amigo poeta de Portugal, Jorge Humberto, que parece dialogar com a alma errante de Alfredo, como se fosse o eco de sua própria madrugada.

Tem mais a seguir:


O Bar da Esquina e o Lobão da Madrugada

Naquela rua esquecida pelo progresso, onde os postes acesos pareciam resistir ao tempo como velhos guardiões da memória, havia um bar que não tinha nome — apenas uma placa torta com a palavra “Cerveja” escrita à mão. Era ali que Alfredo Lobão reinava todas as noites, como um rei sem trono, mas com violão.

Alfredo não era bonito. Nem elegante. Mas tinha algo que os outros não tinham: presença. Chegava sempre com o mesmo ritual — violão nas costas, cigarro apagado no canto da boca, e um olhar que misturava melancolia com malandragem. Os cabelos desgrenhados e a barba de vários dias compunham o figurino de um boêmio que já não se importava com o espelho, mas sim com o aplauso da rapaziada.

Sentava-se à mesa de madeira encostada na calçada e começava a tocar. Não pedia licença. Não fazia cerimônia. Alfredo era da velha guarda, daqueles que acreditavam que a música cura, conquista e embriaga mais que qualquer bebida. E quando soltava seus urros entre os acordes — que ele chamava de “afinadas de alma” — o bar virava palco, e a rua, plateia.

Os Amores e as Mentiras

Alfredo dizia que já tivera mais de cem mulheres. Algumas ele nomeava com carinho: “A Lúcia do samba”, “A Neide da praia”, “A Marlene do vestido vermelho”. Outras ele inventava na hora, só para impressionar os novatos. Mas todos sabiam que, no fundo, Alfredo era um romântico incurável, desses que se apaixonam por um sorriso e sofrem por um olhar que não volta.

Tinha um jeito peculiar de conquistar: cantava uma música, oferecia um gole de cachaça e contava uma história triste. Era irresistível — não pela beleza, mas pela autenticidade. Alfredo não fingia ser o que não era. E isso, às vezes, bastava.

A Musa da Passarela

Numa dessas noites de lua cheia, quando o mar parecia sussurrar segredos à areia, ela apareceu. A moça da cidade grande. Blusa azul, decote generoso, calça preta colante e salto alto que fazia o toc-toc ecoar como tambor de desfile. Caminhava pela passarela de madeira como quem sabe que está sendo vista. E era.

Os corações solitários se agitavam. Os copos tremiam. E Alfredo, como se tivesse recebido um chamado divino, parou de tocar. Olhou. Sentiu. E compôs.

A música nasceu ali, entre um gole e um suspiro. E quando ele cantou, a moça parou. Sorriu. E seguiu. Alfredo nunca soube seu nome. Mas naquela noite, ela virou eternidade.

O Último Uivo

Os anos passaram. O bar fechou. A rua ganhou asfalto. A passarela virou calçada de concreto. Mas Alfredo continuou indo, mesmo sem plateia. Sentava-se com seu violão e cantava para o vento, para o mar, para as lembranças.

Diziam que ele ainda esperava a moça da blusa azul. Que ainda afinava a garganta com urros. Que ainda acreditava que uma boa música podia mudar tudo. E talvez pudesse.

Porque Alfredo Lobão não era apenas um seresteiro. Era um monumento à boemia, à saudade e ao amor sem medida. Um conquistador de almas, mesmo que a sua estivesse sempre um pouco partida.

O Soneto do Lobo Solitário

E foi nesse espírito que recebi de Jorge Humberto, poeta português, um soneto que parece ter sido escrito para Alfredo — ou talvez para todos os boêmios que caminham sozinhos pela noite, embalados pela música e pela saudade:

EU SOU COMO UM LOBO SOLITÁRIO

Eu sou como um lobo solitário
Que erra sozinho na noite ao luar -
E por sobre ramos subtil e devagar
Sou a sombra, dada ao imaginário.

Minha fome são as paisagens
Ao longe, Alfa e Beta me reconheço,
Sou profano sagrado e intenso
Na imensidão dos nós as ramagens.

E à noite quando o mar conspira
No silêncio das praias a me envolver,
É nelas que encosto todo o meu ser

E em cada coisa que existe e respira
Sou a calma que observa e persiste
E na alma um fogo que ainda insiste.

Jorge Humberto – 28/08/2026

Epílogo

Alfredo Lobão e o lobo solitário de Jorge Humberto se encontram aqui, na mesma narrativa. Um boêmio da esquina e um poeta da madrugada, unidos pela música e pela palavra. Ambos representam uma geração que já ficou no passado, mas que continua viva na memória dos que ainda acreditam que a noite guarda segredos, que a poesia resiste e que a boemia é, no fundo, uma forma de eternidade.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DO PEIDO À METÁFORA: O CORONEL GALO PRETO

 


O Coronel Galo Preto: Entre o Causo e a Crítica

Nota do Autor

Este conto nasceu primeiro como um causo popular, cheio de humor, exageros e até receitas. Depois, foi retrabalhado em chave acadêmica, com prefácio crítico e leitura literária. Aqui reúno as duas versões para mostrar como um mesmo episódio pode ser saboreado de formas diferentes. Quem quiser mergulhar nos textos completos, encontrará abaixo as duas versões — primeiro a satírica, depois a acadêmica — seguidas de uma reflexão comparativa.

Introdução Crítica

O conto do Coronel Galo Preto é um exemplo curioso de como a literatura pode assumir diferentes registros sem perder sua essência. Na primeira versão, ele surge como um causo popular, cheio de humor escrachado, exageros grotescos e até receitas culinárias — uma narrativa que mistura oralidade, memória cultural e comicidade.

Na segunda versão, o mesmo episódio é retrabalhado em chave acadêmica. O coronel deixa de ser apenas figura folclórica e passa a encarnar a metáfora do poder rural, autoritário e teatral. O detalhe escatológico — o famoso “peido” — transforma-se em recurso literário consciente, revelando a fragilidade da autoridade diante da humanidade.

Assim, o leitor pode saborear o conto em duas camadas: como anedota divertida que arranca gargalhadas, e como sátira crítica que expõe os vícios da vida pública. Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um causo escatológico pode virar metáfora da política.

O Conto Satírico (versão popular)

Entre peidos e bolinhos: o causo do Coronel Galo Preto

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

 Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

Ingredientes:

•  500g de bacalhau dessalgado e desfiado

•  500g de batata cozida e amassada

•  1 ovo

•  1 colher de sopa de salsa picada

•  Sal e pimenta-do-reino a gosto

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2.  Tempere com sal e pimenta.

3.  Modele os bolinhos com as mãos.

4.  Frite em óleo quente até dourar.

5.  Escorra em papel toalha e sirva quente.

 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

•  1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

•  Suco de 1 limão

•  2 dentes de alho amassados

•  Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

•  Farinha de trigo para empanar

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2.  Deixe marinar por 1 hora.

3.  Passe os pedaços na farinha de trigo.

4.  Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5.  Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

 Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.


O Conto Acadêmico (versão crítica)

O Coronel Galo Preto


Este conto inscreve-se na tradição satírica brasileira, que desde Gregório de Matos até Lima Barreto expõe os vícios e grotescos da vida pública por meio da caricatura literária. A escolha de um coronel do café como protagonista não é casual: ele representa a figura do poder rural, autoritário e teatral, que dominou a política e a economia do interior paulista.

A palavra “peido”, aqui utilizada sem pudor, é recurso literário consciente. Não é vulgaridade gratuita, mas instrumento de comicidade e crítica: o som inconveniente torna-se metáfora da fragilidade humana diante da pompa do poder. O ridículo do coronel, incapaz de controlar o próprio corpo, revela a contradição entre sua autoridade e sua humanidade.

Ao lado dele, surge Seu Ambrósio, o zelador. Personagem humilde, mas astuto, que observa, denuncia e finalmente desmascara o poderoso. Sua presença dá ao conto uma dimensão ética: é o olhar do povo, silencioso, mas firme, que expõe o ridículo dos grandes. Assim, o texto não é apenas uma anedota escatológica, mas uma crítica social, em que o humor serve de lente para revelar a teatralidade da política rural.

O Conto

No interior de São Paulo, entre vastas plantações de café disputadas por negociantes internacionais, ergueu-se a bolsa cafeeira, onde os preços eram cotados em dólar e decididos sob o comando do temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, o Coronel Galo Preto. Pernambucano de origem, ganhou fama pela bravura entre jagunços e pela brutalidade com que resolvia conflitos.

Presidente da bolsa estadual, sentava-se à cabeceira da mesa com bolsos abarrotados de frango e bolinhos de bacalhau, devorando-os sem cerimônia, limpando a gordura na gravata e soltando baforadas de charuto que impregnavam o ambiente. Os cafeicultores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Mas havia um homem que observava: o zelador Seu Ambrósio. Simples, mas atento, providenciou escarradeira para conter os pigarros e cusparadas do coronel. E foi ele quem percebeu que os estrondos que o coronel atribuía ao arrastar da cadeira eram, na verdade, peidos inconvenientes — trovões grotescos que ecoavam como sátira involuntária no salão.

Em uma reunião decisiva, Ambrósio pregou a cadeira no chão. Sem poder disfarçar, o coronel foi desmascarado diante de todos. Furioso, ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que desapareceu misteriosamente. Dias depois, o coronel faleceu. No sepultamento, para espanto geral, Ambrósio reapareceu e revelou a verdade.

Após sua morte, as reuniões foram transferidas para a capital. E as histórias sobre os peidos, os charutos e as peculiaridades do Coronel Galo Preto tornaram-se lendas — contadas entre goles de café e gargalhadas. Mas foi a coragem silenciosa de Ambrósio que deu à narrativa sua verdadeira força: a lembrança de que até os mais humildes podem desafiar o poder.

Encerramento

Com humor escatológico e crítica social, este conto se inscreve na linhagem de narrativas que revelam o Brasil profundo, onde o grotesco e o poder caminham lado a lado. Ao transformar o coronel em caricatura e o zelador em herói silencioso, o texto convida à reflexão sobre a fragilidade da autoridade e a força dos pequenos gestos.

O Coronel Galo Preto: sátira e crítica social

Comparação e Reflexão

Na versão popular, o coronel diverte e escandaliza, transformado em caricatura grotesca.
Na versão acadêmica, ele se torna metáfora do poder rural e da fragilidade da autoridade.
O humor escatológico, que arranca gargalhadas, é também recurso literário de crítica social.

Versão PopularVersão Acadêmica
Humor escrachado e oralidade
Humor como recurso literário
Coronel grotesco e folclóricoCoronel como metáfora do poder rural
Receita culinária como memória culturalPrefácio crítico como enquadramento satírico
Gargalhadas e saborReflexão e crítica social

Encerramento

Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto virou lenda.
Seja como causo ou como crítica, sua história nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um peido pode virar metáfora da política.
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sábado, 22 de agosto de 2026

A NOITE EM QUE A "MULA SEM CABEÇA" PASSOU




Nel silenzio della memoria, racconto i segreti di Banharão. Il passo della mula senza testa risuona ancora nel cuore.

(No silêncio da memória, conto os segredos de Banharão. O trote da mula-sem-cabeça ainda ecoa no coração)

Memórias e Mistérios da Velha Banharão, o texto vem logo a seguir:

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VAMOS  A  ELAS

Histórias guardam um poder raro: o de manter vivos aqueles que já partiram. Quando a lembrança é compartilhada, ela transforma o passado em presente e o cotidiano em encantamento. Este texto é mais do que uma homenagem ao meu avô Tonella e à minha avó Santa—é um tributo à magia oral, à sabedoria ancestral e ao mistério que ronda os cantos esquecidos do Brasil profundo.

Tive a felicidade de conviver muito de perto com Tonella, pois morávamos juntos com minha família e compartilhávamos o mesmo quarto até o dia de seu falecimento, quando eu tinha dezesseis anos. Essa convivência me permitiu conhecer, em detalhes, suas histórias, sua força e sua essência.

Tonella tinha o dom de contar causos e “estórias” de sua vida no sertão da velha Banharão, distrito da cidade de Jaú, onde nasceu a maioria dos nossos parentes. Seus relatos eram vívidos, cheios de emoção, e conseguiam transportar qualquer ouvinte para tempos remotos, onde bravura e mistério se entrelaçavam.

Com o avançar da idade, já sem forças para cuidar da plantação de café e dos animais, a família decidiu mudar-se para Jundiaí em busca de melhores condições de vida. Na juventude, porém, meu avô era um homem forte e destemido. Sua especialidade era treinar cavalos para espetáculos circenses, além de domar burros e mulas para o árduo trabalho nas lavouras. Essa habilidade lhe rendeu fama na região e bons ganhos financeiros, permitindo-lhe até comprar um Ford "Bigode" novinho. Curiosamente, apesar da coragem para enfrentar animais selvagens, ele tinha receio de dirigir o carro, deixando essa tarefa para meu pai, Vico.

Minha avó, segundo o velho Tonella, era uma benzedeira convicta e também parteira. Com o tempo, aperfeiçoou seus rituais, incorporando gestos e palavras que conferiam um toque ainda mais místico às suas práticas. Ela molhava ramos de uma planta do quintal em "água benta" e os agitava sobre a cabeça das pessoas, pronunciando palavras que pareciam vir de um tempo esquecido.

A tradição das mulheres benzedeiras da família remonta a gerações e tem raízes profundas nas terras europeias, mais precisamente nos confins da cidade de Treviso, na bela Itália. No entanto, com o passar dos anos e a chegada do modernismo, as jovens descendentes se afastaram das crenças antigas, deixando que a tradição se perdesse pelos caminhos da vida.

Ainda sobre os trabalhos de benzedura de minha avó, era comum ver gente vinda de longe para passar pelas suas mãos, buscando cura ou um bom parto. Durante o ritual, ela balbuciava frases em um idioma ancestral e difícil de compreender. Acreditava-se que aqueles que se sentavam no pequeno banco de madeira para receber suas bênçãos poderiam ter visões da temida mula-sem-cabeça. E então, instigados pelo medo e pelo misticismo, confessavam seus pecados e saíam dali acreditando estarem livres de seus males.

O tropel da mula-sem-cabeça, segundo meu avô, era um aviso. Quando o "doente" ouvia o som inquietante dos cascos rodeando a casa, era proibido olhar, nem mesmo por uma fresta da janela, sob o risco de ficar cego. As histórias contadas por minha avó eram envoltas em mistério e temor, e geravam respeito entre os que buscavam sua ajuda.

Ainda segundo Tonella, minha avó—ou mia nonna, meglio conosciuta come la vecchia signora—alertava sobre os perigos do pecado: moças que se entregassem a um amor proibido antes do casamento, comadres que se envolvessem com compadres, ou mesmo uma mulher que se casasse com um padre, todas estavam fadadas a se transformar na terrível mula-sem-cabeça.

Dizia também que ela aparecia nas noites de sexta-feira e, ao encontrar um pecador, sugava-lhe os olhos, as unhas e os dentes, soltando fogo pelas narinas. Se a vítima sobrevivesse, acreditava-se que a cura havia sido alcançada. E para aqueles que, tomados pelo medo, desejavam evitar o encontro com a criatura, bastava não cruzar correndo diante de uma cruz à meia-noite.

Mio Gran Finale:

Os mitos e lendas brasileiras percorrem os lares de nosso povo, despertando temor e alimentando a imaginação, assim como fazia minha avó Santa e seu fiel escudeiro, o marido, meu avô Tonella. Essas histórias vagam por diversos lugares ao mesmo tempo, mudam nomes e características, mas nunca desaparecem. Permanecem vivas, misturando-se às crendices e ao lado sombrio do inconsciente coletivo.

E enquanto houver alguém disposto a ouvir e lembrar, o tropel da mula continuará ecoando pelas noites da memória.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História.

"Cada interpretação abre uma janela para novos horizontes."

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS - ELE AINDA CAVALGA...


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Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

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SENTA QUE LÁ VEM MAIS UMA, DAQUELAS LÁ DOS SERTÕES NORDESTINOS

ONDE LAMPIÃO AINDA CAVALGA

Crônica literária

Há lugares onde a História termina nos livros. No sertão, ela continua sendo contada entre um café quente, um verso de cordel e a sombra comprida de um fim de tarde.

Viajar é colecionar paisagens, mas algumas viagens nos oferecem muito mais do que aquilo que os olhos conseguem registrar. Há lugares que deixam fotografias na memória e outros que, além das fotografias, nos entregam pessoas, histórias e personagens que continuam conosco muito depois de a viagem terminar. Foi assim que aconteceu comigo em uma viagem de recreio com a família a Aracaju, capital de Sergipe.

Logo nos primeiros dias, a cidade me chamou a atenção pela organização de suas ruas centrais, que formam um curioso tabuleiro de xadrez, e pelo conjunto de lugares que fomos conhecendo durante o city tour: a Catedral, a Colina de Santo Antônio, de onde se descortina uma bela vista panorâmica da cidade, a Praia de Atalaia e o Mirante do Calçadão da 13 de Julho. Mas, entre todos esses lugares, foi o Mercado Municipal que realmente despertou minha curiosidade.

Havia ali qualquer coisa diferente.

Não era apenas um mercado onde se compravam produtos. Era um pedaço vivo do Nordeste, com seu artesanato, seu folclore, seus cheiros, suas cores, sua música e, principalmente, sua gente. Entre uma banca e outra, encontravam-se vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, músicos e personagens que pareciam ter saído diretamente de algum daqueles folhetos de cordel que contam histórias de geração em geração. Foi também ali que avistei um contador de histórias que me chamou a atenção.

Comentei com minha esposa que deveríamos voltar ao mercado em outro dia, com mais calma, para conhecer melhor suas peculiaridades. Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquela decisão acabaria tendo um papel importante na história que eu levaria comigo daquela viagem.

Em outro dia, seguimos rumo aos Cânions do Rio São Francisco. À medida que nos afastávamos de Aracaju, a paisagem ia se modificando e as terras áridas começavam a anunciar o sertão. De repente, porém, surgiu diante de nós um contraste impressionante: o projeto de irrigação chamado Califórnia, onde a água transformava a paisagem e fazia nascer plantações de quiabo, uva, acerola, coco, maçã, feijão e outras culturas. Era como se a terra, depois de enfrentar durante tanto tempo a dureza do sol, tivesse encontrado uma maneira de responder à seca com abundância.

Mais adiante, às margens do Velho Chico, erguia-se a imponente Usina Hidrelétrica de Xingó, cujo reservatório formava os cânions de uma beleza que dificilmente pode ser descrita apenas por palavras.

O passeio foi feito de catamarã, e fomos avançando lentamente pelas águas enquanto os paredões de pedra se erguiam ao nosso redor. Admiramos paisagens deslumbrantes e passamos pela Gruta do Telhado, que despertava a curiosidade de todos. No retorno, ainda visitamos o Museu de Arqueologia, cujo acervo era proveniente das escavações realizadas na região do reservatório.

Quando voltamos a embarcar no catamarã, o cicerone tomou a palavra. Falava com entusiasmo, daquele jeito peculiar de quem não está simplesmente transmitindo informações aos turistas, mas contando uma história que conhece e aprecia.

Foi então que mencionou Lampião.

Contou que, dois dias antes, na pequena cidade de Piranhas, havia acontecido uma missa em homenagem à morte do famoso cangaceiro. Segundo ele, fora uma grande concentração popular, com gente vinda de diversos lugares para lembrar Lampião e seu bando. Ali perto, na Grota do Angico, Lampião havia sido morto juntamente com seus companheiros, surpreendidos pelas forças policiais conhecidas como volantes.

O nome ficou ressoando em minha cabeça.

Lampião.

Eu já conhecia alguma coisa sobre o personagem, como praticamente todo brasileiro conhece, mas ouvir aquela história naquele lugar, tendo diante dos olhos o próprio Rio São Francisco e aquelas paredes de pedra que pareciam guardar segredos de outros tempos, produziu em mim uma curiosidade diferente.

Quem teria sido, afinal, aquele homem?

Um bandido?

Um herói?

Um homem cruel transformado em lenda?

Ou talvez todas essas coisas ao mesmo tempo, dependendo de quem contasse a história?

O pacote turístico incluía o almoço em um restaurante rústico à beira da represa e, quando nos aproximávamos das mesas, o cicerone fez outro anúncio que aumentou ainda mais minha curiosidade:

— Depois do almoço, não deixem de conhecer Dona Expedita, filha de Lampião, que os receberá com sua filha Vera.

Aquela informação mudou completamente o meu interesse pelo passeio.

Dona Expedita, filha de Lampião.

A mulher nos recebeu com simplicidade e, aos poucos, foi contando um pouco de sua história. Disse que, ao nascer, fora entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos e que, até a morte de Lampião e Maria Bonita, havia sido visitada por eles apenas três vezes.

Então disse algo que me surpreendeu:

— Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava no colo para conversar.

A frase ficou comigo.

Até aquele momento eu vinha tentando conhecer Lampião como personagem histórico. De repente, porém, sua filha me apresentou uma outra imagem: a do pai que a colocava no colo.

Era uma lembrança simples, quase doméstica, e talvez justamente por isso tão forte.

Naquele instante compreendi que, por trás de toda figura histórica, existe uma pessoa que foi pai, filho, irmão, amigo ou inimigo de alguém. A História registra os grandes acontecimentos, mas muitas vezes é a memória das pessoas comuns que consegue devolver humanidade aos personagens que o tempo transformou em lenda.

Voltamos para Aracaju, mas Lampião continuou comigo.

Eu queria saber mais sobre aquela figura que atravessava as fronteiras de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia e que parecia ter sobrevivido ao próprio tempo.

Foi então que me lembrei do contador de histórias que havia visto no Mercado Municipal.

No último dia da viagem, voltamos ao mercado.

E encontrei um verdadeiro espetáculo nordestino.

Havia lojas, barbeiros, cabeleireiras, manicures, vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, grupos de forró, dançarinos e tocadores. Era um daqueles lugares onde o comércio e a cultura parecem ter feito um acordo para viverem juntos.

Fui direto à bancada dos causos e das lendas.

E lá estava ele, cercado de gente e de repentistas.

Foi ali que conheci João Firmino Cabral, mestre da literatura de cordel, um homem que parecia compreender que determinadas histórias não foram feitas para permanecer quietas dentro de livros: elas precisam ser ditas, ouvidas e novamente contadas.

Naquele momento, João lia trechos de um livreto chamado Lampião — Herói ou Bandido.

Parei para ouvi-lo.

Ao final, comprei um exemplar e pedi que o autografasse. Trocamos cartões e falei sobre minha paixão por escrever. Confesso que, depois de tudo que havia ouvido, de herói eu ainda tinha dificuldade para enxergar Lampião.

João, porém, não parecia preocupado em me convencer de coisa alguma.

Ele simplesmente contava.

E talvez seja justamente aí que esteja a força do cordel.

O cordelista não precisa dar a última palavra. Ele apresenta o personagem, coloca a história diante do povo e deixa que cada ouvinte tire suas próprias conclusões.

Foi assim que João me contou uma passagem envolvendo Padre Cícero.

Segundo o causo, Padre Cícero teria mandado um recado a Lampião:

— Virgulino, meu afilhado, venha urgente! A Coluna Prestes quer invadir Juazeiro, saquear a cidade, queimar o mercado e matar o povo romeiro.

Lampião teria atendido ao chamado. Ao entrar em Juazeiro, os invasores, sabendo de sua presença, recuaram. Em agradecimento, recebeu o título simbólico de Capitão e, ao partir, teria cantado pelas ruas:

— O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!

João continuou contando outras curiosidades.

Lampião havia sido criado com sete irmãos, três dos quais também se tornariam companheiros de cangaço. Sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês e possuía habilidade com o couro, confeccionando seus próprios chapéus e indumentárias.

A imagem que se formava diante de mim era cada vez mais complexa.

Não era apenas o homem bruto da peixeira.

Era também um personagem cheio de contradições, capaz de produzir medo e admiração, violência e poesia, brutalidade e cuidado com a própria aparência.

Talvez fosse justamente essa mistura que tivesse permitido que sua figura ultrapassasse a História e entrasse definitivamente no imaginário popular.

Mas a História tinha uma data para encerrar a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, na margem sergipana do São Francisco, uma tropa alagoana surpreendeu o bando. O combate durou poucos minutos e, entre os mortos, estava o temido Lampião.

Terminava ali a saga do pernambucano que havia entrado para o cangaço depois do assassinato do pai e que, juntamente com três irmãos, jurara vingança. Ele se juntara ao bando de Sinhô Pereira e, quando este deixou o cangaço, o jovem Virgulino, então com apenas 24 anos, assumiu o comando.

Nascia o Lampião que entraria para a história.

Durante anos, perseguiu-se e foi perseguido pela caatinga, até chegar àquele desfecho.

Depois de sua morte, muitas histórias começaram a circular. Falava-se de tesouros enterrados, de ouro, de dinheiro e das riquezas que os cangaceiros teriam escondido pelo sertão. Quanto mais o tempo passava, mais a fronteira entre o que realmente acontecera e aquilo que o povo imaginava parecia desaparecer.

E talvez seja exatamente assim que nascem as lendas.

A História conta o que aconteceu.

O povo acrescenta aquilo que gostaria de ter visto acontecer.

E o contador de histórias mistura as duas coisas com tanta habilidade que, depois de algum tempo, ninguém mais sabe onde termina uma e começa a outra.

Foi então que percebi que Lampião, embora morto há décadas, continuava vivo.

Não como homem.

Como personagem.

Vivo na memória popular, nos livros, nos folhetos de cordel, nos causos contados nas feiras e nas conversas de quem conhece o sertão.

E, depois de tudo o que havia ouvido e visto, senti vontade de deixar minha própria imaginação entrar naquela história.

Foi assim que nasceu o causo que segue.

LAMPIÃO E O “LAMPARINA”

Conta-se que uma pequena cidade do sertão já não aguentava mais as passagens do bando de Lampião. A vila ficava justamente numa das rotas utilizadas pelos cangaceiros e, sempre que apareciam, deixavam atrás de si medo, confusão e uma população obrigada a suportar as exigências daqueles homens.

O prefeito, cansado de viver naquela situação, resolveu tomar uma providência. Reuniu alguns jagunços e contratou-os para proteger a cidade. Os homens se instalaram no galpão da Prefeitura, armados e cheios de confiança, pois sabiam que Lampião poderia aparecer novamente a qualquer momento.

Numa noite escura, o bando se aproximou da cidade e Lampião decidiu acampar ali mesmo, ao pé do fogo. Chamou o cabra Azulão e mandou que levasse um bilhete ao prefeito, exigindo dinheiro e comida para seus homens.

Azulão partiu.

Ao chegar à cidade, percebeu logo que havia alguma coisa diferente. Nas entradas da vila havia jagunços armados, vigiando as ruas. Um deles, ao ser perguntado sobre o motivo daquela movimentação, respondeu que estavam ali a mando do prefeito para espantar o bando de Lampião.

Azulão não se intimidou. Foi até a Prefeitura e entregou o bilhete.

O prefeito, sentindo-se protegido pelos novos defensores, respondeu com uma coragem que talvez não tivesse demonstrado sozinho:

— Manda Lampião ir tomar no rabo! Aqui quem manda sou eu. Que venham, se tiverem coragem. Agora tenho proteção.

Azulão voltou e contou tudo a Lampião.

O cangaceiro ficou furioso.

— Quantos cabras tem na vila?

Azulão hesitou.

— Sei não, capitão. Tem gente escondida, não contei.

Lampião perdeu a paciência.

— Seu inútil! Não serve pra nada!

Mandou então alguns homens descerem o morro para observar melhor a situação. Os jagunços, ao perceberem que se tratava de gente do bando de Virgulino, trataram logo de desaparecer. A valentia que parecia tão grande quando estavam protegidos pela escuridão e pelas armas se dissolveu rapidamente diante da realidade.

Quase todos fugiram.

Restou apenas o chefe.

Na manhã seguinte, Lampião mandou seu irmão Bico-Fino verificar o terreno.

Pouco depois, ele voltou.

— Meu irmão, só tem um cabra. Os outros fugiram.

Lampião sorriu.

— Então vamos!

O bando entrou na cidade.

O prefeito, desesperado, correu até o chefe dos jagunços e gritou:

— Dê um fim nesses bandidos!

O homem, ainda tentando manter a fama de valente, abriu a janela e chamou:

— Venham aqui! Vamos acabar com eles!

Esperou.

Nada.

Chamou novamente.

Silêncio.

Foi então que percebeu que estava sozinho.

Mesmo assim, saiu para a rua.

E lá estava Lampião, esperando por ele, com a peixeira na mão.

O homem que até poucos minutos antes se julgava o grande defensor da cidade começou a perder a valentia. As pernas tremiam e o medo tomou conta de seu corpo.

Lampião olhou para ele e perguntou:

— Ué, seu frouxo, tu não é macho? Sabe com quem está falando? Sou o temido Capitão Virgulino, o Rei do Cangaço. E tu, quem é?

O homem, já completamente desarmado pela própria covardia, encolheu-se, ajoelhou-se diante de Lampião e respondeu:

— Sou o Lamparina...

Fez uma pausa.

Olhou para o chão.

E completou:

— ...o Rei do Cagaço.

E foi assim que, depois de ouvir tantas histórias sobre Lampião, acabei criando mais uma.

Talvez tenha acontecido.

Talvez não.

Mas pouco importa.

No sertão, algumas histórias não precisam de certidão de nascimento.

Elas simplesmente começam a ser contadas.

Passam de uma boca para outra, ganham um detalhe aqui, outro ali, recebem uma risada, um exagero, uma lembrança e, quando percebemos, já se transformaram em parte da memória de um povo.

Foi o que aconteceu comigo naquela viagem.

Voltei para casa com fotografias dos cânions, lembranças do Velho Chico, o folheto de cordel de João Firmino e, principalmente, com a recordação daquela frase de Dona Expedita, quando falou do homem que era seu pai e não apenas do cangaceiro que o mundo conheceu.

Foi então que compreendi que Lampião poderia ter morrido naquela madrugada de julho de 1938, mas o personagem não morreu.

Ele continua vivendo no cordel, nos causos, nas feiras, nas conversas e na imaginação de quem ainda encontra prazer em sentar-se para ouvir uma boa história.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma lenda.

O homem desaparece.

A história permanece.

E, enquanto houver alguém disposto a contar, alguém disposto a ouvir e alguém disposto a acrescentar mais um pedaço de imaginação ao que já foi contado, Lampião continuará atravessando a caatinga.

Não necessariamente montado num cavalo.

Não necessariamente empunhando uma peixeira.

Mas cavalgando pela memória de um povo que aprendeu a transformar a própria história em literatura.

Foi assim que voltei de Sergipe.

Com a sensação de que não havia simplesmente conhecido um lugar.

Havia encontrado personagens.

E, entre eles, um que parecia insistir em permanecer no caminho.

Talvez seja por isso que, quando penso naquela viagem, ainda consigo imaginar o Velho Chico correndo silenciosamente entre os paredões, o mercado cheio de vozes, o cordel aberto nas mãos de João Firmino e, ao longe, perdido entre a poeira e a lembrança, um cavaleiro atravessando o sertão.

Lampião ainda cavalga.

Não pela estrada.

Pela memória.

E talvez continue cavalgando enquanto houver um sertanejo, um poeta, um cordelista ou simplesmente alguém disposto a dizer:

— Dizem que... 


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