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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O DOMINGO DO CAVALO MISTERIOSO

 

“O Domingo em que o Cavalo Virou Artilheiro”

Era mais um domingo abafado no interior paulista, daqueles em que até o vento parecia preguiçoso. O time da cidade, sempre na corda bamba da primeira divisão, lutava mais para não cair do que para subir. A torcida já estava cansada: ingressos caros, futebol sofrível e ainda tinham que bancar rifas, sorteios e promoções para manter o clube respirando. Era como pagar para sofrer — e ainda sorrir no final.

A diretoria, desesperada, resolveu apelar mais uma vez para o bolso e a paciência do torcedor. Só que dessa vez, a criatividade ultrapassou os limites do ridículo. Os jogadores, com salários atrasados, começaram a reclamar. Foi então que o lateral apelidado de Gaúcho, vindo lá dos pampas, resolveu “ajudar”: ofereceu um de seus cavalos para ser sorteado no intervalo do jogo. O detalhe? O animal era um pangaré manco, aposentado dos rodeios, que mais parecia peça de museu do que prêmio de loteria.

A rádio local começou a anunciar com pompa: “No intervalo, uma surpresa imperdível para os torcedores!” O mistério se espalhou pela feira, pelo comércio e até pelas igrejas. O povo foi em peso ao estádio, mais curioso pelo sorteio do que pelo futebol.

No intervalo, com o placar empatado, o locutor se esgoelava no microfone: “Chegou a hora da grande surpresa!” A urna foi levada ao centro do gramado e o número sorteado caiu nas mãos de uma jovem animada, que correu com o namorado para receber o prêmio. Ansiosa, ela perguntava: “Cadê? Cadê o meu prêmio?” Foi quando surgiu o Gaúcho, puxando o cavalo manco pelo cabresto. A cena foi digna de novela cômica: a moça ficou indignada, o namorado sem saber o que fazer, e o cavalo… simplesmente disparou pelo campo!

O animal corria endiabrado, driblando jogadores, gandulas e até o juiz. Um atleta, na tentativa de acalmá-lo, chutou a bola em sua direção. O cavalo, empolgado, perseguiu a redonda e acabou empurrando-a para dentro do gol. O estádio explodiu: “É gol! Mas de quem? Do time ou do cavalo?”

No auge da confusão, o pangaré enroscou a pata na rede e ficou preso. Chamaram os bombeiros, que ao entrar com o caminhão pelo portão estreito, derrubaram alambrado, portão e metade da estrutura. Resultado: o cavalo continuou preso, o jogo acabou sem segundo tempo e a torcida saiu sem saber se ria ou chorava.

No dia seguinte, uma reportagem da capital foi ao estádio. Procuraram o cavalo, mas não havia sinal dele. Nem rede rasgada, nem pegadas, nada. O mistério permanece até hoje: teria o pangaré virado lenda, fantasma ou simplesmente fugido para nunca mais voltar?


Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

O ARCO DA MEMÓRIA E A TRAVESSIA DO TEMPO



Sou um contador de histórias do cotidiano. Escrevo crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilho palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.


TONELLA E O SACI PERERÊ 

 

A manhã estava fria. Nuvens cinzentas pairavam no céu, carregadas de umidade, trazendo sobre minha casa uma garoa intermitente que acentuava o frio dos últimos dias. A água, tão escassa, agora escorria suavemente pelas ruas, alimentando a vegetação ressequida.

Pela vidraça, vi a rua deserta: portas fechadas, janelas trancadas, um silêncio que indicava o recolhimento das pessoas naquele domingo cinzento.

Não saí para comprar o tradicional jornal. Apanhei o da semana anterior e comecei a folheá-lo com mais atenção. Na página do obituário, um nome familiar saltou aos meus olhos: um homem que, há tempos, havia me encantado com uma bela lenda sobre o pássaro Uirapuru—símbolo de felicidade nos negócios e no amor.

Com aquele pensamento, coloquei lenha na lareira, acendi o fogo e me acomodei no sofá. As labaredas dançavam, soltando estalos, despertando memórias das histórias que meu avô, Tonella, costumava contar.

Foi então que percebi algo incomum: um fino rolo de fumaça, acumulado no alto da viga mestre, começou a formar um arco translúcido. Dentro dele, uma sombra tomou forma.

Meu coração acelerou. Aos poucos, a figura se definiu… Era Tonella, saindo das entranhas do tempo, trazendo seus inseparáveis apetrechos para enrolar seu cigarro de palha.

Ele pisou firme no chão e se acomodou na velha cadeira de balanço, onde, na infância, nos reuníamos ao seu redor para ouvir suas histórias.

Com a mente imersa na visão, lembrei do dia em que ele contou sobre o famoso Saci-Pererê. Ajustou-se na cadeira, pegou um punhado de fumo, enrolou-o na palha e acendeu. O cheiro se espalhou pelo ambiente, trazendo lembranças dos tempos em que ouvíamos seu relato, os olhos brilhando de encanto e medo.

— Olha, molecada, vou contar, mas não quero ninguém mijando nas calças!

— Não, “nonno”! Pode contar! Somos grandes!

De repente, outro estalo da lenha ecoou pela sala e, do arco enfumaçado, surgiu uma figura pequena e irrequieta: o próprio Saci! Pulando numa perna só, ele veio direto ao colo do Tonella.

— Seu moleque do inferno, de onde você saiu?

— “Vosmicê falô di eu, então vim qui pra mód’ocê num fala mintira!"

Tonella, conhecendo bem as artimanhas do Saci, advertiu:

— Nada de bagunça aqui! Só ouve!

— “Quá nada, véio lazarento! Gosto mermo é de vê ocê contá mentira! Agora, me dá um fumo pru meu cachimbo, pra sortá fumaça igual ocê!"

— Não! Já tem fumaça demais aqui!

Tonella arrancou-lhe o cachimbo, deu um puxão de orelha e o mandou ficar quieto.

Então, retomou a história:

— Molecada, o Saci gosta de aprontar! Esconde brinquedos, solta animais dos currais, derrama sal na cozinha e trança a crina dos cavalos! Não atravessa riachos. Dizem que pode ser capturado se preso num rosário de mato bento ou numa peneira. E, se alguém lhe tirar o capuz, pode conseguir um desejo!

Tonella olhou para o arco de fumaça e, de lá, surgiu meu pai, Vico. Ele estendeu a mão para o avô e ambos sumiram no túnel do tempo. O Saci, rápido como sempre, correu, pegou seu cachimbo do bolso do Tonella e desapareceu.

O som da campainha me trouxe de volta à realidade. Pela janela, vi minha família chegando: meu filho Alexandre, o neto Augusto, minha filha Erika e o marido, junto com o Lucas.

Antes que se acomodassem no tapete, olhei para o canto da sala. A cadeira de Tonella ainda balançava sozinha.

Sem hesitar, tomei o assento.

Era minha vez de contar histórias.

✍️ 

Atuei nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.

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terça-feira, 5 de maio de 2026

A LENDA DO NEGRINHO DO PASTOREIO


SOU GAÚCHO LÁ DOS CONFINS DA FRONTEIRA

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa. 

As lendas do nosso Brasil são inúmeras e fascinantes, especialmente nas regiões mais afastadas do burburinho das grandes cidades. Vagueiam pelos rincões e pelas matas, onde vivem na voz dos contadores, que com imaginação fértil transportam mentes por céus, terras e mares, perpetuando saberes através da crendice popular.

Em uma viagem de férias ao Sul do Brasil, mais precisamente à charmosa cidade de Gramado, na Serra Gaúcha, vivi uma dessas experiências que parecem saídas de um livro — ou de um sonho. Naquela noite gelada, saímos de um concerto musical e, para aquecer a alma, decidimos tomar um chocolate quente. Fomos orientados por um local a caminhar até a famosa “Rua Coberta”.

Seguimos a pé. Logo percebemos a estrutura característica: telhas em arco formando uma cobertura sob a qual turistas se aconchegam em bistrôs e bares, embalados por apresentações culturais. Um grupo de jovens, trajando os trajes típicos da região, animava o ambiente com canções folclóricas. Ao lado, uma fogueira ardia lentamente, cercada por espetos com carnes suculentas — aroma inconfundível da paixão gaúcha pelo churrasco e pelo chimarrão.

Em um momento especial, o cantor — alegre e altivo, com botas altas e um cajado que mais parecia um bastão mágico — executou um sapateado vibrante sobre o tablado de madeira. Aplausos ressoaram. Depois, com sotaque carregado de chão e história, anunciou a próxima canção: “O Negrinho do Pastoreio”, uma lenda do sul que, segundo ele, jamais deveria ser esquecida.

A plateia, encantada, pediu que ele contasse mais. Com um brilho nos olhos, ele começou:

“Sou gaúcho lá dos confins da fronteira, terra de bugre bravo e de lenda forte…”

E contou. Contou que no tempo da escravidão, um senhor poderoso possuía uma tropa de cavalos que era seu orgulho e sustento. Seu filho — mimado, preguiçoso e cruel — não herdara o gosto pelo trabalho, mas herdara o capricho de judiar do mais fraco. E foi assim que o Negrinho do Pastoreio, esperto menino cativo, recebeu a ingrata tarefa de cuidar da tropa, liderada por um belo cavalo baio.

Certa vez, o filho do fazendeiro espantou os animais de propósito. O menino não conseguiu recuperá-los. Acusado e injustamente punido, foi levado às coxilhas à noite e, ao não reencontrar a tropa, foi brutalmente chicoteado e deixado nu sobre um formigueiro.

Três dias depois, o fazendeiro retornou e, para seu assombro, encontrou o menino ileso ao lado dos cavalos, protegido por Nossa Senhora. Nascia ali a lenda do Negrinho do Pastoreio — guardião dos animais e das coisas perdidas.

Naquele instante, a rua escureceu. As luzes apagaram-se. Levei a mão ao bolso e percebi a falta da minha carteira. Pedi uma vela ao garçom e a acendi, como manda a tradição. Senti então algo sob meu pé: a carteira! Teria sido milagre? Coincidência?

Foi quando um tropel de cavalo ecoou pela rua. Vimos surgir da escuridão o Negrinho montado em seu cavalo baio. As ferraduras faiscavam no asfalto. Ele parou diante de mim e disse:

“Pois é, senhor... encontrou sua carteira, né? Ouvi seu pedido. Vim mostrar minha força — para que continuem acreditando na lenda.”

“Obrigado”, respondi. “Mas... quem é você?”

“Faço parte do grupo de teatro que se apresentou na peça que vocês assistiram.”

E, montado em seu baio encantado, galopou rua afora, saudando os presentes e deixando para trás um rastro de emoção.

O churrasco foi servido. Peguei minha carteira — que estava no bolso, pronta para pagar a conta. Foi então que acordei.

Estava no hotel. Ao meu lado, sobre o criado-mudo, repousava um prospecto turístico: naquela noite, haveria uma peça teatral sobre lendas gaúchas, com passeio à Rua Coberta e chocolate quente.

Nossa cultura é feita desses mistérios. Os nomes variam, os sotaques mudam, mas as histórias sobrevivem, encantam e ensinam. São um tesouro que deve ser cultivado nas escolas, passado adiante — de geração em geração — para que não se percam no tempo.

 💥

Como todo escritor, busco aperfeiçoar cada linha, cada texto, cada narrativa para que a experiência de leitura seja envolvente e marcante.

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🔮 Contos com um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola.


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sexta-feira, 1 de maio de 2026

NO COMPASSO ENCANTADO DA NOITE





Uma crônica sobre os mistérios e encantos da vida noturna em um recanto silencioso.

Naquela tarde sonolenta do início de abril, a noite chegou vestida de mistérios. Foi se derramando madrugada adentro, trazendo consigo sons discretos — e fascinantes — dos pássaros e animais noturnos que habitam o meu recanto.

Do silêncio que imperava, surgiu de repente o canto peculiar de uma coruja, que há dias vinha se abrigando em um dos galhos próximos à janela do meu quarto. Parecia, quem sabe, estar chamando por um parceiro para compartilhar a noite.

Com seus sons suaves e insistentes, ela espalhava no ar algo mais do que simples cantos — talvez uma química invisível. E não é que funcionou? Logo outra coruja se aproximou no mesmo galho, formando um improvável casal sob o véu da noite.

Imagino que, com a chegada, tenha começado um discreto namoro, em que os piados iam ganhando intensidade e ritmo, até explodirem num agudo e vibrante repique. Eu, desperto, acompanhava a pequena sinfonia com certa admiração, notando a variedade quase musical daqueles sons.

O sono já tinha me deixado. Restava apenas aproveitar o espetáculo involuntário e torcer para que logo a serenata silenciasse.

É curioso como a noite revela sons que quase nunca percebemos.

Passaram então a se destacar os latidos dos cachorros errantes pelas ruas do meu condomínio. Alguns pareciam alertas, quase desesperados; outros, como se apenas respondessem com certa calma. Fiquei pensando: o que será que provoca tamanha reação nos cães?

Não demorou e presenciei, ao abrir a janela, uma cena que explicava toda a agitação: uma raposa faminta atravessava o gramado carregando um pequeno roedor na boca — sucesso na caçada e garantia de alimento para os filhotes.

Logo depois, mais uma cena surpreendente: um gato, silencioso e ágil, subia por uma árvore em direção ao casal de corujas. Também ele, caçador nato e noturno, mirou com precisão e — num salto certeiro — abocanhou uma das aves, que descansava desprevenida.

No galho, restou apenas a outra coruja. Emitiu sons longos e tristes, quase lamentosos, como se expressasse a dor da perda. Um momento melancólico, mas parte inevitável da dança natural da vida. A cadeia alimentar tem suas regras duras — e imparciais.

Já alta madrugada, o silêncio foi, por fim, interrompido por outro som conhecido: o canto enérgico do meu galo. Em sua primeira manifestação do dia, ele soltou um vigoroso “cocoricó”, despertando aqueles que nele confiam como despertador. E ele não parou por aí — foram treze cantos seguidos! Um exagero para quem não conseguiu pregar os olhos...

No meio de tantas emoções, comecei a rir sozinho. Seria possível que meu galo estivesse tentando acabar com aquela barulheira toda? De certo modo, funcionou. Após sua cantoria, tudo silenciou — até os últimos grilos pareceram recolher-se.

Desde aquele dia, passei a chamá-lo carinhosamente de o “corneteiro da paz”. Curiosamente, nas noites seguintes, os sons noturnos cessaram — ou talvez eu apenas tenha adormecido mais cedo, embalado por uma paz recém-descoberta.


Você também já teve uma noite em que a natureza foi a grande protagonista?
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 E é essa jornada de aprendizado e aperfeiçoamento que desejo compartilhar com vocês!

Meu Blog 

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. 

Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

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sábado, 25 de abril de 2026

QUE PONTARIA HEIN? - O DESAFIO DE UMA GRANDE JORNADA


ALGUMAS REMINISCÊNCIAS DE NOSSA VIDA PROFISSIONAL EM ARAÇATUBA-SP

Ao longo de nossa trajetória profissional, passamos por momentos que marcaram profundamente nossa experiência na implantação da filial da empresa de Conservas Alimentícias em Araçatuba, SP. A viagem até lá já foi um prenúncio das histórias que iríamos colecionar.

Partimos da capital por volta das 22:00 horas em um ônibus leito, seguindo as normas da empresa, que não priorizava deslocamentos aéreos na época. O grupo era formado por nós, Oscar, Jorginho Carvoeiro—também conhecido como Jorginho Carioca—e outros colegas, cada um com sua peculiaridade que tornava a jornada ainda mais memorável. Oscar, sempre meticuloso, carregava anotações sobre o projeto como se fossem um tesouro. Jorginho, com seu bom humor peculiar, era o responsável por manter o ânimo alto mesmo nos momentos mais tensos. E nós, entre risos e desafios, formávamos um time de profissionais dedicados a fazer a nova filial prosperar.

Em uma parada técnica em Bauru, aproveitamos para um rápido lanche antes de embarcar novamente. No entanto, ao chegarmos ao destino, percebemos a ausência de Oscar. O mistério foi desfeito quando soubemos que ele havia embarcado no ônibus errado, todos eram da mesma cor e organizados de forma idêntica na estação rodoviária. O episódio rendeu boas risadas e virou assunto entre nós e os colegas da matriz.

Ao desembarcarmos em Araçatuba, tivemos mais uma situação cômica. No escuro da madrugada, pegamos nossas malas e também a de Oscar, que seguia sem dono. Jorginho, determinado a chegar rápido ao ponto de táxi, segurou sua mala nas mãos, pois naquele tempo rodinhas ainda não eram comuns. De repente, um homem de aparência asiática começou a gritar desesperadamente: "MARA MIA, MARA MIA!" Chegando perto de Jorginho, tentou recuperar sua mala. A confusão foi generalizada, parecendo até um assalto, com pessoas correndo pelo corredor. Depois de muito bate-boca, conseguimos resolver a situação, mas a cena ficou eternizada na memória coletiva, especialmente pelo bordão repetido à exaustão por Jorginho: “MARA QUASE IGUARO NÉ?” Como se não bastasse, ao voltarmos para pegar nossas próprias malas, percebemos que o ônibus já havia partido e levado tudo para a garagem, o que exigiu um novo deslocamento para recuperar nossas bagagens.

Dentro da fábrica, os desafios continuaram. Nossa missão era recrutar e selecionar funcionários para dar início à produção da moagem de tomates, convertendo-os em polpa para fabricação de extratos e derivados. Porém, a mão de obra disponível era quase que exclusivamente rural e sem experiência na função. Iniciamos uma campanha na rádio local, mas os resultados foram tímidos. Optamos então por percorrer a cidade com uma Kombi equipada com alto-falantes, divulgando a oportunidade nos bares, feiras e lojas. Aos poucos, o número de candidatos aumentou, e conseguimos preencher as vagas essenciais para o funcionamento inicial da unidade.

A equipe recém-formada era composta por pessoas de perfis diversos, muitos deles sem nenhuma experiência prévia na indústria. Entre os colaboradores contratados, tivemos porteiros e vigilantes que enfrentavam desafios diários, além de operários que precisavam aprender rapidamente as técnicas de processamento. O ambiente era intenso e exigia muita adaptação por parte de todos.

Entre os muitos episódios marcantes, destacamos a história do porteiro apelidado de "Boca de Ouro", por possuir dentes dourados em sua dentadura. Ele enfrentava dificuldades de comunicação, o que gerava impaciência entre os motoristas que aguardavam para descarregar os caminhões. Quando a pressão aumentava, ele retirava sua dentadura e guardava na gaveta, tornando sua fala ainda menos compreensível. Certa manhã, ele apareceu no RH com as roupas e o rosto manchados de vermelho, resultado de uma tomatada lançada por um motorista irritado. Sem a dentadura, sua explicação era incompreensível, até que um colega lhe devolveu os dentes e finalmente conseguimos entender o ocorrido. Em meio à tensão do momento, ele se dirigiu ao grupo de motoristas e questionou: "Quero saber quem foi o filho-da-puta que atirou o tomate em mim!" Ao que um motorista corpulento respondeu: "Fui eu, por quê?" E Boca de Ouro, resignado, apenas disse: "O senhor tem uma pontaria, hein?" O episódio arrancou risadas pela fábrica e, dois dias depois, o porteiro pediu demissão.

A equipe que se formou ao longo desse período era resiliente e disposta a enfrentar desafios. Apesar dos obstáculos, conseguimos erguer um ambiente produtivo, onde cada membro contribuía à sua maneira para que a fábrica começasse a operar. Eram tempos difíceis, mas também carregados de aprendizado e histórias inesquecíveis.



Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

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CIÚMES DA VIOLA

 UM TEXTO HUMORADO E ALUSIVO AS VIOLAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO.

Em uma longínqua cidadezinha do interior, conhecida por Jacundá Mirim, vivia um caboclo muito conhecido por “Juca guizo de cobra”. Carregava esse apelido desde criança, porque seu pai, em uma noite de festa de São João, com muita pinga rolando de boca em boca, teve uma visão, anunciando que o seu filho mais novo, iria se tornar um grande violeiro.

Para tanto, deveria, junto com o menino, capturar uma cascavel, enrolá-la em seu braço direito e fazer várias rezas em uma capela abandonada na beira da estrada do local onde moravam, para que a “profecia” fosse realizada.

Partiram para lá e viram uma cobra enrolada nos pés do único santo que estava postado em um altar todo empoeirado, que todos diziam milagreiro, pois as pessoas, em desespero de causa, iam buscar, naquele local, apoio para suas dificuldades. Foi uma correria danada dentro do local, até que conseguiram apanhar a serpente.

Ainda na visão do Zé Mangabeira, pai do Juca, no dia seguinte deveria sacrificá-la, pois era sexta-feira dia treze e, tudo estava acontecendo, conforme recebido em sua visão.

Feito isso, pai e o filho deveriam cortar a cabeça e o guizo e deixar aquelas partes secarem ao sol, sobre um pé de aroeira.

Depois dessa etapa, os ossos deveriam ser colocados dentro de uma viola, que não podia ser comprada, tinha que ser presenteada, o que fez um dos seus tios, por imposição do pai, o Zé Mangabeira.

Assim sendo, Juca não precisou aprender a tocar o instrumento; esse “dom” foi concebido em uma noite de luar, quando o tio lhe entregou a viola na presença do pai. Acarinhou-a de mansinho e logo foi colocando o nome, Lucinda, que já tinha no pensamento. Naquele instante, começou a palmeá-la com sutileza e muita delicadeza, tornando-se desde então, um tocador inigualável.

Não deixava ninguém chegar perto de Lucinda, porque alguns sabiam daquela “estória do guizo” e queriam ver o chacoalhar diferente da caixa de som, produzido pelo dedilhar do Juca, ágeis que nem uma cobra, transformando velhas canções como “Abismos de Rosas”, em solos entorpecedores, deixando as pessoas maravilhadas.

Sua fama correu fronteiras, e assim, era chamado para tocar nas festas de peão-boiadeiro, casamentos e bailes de cocheiras.

Nos momentos dos intervalos dos shows, quando ia ao sanitário, tinha que levá-la, pois não confiava em deixá-la com alguém; assim, comprou um cachorro, daquele tipo policial, a quem confiou a guarda, o que fazia com dedicação; ninguém se atrevia chegar perto da viola, que ele, Pitoco, rosnava e latia.

Não tinha empresário, tudo era acertado nos momentos que antecediam uma apresentação; não gostava de tratar nada por telefone. E assim foi crescendo ainda mais sua fama de violeiro, tendo por companheiros a viola Lucinda e o cachorro Pitoco.

Em suas apresentações, o locutor do rodeio assim o apresentava

Era uma alegria imensa, porque, conforme Juca dedilhava a viola, Pitoco uivava sem parar, como se fosse um acompanhante da música, mas no fundo eram ciúmes da Lucinda; ele a queria tanto, que dormia ao seu lado, e Juca podia ir para a farra, que não havia perigo de ninguém entrar em seu camarim, para olhar o que tinha dentro da caixa de som; curiosidade que tinham, pois o solo que Juca apresentava era diferente.

Os anos passaram, e a fama de Juca continuava a crescer, mas também trazia novas responsabilidades e desafios. Em uma noite de festa, enquanto se apresentava em uma grande cidade pela primeira vez, algo inusitado aconteceu. Durante um de seus solos impressionantes, a caixa de som da Lucinda soltou um som estranho, como o sibilo de uma cobra viva. A plateia ficou em silêncio absoluto, até que Pitoco começou a latir e avançar em direção ao palco, como se pressentisse algo.

Nesse instante, Juca sentiu um frio percorrer a espinha. Ao olhar para a plateia, notou um homem idoso, vestido de preto, parado entre as pessoas. Seus olhos brilhavam de uma forma assustadora, e ele sussurrou algo que Juca não conseguiu entender, mas que parecia ecoar diretamente em sua mente.

Depois do show, Juca começou a receber cartas misteriosas. Todas traziam o mesmo pedido: que ele entregasse a Lucinda para “quebrar a maldição”. A princípio, ele ignorou, mas os eventos estranhos começaram a se intensificar. Pesadelos o atormentavam, e Pitoco uivava todas as noites para um canto vazio do quarto.

Decidido a entender o que estava acontecendo, Juca procurou uma senhora conhecida como Dona Benedita, a guardiã das antigas tradições de Jacundá Mirim. Ela revelou que o espírito da cascavel não havia descansado e que sua música carregava um poder que podia tanto encantar quanto amaldiçoar. Para resolver isso, ele teria que enfrentar um grande teste: retornar à antiga capela onde tudo começou e tocar a Lucinda até o amanhecer, sem errar uma única nota.

No dia marcado, Juca partiu com Lucinda e Pitoco. A noite estava clara, iluminada por uma lua cheia. A capela, abandonada e quase em ruínas, parecia viva sob o luar. Quando Juca começou a tocar, as paredes vibraram, e o som da cascavel ecoou ao redor. Pitoco ficou ao lado dele, rosnando baixinho, enquanto figuras sombrias pareciam se formar nos cantos da sala.

A cada canção, a tensão aumentava. Mas Juca, com a habilidade que só ele tinha, continuou firme, enquanto o céu começava a clarear. Quando a primeira luz do sol atravessou a janela, a capela ficou em silêncio. A vibração cessou, e Lucinda brilhava como nunca antes. O espírito da cascavel havia finalmente sido libertado.

Desde então, Juca continuou a tocar, mas com um novo propósito. Sua música, agora livre de qualquer feitiço, parecia ainda mais mágica, tocando os corações de todos que a ouviam.

O retorno de vocês, leitores, me motiva a buscar sempre o melhor.

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