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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS - ELE AINDA CAVALGA...


Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."



SENTA QUE LÁ VEM MAIS UMA, DAQUELAS LÁ DOS SERTÕES NORDESTINOS

ONDE LAMPIÃO AINDA CAVALGA

Crônica literária

Há lugares onde a História termina nos livros. No sertão, ela continua sendo contada entre um café quente, um verso de cordel e a sombra comprida de um fim de tarde.

Viajar é colecionar paisagens, mas algumas viagens nos oferecem muito mais do que aquilo que os olhos conseguem registrar. Há lugares que deixam fotografias na memória e outros que, além das fotografias, nos entregam pessoas, histórias e personagens que continuam conosco muito depois de a viagem terminar. Foi assim que aconteceu comigo em uma viagem de recreio com a família a Aracaju, capital de Sergipe.

Logo nos primeiros dias, a cidade me chamou a atenção pela organização de suas ruas centrais, que formam um curioso tabuleiro de xadrez, e pelo conjunto de lugares que fomos conhecendo durante o city tour: a Catedral, a Colina de Santo Antônio, de onde se descortina uma bela vista panorâmica da cidade, a Praia de Atalaia e o Mirante do Calçadão da 13 de Julho. Mas, entre todos esses lugares, foi o Mercado Municipal que realmente despertou minha curiosidade.

Havia ali qualquer coisa diferente.

Não era apenas um mercado onde se compravam produtos. Era um pedaço vivo do Nordeste, com seu artesanato, seu folclore, seus cheiros, suas cores, sua música e, principalmente, sua gente. Entre uma banca e outra, encontravam-se vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, músicos e personagens que pareciam ter saído diretamente de algum daqueles folhetos de cordel que contam histórias de geração em geração. Foi também ali que avistei um contador de histórias que me chamou a atenção.

Comentei com minha esposa que deveríamos voltar ao mercado em outro dia, com mais calma, para conhecer melhor suas peculiaridades. Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquela decisão acabaria tendo um papel importante na história que eu levaria comigo daquela viagem.

Em outro dia, seguimos rumo aos Cânions do Rio São Francisco. À medida que nos afastávamos de Aracaju, a paisagem ia se modificando e as terras áridas começavam a anunciar o sertão. De repente, porém, surgiu diante de nós um contraste impressionante: o projeto de irrigação chamado Califórnia, onde a água transformava a paisagem e fazia nascer plantações de quiabo, uva, acerola, coco, maçã, feijão e outras culturas. Era como se a terra, depois de enfrentar durante tanto tempo a dureza do sol, tivesse encontrado uma maneira de responder à seca com abundância.

Mais adiante, às margens do Velho Chico, erguia-se a imponente Usina Hidrelétrica de Xingó, cujo reservatório formava os cânions de uma beleza que dificilmente pode ser descrita apenas por palavras.

O passeio foi feito de catamarã, e fomos avançando lentamente pelas águas enquanto os paredões de pedra se erguiam ao nosso redor. Admiramos paisagens deslumbrantes e passamos pela Gruta do Telhado, que despertava a curiosidade de todos. No retorno, ainda visitamos o Museu de Arqueologia, cujo acervo era proveniente das escavações realizadas na região do reservatório.

Quando voltamos a embarcar no catamarã, o cicerone tomou a palavra. Falava com entusiasmo, daquele jeito peculiar de quem não está simplesmente transmitindo informações aos turistas, mas contando uma história que conhece e aprecia.

Foi então que mencionou Lampião.

Contou que, dois dias antes, na pequena cidade de Piranhas, havia acontecido uma missa em homenagem à morte do famoso cangaceiro. Segundo ele, fora uma grande concentração popular, com gente vinda de diversos lugares para lembrar Lampião e seu bando. Ali perto, na Grota do Angico, Lampião havia sido morto juntamente com seus companheiros, surpreendidos pelas forças policiais conhecidas como volantes.

O nome ficou ressoando em minha cabeça.

Lampião.

Eu já conhecia alguma coisa sobre o personagem, como praticamente todo brasileiro conhece, mas ouvir aquela história naquele lugar, tendo diante dos olhos o próprio Rio São Francisco e aquelas paredes de pedra que pareciam guardar segredos de outros tempos, produziu em mim uma curiosidade diferente.

Quem teria sido, afinal, aquele homem?

Um bandido?

Um herói?

Um homem cruel transformado em lenda?

Ou talvez todas essas coisas ao mesmo tempo, dependendo de quem contasse a história?

O pacote turístico incluía o almoço em um restaurante rústico à beira da represa e, quando nos aproximávamos das mesas, o cicerone fez outro anúncio que aumentou ainda mais minha curiosidade:

— Depois do almoço, não deixem de conhecer Dona Expedita, filha de Lampião, que os receberá com sua filha Vera.

Aquela informação mudou completamente o meu interesse pelo passeio.

Dona Expedita, filha de Lampião.

A mulher nos recebeu com simplicidade e, aos poucos, foi contando um pouco de sua história. Disse que, ao nascer, fora entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos e que, até a morte de Lampião e Maria Bonita, havia sido visitada por eles apenas três vezes.

Então disse algo que me surpreendeu:

— Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava no colo para conversar.

A frase ficou comigo.

Até aquele momento eu vinha tentando conhecer Lampião como personagem histórico. De repente, porém, sua filha me apresentou uma outra imagem: a do pai que a colocava no colo.

Era uma lembrança simples, quase doméstica, e talvez justamente por isso tão forte.

Naquele instante compreendi que, por trás de toda figura histórica, existe uma pessoa que foi pai, filho, irmão, amigo ou inimigo de alguém. A História registra os grandes acontecimentos, mas muitas vezes é a memória das pessoas comuns que consegue devolver humanidade aos personagens que o tempo transformou em lenda.

Voltamos para Aracaju, mas Lampião continuou comigo.

Eu queria saber mais sobre aquela figura que atravessava as fronteiras de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia e que parecia ter sobrevivido ao próprio tempo.

Foi então que me lembrei do contador de histórias que havia visto no Mercado Municipal.

No último dia da viagem, voltamos ao mercado.

E encontrei um verdadeiro espetáculo nordestino.

Havia lojas, barbeiros, cabeleireiras, manicures, vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, grupos de forró, dançarinos e tocadores. Era um daqueles lugares onde o comércio e a cultura parecem ter feito um acordo para viverem juntos.

Fui direto à bancada dos causos e das lendas.

E lá estava ele, cercado de gente e de repentistas.

Foi ali que conheci João Firmino Cabral, mestre da literatura de cordel, um homem que parecia compreender que determinadas histórias não foram feitas para permanecer quietas dentro de livros: elas precisam ser ditas, ouvidas e novamente contadas.

Naquele momento, João lia trechos de um livreto chamado Lampião — Herói ou Bandido.

Parei para ouvi-lo.

Ao final, comprei um exemplar e pedi que o autografasse. Trocamos cartões e falei sobre minha paixão por escrever. Confesso que, depois de tudo que havia ouvido, de herói eu ainda tinha dificuldade para enxergar Lampião.

João, porém, não parecia preocupado em me convencer de coisa alguma.

Ele simplesmente contava.

E talvez seja justamente aí que esteja a força do cordel.

O cordelista não precisa dar a última palavra. Ele apresenta o personagem, coloca a história diante do povo e deixa que cada ouvinte tire suas próprias conclusões.

Foi assim que João me contou uma passagem envolvendo Padre Cícero.

Segundo o causo, Padre Cícero teria mandado um recado a Lampião:

— Virgulino, meu afilhado, venha urgente! A Coluna Prestes quer invadir Juazeiro, saquear a cidade, queimar o mercado e matar o povo romeiro.

Lampião teria atendido ao chamado. Ao entrar em Juazeiro, os invasores, sabendo de sua presença, recuaram. Em agradecimento, recebeu o título simbólico de Capitão e, ao partir, teria cantado pelas ruas:

— O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!

João continuou contando outras curiosidades.

Lampião havia sido criado com sete irmãos, três dos quais também se tornariam companheiros de cangaço. Sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês e possuía habilidade com o couro, confeccionando seus próprios chapéus e indumentárias.

A imagem que se formava diante de mim era cada vez mais complexa.

Não era apenas o homem bruto da peixeira.

Era também um personagem cheio de contradições, capaz de produzir medo e admiração, violência e poesia, brutalidade e cuidado com a própria aparência.

Talvez fosse justamente essa mistura que tivesse permitido que sua figura ultrapassasse a História e entrasse definitivamente no imaginário popular.

Mas a História tinha uma data para encerrar a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, na margem sergipana do São Francisco, uma tropa alagoana surpreendeu o bando. O combate durou poucos minutos e, entre os mortos, estava o temido Lampião.

Terminava ali a saga do pernambucano que havia entrado para o cangaço depois do assassinato do pai e que, juntamente com três irmãos, jurara vingança. Ele se juntara ao bando de Sinhô Pereira e, quando este deixou o cangaço, o jovem Virgulino, então com apenas 24 anos, assumiu o comando.

Nascia o Lampião que entraria para a história.

Durante anos, perseguiu-se e foi perseguido pela caatinga, até chegar àquele desfecho.

Depois de sua morte, muitas histórias começaram a circular. Falava-se de tesouros enterrados, de ouro, de dinheiro e das riquezas que os cangaceiros teriam escondido pelo sertão. Quanto mais o tempo passava, mais a fronteira entre o que realmente acontecera e aquilo que o povo imaginava parecia desaparecer.

E talvez seja exatamente assim que nascem as lendas.

A História conta o que aconteceu.

O povo acrescenta aquilo que gostaria de ter visto acontecer.

E o contador de histórias mistura as duas coisas com tanta habilidade que, depois de algum tempo, ninguém mais sabe onde termina uma e começa a outra.

Foi então que percebi que Lampião, embora morto há décadas, continuava vivo.

Não como homem.

Como personagem.

Vivo na memória popular, nos livros, nos folhetos de cordel, nos causos contados nas feiras e nas conversas de quem conhece o sertão.

E, depois de tudo o que havia ouvido e visto, senti vontade de deixar minha própria imaginação entrar naquela história.

Foi assim que nasceu o causo que segue.

LAMPIÃO E O “LAMPARINA”

Conta-se que uma pequena cidade do sertão já não aguentava mais as passagens do bando de Lampião. A vila ficava justamente numa das rotas utilizadas pelos cangaceiros e, sempre que apareciam, deixavam atrás de si medo, confusão e uma população obrigada a suportar as exigências daqueles homens.

O prefeito, cansado de viver naquela situação, resolveu tomar uma providência. Reuniu alguns jagunços e contratou-os para proteger a cidade. Os homens se instalaram no galpão da Prefeitura, armados e cheios de confiança, pois sabiam que Lampião poderia aparecer novamente a qualquer momento.

Numa noite escura, o bando se aproximou da cidade e Lampião decidiu acampar ali mesmo, ao pé do fogo. Chamou o cabra Azulão e mandou que levasse um bilhete ao prefeito, exigindo dinheiro e comida para seus homens.

Azulão partiu.

Ao chegar à cidade, percebeu logo que havia alguma coisa diferente. Nas entradas da vila havia jagunços armados, vigiando as ruas. Um deles, ao ser perguntado sobre o motivo daquela movimentação, respondeu que estavam ali a mando do prefeito para espantar o bando de Lampião.

Azulão não se intimidou. Foi até a Prefeitura e entregou o bilhete.

O prefeito, sentindo-se protegido pelos novos defensores, respondeu com uma coragem que talvez não tivesse demonstrado sozinho:

— Manda Lampião ir tomar no rabo! Aqui quem manda sou eu. Que venham, se tiverem coragem. Agora tenho proteção.

Azulão voltou e contou tudo a Lampião.

O cangaceiro ficou furioso.

— Quantos cabras tem na vila?

Azulão hesitou.

— Sei não, capitão. Tem gente escondida, não contei.

Lampião perdeu a paciência.

— Seu inútil! Não serve pra nada!

Mandou então alguns homens descerem o morro para observar melhor a situação. Os jagunços, ao perceberem que se tratava de gente do bando de Virgulino, trataram logo de desaparecer. A valentia que parecia tão grande quando estavam protegidos pela escuridão e pelas armas se dissolveu rapidamente diante da realidade.

Quase todos fugiram.

Restou apenas o chefe.

Na manhã seguinte, Lampião mandou seu irmão Bico-Fino verificar o terreno.

Pouco depois, ele voltou.

— Meu irmão, só tem um cabra. Os outros fugiram.

Lampião sorriu.

— Então vamos!

O bando entrou na cidade.

O prefeito, desesperado, correu até o chefe dos jagunços e gritou:

— Dê um fim nesses bandidos!

O homem, ainda tentando manter a fama de valente, abriu a janela e chamou:

— Venham aqui! Vamos acabar com eles!

Esperou.

Nada.

Chamou novamente.

Silêncio.

Foi então que percebeu que estava sozinho.

Mesmo assim, saiu para a rua.

E lá estava Lampião, esperando por ele, com a peixeira na mão.

O homem que até poucos minutos antes se julgava o grande defensor da cidade começou a perder a valentia. As pernas tremiam e o medo tomou conta de seu corpo.

Lampião olhou para ele e perguntou:

— Ué, seu frouxo, tu não é macho? Sabe com quem está falando? Sou o temido Capitão Virgulino, o Rei do Cangaço. E tu, quem é?

O homem, já completamente desarmado pela própria covardia, encolheu-se, ajoelhou-se diante de Lampião e respondeu:

— Sou o Lamparina...

Fez uma pausa.

Olhou para o chão.

E completou:

— ...o Rei do Cagaço.

E foi assim que, depois de ouvir tantas histórias sobre Lampião, acabei criando mais uma.

Talvez tenha acontecido.

Talvez não.

Mas pouco importa.

No sertão, algumas histórias não precisam de certidão de nascimento.

Elas simplesmente começam a ser contadas.

Passam de uma boca para outra, ganham um detalhe aqui, outro ali, recebem uma risada, um exagero, uma lembrança e, quando percebemos, já se transformaram em parte da memória de um povo.

Foi o que aconteceu comigo naquela viagem.

Voltei para casa com fotografias dos cânions, lembranças do Velho Chico, o folheto de cordel de João Firmino e, principalmente, com a recordação daquela frase de Dona Expedita, quando falou do homem que era seu pai e não apenas do cangaceiro que o mundo conheceu.

Foi então que compreendi que Lampião poderia ter morrido naquela madrugada de julho de 1938, mas o personagem não morreu.

Ele continua vivendo no cordel, nos causos, nas feiras, nas conversas e na imaginação de quem ainda encontra prazer em sentar-se para ouvir uma boa história.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma lenda.

O homem desaparece.

A história permanece.

E, enquanto houver alguém disposto a contar, alguém disposto a ouvir e alguém disposto a acrescentar mais um pedaço de imaginação ao que já foi contado, Lampião continuará atravessando a caatinga.

Não necessariamente montado num cavalo.

Não necessariamente empunhando uma peixeira.

Mas cavalgando pela memória de um povo que aprendeu a transformar a própria história em literatura.

Foi assim que voltei de Sergipe.

Com a sensação de que não havia simplesmente conhecido um lugar.

Havia encontrado personagens.

E, entre eles, um que parecia insistir em permanecer no caminho.

Talvez seja por isso que, quando penso naquela viagem, ainda consigo imaginar o Velho Chico correndo silenciosamente entre os paredões, o mercado cheio de vozes, o cordel aberto nas mãos de João Firmino e, ao longe, perdido entre a poeira e a lembrança, um cavaleiro atravessando o sertão.

Lampião ainda cavalga.

Não pela estrada.

Pela memória.

E talvez continue cavalgando enquanto houver um sertanejo, um poeta, um cordelista ou simplesmente alguém disposto a dizer:

— Dizem que... 


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terça-feira, 28 de julho de 2026

O DIABO DA TECELAGEM JAPY


TALVEZ SEJA O VENTO...

Corria o ano de 1958, quando o Brasil se tornou campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e ouvi a final pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema que, naquele dia, jurava torcer pelo Brasil.

No auge do segundo tempo, num avanço de Pelé, a voz do locutor sumiu. Foi um desespero. Gritavam para o Serafim acertar o rádio, enquanto ele não sabia se mexia no botão ou se servia mais um rabo-de-galo. Estava tão alegre que já não cobrava nada — nem os petiscos da molecada, nem a bebida dos mais velhos.

Depois do jogo, subi na carroceria de um caminhão e rodei a cidade em festa. Cheguei em casa tarde, para o desespero dos meus pais.

No dia seguinte, voltei ao botequim em busca das novidades. Foi ali que ouvi, pela primeira vez, que o Diabo havia atacado mulheres da Tecelagem Japy, lá pelas bandas da Vila Arens. Diziam que surgia de um capão de mato, urrando, vestido de vermelho, com uma capa preta que rodopiava no ar.

O assunto tomou a cidade. O jornal noticiou. A rádio comentava. O delegado Joaquim Linguiça investigou, mas não encontrou nada além da trilha por onde as mulheres passavam antes do turno das cinco.

Uma semana depois, o Diabo atacou novamente. As trabalhadoras juravam que ele tinha rosto horrível e urros capazes de gelar o sangue. Algumas voltavam para casa molhadas de medo. Outras não voltavam mais à fábrica.

O Serafim dizia que agora iam trabalhar escoltadas por maridos e filhos. A tecelagem era quase só de mulheres, muitas já antigas de casa. Produziam menos, comentava-se, e isso preocupava o dono, o turco Salim.

Dentro da fábrica, ninguém segurava mais a situação. O gerente e o chefe do pessoal, Gerubal Pascoal, prometeram proteção policial. Dois guardas ficaram de prontidão na mata. Mesmo assim, numa madrugada fria, o urro ecoou outra vez. Houve correria, marmitas perdidas, chinelos abandonados pelo caminho.

O delegado perdeu a paciência e chamou Epaminondas, um jagunço grande e valente, para resolver o caso. Armado, passou a fazer tocaia no mato, à espera do Diabo.

Enquanto isso, comentava-se que o medo estava dando resultado: mulheres pediam demissão, outras mudavam de cidade. As moças novas produziam bem. O nome da fábrica corria a região.

Até que, numa manhã, o Diabo voltou.

Saltou do mato envolto na capa, urrando como sempre. Epaminondas não correu. Gritou um palavrão e disparou.

O corpo caiu.

Quando o delegado chegou, percebeu que a máscara estava frouxa. Ao retirá-la, o espanto foi geral: o Diabo era Gerubal Pascoal, o chefe do pessoal da fábrica.

Depois, soube-se que a mulher dele havia costurado a fantasia. Gerubal fizera tudo por medo de perder o emprego e não sustentar a família. O turco Salim fugiu do país. A fábrica faliu. Muita gente ficou sem receber nada.

Hoje, o prédio está abandonado. Dizem que, nas manhãs frias, ainda se ouvem urros vindos do mato.

Talvez seja o vento.
Ou talvez o Diabo ainda cobre o que lhe foi negado.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."

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domingo, 19 de julho de 2026

O ÚLTIMO CAUDILHO: ANATOMIA DE UM PODER QUE APODRECEU

 



CRÔNICA DE UM PODER EM RUÍNAS

Todo caudilho acredita ser eterno.
Enquanto governa pelo medo, imagina-se invencível; enquanto o povo sofre, ele se proclama salvador. Mas o poder, quando sustentado pela violência e pela mentira, cobra seu preço — e o faz no silêncio, na solidão e no desespero dos que caem.

Esta é a história do último caudilho.
Não como ele desejava ser lembrado, mas como realmente foi: um homem consumido pelo próprio delírio de grandeza.

O caudilhismo nasce do carisma distorcido e da força bruta. São lideranças políticas autoritárias, geralmente ligadas a setores tradicionais da sociedade — militares, latifundiários, chefes armados — que substituem instituições pelo culto à própria personalidade.

O caudilho não governa: domina.
Suas relações são pessoais, emocionais e profundamente manipuladoras. Ele se mantém no poder pela repetição de mandatos, pela fraude ou pela imposição vitalícia de sua vontade. Onde há caudilho, há silêncio forçado; onde há silêncio, há sofrimento acumulado.

O ÚLTIMO CAUDILHO

Restava apenas uma assinatura chamuscada.
Um pedaço de papel carbonizado repousava entre as cinzas frias da lareira, como um testemunho maldito de um passado que ele tentou apagar.

Por longos segundos, seus olhos permaneceram fixos naquele vestígio. Depois, o corpo pesado começou a se mover em círculos lentos, contornando o tapete desbotado, como um animal encurralado em sua própria jaula.

Afundado em pensamentos, lembrou-se de que aquele documento carregava confissões sombrias: ordens de morte, traições, pactos selados com sangue. Era o retrato fiel de uma vida construída sobre o medo alheio.

Após a fuga desesperada de seu reduto, seguindo caminhos tortuosos e clandestinos, restou-lhe o exílio. Vivendo à sombra, temia mostrar o rosto nas ruas estreitas da pequena cidade onde se refugiara. O terror agora não era mais sua arma — era sua sentença.

Já havia queimado quase todos os registros de seu passado criminoso. Agora desejava apagar o próprio rosto, transformar a identidade, sobreviver anônimo aos poucos dias que ainda lhe restavam.

Mas o passado não aceita ser esquecido.

LOBO NA PELE DE CORDEIRO

Chegara ao poder travestido de esperança.
Apresentou-se como caudilho carismático, mas governou como ditador. Proclamou-se salvador da pátria enquanto aprofundava a miséria que dizia combater.

Sem planejamento, sem projeto, sustentou-se pela violência. Eliminou opositores, silenciou vozes, transformou o medo em política de Estado. Cada execução fortalecia sua ilusão de soberania; cada mentira alimentava seu trono frágil.

O poder, porém, nunca foi real — era apenas imposto.

O POEMA DO SOFRIMENTO DE UM POVO

Ostentação e continuidade forçada
Propaganda repetida até virar verdade
Mentiras servidas ao povo oprimido

Migalhas fingindo alimento
Olhos fundos, mãos vazias
Gente sofrida
Vozes enterradas no silêncio

Caminhos sem destino
Passos errantes
Descompassos de uma nação ferida

A LIBERTAÇÃO

Então, nasceu um novo dia.

Um canto de esperança ecoou pelas montanhas, embalado pelo vento livre. As estradas se abriram para as forças que vinham em nome da paz. As matas, antes murchas pela opressão, despertaram orvalhadas, recuperando o verde esquecido.

A história mudava de rumo.

A MORTE NO EXÍLIO

Sabendo que o cerco se fechava, chamou o único ordenança que lhe restara fiel na fuga. Ordenou que recolhesse o fragmento de papel que escapara das chamas.

Com mãos trêmulas, soprou as cinzas.
Leu as últimas linhas. Reconheceu sua assinatura.

Ali estava a prova final de sua existência — e de seus crimes.

Amassou o papel, levou-o à boca e engoliu-o num gesto desesperado, como se pudesse, assim, apagar a própria história. Um soluço seco interrompeu sua respiração. O corpo tombou, derrotado não por soldados, mas pelo peso de seus atos.

Naquele instante, extinguia-se o último resquício de um poder manchado.
O caudilho caía — e com ele, sua mentira.

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O CORONEL GALO PRETO E OS SABORES DO PODER - BOLINHO DE BACALHAU (RECEITA)


Seja bem-vindo


Senta que vem mais um "causo" daqueles tempos.

O Safadão

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

 Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

Ingredientes:

500g de bacalhau dessalgado e desfiado

500g de batata cozida e amassada

1 ovo

1 colher de sopa de salsa picada

Sal e pimenta-do-reino a gosto

Óleo para fritar

Modo de preparo:

1. Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2. Tempere com sal e pimenta.

3. Modele os bolinhos com as mãos.

4. Frite em óleo quente até dourar.

5. Escorra em papel toalha e sirva quente.

 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

Suco de 1 limão

2 dentes de alho amassados

Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

Farinha de trigo para empanar

Óleo para fritar

Modo de preparo:

1. Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2. Deixe marinar por 1 hora.

3. Passe os pedaços na farinha de trigo.

4. Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5. Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

 Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

“Continue comigo no blog e deixe sua opinião nos comentários — será um prazer ler você.”

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