Há viagens que fazemos com os pés.
E há outras que percorremos com a alma.
Primeiro o café, depois a conversa — aqui o texto vem depois, com calma.
Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com
café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma
receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à
pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia.
Sinta-se em casa.
💦
Em mais uma de nossas jornadas pela Europa, decidimos viver Cidade do Vaticano de maneira diferente. Não queríamos apenas passar pelos corredores históricos, observar monumentos ou fotografar paisagens eternizadas em cartões-postais. Desejávamos sentir o lugar. Respirar sua história. Ouvir o silêncio escondido entre mármores, pinturas e séculos.
Naquele dia, escolhemos visitar a lendária Capela Sistina.
Desde a entrada do complexo do Museus Vaticanos, o movimento era intenso. Uma verdadeira procissão humana seguia lentamente pelos corredores adornados por esculturas magníficas, tapeçarias centenárias e obras que atravessaram gerações sem perder o encanto. O cansaço já começava a pesar em nossos pés, mas os olhos continuavam famintos por beleza.
O teto da Capela Sistina, concebido por Michelangelo entre 1508 e 1512, é considerado uma das maiores realizações artísticas da humanidade. Convidado pelo Papa Júlio II, Michelangelo passou anos trabalhando praticamente suspenso sobre andaimes, pintando cenas bíblicas que até hoje parecem desafiar o tempo e a própria condição humana.
Pensávamos que o ingresso adquirido para o complexo contemplava automaticamente a entrada da capela. Mas, para nossa surpresa, não era assim. Descobrimos, já exaustos, que precisávamos retornar ao início para comprar um acesso específico. As filas pareciam intermináveis, e o relógio — sempre impiedoso com turistas sonhadores — avançava rapidamente.
Foi então que surgiu diante de nós um grupo guiado por uma pessoa que carregava um guarda-chuva colorido com uma pequena bandeira italiana na ponta. O grupo percorria outras alas antes de seguir para a tão desejada capela.
Olhei para minha esposa e perguntei, quase em tom de brincadeira:
— Vamos embarcar nessa de gaiatos?
Ela sorriu.
E fomos.
Seguimos discretamente na “rabeira” do grupo, tentando parecer turistas perfeitamente integrados naquela verdadeira torre de Babel. Havia italianos, espanhóis, franceses, americanos… uma mistura de idiomas e expressões. Conversávamos aqui e ali, tentando manter a naturalidade, embora alguns olhares denunciassem que éramos, claramente, estranhos no ninho.
Passamos por corredores adornados com as impressionantes pinturas de Rafael, observamos estátuas de antigos papas, santos e figuras históricas que pareciam vigiar silenciosamente a eternidade daqueles salões.
Mas a aventura terminou na porta da capela.
— I biglietti? Os ingressos?
Não havia argumento que resolvesse. Tivemos que regressar, enfrentar novamente a multidão e comprar as entradas corretas. O corpo já demonstrava sinais claros de esgotamento, mas algo dentro de nós insistia em continuar.
E valeu cada passo.
Quando finalmente atravessamos as portas da Capela Sistina, o mundo pareceu silenciar.
Ali dentro, o olhar não encontra repouso.
As paredes contam histórias sagradas em cores vivas e dramáticas. Em uma delas, o monumental “Juízo Final” domina o ambiente com intensidade quase sobrenatural. Cristo aparece poderoso e solene, enquanto almas ascendem aos céus ou mergulham nas sombras da condenação. Tudo pulsa movimento, emoção e espiritualidade.
Mas é o teto que rouba o fôlego da humanidade.
Michelangelo transformou aquele espaço em um universo celestial. Entre colunas pintadas e figuras monumentais, desfilam profetas, sibilas e cenas do livro do Gênesis. A mais célebre delas — “A Criação de Adão” — parece suspender o próprio tempo: Deus e o homem estendem as mãos quase se tocando, separados por um instante mínimo e eterno. É como se a centelha da vida estivesse prestes a acontecer diante de nossos olhos.
Cada figura possui músculos, expressões e movimentos tão vivos que parecem respirar acima de nós. As cores, mesmo após séculos, conservam uma força impressionante. Não é apenas pintura. É transcendência.
Estávamos tão cansados que minha esposa sentou-se junto a um banco de pedra e permaneceu imóvel, contemplando aquele cenário como quem tenta guardar a eternidade dentro do peito.
Eu fui mais adiante.
Então, vencido pelo cansaço e talvez também pela emoção, deitei-me no chão frio da capela.
Algumas pessoas talvez tenham imaginado que eu fosse um louco.
E talvez fossem certas.
Porque naquele instante, olhando para o teto pintado por Michelangelo, senti-me absurdamente pequeno diante da grandeza humana e divina. Observei aquelas figuras celestiais pairando sobre mim e pensei, quase como uma criança diante do infinito:
“Estou perto do céu.”
Ali, silenciosamente, conversei com Deus.
Pedi que nos abençoasse. Pedi forças para continuarmos nossa caminhada por Roma. Pedi saúde para novas viagens, novos reencontros com a beleza e novos momentos capazes de tocar a alma da mesma forma.
Saímos da Capela Sistina diferentes de quando entramos.
Porque certos lugares não são apenas visitados.
São sentidos.
E algumas obras não são apenas admiradas.
Elas nos transformam para sempre.
Aqui, no meu blog, deito nas
letras, nas memórias nos afetos e encantamentos.
E você, já teve uma experiência que te fez sentir mais próximo do céu?
“Escrevo para que o tempo não apague o que a alma recorda.”
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Antonio Vendramini Neto –
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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais