quinta-feira, 30 de abril de 2026

FLORES QUE DESAFIAM AS ESTAÇÕES


Aprenda a preparar ( final do texto) um chá de hibisco com especiarias, vibrante e aromático, que traduz em sabor a magia das estações.
 

Mesmo no inverno, a natureza nos presenteia com cores e beleza inesperadas. Explore esse encantamento e conheça as histórias das árvores que transformam paisagens e emoções. A riqueza da flora brasileira desabrocha com todo vigor na primavera, encantando os olhos dos mais exigentes. É uma época colorida e perfumada, um descanso para os sentidos, onde nos rendemos à explosão de cores que compõem nossa aquarela tropical.

Entretanto, essa ideia tão enraizada na memória coletiva carrega seus mistérios. Mesmo no inverno, estação tradicional do frio, muitas flores seguem em plena exuberância. Basta observar a chácara onde moro, onde diversas espécies desabrocham, desafiando a lógica das estações.

A presença constante das flores transforma qualquer ambiente, criando um magnetismo no ar. Elas despertam sorrisos, inspiram gentileza e perpetuam uma beleza poética que toca os sentimentos mais profundos. A simbologia das flores exerce grande influência sobre nós, e por isso devemos cultivá-las com carinho, oferecendo-lhes cuidado e até palavras de afeto, como se fossem amigas que compartilham nossas emoções.

Entre todas, há uma flor que nunca deixo de admirar: a cerejeira. Lembro-me de uma viagem pela rodovia Rio-Santos, onde me deparei com uma imensa florada na serra, um espetáculo raro e inesquecível. Sensível por natureza, suas pétalas caem ao menor toque, e sua floração ocorre apenas uma vez por ano. No Brasil, encontramos cerejeiras em Campos do Jordão e até nas calçadas de Bariloche, na Argentina, onde suas delicadas flores caem suavemente sobre a neve.

Originária do Japão, a cerejeira se adaptou ao clima frio da Serra da Mantiqueira, tornando-se um símbolo de resistência e beleza. Mas ela não está sozinha. Outras árvores também proporcionam um espetáculo visual durante o inverno, como o ipê, que colore ruas e avenidas com suas vibrantes flores amarelas, roxas e rosas. Seu nome, na língua indígena, significa “casca grossa”, uma referência à sua robustez.

Na entrada de nossa casa, no Villagio Di Treviso, temos dois ipês que, ao florescerem, transformam a paisagem em um cenário digno de álbuns fotográficos. Os vizinhos e visitantes não resistem a registrar sua beleza, que transmite espiritualidade, leveza e encanto.

O inverno pode ser visto como uma estação de recolhimento, mas para muitas árvores, ele é um momento de esplendor. Do Norte ao Sul do Brasil, milhares de espécies desafiam o frio e enfeitam a paisagem, contribuindo para o equilíbrio do nosso ecossistema e para a poesia da vida.

 Chá de Hibisco com Especiarias

E para acompanhar esse espetáculo da natureza, nada melhor que um chá vibrante e aromático, que traduz em sabor a mesma intensidade das flores que desafiam as estações. Experimente esta receita:

  • 2 colheres de sopa de hibisco seco

  • 1 pau de canela

  • 3 cravos-da-índia

  • 1 pedaço de gengibre (1 cm)

  • Mel ou açúcar a gosto

Modo de preparo:
Ferva 500 ml de água, adicione o hibisco, a canela, os cravos e o gengibre, deixando em infusão por 5 a 10 minutos. Coe e adoce a gosto. Uma bebida de cor intensa e sabor marcante, perfeita para aquecer os dias frios e nos transportar para um verdadeiro jardim de primavera!



Compartilhe nos comentários — Às vezes, basta abrir a janela para viver uma história. E é essa jornada de aprendizado e aperfeiçoamento que desejo compartilhar com vocês.






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quarta-feira, 29 de abril de 2026

UMA VIAGEM PARA ATENAS NA GRÉCIA ANTIGA

 

A PROCURA POR DIONISIO, O TEATRO.

O teatro, na Grécia antiga, teve suas origens ligadas a Dionísio, divindade da vegetação, da fertilidade e da vinha. Durante as celebrações em honra ao ‘Deus’, em meio a procissões e com o auxílio de fantasias e máscaras, eram entoados cantos líricos, que, mais tarde, evoluíram para representações plenamente cênicas, como as que, hoje, conhecemos através de peças consagradas.

Seu florescimento ocorreu e foi cultivado em Atenas, que também conheceu o seu esplendor, e espalhou-se por todo o mundo de influência grega.
Sua tradição foi herdada pelos romanos, que a levaram até as suas mais distantes províncias, sendo uma referência fundamental na cultura do ocidente até os dias de hoje.

Essa introdução que fala do teatro grego é para relatar uma situação curiosa e engraçada acontecida nas ruínas desse local, em uma viagem que eu e minha esposa realizamos, quando visitamos a Grécia.

Iniciamos nossa viagem saindo do porto de Pireaus em Atenas, em um transatlântico com bandeira grega chamado de Royal Olimpic Cruises, navegando pelo mar Jônico, parando, inicialmente, na ilha grega de Corfu. Posteriormente, veio a romântica italiana Veneza e também a medieval Dubrovnik, na Croácia.

No mar Egeu, o transatlântico cruzou o pitoresco estreito de Dardanelos, navegando pelo mar de Mármara até o estreito de Bósforo, aportando na exótica Istambul, na Turquia. No retorno, rumamos até as famosas ilhas gregas Mykonos e Santorini e, depois, para Atenas.

Em terra firme, visitamos Atenas, capital da Grécia e berço da civilização. É uma cidade cheia de vida, onde o antigo e o moderno coexistem. Começamos o primeiro dia de passeios, partindo do centro da cidade em uma viagem de metrô, com destino à estação de Acrópolis. Ali fica todo o complexo das ruínas, destacando-se o majestoso Parthenon, erguido por cima da cidade cuja glória ainda é visível nas suas pedras gastas.

Antes de iniciarmos o passeio, realizado em dois longos dias, adquirimos uma cartela em forma de bilhete que é fracionado para cada templo ou ruína do complexo visitado.

O primeiro local foi o templo Erechtheion, de onde se podia desfrutar um visual magnífico; logo, em uma de suas extremidades, nos detemos no belo pórtico de Karyatids, em que as deusas em forma de estátuas “seguram” o que restou da cobertura; depois, veio o teatro de Odeon, no qual, até hoje, acontecem espetáculos noturnos de rara beleza, em um palco adaptado nas ruínas.

No local, notava-se, desde muito longe, os focos de luzes sobre as muralhas, com o som reverberando por todo o morro, dando a impressão de que os deuses todos se reuniram naquele momento para anunciar toda a magnitude de uma época que ficou distante do nosso atual calendário.

No segundo dia, começamos pelo templo Athena Nike e outros mais, até que encontramos o tão aguardado museu da Acrópolis. Foi tanta emoção que quase perdemos o fôlego ao ver os vestígios de extrema beleza! Entrava em nossas mentes uma mistura de emoção e culto à cultura que, armazenando imagens, ficarão para sempre gravadas em nossas lembranças. Foi tudo muito deslumbrante, a história desfilava ante nossos olhos.

Caminhando pelos corredores, vislumbramos um portal esplendoroso onde contemplamos as estátuas dos deuses que estavam no alto do Parthenon e que foram derrubadas por um forte terremoto; os fragmentos foram montados e expostos no museu, onde estavam sob uma robusta proteção eletrônica.

Nesse momento, o som estridente de uma sirene ecoou pelo local; alguém deve ter tocado em um dos artefatos e o alarme foi disparado. Olhando para frente, percebi que fora minha esposa quem havia tocado em um dos objetos, pois vi um dos seguranças do local advertindo-a, explicando que, em todo o recinto, havia alarmes extremamente sensíveis.

Depois do corre-corre, falamos em “enrolês” (mistura de inglês e português), que não sabíamos ler aqueles cartazes na língua grega alertando sobre o alarme. Foram muitas risadas, mas seguimos adiante para uma última parada que seria o teatro Dionísio.

Anda para lá, para cá, perguntávamos alguma coisa e só recebíamos informação na língua grega. Ali, naquele momento, percebemos que o ditado existente no Brasil “tá falando grego?” é a pura verdade, pois não entendíamos uma só palavra.

Descemos um morro e chegamos à entrada do complexo e perguntamos de novo para um transeunte - parecia uma figura de outros tempos, vestindo trajes da antiquíssima civilização.

Arrisquei um inglês meio maroto e ele respondia em grego; ou seja: não entendíamos nada! Depois de muitas tentativas, começamos só a falar: DIONÍSIO, DIONÍSIO, DIONÍSIO! Nesse momento, apontou com o dedo para o outro lado do complexo; era uma rua com muitos veículos e, para atravessar, foi um sufoco, pois o trânsito grego é de arrebentar qualquer pedestre e motoristas estrangeiros que se metem a dirigir por lá.

Fomos para lá ver o tão aguardado teatro, mas percebemos que saímos do complexo; estávamos em uma rua com aquele trânsito louco... Então, avistamos um letreiro bem grande “DIONISIO’S – TYPICAL RESTAURANT, GREEK FOOD” (Restaurante Dionísio, comida típica grega).

Demos belas gargalhadas e retornamos ao complexo, em busca do teatro, até que vimos umas estátuas simbolizando a época, emoldurando o palco que se parecia com uma arena; enxerguei até uma placa escrita em grego, (só entendi Dionísio), indicando o local. 


crônica inserida em meu livro. 
Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

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terça-feira, 28 de abril de 2026

O SEGREDO DO VICO - MEU PAI

 

 A Guerra que Nunca o Levou

No Centro meu avô - a sua direita, de terno branco - Meu Pai

Certa noite, meu velho avô, já fragilizado pela idade e pelo tempo, chamou-me para perto. Compartilhávamos o mesmo quarto, e talvez por isso, sentisse que eu era a única pessoa a quem poderia confiar um segredo que guardara por toda a vida.

Com voz baixa, quase hesitante, ele revelou o motivo do apelido de seu filho mais novo, o Vico. Muitos haviam perguntado ao longo dos anos, mas meu avô sempre evitava contar a história por completo. E quando começou a falar, percebi que não era apenas um apelido, mas um símbolo de uma época marcada pelo medo e pela incerteza.

Meu pai era o caçula de nove irmãos—sete irmãs e dois homens. Pequeno e franzino, cresceu cercado pelas irmãs, enquanto seu irmão mais velho, Joaquim, já sentia o peso da idade e trabalhava incansavelmente nas lavouras de café que pertenciam ao meu avô. Como sua mãe havia falecido cedo, foram as irmãs que praticamente o criaram, e no lar ele não precisou se ocupar com trabalhos pesados.

O apelido veio por sua baixa estatura. Na língua italiana, Vico significa "beco estreito e pequeno", e foi assim que ele passou a ser chamado. Mas o verdadeiro peso dessa história se revelaria anos depois, quando a guerra cruzou o caminho de nossa família.

Veio então o ano de 1939. Meu pai tinha apenas 18 anos quando começaram os rumores de recrutamento para a Segunda Guerra Mundial. Participava do Tiro de Guerra, uma espécie de treinamento militar de meio período, enquanto o restante do dia trabalhava na plantação de café. Mas o medo rondava a casa como uma sombra crescente.

As notícias eram assustadoras. Jovens estavam sendo retirados de suas propriedades e levados para lutar na Itália. Meu avô, desesperado, sabia que, se meu pai fosse convocado, seu irmão Joaquim ficaria sozinho na roça, e as terras da família poderiam ruir sem o trabalho árduo que sustentava tudo.

Foi então que a decisão foi tomada: 

Esconder Vico a todo custo.

A princípio, meu pai não queria fugir. Queria lutar, queria estar entre os soldados que protegiam a pátria. Mas seu desejo esbarrava na realidade de nossa família e no desespero de meu avô, que via naquela guerra um destino cruel e sem escolha.

A partir daquele momento, ele desapareceu das ruas. Abandonou o treinamento, deixou de aparecer na cidade. 

Seu esconderijo foi montado entre as lavouras de café, onde o medo se misturava ao cheiro da terra.

As irmãs tornaram-se suas protetoras. Todos os dias, levavam comida, certificavam-se de que ele não fosse descoberto. Lá, no meio das plantações, criaram um colchão improvisado de palha de milho, onde ele passava as horas tentando não pensar no que poderia acontecer se fosse encontrado.

O medo era sufocante.

Meu pai não falava muito sobre isso, e talvez seja por isso que apenas eu saiba essa história. Os anos passaram, mas o pavor daquele tempo nunca deixou de assombrá-lo.

A cada dia, novas notícias de recrutamento chegavam. Os soldados vinham buscar os jovens, e ele ficava imóvel em seu esconderijo, rezando para não ser o próximo.

O silêncio das terras de café era quebrado apenas pelo som do vento e pelos passos das irmãs que vinham garantir que ele ainda estava ali.

E então, a notícia final chegou: os que foram levados embarcaram em navios para a guerra.

O destino decidiu poupá-lo, mas não sem cicatrizes invisíveis. Meu pai, apesar de tudo, dizia que gostaria de ter ido. Mas o governo priorizou os descendentes italianos, aqueles que haviam chegado ao Brasil como colonos, deixando de fora muitos brasileiros que, como ele, poderiam ter partido sem retorno.

Essa foi a história que ficou enterrada no tempo. Uma passagem marcada pelo medo e pela sobrevivência, que apenas eu conheço, porque meu avô escolheu confiar em mim para contá-la.

Agora, finalmente, posso registrá-la. Para que meus irmãos, filhos e netos saibam que, por trás do nome Vico, existe um capítulo de guerra que nunca aconteceu—mas que, mesmo assim, deixou marcas eternas.



Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

 

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ROMA ETERNA: SOB A CÚPULA DO TEMPO

O TEATRO DOS SÉCULOS

Imagine-se chegando ao coração pulsante da velha Roma. O céu se abre como uma pintura renascentista, e ali, diante de seus olhos, o Pantheon se ergue com sua imponência atemporal. Mas o que poucos sabem é que esse monumento carrega mistérios, lendas e histórias que resistiram ao tempo—e agora, você faz parte delas.  

O Óculo e a Chuva Sagrada

Ao atravessar as imponentes colunas de mármore e adentrar o Pantheon, uma curiosidade logo chama atenção: sua monumental cúpula, aberta ao céu, parece desafiar as leis da natureza. Diz-se que, apesar da abertura circular, a chuva nunca toca seu interior. Para alguns, é um efeito arquitetônico surpreendente; para outros, uma intervenção divina. Ao estar lá, será que você testemunharia esse fenômeno com seus próprios olhos? Talvez a resposta esteja reservada para os mais atentos.

O Descanso de Rafael

Talvez você se aproxime de um dos túmulos mais reverenciados no interior do Pantheon. Rafael, o grande mestre renascentista, descansa ali, como se soubesse que sua arte encontraria refúgio no monumento que inspirou tantos criadores. Há quem diga que, em noites silenciosas, os ecos da cidade despertam sua presença, como se sua alma quisesse contemplar sua obra uma última vez. Ao caminhar por ali, será que você sentiria a energia desse legado?


O Pantheon guarda os restos dos últimos reis da Itália, mas há quem acredite que o destino dos monarcas ali sepultados é marcado por um mistério. Dizem que, desde que Victor Emanuel II foi enterrado no local, as sombras das colunas parecem se estender mais do que deveriam. Para os supersticiosos, isso representa um aviso: aquele que desafia a eternidade do Pantheon pode carregar um fardo desconhecido. Será que você conseguiria notar essa sutil mudança na luz ao passear pelo monumento?

O Pantheon como Teatro dos Séculos

Ao longo da história, o Pantheon foi palco de momentos grandiosos. Desde cerimônias religiosas e encontros filosóficos até celebrações secretas que poucos registraram. Dizem que antigos poetas sentavam-se em suas escadarias para declamar versos sobre Roma. Você, agora inserido nessa história, se tornaria parte dessa tradição? Talvez, ao inspirar-se em sua grandeza, seu próprio pensamento se entrelace ao dos grandes nomes que pisaram ali.


Conta-se que, no momento da inauguração do Pantheon, o próprio imperador Adriano ficou em silêncio, aguardando o primeiro raio de luz atravessar o óculo da cúpula. Dizem que ele acreditava que o templo havia sido abençoado pelos deuses, pois sua arquitetura representava a harmonia entre o cosmos e a Terra. Você, que agora caminha por seu piso de mármore, poderia sentir essa conexão estelar? Será que o espírito de Adriano ainda observa cada visitante que cruza suas portas?


Roma não é apenas um destino—é um portal para o tempo. E ao cruzar as portas do Pantheon, cada visitante se torna parte de sua narrativa eterna. Ao explorar seus mistérios, será que você encontrará a sua própria conexão com a história?

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

DAS CINZAS AO PERDÃO


O PRESÍDIO CAI, MAS A ALMA SEGUE

Entre ruínas e memórias,

um homem reencontra a

fé onde antes habitava o

desespero.


Silêncio absoluto.

Texto Narrativo

Naquele instante, a atmosfera pesava como chumbo, sufocante, como se o próprio ar se recusasse a ser respirado.

O rangido metálico da porta enferrujada rasgou o vazio, seguido pelo estalo seco do interruptor. A luz explodiu no cubículo fétido, revelando o piso branco, encardido, onde o frio cortante se infiltrava nos pés daquela figura hesitante—um retorno brutal ao palco de suas memórias mais sombrias.

A incredulidade o esmagava. Estaria ainda ali? Não atrás de grades, mas aprisionado em lembranças que emergiam como fantasmas, teimosas, vibrantes, dilacerando sua alma. As lágrimas escorreram sem resistência, misturando-se ao chão impiedoso, onde cicatrizes de um passado cruel permaneciam gravadas como inscrições eternas.

Do bolso, retirou o rosário. A cada conta que rolava entre seus dedos, rostos surgiam: companheiros de cela, homens que se perderam naquele corredor de desesperança. Ali fora fera, sombra, mas também flor frágil, buscando redenção. A justiça o havia condenado, mas era a própria consciência que o mantinha prisioneiro.

A oração brotou das trevas, penetrando sua carne e acalmando a tormenta. Pediu perdão, como tantas vezes antes, pelas vidas que extinguiu na insensatez de sua mente adoecida.

Ao tocar a porta, estremeceu com a lembrança do capelão—aquele homem de fé que lhe oferecera a extrema-unção antes de sua execução, interrompida por circunstâncias misteriosas. Nunca soube o porquê. Agora compreendia: a vida ainda lhe reservava um propósito.

A centelha de um novo caminho surgiu: tornar-se pastor. A figura do capelão reverberava dentro dele como um chamado. Deixou para trás o corredor da morte e abraçou a missão de resgatar almas. Segurou a Bíblia que repousara nas mãos do capelão por anos, companheira silenciosa de sua espera pela sentença final. O destino, no entanto, reescreveu seu desfecho.

O velho prédio, berço de sua dor, estava marcado para a implosão. O presídio que o aprisionara seria reduzido a pó. Por ironia ou justiça, foi ele quem recebeu a honra de acionar o mecanismo que apagaria da existência aquele monumento ao sofrimento humano. Antes do último ato, curvou-se em prece. Ali, onde tantos haviam perecido, poderia nascer uma igreja. Um símbolo de transformação. Uma casa de fé. A marca de sua jornada como pastor de almas.

E assim, o sofrimento se transmutou em redenção. Cristo, o eterno pescador de almas, mostrou que até nas ruínas de um inferno pode brotar esperança.

O botão foi pressionado.
O prédio ruiu.
E o silêncio absoluto tomou conta do mundo.

Onde havia grades, nasce fé.

Das ruínas do Carandiru, ergue-se um homem em busca de redenção.
O presídio cai. A alma se levanta.



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domingo, 26 de abril de 2026

O ENCONTRO E AS MEMÓRIAS

 


Há histórias que não se apagam com o tempo. Elas permanecem escondidas em algum canto da memória, esperando apenas o momento certo para ressurgirem. O reencontro com um velho amigo pode ser esse gatilho inesperado, capaz de abrir portas para lembranças que acreditávamos esquecidas. Este é um relato sobre amizade, pactos e o verdadeiro valor das memórias.

O Encontro e as Memórias

A noitinha entrava pela janela como uma visitante discreta, anunciando o fim do dia. Os últimos raios de sol despediam-se lentamente, levando consigo um brilho suave que ainda percorria minha mente. Foi então que um som repentino da campainha interrompeu minha divagação.

Do outro lado do portão, uma figura encapotada. O frio da noite já se fazia presente, mas havia algo familiar naquela postura. Quando ouvi sua voz, não restaram dúvidas: era o Chicão! Depois de tantos anos, ele reaparecia, trazendo consigo não apenas lembranças, mas também um pacto esquecido.

Falamos dos tempos de ginásio, do grupo “Os OITO”, das tardes na lanchonete do Seu DADA, dos sonhos e risadas que moldaram nossa juventude. Chicão recordou o pacto: reencontrar-se 50 anos depois para abrir o envelope guardado no lustre da lanchonete.

A busca nos levou de volta à cidade natal, onde descobrimos que a lanchonete havia desaparecido, substituída por uma casa lotérica. Mas o destino ainda nos reservava uma surpresa: o envelope estava guardado, esperando por nós.

Ao abri-lo, porém, encontramos apenas um papel vazio, amarelado pelo tempo. As palavras haviam se perdido, mas o silêncio que nos envolveu revelou algo maior: as memórias estavam vivas, e o verdadeiro valor do pacto não estava no conteúdo escrito, mas no reencontro e na jornada que ele nos proporcionou.

Final emocionante

O passado não é apenas um registro de momentos vividos. Ele é um espelho que nos mostra quem fomos e como chegamos até aqui. Talvez não seja possível capturar o tempo em palavras, mas é possível sentir sua força nas lembranças e nos reencontros.

O envelope estava vazio, mas nossos corações estavam cheios. E, no fim, compreendemos: o maior tesouro não era o que escrevemos, mas o que vivemos.


Reflexão para o leitor:
E você, já pensou em qual memória guardaria dentro de um envelope para abrir daqui a 50 anos?
💢

Entre palavras e aromas

Gosto de misturar assuntos como quem prepara uma boa receita: com cuidado, curiosidade e um toque pessoal, compartilho reflexões, histórias de viagem e, claro, em algumas vezes, uma sugestão culinária ou enológica para fechar com sabor. Que a leitura te leve longe.



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DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO

A despedida de Alfredo Lobão , transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga ...