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sábado, 7 de março de 2026

O CAUSO DO TREM E O DOCE DE JABUTI

 

Contado por 

Toninho Vendramini

Pois bem, meus amigos(as)... Senta que vou te contar um causo que parece mentira, mas juro que aconteceu — ou pelo menos foi assim que me contaram, e eu acredito. Foi num tempo em que os trens ainda cortavam o interior de São Paulo, cuspindo fumaça e soltando apitos que entravam no ouvido e mexiam com a alma da gente.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

Há tempos, quando os trens ainda cortavam o interior paulista com seus vagões rangentes e apitos que ecoavam na alma, aconteceu um causo que até hoje é lembrado nas rodas de prosa da cidade de Barnabina. Era uma daquelas locomotivas a vapor, cuspindo fumaça que se espalhava por léguas, e que levava gente e histórias por trilhos esquecidos.

Naquele dia, o vagão de primeira classe — que de primeira só tinha o nome — estava mais para terceira, com bancos de madeira gastos e um cheiro que misturava poeira, suor e fumo. Sentado à frente, num desses bancos, estava um sujeito de aparência bravia, que chamaremos de Zé Grandão. Usava um chapéu de peão ensebado, suava como chaleira no fogo e fumava um picadão enrolado na palha que guardava num bolsinho da cueca. O fumo vinha das bandas de Minas, e ele o afinava com um canivete que mais parecia uma peixeira.

Zé Grandão era grande, forte e de modos rudes. Atrás dele, uma senhora de meia idade segurava firme uma sacola que exalava um cheiro bom, daqueles que despertam lembranças de infância. O aroma atiçava a fome do valentão, que lançava olhares de cão danado para a sacola, como se quisesse arrancá-la das mãos da mulher.

Foi então que surgiu o rapaz do carrinho de lanches, empurrando seu arsenal de balas, bombons e quitutes. Zé Grandão, faminto e desajeitado, levantou-se para ver o que havia, tropeçou no carrinho e espalhou tudo pelo corredor. Sem cerimônia, começou a recolher os doces e enfiá-los nos bolsos, sem pagar um tostão.

A confusão se armou. O rapaz correu até o chefe do trem, que chegou com seu boné da companhia ferroviária, mas ao ver o tamanho do Zé, encolheu-se como cachorro que levou pontapé. Os passageiros torciam pelo chefe, mas Zé Grandão o agarrou pelo pescoço e o trancou no minúsculo sanitário do vagão, onde o pobre berrava por socorro.

O maquinista, ouvindo a gritaria, deixou o ajudante na locomotiva e correu até o telegrafista. Mandou um telegrama urgente para a próxima estação, avisando da confusão. O trem parou na pequena cidade de Barnabina — batizada em homenagem à esposa do fundador, o senhor Barnabé.

Ao saber do tumulto, Barnabé foi até a estação, mas mal pisou no chão e já levou um rabo de arraia do Zé Grandão, que se gabava de ter secado uma garrafa de pinga durante a viagem. Com medo, Barnabé resolveu agradar o valentão e o convidou para ser delegado da cidade, cargo vago desde que o anterior havia tombado num confronto com jagunços.

Zé Grandão aceitou. Tirou dos bolsos os doces que havia surrupiado e começou a distribuí-los, adoçando os ânimos e conquistando os moradores. Virou figura popular, botou ordem na cidade e se gabava de visitar as casas para receber guloseimas das senhoras, que o temiam e o agradavam.

Foi numa dessas visitas que conheceu o doce de jabuti — não o animal, mas uma geleia de jabuticaba feita por Dona Maroca. Bastava uma colherada para acalmar o valentão. Ele mesmo batizou a iguaria, dizendo que aquele doce era mais valente que ele.

🍇 Receita simbólica do Doce de Jabuti (geleia de jabuticaba)

1 kg de jabuticabas maduras

500 g de açúcar cristal

Suco de 1 limão

Modo de preparo: Lave bem as jabuticabas e leve ao fogo com o açúcar e o suco de limão. Cozinhe até que as frutas estourem e a mistura engrosse. Passe por uma peneira, volte ao fogo até atingir ponto de geleia. Sirva com carinho — e, se possível, com respeito à memória de Zé Grandão.

O FINAL DO VALENTÃO

O tempo passou, e um dia Zé Grandão foi encontrado morto à beira da estrada, perto da linha do trem. Dizem que foi acerto de contas, dizem que foi destino. Mas toda vez que o trem passa por ali, o maquinista apita demoradamente, como quem presta homenagem ao fim da carreira do valentão — para alívio dos moradores de Barnabina, que enfim puderam adoçar a vida sem medo.



Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Pensador | Criador de conteúdos culturais
📬 Abaixo, - outro espaço de cultura e amizade - clique e divirta-se.

Antonio Vendramini Neto – (facebook) 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O PATRIARCA PERDEU ATÉ AS CALÇAS

 

Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo, lá pelos tempos em que o rádio ainda era luxo e carro de boi fazia mais sucesso que automóvel.

Antes da Segunda Guerra Mundial, uma família italiana, com medo do que estava por vir na Europa e já cansada de contar moedas para comprar pão, resolveu atravessar o oceano. Vieram animados pelas antigas políticas de imigração iniciadas ainda no Império, depois da abolição assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. A promessa era de terra, trabalho e futuro. Não vinha com manual de instruções — mas vinha com esperança.

Desembarcaram em Santos, cada qual com uma mala, um santo de devoção e um medo danado do desconhecido. Parte da família seguiu para outra cidade, mas o patriarca — homem de voz grossa e bigode respeitável — fincou pé naquele pedaço de chão vermelho.

Começaram do zero. Montaram um armazém de secos e molhados que vendia de tudo: feijão, querosene, prego, enxada, tecido, sabão e até conselho grátis. O estabelecimento virou ponto de encontro. Quem entrava para comprar sal saía sabendo da vida inteira da vizinhança.

Veio a guerra, veio a escassez, e o patriarca fez o que todo bom italiano faz: chamou a parentada desgarrada para morar junto. Apertaram-se na mesma casa, dividiram a polenta e multiplicaram a coragem. Plantavam, colhiam, economizavam e sobreviviam — às vezes mais na teimosia do que na fartura.

O tempo passou. Os filhos cresceram, alguns foram tentar a vida na cidade grande. O velho ficou. Já tinha sido de tudo um pouco: funcionário dos Correios, vereador e até uma espécie de delegado informal — daqueles que resolviam briga só com um olhar atravessado.

Nas férias, os netos invadiam a cidade como uma praga feliz. Um mês inteiro de poeira, manga no pé e traquinagem. A rua principal ainda era de terra batida, e aos sábados virava espetáculo: chegavam os fregueses da zona rural em carros de boi para fazer as compras do mês.

Era aí que a tragédia — ou melhor, a comédia — começava.

Os netos adoravam provocar os bois. Atiçavam os bichos, puxavam o rabo, batiam palma. Os bois bufavam, o carroceiro xingava até santo do calendário, e a molecada ria como se estivesse no circo.

Lá do alto do sobrado, o patriarca assistia à cena. Já não tinha a mesma disposição de antes, mas conservava a autoridade — pelo menos na teoria. Descia as escadas resmungando, dava bronca, subia de novo e voltava à janela como um general aposentado fiscalizando a tropa.

O problema era o figurino.

Na velhice, o homem adotara um estilo próprio: calça presa por uma cinta improvisada, amarrada por fora, sem passar pelos passantes. Cueca? Achava exagero. Dizia que “arejava as ideias”. Qualquer movimento em falso era uma aposta contra a gravidade.

E naquele sábado o destino resolveu testar a física.

Ao ver os netos deixando um boi quase filosófico de tanto bufar, o velho perdeu a paciência.

Desceu as escadas decidido a restaurar a ordem do universo.

— Venham cá, seus desgraçados! Eu dou com a cinta na bunda de vocês!

A molecada, claro, continuou. Autoridade que ameaça e não age vira incentivo.

Tomado pelo fervor disciplinador, o patriarca foi até o meio da rua. Num gesto teatral, puxou a cinta para dar exemplo.

Só que a cinta era a única coisa segurando a dignidade.

A calça despencou num segundo histórico.

E ali ficou o antigo vereador, ex-carteiro, delegado sem título e coronel de si mesmo — nu da cintura para baixo, sob o sol do interior paulista.

Silêncio de dois segundos.

Depois, gargalhadas. Dos netos. Dos fregueses. Do carroceiro. Até o boi pareceu sorrir.

O filho, que assistia à cena ao lado do armazém, correu num sprint olímpico, ergueu as calças do pai e o rebocou para dentro, enquanto o velho ainda tentava manter a pose, como se aquilo fosse parte do discurso.

Dizem que no pequeno jornal da cidade — do qual ele também já fora dono — o episódio nunca foi publicado. Mistério editorial.

Mas na família? Ah… esse “causo” ganhou mais versões do que receita de molho de tomate.

E até hoje, quando alguém ameaça “dar com a cinta”, sempre tem um neto que pergunta:

— Mas vai passar nos passantes, nonno? 


Meu Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

 

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

 

 



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

LEMBRANÇA DE UMA VÉSPERA DE NATAL

O ESPIRITO NATALINO ESTAVA PRESENTE



À medida que o Natal se aproxima, minha memória se volta para uma véspera natalina já vivida, marcada por alegria e união familiar.

Naquela noite, tivemos a felicidade de receber nosso querido primo Arnaldo e sua esposa Amélia – nome que nos trouxe à lembrança nossa saudosa Amélia Minutti Gasparotto, que, ao lado de Giggio, nos presenteou com três filhos maravilhosos: Neiva, Sérgio e o próprio Arnaldo.

O espírito natalino estava presente em cada gesto e palavra. Era tempo de reflexão sobre valores que permanecem vivos em nossas vidas: a solidariedade e o amor ao próximo. Recordo-me de ter compartilhado a história de um cego e um paralítico que, na pobreza extrema, encontraram forças na união. Um caminhava, o outro enxergava. Juntos, conquistavam o pão de cada dia. Essa narrativa refletia o verdadeiro sentido daquela noite: a solidariedade que une e fortalece.

Também nos lembramos de nossos avós e pais, raízes que sustentam nossa história e nos transmitiram valores que seguimos repassando a filhos e netos. Rendemos homenagens àquela gloriosa geração, conscientes de que o tempo transforma a presença em lembrança, mas nunca apaga o legado.

E como não recordar nossa infância e juventude na Rua Zacarias de Góes? Dois quarteirões que se tornaram um mundo encantado, onde vivemos momentos mágicos, cercados por avós, pais e tios, todos unidos na solidariedade. Cada dificuldade era compartilhada e superada com apoio mútuo.

Naquela véspera de Natal, reunidos em família, sentimos a felicidade que talvez não tivéssemos plena consciência na juventude. Hoje, ao reviver essa lembrança, percebemos o valor daqueles dias simples e cheios de união.

E foi nesse ambiente, marcado pela solidariedade e pela fé, que entoamos melodiosos hinos em louvor Àquele que nasceu em uma manjedoura. Uma noite que permanece viva em nossas memórias, como símbolo da esperança e da paz que o Natal sempre nos traz.



Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória — entre receitas simples e flores cultivadas com afeto. 

Em Vendramini Letras, compartilha palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

"Escrevo para quem não teme abismos. Os mais lidos te esperam abaixo. À direita, palavras que abrem portas."

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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ASTROLOGIA: O CÉU COMO METÁFORA

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