Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo, lá pelos tempos em que o rádio ainda era luxo e carro de boi fazia mais sucesso que automóvel.
Antes da Segunda Guerra Mundial, uma família italiana, com medo do que estava por vir na Europa e já cansada de contar moedas para comprar pão, resolveu atravessar o oceano. Vieram animados pelas antigas políticas de imigração iniciadas ainda no Império, depois da abolição assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. A promessa era de terra, trabalho e futuro. Não vinha com manual de instruções — mas vinha com esperança.
Desembarcaram em Santos, cada qual com uma mala, um santo de devoção e um medo danado do desconhecido. Parte da família seguiu para outra cidade, mas o patriarca — homem de voz grossa e bigode respeitável — fincou pé naquele pedaço de chão vermelho.
Começaram do zero. Montaram um armazém de secos e molhados que vendia de tudo: feijão, querosene, prego, enxada, tecido, sabão e até conselho grátis. O estabelecimento virou ponto de encontro. Quem entrava para comprar sal saía sabendo da vida inteira da vizinhança.
Veio a guerra, veio a escassez, e o patriarca fez o que todo bom italiano faz: chamou a parentada desgarrada para morar junto. Apertaram-se na mesma casa, dividiram a polenta e multiplicaram a coragem. Plantavam, colhiam, economizavam e sobreviviam — às vezes mais na teimosia do que na fartura.
O tempo passou. Os filhos cresceram, alguns foram tentar a vida na cidade grande. O velho ficou. Já tinha sido de tudo um pouco: funcionário dos Correios, vereador e até uma espécie de delegado informal — daqueles que resolviam briga só com um olhar atravessado.
Nas férias, os netos invadiam a cidade como uma praga feliz. Um mês inteiro de poeira, manga no pé e traquinagem. A rua principal ainda era de terra batida, e aos sábados virava espetáculo: chegavam os fregueses da zona rural em carros de boi para fazer as compras do mês.
Era aí que a tragédia — ou melhor, a comédia — começava.
Os netos adoravam provocar os bois. Atiçavam os bichos, puxavam o rabo, batiam palma. Os bois bufavam, o carroceiro xingava até santo do calendário, e a molecada ria como se estivesse no circo.
Lá do alto do sobrado, o patriarca assistia à cena. Já não tinha a mesma disposição de antes, mas conservava a autoridade — pelo menos na teoria. Descia as escadas resmungando, dava bronca, subia de novo e voltava à janela como um general aposentado fiscalizando a tropa.
O problema era o figurino.
Na velhice, o homem adotara um estilo próprio: calça presa por uma cinta improvisada, amarrada por fora, sem passar pelos passantes. Cueca? Achava exagero. Dizia que “arejava as ideias”. Qualquer movimento em falso era uma aposta contra a gravidade.
E naquele sábado o destino resolveu testar a física.
Ao ver os netos deixando um boi quase filosófico de tanto bufar, o velho perdeu a paciência.
Desceu as escadas decidido a restaurar a ordem do universo.
— Venham cá, seus desgraçados! Eu dou com a cinta na bunda de vocês!
A molecada, claro, continuou. Autoridade que ameaça e não age vira incentivo.
Tomado pelo fervor disciplinador, o patriarca foi até o meio da rua. Num gesto teatral, puxou a cinta para dar exemplo.
Só que a cinta era a única coisa segurando a dignidade.
A calça despencou num segundo histórico.
E ali ficou o antigo vereador, ex-carteiro, delegado sem título e coronel de si mesmo — nu da cintura para baixo, sob o sol do interior paulista.
Silêncio de dois segundos.
Depois, gargalhadas. Dos netos. Dos fregueses. Do carroceiro. Até o boi pareceu sorrir.
O filho, que assistia à cena ao lado do armazém, correu num sprint olímpico, ergueu as calças do pai e o rebocou para dentro, enquanto o velho ainda tentava manter a pose, como se aquilo fosse parte do discurso.
Dizem que no pequeno jornal da cidade — do qual ele também já fora dono — o episódio nunca foi publicado. Mistério editorial.
Mas na família? Ah… esse “causo” ganhou mais versões do que receita de molho de tomate.
E até hoje, quando alguém ameaça “dar com a cinta”, sempre tem um neto que pergunta:
— Mas vai passar nos passantes, nonno?
Não é apenas
um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui,
cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e
da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao
cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou
uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao
sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.
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