quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Última Visão De Um Caboclo


Em uma noite muito quente de verão, o reflexo da lua cheia banhava a janela aberta daquele ranchinho surrado pelo tempo, lá fora, começava a soprar um vento forte, anunciando uma tempestade.

No quarto, sobre um colchão de palha, sem nenhuma coberta, descansava um velho caboclo. O ruído da janela batendo na parede de taipa fazia cair sobre o chão de terra batida, alguns pedaços de reboco, despertando momentos de reflexão de um tempo já muito distante.

O barulho de um trovão, seguido de um relâmpago, refletiu em seu rosto, as rugas marcadas pelo seu tempo de vida com muita luta e perseverança. Apesar de tudo, ainda se mantinha lúcido, embora suas pernas já estivessem começando a fraquejar.

Continuou lembrando, mergulhado no passado, nos seus tempos de vaqueiro, aqueles que hoje em dia já não existem mais. Os olhos já estavam marejados pela saudade, imaginava as amizades com os companheiros, à jornada de trabalho que era árdua e cansativa.

Gostava dessa vida, não via à hora do dia amanhecer, para começar o seu trabalho, conduzindo gado selvagem pelas pradarias e cantando versos de sua autoria, sempre acompanhado por sua viola, que jazia agora num canto do quarto, sob os pés de um cachorro magro, que nem nome tinha, mas servia de companhia nesses últimos anos de reclusão em que se envolveu.

Nessa mistura de reflexão e pensamentos, escutou lá fora o trotar de um cavalo, "parecia um chamado”, sentiu uma força estranha elevando o seu frágil corpo, que começou a desprender-se da cama, sentiu então uma sonolência inebriante e ao mesmo tempo, uma leveza de seu ser, que fez flutuar até a porta, conseguindo abri-la.

O panorama que avistou foi exuberante, a noite havia se transformado em um lindo dia de céu azul, com muito sol e nuvens brancas. Avistou então a “alma” de seu companheiro de muitas jornadas, morto em uma perseguição de um boi, através de uma “chifrada”, era o famoso cavalo Pingo, que soltava “bafos” em forma de flocos de neve pelas narinas, que ficaram flutuando no ar. Aquela bela figura, agora em forma de cavalo-alado, soltou um “relincho”, e com um aceno de cabeça, “convidou-o a voar” por aquelas paragens de antigamente.

Cheio de vontade, transformou-se em um menino, e como um serelepe, montou no dorso daquele magnífico animal. Os dois passearam pelo passado, enxergando aquelas boiadas, viu em um “rasante” no bater das asas do corcel branco, aqueles lugares que tanto percorreu em baixo de sol, chuva, ventos e tempestades.

Estava muito alegre, e num momento de extrema felicidade, ordenou ao Pingo que aterrizasse sob aquela paineira defronte a sua antiga escola. Apeou, recostou a cabeça no tronco da frondosa arvore, e viu sua vida chegando ao fim, e com um último suspiro, cerrou os olhos para sempre.


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O CAMINHO DA CRUZ

O CAMINHO DA CRUZ Tudo estava quieto... Naquele momento, pressentia-se que alguma coisa pudesse acontecer a qualquer instante;...