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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O PATRIARCA PERDEU ATÉ AS CALÇAS

 

Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo, lá pelos tempos em que o rádio ainda era luxo e carro de boi fazia mais sucesso que automóvel.

Antes da Segunda Guerra Mundial, uma família italiana, com medo do que estava por vir na Europa e já cansada de contar moedas para comprar pão, resolveu atravessar o oceano. Vieram animados pelas antigas políticas de imigração iniciadas ainda no Império, depois da abolição assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. A promessa era de terra, trabalho e futuro. Não vinha com manual de instruções — mas vinha com esperança.

Desembarcaram em Santos, cada qual com uma mala, um santo de devoção e um medo danado do desconhecido. Parte da família seguiu para outra cidade, mas o patriarca — homem de voz grossa e bigode respeitável — fincou pé naquele pedaço de chão vermelho.

Começaram do zero. Montaram um armazém de secos e molhados que vendia de tudo: feijão, querosene, prego, enxada, tecido, sabão e até conselho grátis. O estabelecimento virou ponto de encontro. Quem entrava para comprar sal saía sabendo da vida inteira da vizinhança.

Veio a guerra, veio a escassez, e o patriarca fez o que todo bom italiano faz: chamou a parentada desgarrada para morar junto. Apertaram-se na mesma casa, dividiram a polenta e multiplicaram a coragem. Plantavam, colhiam, economizavam e sobreviviam — às vezes mais na teimosia do que na fartura.

O tempo passou. Os filhos cresceram, alguns foram tentar a vida na cidade grande. O velho ficou. Já tinha sido de tudo um pouco: funcionário dos Correios, vereador e até uma espécie de delegado informal — daqueles que resolviam briga só com um olhar atravessado.

Nas férias, os netos invadiam a cidade como uma praga feliz. Um mês inteiro de poeira, manga no pé e traquinagem. A rua principal ainda era de terra batida, e aos sábados virava espetáculo: chegavam os fregueses da zona rural em carros de boi para fazer as compras do mês.

Era aí que a tragédia — ou melhor, a comédia — começava.

Os netos adoravam provocar os bois. Atiçavam os bichos, puxavam o rabo, batiam palma. Os bois bufavam, o carroceiro xingava até santo do calendário, e a molecada ria como se estivesse no circo.

Lá do alto do sobrado, o patriarca assistia à cena. Já não tinha a mesma disposição de antes, mas conservava a autoridade — pelo menos na teoria. Descia as escadas resmungando, dava bronca, subia de novo e voltava à janela como um general aposentado fiscalizando a tropa.

O problema era o figurino.

Na velhice, o homem adotara um estilo próprio: calça presa por uma cinta improvisada, amarrada por fora, sem passar pelos passantes. Cueca? Achava exagero. Dizia que “arejava as ideias”. Qualquer movimento em falso era uma aposta contra a gravidade.

E naquele sábado o destino resolveu testar a física.

Ao ver os netos deixando um boi quase filosófico de tanto bufar, o velho perdeu a paciência.

Desceu as escadas decidido a restaurar a ordem do universo.

— Venham cá, seus desgraçados! Eu dou com a cinta na bunda de vocês!

A molecada, claro, continuou. Autoridade que ameaça e não age vira incentivo.

Tomado pelo fervor disciplinador, o patriarca foi até o meio da rua. Num gesto teatral, puxou a cinta para dar exemplo.

Só que a cinta era a única coisa segurando a dignidade.

A calça despencou num segundo histórico.

E ali ficou o antigo vereador, ex-carteiro, delegado sem título e coronel de si mesmo — nu da cintura para baixo, sob o sol do interior paulista.

Silêncio de dois segundos.

Depois, gargalhadas. Dos netos. Dos fregueses. Do carroceiro. Até o boi pareceu sorrir.

O filho, que assistia à cena ao lado do armazém, correu num sprint olímpico, ergueu as calças do pai e o rebocou para dentro, enquanto o velho ainda tentava manter a pose, como se aquilo fosse parte do discurso.

Dizem que no pequeno jornal da cidade — do qual ele também já fora dono — o episódio nunca foi publicado. Mistério editorial.

Mas na família? Ah… esse “causo” ganhou mais versões do que receita de molho de tomate.

E até hoje, quando alguém ameaça “dar com a cinta”, sempre tem um neto que pergunta:

— Mas vai passar nos passantes, nonno? 


Meu Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

 

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

 

 



sexta-feira, 18 de abril de 2025

ANTONIO VENDRAMINI (MEU AVô) E O LEGADO DO CARRO DE BOI


DESDE PEQUENO FASCINAVA PELO FUNCIONAMENTO 

Antonio Vendramini, conhecido pelo apelido de Tonella, nasceu em Treviso, Itália, em 1882. Como muitas famílias europeias da época, seus parentes decidiram migrar para o Brasil, buscando novas oportunidades. Chegaram ao Estado de São Paulo e se instalaram no Distrito de Banharão, em Jaú, onde trabalharam arduamente na lavoura de café. O trabalho era extenuante, mas, com esforço e dedicação, conseguiram adquirir terras próprias e iniciar seu próprio cultivo.

Desde pequeno, Tonella se fascinava pelo funcionamento dos carros de boi. Passava horas observando a montagem das carroças usadas para transportar as sacas de café até as ferrovias, onde seriam embarcadas na Maria-Fumaça rumo aos portos. Sua curiosidade e empenho o levaram a se tornar carreiro, dominando a arte de conduzir os bois e cuidar do carro para que seu eixo "cantasse" durante o percurso—um som característico que, na cidade, despertava curiosidade e, no distrito, atraía olhares atentos.

O canto do carro de boi também desempenhava um papel social. Ao entrar na cidade, atraía pessoas ansiosas para saber quem chegava e quais novidades trazia. Já no Banharão, o som chamava a atenção das moças, que corriam até as portas para ver os condutores Tonella e Anduim, que sorridentes acenavam com seus chapéus. O trabalho exigia técnica, paciência e respeito pelos animais, especialmente pelos bois malhados, que eram mais dóceis e fáceis de treinar.

Com o tempo, novas formas de transporte surgiram. As tropas de burros, das quais Tonella foi pioneiro em Jaú, passaram a agilizar o transporte das sacas de café até a estação de trem. Mais tarde, os cavalos entraram na vida dele, proporcionando espetáculos rurais e apresentações em circos e feiras.

O carro de boi foi um símbolo de progresso para a família Vendramini e para tantas outras. Hoje, tornou-se uma lembrança de tempos passados, preservada em festivais e encontros que celebram sua importância na história rural brasileira. O legado de Tonella e sua dedicação ao trabalho permanecem vivos, carregados na memória de sua família e na cultura do país.

O ENCANTO DO CHÁ DAS CINCO

O Chá das Cinco :  Um Ritual Britânico de Elegância e Tradição. Uma herança portuguesa na corte inglesa. O famoso chá das cinco é muito ma...