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domingo, 12 de abril de 2026

O CANTO DO CARRO DE BOI E O VINHO DOS ITALIANOS


 O Canto do Carro de Boi 

Há histórias que se perpetuam como o aroma de um vinho antigo — intensas, marcadas pela terra e pelo tempo.

A trajetória de Antonio Vendramini, (meu avô) o Tonella, é uma dessas histórias que misturam suor, tradição e celebração. Entre o som do carro de boi e o tilintar dos copos de vinho nas fazendas, nasceu uma memória que atravessa gerações.

Meus Contos - Antonio Vendramini Neto -são como um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola. 

📖 

Antonio Vendramini, conhecido como Tonella, nasceu em Treviso, Itália, em 1882. Como tantos imigrantes europeus, sua família cruzou o oceano em busca de novas oportunidades e encontrou no interior paulista um solo fértil para recomeçar. Instalaram-se no Distrito de Banharão, em Jaú, onde o café era o ouro da terra e o trabalho, a medida da dignidade.

Desde menino, Tonella se encantava com o funcionamento dos carros de boi. Observava com curiosidade cada detalhe da montagem das carroças que levavam as sacas de café até a ferrovia. Com o tempo, tornou-se carreiro, dominando a arte de conduzir os bois e fazer o eixo “cantar” — aquele som característico que ecoava pelas estradas e anunciava sua chegada.

O canto do carro de boi era mais que um som: era um sinal de vida. Na cidade, despertava curiosidade; no Banharão, fazia as moças correrem às portas para ver Tonella e Anduim acenando com seus chapéus. O trabalho exigia técnica, paciência e respeito pelos animais, especialmente pelos bois malhados, dóceis e fiéis companheiros.

Mas havia também os momentos de pausa e confraternização. Ao fim do dia, nas fazendas, os italianos se reuniam à sombra dos galpões para saborear o vinho artesanal, muitas vezes o Chianti, trazido da Toscana ou produzido com uvas locais. Era o vinho que trazia o perfume da terra natal — o sabor da Itália misturado ao pó do café paulista. Entre um gole e outro, histórias se misturavam ao som distante do carro de boi, compondo uma sinfonia de trabalho e alegria. Tonella, com seu sorriso largo, costumava dizer que o vinho era “o sangue da terra que nos acolheu”.

Com o passar dos anos, novas formas de transporte surgiram. Tonella foi pioneiro nas tropas de burros em Jaú, agilizando o transporte das sacas de café até a estação. Mais tarde, os cavalos entraram em sua vida, levando-o a espetáculos rurais e apresentações em circos e feiras.

O carro de boi, símbolo de progresso e resistência, tornou-se lembrança viva. Hoje, é celebrado em festivais e encontros que preservam sua importância na história rural brasileira. O legado de Tonella permanece — entre o canto do eixo e o brinde do vinho — como testemunho de uma época em que o trabalho e a alegria caminhavam lado a lado.

O som do carro de boi pode ter se calado nas estradas, mas sua melodia ainda vibra na memória de quem reconhece o valor da tradição. E o vinho, sorvido nas fazendas italianas do interior paulista, continua sendo símbolo de união e gratidão — o sabor da terra e da história que Tonella ajudou a escrever.

🍇 Curiosidade histórica

O Chianti, vinho típico da região da Toscana, era um dos mais populares entre os imigrantes italianos no início do século XX. Produzido em garrafas envoltas em palha trançada — o famoso fiasco —, tornou-se símbolo de simplicidade e celebração. Nas fazendas paulistas, o Chianti era mais que bebida: era lembrança da pátria distante e brinde à nova vida no Brasil.

 Palavras que viajam, sabores que ficam

Meus textos são como malas abertas: cheios de lembranças, ideias e sabores. Ao final de cada um, deixo uma receita ou uma sugestão de vinho — porque viajar também é degustar. Que este texto te inspire a explorar, sentir e saborear cada detalhe.


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Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O PATRIARCA PERDEU ATÉ AS CALÇAS

 

Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo, lá pelos tempos em que o rádio ainda era luxo e carro de boi fazia mais sucesso que automóvel.

Antes da Segunda Guerra Mundial, uma família italiana, com medo do que estava por vir na Europa e já cansada de contar moedas para comprar pão, resolveu atravessar o oceano. Vieram animados pelas antigas políticas de imigração iniciadas ainda no Império, depois da abolição assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. A promessa era de terra, trabalho e futuro. Não vinha com manual de instruções — mas vinha com esperança.

Desembarcaram em Santos, cada qual com uma mala, um santo de devoção e um medo danado do desconhecido. Parte da família seguiu para outra cidade, mas o patriarca — homem de voz grossa e bigode respeitável — fincou pé naquele pedaço de chão vermelho.

Começaram do zero. Montaram um armazém de secos e molhados que vendia de tudo: feijão, querosene, prego, enxada, tecido, sabão e até conselho grátis. O estabelecimento virou ponto de encontro. Quem entrava para comprar sal saía sabendo da vida inteira da vizinhança.

Veio a guerra, veio a escassez, e o patriarca fez o que todo bom italiano faz: chamou a parentada desgarrada para morar junto. Apertaram-se na mesma casa, dividiram a polenta e multiplicaram a coragem. Plantavam, colhiam, economizavam e sobreviviam — às vezes mais na teimosia do que na fartura.

O tempo passou. Os filhos cresceram, alguns foram tentar a vida na cidade grande. O velho ficou. Já tinha sido de tudo um pouco: funcionário dos Correios, vereador e até uma espécie de delegado informal — daqueles que resolviam briga só com um olhar atravessado.

Nas férias, os netos invadiam a cidade como uma praga feliz. Um mês inteiro de poeira, manga no pé e traquinagem. A rua principal ainda era de terra batida, e aos sábados virava espetáculo: chegavam os fregueses da zona rural em carros de boi para fazer as compras do mês.

Era aí que a tragédia — ou melhor, a comédia — começava.

Os netos adoravam provocar os bois. Atiçavam os bichos, puxavam o rabo, batiam palma. Os bois bufavam, o carroceiro xingava até santo do calendário, e a molecada ria como se estivesse no circo.

Lá do alto do sobrado, o patriarca assistia à cena. Já não tinha a mesma disposição de antes, mas conservava a autoridade — pelo menos na teoria. Descia as escadas resmungando, dava bronca, subia de novo e voltava à janela como um general aposentado fiscalizando a tropa.

O problema era o figurino.

Na velhice, o homem adotara um estilo próprio: calça presa por uma cinta improvisada, amarrada por fora, sem passar pelos passantes. Cueca? Achava exagero. Dizia que “arejava as ideias”. Qualquer movimento em falso era uma aposta contra a gravidade.

E naquele sábado o destino resolveu testar a física.

Ao ver os netos deixando um boi quase filosófico de tanto bufar, o velho perdeu a paciência.

Desceu as escadas decidido a restaurar a ordem do universo.

— Venham cá, seus desgraçados! Eu dou com a cinta na bunda de vocês!

A molecada, claro, continuou. Autoridade que ameaça e não age vira incentivo.

Tomado pelo fervor disciplinador, o patriarca foi até o meio da rua. Num gesto teatral, puxou a cinta para dar exemplo.

Só que a cinta era a única coisa segurando a dignidade.

A calça despencou num segundo histórico.

E ali ficou o antigo vereador, ex-carteiro, delegado sem título e coronel de si mesmo — nu da cintura para baixo, sob o sol do interior paulista.

Silêncio de dois segundos.

Depois, gargalhadas. Dos netos. Dos fregueses. Do carroceiro. Até o boi pareceu sorrir.

O filho, que assistia à cena ao lado do armazém, correu num sprint olímpico, ergueu as calças do pai e o rebocou para dentro, enquanto o velho ainda tentava manter a pose, como se aquilo fosse parte do discurso.

Dizem que no pequeno jornal da cidade — do qual ele também já fora dono — o episódio nunca foi publicado. Mistério editorial.

Mas na família? Ah… esse “causo” ganhou mais versões do que receita de molho de tomate.

E até hoje, quando alguém ameaça “dar com a cinta”, sempre tem um neto que pergunta:

— Mas vai passar nos passantes, nonno? 


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Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

 

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

 

 



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