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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

RETIRANTES: PROTAGONISTAS DE UM POEMA


Durante um trabalho temporário no sertão nordestino, fui tocado por uma paisagem que falava mais alto que palavras. O chão rachado, o sol impiedoso, os rostos marcados pelo tempo e pela luta — tudo ali parecia contar uma história ancestral de resistência.

"Palavras no texto em negrito/links são portais — clique e explore."



Foi nesse cenário que nasceu este poema, inspirado nos retirantes: homens, mulheres e crianças que, mesmo diante da escassez, carregam consigo a dignidade e a esperança.



Assolava fome e tristeza.
Não nascia mais ninguém.
Povo cansado e calejado,
Faltava maternidade,
Faltava parteira também.
Batiam em dura retirada,
Com o amparo do cajado.


Força da mãe natureza,
Num lugar não reluzente.
Sol de luz sempre presente,
Mas sem luz materna acesa.



Sítio ermo e doentio,
Muito pó pelo caminho.
Pedras de duro feitio,
Ventre pesado no ninho.



Visão distante da cidade,
Gemido em conflito ardente.
Garganta periclitante,
Vento uivando de verdade.



E ali, contra o desatino,
Nasceu a vida — sem eira, sem beira.
Para o desencanto da alma,
E o desespero dos recursos.

 Encerramento Poético Dramático 

Mas mesmo ali, onde o chão não dá trégua,
Onde o tempo parece esquecer os nomes,
Brota um olhar que desafia o destino.
Retirantes seguem — não por fuga,
Mas por fé no que ainda pode florescer.
São protagonistas de um poema sem fim,
Escrito com poeira, suor e esperança.
Porque o sertão, mesmo seco,
Ainda sonha com chuva.

💫

Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados. 

👇

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Antonio Vendramini Neto

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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

ENTRE O CÉU E O SILÊNCIO

 

A  TEMPESTADE


O sol, durante o dia, parecia castigar a terra com sua luz incandescente — uma tensão térmica que pressionava tudo sob uma atmosfera quase cruel. Era como se o planeta estivesse sendo apertado por garras invisíveis, sufocado por uma força que não podíamos controlar.
E nós?

Ah, nós... pequenos, frágeis, limitados em nosso microcosmo. Tínhamos até medo de pensar sobre tudo isso. A vastidão nos intimidava.

Mas então, no momento das preces — quando a natureza se transforma em palco — as cortinas da noite começaram a descer sobre o firmamento, bordadas por nuvens cúmulo disformes que dançavam como atores silenciosos.

Eu observava tudo, sem entender direito a beleza daquele espetáculo. Aos poucos, fui me perdendo... já não havia céu, nem terra. Só uma sensação de dissolução.
Tudo era Unidade. O Absoluto. O Indivisível.

Para quem conseguia se conectar com aquela grandeza, era como se Deus estivesse ali, escrevendo com relâmpagos no pergaminho do céu uma mensagem de fé, força e coragem — mal traduzida pelos roncos dos trovões.

Por trás dos blocos densos de nuvens, os clarões pareciam o faroleiro do Senhor. Sua lanterna tremia de um lado para o outro, revelando uma luz róseo-alaranjada que cortava a escuridão como um chamado à Verdade.

A chuva descia como uma borracha viva, apagando as marcas do medo que o homem havia deixado. O vento, impiedoso, arranhava as árvores como se quisesse limpar das folhas o pó das blasfêmias e dos pensamentos corrosivos.

O corpo tremia. Mas o espírito? O espírito permanecia firme, indiferente ao medo da carne. Sentia-se forte. Indestrutível.
E então... silêncio.

A natureza se acalmou. A noite avançava, e algo leve, quase alegre, brotava em meu coração. Foi nesse instante que me dei conta:
Tudo havia passado.

Mas onde estive esse tempo todo?
Talvez não tenha sido sonho. Talvez não tenha sido delírio. Talvez tenha sido apenas... realidade vista com os olhos da alma.

💥

Cada texto é uma paisagem que compartilho com quem quiser olhar.

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 Toninho Vendramini

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