sexta-feira, 25 de abril de 2025

POR UM PAÍS MELHOR



CULTIVAR A ÉTICA O RESPEITO E A SOLIDARIEDADE


A educação é uma ferramenta essencial para transformar vidas e moldar um futuro mais promissor. Ela começa em casa, no afeto e nos valores transmitidos pela família, e se enriquece através do conhecimento, da convivência e do conteúdo aprendido nos bancos escolares. É o alicerce para um mundo repleto de oportunidades.

Uma pessoa que recebe uma base sólida de educação no ambiente familiar e tem acesso a uma formação escolar de qualidade tem um potencial extraordinário para impactar positivamente sua família, sua comunidade, sua cidade e até mesmo o mundo. Isso vai muito além de alcançar sucesso profissional ou financeiro; trata-se de cultivar ética, respeito, solidariedade e o cuidado com os outros, com o bairro, com a cidade e com o país.

Educação bem fundamentada não apenas abre portas, mas também constrói pontes para uma sociedade mais justa, igualitária e repleta de esperança. Juntos, podemos sonhar, realizar e construir um amanhã brilhante!


 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

PANORAMA VISTO DA VARANDA


NÃO ESPERE UMA OCASIÃO ESPECIAL.

Hoje, há edifícios que tocam o céu e estradas que se estendem sem fim,
mas os temperamentos se tornaram pequenos e os pontos de vista, estreitos.

Gastamos mais, desfrutamos menos.
Construímos casas maiores, mas nossas famílias diminuíram.
Multiplicamos compromissos e reduzimos o tempo para o que realmente importa.
Temos mais remédios, mas menos saúde; mais conhecimento, mas menos sabedoria.

A tecnologia nos conecta, mas será que nos aproximamos?
A liberdade se amplia, mas os corações se sentem aprisionados.
Os supermercados estão cheios, mas as refeições são apressadas e sem alma.

Estamos na era das casas impecáveis, mas dos lares despedaçados.
Dos armários abarrotados, mas dos sorrisos escassos.

Por isso, não espere uma ocasião especial.
Cada dia que você vive é especial.

Sente-se na varanda e admire a paisagem, mesmo que o céu esteja nublado.
Deixe o vento bagunçar seus cabelos e o sol aquecer sua pele.
Abrace mais. Ria alto. Permita-se saborear o presente.

Não guarde seu melhor perfume—use-o quando tiver vontade.
Não adie aquela ligação, aquele café, aquela viagem.
Escreva aquela carta que nunca enviou.

Diga aos seus amigos, aos seus familiares, o quanto os ama.
Porque a vida não se mede em anos, mas em momentos.

E cada instante é único—e pode ser o último.

Clique no link - ( será remetido ao site  viagens mundo afora) 

terça-feira, 15 de abril de 2025

O MURO DAS LAMENTAÇÕES


O PEDIDO COMPRIMIDO ENTRE AS PEDRAS ANCESTRAIS




A ansiedade nos dominava. Eu e minha esposa, impelidos por uma emoção quase palpável, cruzávamos as vielas estreitas de Jerusalém como peregrinos em busca de um destino sagrado. O brilho em nossos olhos denunciava a expectativa de chegar ao coração da cidade antiga, um enclave histórico envolto por muralhas imponentes, testemunhas silenciosas de séculos de devoção.

Ali, onde o tempo parece se dobrar sobre si mesmo, encontramos o epicentro espiritual de Jerusalém. Nomeado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, essa região abriga as marcas indeléveis das principais crenças do mundo.

Cada um de nós trouxe consigo desejos e súplicas, convertidos em bilhetes humildes destinados a serem inseridos nas rachaduras do lendário Muro das Lamentações. À medida que caminhávamos, algo inexplicável começava a se insinuar em nossos corpos. Sentíamos uma presença, um arrepio profundo que percorria a espinha e tornava os passos mais lentos, quase reverentes.

O ar fervilhava com o som de vozes em murmúrio constante, enquanto cornetas esculpidas em chifres de carneiro ecoavam pelo espaço, conduzindo religiosos em procissões que carregavam o Torá. Ao fundo, entrelaçavam-se ao som desses rituais as preces muçulmanas que ecoavam dos minaretes, criando uma sinfonia única e avassaladora. O coração pulsava mais forte, acelerado pela intensidade do momento.

Era impossível não ser envolvido pela atmosfera contagiante que nos cercava. A euforia se instalava, misturada a uma reverência silenciosa. Queríamos avançar rapidamente, absorver cada detalhe, testemunhar o cenário tantas vezes visto em filmes e fotografias—mas que agora, finalmente, estava diante de nós.

Cercados por uma diversidade impressionante de pessoas, percebemos a predominância das vestes árabes, mulheres cobertas por trajes negros, revelando apenas os olhos que, em alguns casos, ainda se escondiam atrás de óculos escuros, criando um mistério fascinante e digno de ser registrado. Judeus ortodoxos e rabinos, igualmente envoltos em negro, caminhavam apressadamente, suas barbas longas e os tradicionais fios encaracolados sobre os ombros conferindo um ar quase cerimonial.

Ali, naquele instante, eu me perguntava sobre o significado dessa confluência de três grandes religiões, cada uma com sua história, suas tradições e suas dores, mas unidas por um mesmo ideal: a fé.

A criação do Estado de Israel foi fruto do destino e da luta de um povo que, ao mesmo tempo sofrido e determinado, luta incessantemente por seu direito de permanecer nessa terra sagrada—uma terra impregnada de misticismo, movida por crenças profundas. Mas os que perderam suas terras para essa ocupação encontram dificuldade em aceitar essa nova configuração.

Jerusalém, palco de tantas promessas e tantos conflitos, guarda em seus templos e ruas as pegadas do próprio Cristo. Jesus, o Astro-Rei, majestoso e soberano, contempla aqueles que vêm de todas as partes do mundo para reverenciá-Lo, buscar Suas lições, sentir Suas marcas eternizadas pela cidade. O Monte das Oliveiras, a Via Dolorosa, o Santo Sepulcro—todos testemunham a trajetória que há mais de 2000 anos inspira corações e esperanças.

E nós, diante desse cenário inigualável, depositamos nossos bilhetes entre as fendas do muro. Fé. Saúde. União familiar. Dignidade. Olhos atentos à beleza do mundo e à necessidade de estender a mão aos que mais precisam.

Antes de nos afastarmos, contemplei o oceano de pedidos comprimidos entre as pedras ancestrais. Se pudesse dar voz a todos aqueles bilhetes, talvez encontrasse ali as dores mais profundas e os anseios mais sinceros, como dobras do tempo registrando os dramas individuais e os clamores por paz em uma região marcada por fé, disputa e poder.


AGRADEÇO AS OPORTUNIDADES QUE NOS SÃO DADAS DIARIAMENTE PARA EVOLUIR.




domingo, 13 de abril de 2025

STADEN, O AVENTUREIRO EUROPEU NO BRASIL


STADEN, O AVENTUREIRO EUROPEU NO BRASIL




Hans Staden, aventureiro, marinheiro e cronista alemão do século XVI, deixou uma marca inconfundível na história brasileira. Nascido em Homberg, Alemanha, em 1525, ele embarcou em uma jornada que o levaria a experiências extraordinárias e desafiadoras no Brasil.

Depois de sobreviver a uma série de naufrágios em suas viagens, Staden encontrou uma certa tranquilidade ao se estabelecer na Ilha de Santo Amaro, atual Guarujá, São Paulo. Lá, serviu como arcabuzeiro em uma fortaleza, tornando-se amigo dos índios tupiniquins e do governador-geral Tomé de Souza.

Tudo mudou dramaticamente em janeiro de 1554, quando ele foi capturado pelos tupinambás, inimigos declarados dos tupiniquins. Para Staden, esses indígenas eram vistos como seres selvagens, conhecidos por suas cerimônias ritualísticas e práticas de antropofagia. Seu destino parecia ser o caldeirão. No entanto, levado para a região de Ubatuba, ele conseguiu escapar da morte usando uma combinação de fé, inteligência e teatro.

Staden afirmou ser francês (um povo aliado dos tupinambás) e fingiu estar constantemente doente, atribuindo pequenos fenômenos naturais à ira de seu Deus. Esse comportamento gerou desprezo e temor entre os índios, garantindo sua sobrevivência. Após nove meses e meio de horror, ele finalmente conseguiu escapar em um barco francês.

De volta à Alemanha, Staden documentou suas aventuras no livro A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Devoradores de Homens. Publicada em 1557, a obra é considerada uma importante fonte histórica, oferecendo um vislumbre dos costumes indígenas e das percepções europeias da época. Seu relato é um testamento de um período fascinante e pouco conhecido da história brasileira, ainda ecoando cinco séculos depois.

Hans Staden morreu em 1579, na cidade de Wolfhagen, Alemanha, mas sua memória permanece viva, até mesmo em lugares como Ubatuba, onde uma rua leva seu nome em homenagem a sua história marcante.



quinta-feira, 10 de abril de 2025

UMA MANHÃ INUSITADA ENTRE PÁSSAROS E GUARIBAS





UM LUGAR CHAMADO PAI JACÓ

Em uma manhã de sábado, acordei com o tradicional gorjeio dos pássaros saltitando nas árvores próximas ao meu quarto. Abri a porta-balcão e, respirando profundamente o frescor do dia, fiz uma saudação de louvor por estar à frente de mais um capítulo da vida.

Deixei-me levar por pensamentos, refletindo que cada dia é uma dádiva única e deveria ser bem aproveitado. Quem sabe em outra ocasião não teria a mesma chance? Com horas livres à frente, decidi caminhar pelas áreas verdes do meu condomínio.

Enquanto me preparava, um som estridente vindo de uma pequena mata no final da rua despertou minha curiosidade. O som desafiava meu instinto explorador e, sem programar muito, resolvi investigar. Ao chegar, olhei para o alto das árvores, procurando por pássaros raros ou pequenos animais silvestres.

De repente, aquele som, tão peculiar, soou novamente. Meu coração acelerou, e comecei a buscar de um lado para o outro. Meus olhos rodopiavam, minha curiosidade era quase palpável. Cada movimento das árvores parecia esconder um segredo, e o sol, em pequenos clarões entre as folhagens, me cegava momentaneamente.

Foi então que, de forma súbita, senti algo explodir sobre minha cabeça. Uma dor forte me atingiu. Era um caroço de uma fruta desconhecida. Olhei novamente para cima, e lá estava ele: um pequeno animal dependurado em um grande galho seco. Seus movimentos ágeis o tornavam quase invisível, mas sua presença era inegável.

Percebi que ele saboreava uma fruta com tamanho deleite que quase me fez querer provar também. Após devorá-la, o malandro lançou outro caroço, que por pouco não me atingiu novamente. "Ô, seu mal-educado!", gritei. E ao lado dele, lá estava um companheiro, tão debochado quanto. Os dois pareciam rir de minha indignação com uma "cantoria" que ecoava pela mata.

Não satisfeitos, ainda soltaram um esguicho em minha direção, trazido pelo vento. Antes que me atingisse, pulei para trás, mas acabei tropeçando e caindo sentado sobre a guia da rua. Levantei-me, indignado. Quando olhei para o alto, os dois haviam desaparecido. Foram rápidos, deixando-me apenas com a memória da aventura.

Em casa, consultei a enciclopédia e descobri que se tratavam de guaribas, uma espécie de primatas notórios por seus sons estridentes. Curioso, mas agora mais precavido, decidi: da próxima vez que ouvir tais sons, "recomendo" aos vizinhos investigarem. Quem sabe, terão a mesma sorte que eu de cruzar o caminho



domingo, 6 de abril de 2025

O ENCONTRO E AS MEMÓRIAS

 

O Encontro e as Memórias

A noitinha entrava pela janela como uma visitante discreta, anunciando o fim do dia. Os últimos raios de sol despediam-se lentamente, levando consigo um brilho suave que ainda percorria minha mente. Naquele instante, pensamentos inesperados começaram a surgir, trazendo consigo reflexões que há muito eu não fazia.

Foi então que um som repentino da campainha interrompeu minha divagação. Olhei pela janela e enxerguei uma figura encapotada, protegida contra o frio que já começava a tomar conta da noite. Havia algo familiar na postura daquela pessoa, e minha curiosidade cresceu. Decidi ir até o portão.

Ao encarar o visitante, demorei alguns segundos para reconhecer sua figura, agora marcada pelos anos. Mas, ao ouvir sua voz, as lembranças inundaram minha mente. Era o Chicão! Um misto de surpresa e nostalgia tomou conta de mim. Afinal, depois de tantos anos, ele havia reaparecido. O que o teria trazido até aqui? Não éramos mais os jovens de outrora, e o tempo havia feito seu trabalho, mas o brilho de nossas memórias ainda estava intacto.

Com poucas palavras, Chicão iniciou um mergulho no passado.

— Lembra dos tempos do ginásio? Formávamos o grupo "Os OITO". Ah, como éramos inseparáveis! Passávamos tardes na lanchonete do Seu DADA, dividindo um refrigerante e um misto-quente, porque nossas mesadas mal davam para mais que isso.

Suas palavras trouxeram à tona as noites que passávamos no centro da cidade, rindo, sonhando e planejando o futuro. A última vez que estivemos juntos naquele lugar foi para celebrar o fim dos estudos. Fizemos um pacto, recordou ele: nos reencontraríamos 50 anos depois, para abrir aquele envelope guardado dentro do lustre da lanchonete. Lá haviam registrado suas previsões para o futuro – expectativas que agora se tornaram um mistério esquecido pelo tempo.

— Investigando, descobri que apenas nós dois sobrevivemos — disse Chicão, sua voz carregada de melancolia. — Foi difícil localizar você, mas aqui estamos. E, agora, precisamos cumprir nosso pacto.

Concordei. No dia seguinte, partimos rumo à cidade que nos viu crescer. Ao chegarmos, porém, encontramos um cenário transformado. A lanchonete havia sido substituída por uma casa lotérica. O Seu DADA, segundo o novo proprietário, havia levado algumas relíquias consigo ao sair da cidade.

Não desanimamos. Depois de algum esforço, encontramos o idoso, que se lembrou vagamente do envelope.

— Está na minha gaveta — disse ele, com um olhar curioso. — Achei que alguém viria buscá-lo um dia.

Chicão, com mãos trêmulas, abriu o envelope. Mas o papel, amarelado e desgastado pelo tempo, não guardava mais as palavras que havíamos escrito. Não havia nada além de manchas e traços apagados.

Diante do papel vazio, o silêncio nos envolveu. As palavras se perderam, mas as memórias permaneceram. Chicão e eu começamos a refletir sobre o significado daquela busca.

O passado, por mais distante que esteja, não é apenas um arquivo de momentos vividos. É também um convite à introspecção. Revisitar memórias não é apenas reviver o que foi, mas entender o impacto que esses episódios tiveram em nós, moldando quem somos hoje.

E, ao mesmo tempo, fica a pergunta: vale a pena tentar capturar o passado, ou é mais sábio seguir em frente, deixando que ele viva no coração e nas lições que nos ensinou? Talvez, afinal, o real valor do pacto que fizemos não estivesse no conteúdo do envelope, mas no reencontro e na jornada que ele proporcionou.


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Toninho Vendramini Slides - Sergrasan



CAMINHOS QUE NOS LEVARAM AO COLISEU DE ROMA











Caminhos que nos levaram ao Coliseu de Roma

Naquela manhã ensolarada, a expectativa era palpável. Sentíamos a alegria contagiante ao percorrer as ruas da eterna Roma, cidade repleta de encantos e memórias dos nossos antepassados. Caminhávamos pelas praças e vias, sentindo na pele o calor intenso do verão europeu.

De posse das informações fornecidas pelo gerente do hotel, incluindo um mapa da cidade e das linhas do metrô, caminhamos alguns metros até percebermos que a distância à estação exigia um táxi. Chegamos à praça que antecede a entrada para as galerias subterrâneas e, antes de descermos, nos permitimos apreciar a bela paisagem composta por monumentos históricos que contavam histórias de um passado de conquistas.

Próximo dali, uma fonte de águas resplandecentes chamava atenção. Os respingos refrescavam nossas cabeças, aliviando o calor e trazendo conforto à mente. Vibração e euforia tomavam conta de nós, e cada detalhe era registrado na memória. A abundância de fontes espalhadas pelas praças, abastecidas por antigos aquedutos, remetia à Roma dos Césares, imperadores que conquistaram territórios vastos e construíram o presente da belíssima Itália.

Nosso destino era o Coliseu, obra monumental iniciada pelo imperador Vespasiano e concluída por Tito. Símbolo das conquistas romanas, era palco de espetáculos que encantavam o povo da cidade, com festas pagãs marcadas por luxúria, paixão e morte. Ao nos aproximarmos, a nostalgia veio à tona, trazendo à mente momentos glorificados de outros tempos.

Descemos os degraus da estação, compramos os bilhetes no sistema automático e aguardamos o trem. E assim começou nossa verdadeira odisseia nos trilhos do metrô de Roma.

Na plataforma, não havia muita movimentação. Logo, o comboio aproximou-se rapidamente, com uma parada brusca. Enquanto eu conferia o itinerário no mapa, minha esposa Dija entrou no vagão. Para minha surpresa, as portas se fecharam em um instante, e o trem partiu acelerado. Fiquei paralisado ali na plataforma, vendo Dija se distanciar. Sua figura diminuía na janela de vidro até desaparecer completamente.

Sem saber o que fazer, lembrei-me de nosso combinado: desceríamos na estação Coliseu. Esperei cinco minutos pelo próximo trem e embarquei, imaginando o que ela estaria pensando. A preocupação era tamanha que comecei a rir alto, despertando curiosidade em quem estava por perto. A cada parada, olhava pela janela, tentando encontrá-la.

Cheguei à estação e, finalmente, avistei Dija ao longe. Meu vagão parou bem distante de onde ela estava. Tirei meu boné, acenei e corri em sua direção. Nos abraçamos com alívio, rimos muito e nos perguntamos o que faríamos se não houvesse esse reencontro. Todo o nervosismo foi esquecido ao avistarmos, à distância, o colossal teatro de arena.

E assim ficou registrada mais uma passagem engraçada e memorável de nossa viagem à Itália.

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sexta-feira, 4 de abril de 2025

SOLAR DO BARÃO


O Solar do Barão

Ao revisitar meus arquivos de crônicas antigas escritas para veículos de comunicação, deparei-me com anotações sobre um texto intitulado O Solar do Barão. Para minha surpresa, constatei que ele nunca foi publicado, embora não recorde o motivo. Corria o ano de 2012, mais precisamente o mês de outubro, quando o Museu completava seu sesquicentenário. A data foi marcada por uma exposição de fotos aberta ao público.

Adentrando ao casarão, fui recebido por um cicerone, que gentilmente me forneceu informações preciosas. Anotei tudo em um bloco e guardei as anotações em uma gaveta da minha escrivaninha. Ao revisá-las anos depois, percebi que a palavra Solar estava em destaque, motivando-me a pesquisar sobre seu significado.

O termo Solar, descobri, refere-se a uma casa de família nobre ou uma residência antiga de grande luxo e conforto, de acordo com a época. Esses solares podiam ser habitados por nobres ou famílias da elite tradicional, como a de Antonio de Queiroz Telles, o Barão de Jundiaí. Pertencente ao "ciclo do café", o casarão foi doado pela família à Associação das Irmãs de São Vicente de Paula, que o alugou à Prefeitura Municipal de Jundiaí. Assim, tornou-se o museu local.

Quando jovem, frequentando a Praça Governador Pedro de Toledo, que dava acesso ao antigo Cine Ipiranga, costumava passar em frente àquela construção imponente. Admirava sua arquitetura e imaginava os tempos de glória, quando o Barão recebia figuras famosas, como o imperador D. Pedro II. Apesar de descrito por alguns como bonachão e despreocupado com a governabilidade, acredito, após ler sua biografia, que ele foi um ilustre brasileiro, impulsionando o progresso necessário para o desenvolvimento do país na época.

Mas voltando ao casarão, lembro-me de vê-lo em avançado estado de ruínas, com o telhado destruído e sinais evidentes de deterioração. Historiadores e influentes da sociedade uniram forças com a Prefeitura para salvar o patrimônio, culminando em sua reforma e reinauguração em 1965.

O padre Antonio Maria Stafuzza foi o fundador do museu, atualmente administrado pela Secretaria Municipal de Cultura. Professores, colaboradores e historiadores lideram o trabalho de preservação e organização de exposições nas diversas salas do casarão, que também empresta seu nome à rua onde está localizado.

Após a visita às salas do casarão, explorei o jardim nos fundos. Lá, um pátio tranquilo exibe vestígios de um muro construído em taipa, um tipo de técnica arquitetônica que ainda hoje impressiona arquitetos e engenheiros. Arborizado e silencioso, o local oferece um refúgio no movimentado centro da cidade. Um convite ao descanso e à contemplação, onde o pensamento se solta e busca inspirações de um passado distante.

Salve os idealizadores e mantenedores deste patrimônio, que entregaram à cidade essa construção revitalizada, onde a cultura poética flui harmoniosamente.


quinta-feira, 3 de abril de 2025

CIÚMES DA VIOLA

 UM TEXTO HUMORADO E ALUSIVO AS VIOLAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO.

Em uma longínqua cidadezinha do interior, conhecida por Jacundá Mirim, vivia um caboclo muito conhecido por “Juca guizo de cobra”. Carregava esse apelido desde criança, porque seu pai, em uma noite de festa de São João, com muita pinga rolando de boca em boca, teve uma visão, anunciando que o seu filho mais novo, iria se tornar um grande violeiro.

Para tanto, deveria, junto com o menino, capturar uma cascavel, enrolá-la em seu braço direito e fazer várias rezas em uma capela abandonada na beira da estrada do local onde moravam, para que a “profecia” fosse realizada.

Partiram para lá e viram uma cobra enrolada nos pés do único santo que estava postado em um altar todo empoeirado, que todos diziam milagreiro, pois as pessoas, em desespero de causa, iam buscar, naquele local, apoio para suas dificuldades. Foi uma correria danada dentro do local, até que conseguiram apanhar a serpente.

Ainda na visão do Zé Mangabeira, pai do Juca, no dia seguinte deveria sacrificá-la, pois era sexta-feira dia treze e, tudo estava acontecendo, conforme recebido em sua visão.

Feito isso, pai e o filho deveriam cortar a cabeça e o guizo e deixar aquelas partes secarem ao sol, sobre um pé de aroeira.

Depois dessa etapa, os ossos deveriam ser colocados dentro de uma viola, que não podia ser comprada, tinha que ser presenteada, o que fez um dos seus tios, por imposição do pai, o Zé Mangabeira.

Assim sendo, Juca não precisou aprender a tocar o instrumento; esse “dom” foi concebido em uma noite de luar, quando o tio lhe entregou a viola na presença do pai. Acarinhou-a de mansinho e logo foi colocando o nome, Lucinda, que já tinha no pensamento. Naquele instante, começou a palmeá-la com sutileza e muita delicadeza, tornando-se desde então, um tocador inigualável.

Não deixava ninguém chegar perto de Lucinda, porque alguns sabiam daquela “estória do guizo” e queriam ver o chacoalhar diferente da caixa de som, produzido pelo dedilhar do Juca, ágeis que nem uma cobra, transformando velhas canções como “Abismos de Rosas”, em solos entorpecedores, deixando as pessoas maravilhadas.

Sua fama correu fronteiras, e assim, era chamado para tocar nas festas de peão-boiadeiro, casamentos e bailes de cocheiras.

Nos momentos dos intervalos dos shows, quando ia ao sanitário, tinha que levá-la, pois não confiava em deixá-la com alguém; assim, comprou um cachorro, daquele tipo policial, a quem confiou a guarda, o que fazia com dedicação; ninguém se atrevia chegar perto da viola, que ele, Pitoco, rosnava e latia.

Não tinha empresário, tudo era acertado nos momentos que antecediam uma apresentação; não gostava de tratar nada por telefone. E assim foi crescendo ainda mais sua fama de violeiro, tendo por companheiros a viola Lucinda e o cachorro Pitoco.

Em suas apresentações, o locutor do rodeio assim o apresentava

Era uma alegria imensa, porque, conforme Juca dedilhava a viola, Pitoco uivava sem parar, como se fosse um acompanhante da música, mas no fundo eram ciúmes da Lucinda; ele a queria tanto, que dormia ao seu lado, e Juca podia ir para a farra, que não havia perigo de ninguém entrar em seu camarim, para olhar o que tinha dentro da caixa de som; curiosidade que tinham, pois o solo que Juca apresentava era diferente.

Os anos passaram, e a fama de Juca continuava a crescer, mas também trazia novas responsabilidades e desafios. Em uma noite de festa, enquanto se apresentava em uma grande cidade pela primeira vez, algo inusitado aconteceu. Durante um de seus solos impressionantes, a caixa de som da Lucinda soltou um som estranho, como o sibilo de uma cobra viva. A plateia ficou em silêncio absoluto, até que Pitoco começou a latir e avançar em direção ao palco, como se pressentisse algo.

Nesse instante, Juca sentiu um frio percorrer a espinha. Ao olhar para a plateia, notou um homem idoso, vestido de preto, parado entre as pessoas. Seus olhos brilhavam de uma forma assustadora, e ele sussurrou algo que Juca não conseguiu entender, mas que parecia ecoar diretamente em sua mente.

Depois do show, Juca começou a receber cartas misteriosas. Todas traziam o mesmo pedido: que ele entregasse a Lucinda para “quebrar a maldição”. A princípio, ele ignorou, mas os eventos estranhos começaram a se intensificar. Pesadelos o atormentavam, e Pitoco uivava todas as noites para um canto vazio do quarto.

Decidido a entender o que estava acontecendo, Juca procurou uma senhora conhecida como Dona Benedita, a guardiã das antigas tradições de Jacundá Mirim. Ela revelou que o espírito da cascavel não havia descansado e que sua música carregava um poder que podia tanto encantar quanto amaldiçoar. Para resolver isso, ele teria que enfrentar um grande teste: retornar à antiga capela onde tudo começou e tocar a Lucinda até o amanhecer, sem errar uma única nota.

No dia marcado, Juca partiu com Lucinda e Pitoco. A noite estava clara, iluminada por uma lua cheia. A capela, abandonada e quase em ruínas, parecia viva sob o luar. Quando Juca começou a tocar, as paredes vibraram, e o som da cascavel ecoou ao redor. Pitoco ficou ao lado dele, rosnando baixinho, enquanto figuras sombrias pareciam se formar nos cantos da sala.

A cada canção, a tensão aumentava. Mas Juca, com a habilidade que só ele tinha, continuou firme, enquanto o céu começava a clarear. Quando a primeira luz do sol atravessou a janela, a capela ficou em silêncio. A vibração cessou, e Lucinda brilhava como nunca antes. O espírito da cascavel havia finalmente sido libertado.

Desde então, Juca continuou a tocar, mas com um novo propósito. Sua música, agora livre de qualquer feitiço, parecia ainda mais mágica, tocando os corações de todos que a ouviam.


O retorno de vocês, leitores, me motiva a buscar sempre o melhor.

🙏

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