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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

OS PERSONAGENS DA PRAÇA: SUSTO, O JAMES BOND DO INTERIOR

 

o susto da praça

Quem viveu o brilho das praças do interior paulista sabe: cada banco tinha um dono e cada esquina, um personagem. Mas ninguém batia a figura do Susto. O apelido não era por acaso; surgir na penumbra da noite com aquela indumentária causava um sobressalto até no mais corajoso dos sacristãos.
Susto era a elegância em estado de resistência. Trajava um terninho cinza, já vencido pelo tempo, cujas manchas estratégicas eram camufladas por um lenço florido na lapela e uma cinta que mais parecia uma barrigueira de montaria fina. Nos pés, sapatos carrapeta de duas cores; na cabeça, um chapéu coco adornado com uma pena de ave misteriosa. O toque final? Uma gravata borboleta que ele ajeitava obsessivamente, enquanto falava com os lábios quase fechados, num chiado de gaguez elegante: "Pof... pof... roro..."
Dizia-se detetive particular. No peito, uma placa de metal ostentava: GEROMIL – DETETIVE PARTICULAR. Sem telefone, sem escritório. O QG era o banco da praça, onde ele ostentava três charutos no bolso e um na boca — sempre apagado. "Presente de um cubano foragido", mentia ele, com a cara mais lavada do mundo.
Nós, a molecada, cercávamos o mestre para ouvir seus "causos" de infidelidade amorosa. Mas o Susto era profissional: "Olha, vocês têm que pagar para eu contar. Sem mil-réis, sem negócio!". A gente juntava as merrecas e ele, então, abria o arquivo secreto.
O Susto foi contratado por uma esposa desconfiada. O marido, um sujeito elegante, saía todo sábado à tarde com destino incerto. Susto, munido de um gravador a pilhas, microfone embutido no forro do paletó e uma máquina fotográfica que ele jurava ser de espionagem russa, partiu no encalço.
O alvo entrou em uma casa. Susto, no seu clássico "passo de ganso" — na ponta dos pés para não alardear os sapatos carrapeta — colou o ouvido em uma janela entreaberta. O gravador rodava. Lá de dentro, uma voz aveludada dizia:
— Meu amor... passe a mão no meu cabelo... olha minhas pernas...
"Peguei!", pensou o espião. Sacou a câmera, esticou o braço por um ângulo impossível e disparou o diafragma. No dia seguinte, a revelação da foto trouxe a verdade nua e crua: o "pivô" da traição era um papagaio-fêmea de uma loja de aves, que o marido pretendia dar de presente à própria esposa.
O Susto, com a cara de pau que Deus lhe deu, foi cobrar a cliente. Entregou a foto da ave como prova do "flagrante". A mulher, entre a fúria e o riso, pagou apenas metade do combinado.
A fama do Susto teve seu ápice (e sua queda) numa noite de sábado, ao lado da fonte luminosa da Matriz
Enquanto ele fazia seu merchandising habitual, o tal marido — nada satisfeito com a investigação — apareceu de surpresa. Antes que o detetive pudesse dizer "Pof, pof", foi erguido pelos ares e arremessado direto no tanque da fonte.
A cena foi digna de cinema: o Susto mergulhado nas águas coloridas, o chapéu coco boiando, mas a mão direita estendida para fora, heróica, segurando o charuto cubano para não molhar. A praça inteira veio abaixo em gargalhadas.
O Susto saiu de lá encharcado, mas com a dignidade intacta. Afinal, um detetive de verdade nunca deixa o charuto apagar... mesmo que ele nunca tenha sido aceso.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

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