Quem viveu o brilho das praças do interior paulista sabe: cada banco tinha um dono e cada esquina, um personagem. Mas ninguém batia a figura do Susto. O apelido não era por acaso; surgir na penumbra da noite com aquela indumentária causava um sobressalto até no mais corajoso dos sacristãos. Susto era a elegância em estado de resistência. Trajava um terninho cinza, já vencido pelo tempo, cujas manchas estratégicas eram camufladas por um lenço florido na lapela e uma cinta que mais parecia uma barrigueira de montaria fina. Nos pés, sapatos carrapeta de duas cores; na cabeça, um chapéu coco adornado com uma pena de ave misteriosa. O toque final? Uma gravata borboleta que ele ajeitava obsessivamente, enquanto falava com os lábios quase fechados, num chiado de gaguez elegante: "Pof... pof... roro..." Dizia-se detetive particular. No peito, uma placa de metal ostentava: GEROMIL – DETETIVE PARTICULAR. Sem telefone, sem escritório. O QG era o banco da praça, onde ele ostentava três charutos no bolso e um na boca — sempre apagado. "Presente de um cubano foragido", mentia ele, com a cara mais lavada do mundo. Nós, a molecada, cercávamos o mestre para ouvir seus "causos" de infidelidade amorosa. Mas o Susto era profissional: "Olha, vocês têm que pagar para eu contar. Sem mil-réis, sem negócio!". A gente juntava as merrecas e ele, então, abria o arquivo secreto. O Susto foi contratado por uma esposa desconfiada. O marido, um sujeito elegante, saía todo sábado à tarde com destino incerto. Susto, munido de um gravador a pilhas, microfone embutido no forro do paletó e uma máquina fotográfica que ele jurava ser de espionagem russa, partiu no encalço. O alvo entrou em uma casa. Susto, no seu clássico "passo de ganso" — na ponta dos pés para não alardear os sapatos carrapeta — colou o ouvido em uma janela entreaberta. O gravador rodava. Lá de dentro, uma voz aveludada dizia:
— Meu amor... passe a mão no meu cabelo... olha minhas pernas...
"Peguei!", pensou o espião. Sacou a câmera, esticou o braço por um ângulo impossível e disparou o diafragma. No dia seguinte, a revelação da foto trouxe a verdade nua e crua: o "pivô" da traição era um papagaio-fêmea de uma loja de aves, que o marido pretendia dar de presente à própria esposa. O Susto, com a cara de pau que Deus lhe deu, foi cobrar a cliente. Entregou a foto da ave como prova do "flagrante". A mulher, entre a fúria e o riso, pagou apenas metade do combinado.
Enquanto ele fazia seu merchandising habitual, o tal marido — nada satisfeito com a investigação — apareceu de surpresa. Antes que o detetive pudesse dizer "Pof, pof", foi erguido pelos ares e arremessado direto no tanque da fonte.
A cena foi digna de cinema: o Susto mergulhado nas águas coloridas, o chapéu coco boiando, mas a mão direita estendida para fora, heróica, segurando o charuto cubano para não molhar. A praça inteira veio abaixo em gargalhadas.
O Susto saiu de lá encharcado, mas com a dignidade intacta. Afinal, um detetive de verdade nunca deixa o charuto apagar... mesmo que ele nunca tenha sido aceso.
Vendramini Letras não é apenas
um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui,
cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e
da saudade que tempera a vida.
É um lugar onde a literatura se mistura ao
cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou
uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao
sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.
📌 Acesse meus espaços de
cultura e amizade:
🔗 YouTube 🔗 Slides e
conteúdos 🔗 Blog
Vendramini Letras
Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
4 comentários:
Parabens ao querido escritor, continue em sua linha firme em nos trazer esses contos maravilhosos.
Grazie caro mio. Salute!
Boa tarde!
Gostei de ver, parabéns pela partilha.
Forte abraço
Jorge Vicente
Alegria em saber que o comentário veio lá da Suiça, onde o amigo reside. abraço.
Postar um comentário