Blog Vendramini Letras
"O idioma muda, mas a essência permanece. Clique em Translate à direita e mergulhe nas crônicas."
"The language changes, but the essence remains. Click Translate on the right and dive into the chronicles."
Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana.
"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."
O Carcará Alado: Entre o Sertão
e o Mistério de 1986
Petrolina, o início
Em 1986, fui enviado a Petrolina, Pernambuco, para preparar o terreno de uma fábrica de alimentos recém-construída. Coube a mim, na área de recursos humanos, planejar convênios, benefícios e até um restaurante dentro da fábrica — iniciativa inédita na região, destinada a garantir dignidade e nutrição aos futuros trabalhadores. Era o prenúncio de uma nova era para o sertão.
O Bandeirante inquieto
Na volta, preferi embarcar em um pequeno avião Bandeirante, que me levaria de Petrolina até Salvador. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade: os voos diretos para São Paulo só aconteceriam uma semana depois, e eu não podia ficar ocioso na cidade, pois tinha compromissos urgentes em São Paulo.
O barulho ensurdecedor, a descida brusca em plena estrada de terra para recolher um malote, e a decolagem imediata sem parar transformaram o trajeto em um verdadeiro teste de nervos. Ali percebi que, por mais que o trabalho exija coragem, há limites que não se deve ultrapassar. Prometi nunca mais repetir a experiência em aeronaves tão pequenas.
O pássaro ferido em Salvador
De Salvador, embarquei em um avião comercial de maior porte rumo a São Paulo. Mas o destino parecia querer me testar: a aeronave apresentou um vazamento de óleo e sequer chegou a sair do solo. O voo foi cancelado, e fomos hospedados às pressas em Juazeiro, na Bahia. Na madrugada seguinte, após reparos, retornamos ao aeroporto. O ambiente estava carregado de emoção: pessoas vestidas de preto, lágrimas discretas, e um falatório intenso entre os passageiros. A revelação veio: havia um corpo a bordo, aguardando transporte para São Paulo.
O cortejo aéreo
Durante toda a viagem, minha mente ficou tomada pela expectativa de saber quem era o falecido. O número de acompanhantes, o clima de velório improvisado e os cochichos incessantes indicavam tratar-se de alguém importante. Seria um político? Um figurão da região? O mistério só se desfez em São Paulo: tratava-se de um antigo governador de Pernambuco, que havia falecido e seria sepultado ali. Um protagonista silencioso de uma viagem que ele nunca mais voltaria a fazer.
A lição do inesperado
Chegar a São Paulo foi um alívio indescritível. Mas mais do que o destino, ficou a lição: a vida profissional não é feita apenas de relatórios e metas, mas também de imprevistos que nos lembram da nossa vulnerabilidade. O corpo a bordo, o avião ferido, o pouso improvisado — tudo isso compôs uma narrativa que transcende o trabalho. É a lembrança de que, no afã de cumprir nosso dever, também participamos de histórias maiores, carregadas de humanidade e memória.
Fecho literário
“Naquele voo de 1986, o sertão encontrou a capital, e o trabalho encontrou a morte. O carcará alado que me levou de Petrolina a São Paulo carregava não apenas passageiros, mas também a história de um homem público que partia para sempre. E eu, testemunha involuntária, aprendi que nossas viagens profissionais podem se transformar em crônicas da vida, onde o inesperado nos lembra que somos todos passageiros de um mesmo destino.”
Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.
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