quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DO PEIDO À METÁFORA: O CORONEL GALO PRETO

 


O Coronel Galo Preto: Entre o Causo e a Crítica

Nota do Autor

Este conto nasceu primeiro como um causo popular, cheio de humor, exageros e até receitas. Depois, foi retrabalhado em chave acadêmica, com prefácio crítico e leitura literária. Aqui reúno as duas versões para mostrar como um mesmo episódio pode ser saboreado de formas diferentes. Quem quiser mergulhar nos textos completos, encontrará abaixo as duas versões — primeiro a satírica, depois a acadêmica — seguidas de uma reflexão comparativa.

Introdução Crítica

O conto do Coronel Galo Preto é um exemplo curioso de como a literatura pode assumir diferentes registros sem perder sua essência. Na primeira versão, ele surge como um causo popular, cheio de humor escrachado, exageros grotescos e até receitas culinárias — uma narrativa que mistura oralidade, memória cultural e comicidade.

Na segunda versão, o mesmo episódio é retrabalhado em chave acadêmica. O coronel deixa de ser apenas figura folclórica e passa a encarnar a metáfora do poder rural, autoritário e teatral. O detalhe escatológico — o famoso “peido” — transforma-se em recurso literário consciente, revelando a fragilidade da autoridade diante da humanidade.

Assim, o leitor pode saborear o conto em duas camadas: como anedota divertida que arranca gargalhadas, e como sátira crítica que expõe os vícios da vida pública. Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um causo escatológico pode virar metáfora da política.

O Conto Satírico (versão popular)

Entre peidos e bolinhos: o causo do Coronel Galo Preto

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

 Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

Ingredientes:

•  500g de bacalhau dessalgado e desfiado

•  500g de batata cozida e amassada

•  1 ovo

•  1 colher de sopa de salsa picada

•  Sal e pimenta-do-reino a gosto

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2.  Tempere com sal e pimenta.

3.  Modele os bolinhos com as mãos.

4.  Frite em óleo quente até dourar.

5.  Escorra em papel toalha e sirva quente.

 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

•  1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

•  Suco de 1 limão

•  2 dentes de alho amassados

•  Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

•  Farinha de trigo para empanar

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2.  Deixe marinar por 1 hora.

3.  Passe os pedaços na farinha de trigo.

4.  Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5.  Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

 Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.


O Conto Acadêmico (versão crítica)

O Coronel Galo Preto


Este conto inscreve-se na tradição satírica brasileira, que desde Gregório de Matos até Lima Barreto expõe os vícios e grotescos da vida pública por meio da caricatura literária. A escolha de um coronel do café como protagonista não é casual: ele representa a figura do poder rural, autoritário e teatral, que dominou a política e a economia do interior paulista.

A palavra “peido”, aqui utilizada sem pudor, é recurso literário consciente. Não é vulgaridade gratuita, mas instrumento de comicidade e crítica: o som inconveniente torna-se metáfora da fragilidade humana diante da pompa do poder. O ridículo do coronel, incapaz de controlar o próprio corpo, revela a contradição entre sua autoridade e sua humanidade.

Ao lado dele, surge Seu Ambrósio, o zelador. Personagem humilde, mas astuto, que observa, denuncia e finalmente desmascara o poderoso. Sua presença dá ao conto uma dimensão ética: é o olhar do povo, silencioso, mas firme, que expõe o ridículo dos grandes. Assim, o texto não é apenas uma anedota escatológica, mas uma crítica social, em que o humor serve de lente para revelar a teatralidade da política rural.

O Conto

No interior de São Paulo, entre vastas plantações de café disputadas por negociantes internacionais, ergueu-se a bolsa cafeeira, onde os preços eram cotados em dólar e decididos sob o comando do temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, o Coronel Galo Preto. Pernambucano de origem, ganhou fama pela bravura entre jagunços e pela brutalidade com que resolvia conflitos.

Presidente da bolsa estadual, sentava-se à cabeceira da mesa com bolsos abarrotados de frango e bolinhos de bacalhau, devorando-os sem cerimônia, limpando a gordura na gravata e soltando baforadas de charuto que impregnavam o ambiente. Os cafeicultores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Mas havia um homem que observava: o zelador Seu Ambrósio. Simples, mas atento, providenciou escarradeira para conter os pigarros e cusparadas do coronel. E foi ele quem percebeu que os estrondos que o coronel atribuía ao arrastar da cadeira eram, na verdade, peidos inconvenientes — trovões grotescos que ecoavam como sátira involuntária no salão.

Em uma reunião decisiva, Ambrósio pregou a cadeira no chão. Sem poder disfarçar, o coronel foi desmascarado diante de todos. Furioso, ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que desapareceu misteriosamente. Dias depois, o coronel faleceu. No sepultamento, para espanto geral, Ambrósio reapareceu e revelou a verdade.

Após sua morte, as reuniões foram transferidas para a capital. E as histórias sobre os peidos, os charutos e as peculiaridades do Coronel Galo Preto tornaram-se lendas — contadas entre goles de café e gargalhadas. Mas foi a coragem silenciosa de Ambrósio que deu à narrativa sua verdadeira força: a lembrança de que até os mais humildes podem desafiar o poder.

Encerramento

Com humor escatológico e crítica social, este conto se inscreve na linhagem de narrativas que revelam o Brasil profundo, onde o grotesco e o poder caminham lado a lado. Ao transformar o coronel em caricatura e o zelador em herói silencioso, o texto convida à reflexão sobre a fragilidade da autoridade e a força dos pequenos gestos.

O Coronel Galo Preto: sátira e crítica social

Comparação e Reflexão

Na versão popular, o coronel diverte e escandaliza, transformado em caricatura grotesca.
Na versão acadêmica, ele se torna metáfora do poder rural e da fragilidade da autoridade.
O humor escatológico, que arranca gargalhadas, é também recurso literário de crítica social.

Versão PopularVersão Acadêmica
Humor escrachado e oralidade
Humor como recurso literário
Coronel grotesco e folclóricoCoronel como metáfora do poder rural
Receita culinária como memória culturalPrefácio crítico como enquadramento satírico
Gargalhadas e saborReflexão e crítica social

Encerramento

Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto virou lenda.
Seja como causo ou como crítica, sua história nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um peido pode virar metáfora da política.
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