Blog Vendramini Letras
Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana.
"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."
Durante uma viagem com a família à encantadora Aracaju, capital de Sergipe, percebi que suas ruas centrais se cruzam como linhas de destino em um tabuleiro de xadrez. Visitamos a Catedral, a Colina de Santo Antônio, a Praia de Atalaia e o Mirante da 13 de Julho, onde o mercado municipal nos recebeu com cheiros, cores e vozes que pareciam cantar a alma nordestina.
Ali, entre artesanato, folclore e música, conheci um contador de histórias que me falou de Lampião. A cada palavra, o sertão se abria diante de mim como um livro de cordel.
Dias depois, seguimos rumo aos cânions do Rio São Francisco. O contraste era surpreendente: terras áridas ao lado de plantações irrigadas de quiabo, uva, acerola e coco. No catamarã, deslizamos pelo Velho Chico até a Gruta do Telhado, e no retorno, o cicerone nos contou que, em Piranhas, havia ocorrido uma missa em homenagem à morte de Lampião.
Foi ali, na Grota do Angico, em 1938, que o capitão Virgulino tombou. Decapitado junto a seus companheiros, mas nunca esquecido, continua a caminhar na memória popular.
No restaurante à beira da represa, conheci Dona Expedita, filha de Lampião. Entre lembranças e saudade, disse: — Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai me colocava no colo com carinho.
Essa fala me fez perceber que o sertão não se conta apenas: ele se cozinha, se canta, se reza.
O Sabor do Sertão
Dizem que Lampião, apesar de feroz, era exigente com a comida. O bando improvisava ensopados de caça: perdiz, tatu, até cobra. Tudo cozido em panela de ferro, temperado com cebola, pimenta e coragem. Servido com farinha de mandioca, sustentava homens valentes por dias.
Esse prato é mais que sustento — é memória viva do sertão, tempero que atravessa gerações.
Lampião: Herói ou Bandido?
O contador de causos do mercado lia versos de cordel: “Lampião – Herói ou Bandido”. Padre Cícero, certa vez, chamou Virgulino para defender Juazeiro da Coluna Prestes. Ele atendeu, e em agradecimento recebeu o título simbólico de Capitão. Pelas ruas, cantava: — O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!
Era homem de muitas faces: lia, escrevia, tocava sanfona, fazia poesia, costurava seus próprios chapéus de couro e usava perfume francês. O cangaço, com seus acessórios pesados, deu nome à saga.
Após o assassinato do pai, jurou vingança e entrou para o bando de Sinhô Pereira. Quando este se retirou, passou-lhe o comando. Nascia o lendário Lampião, perseguido por oito anos até sua morte.
Lampião e o “Lamparina”
O povo de uma vila já não suportava os ataques do bando. O prefeito contratou jagunços para proteger a cidade. Mas quando Lampião chegou, encontrou apenas um homem. Tremendo diante da peixeira, ajoelhou-se e murmurou: — Sou o Lamparina… o Rei do Cagaço.
E assim nasceu mais uma estória, como tantas que povoam o imaginário sertanejo.
Conclusão
O sertão é feito de pó, fé e fábulas. Lampião, com seu chapéu cravejado de ouro e sua fama de ferro, permanece vivo não apenas nas páginas da história, mas na voz dos repentistas, no cheiro da comida e na imaginação de quem ousa escutar.
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4 comentários:
Parabéns. Deu para sentir o ambiente do velho sertão lendo esse pequeno trecho da história de Lampião.
Abraços e continue sempre contando suas aventuras por esse mundo, que é tão grande e conhecemos tão pouco dele.
O Tenório Cavalcanti também fez o Antonio Carlos Magalhaes "molhar as calcas" Seria coisa de esfíncter frouxo
Obrigadopelas palvras George. Um abraço.
Legal essas palavras, poste colocando seu nome para quen eu possa gradecer melhor.
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