Numa noite abrasadora de verão, a lua cheia derramava seu reflexo prateado pela janela aberta daquele velho ranchinho, já marcado pelo tempo. Do lado de fora, o vento começava a soprar forte, prenunciando a tempestade que se aproximava.
No quarto simples, sobre um colchão de palha, repousava um caboclo de alma serena. A janela batendo contra a parede de taipa fazia cair pedaços de reboco no chão de terra batida, como se cada fragmento fosse um lembrete das memórias que o tempo não conseguiu apagar.
Um relâmpago iluminou seu rosto marcado por rugas — cicatrizes de uma vida de luta, coragem e perseverança. Apesar da fragilidade das pernas, sua mente permanecia lúcida, mergulhada em lembranças de tempos de vaqueiro, de jornadas árduas e amizades que o destino levou, mas que nunca se perderam em seu coração.
Gostava daquela vida simples e grandiosa. O amanhecer era sempre um chamado para conduzir o gado selvagem pelas pradarias, cantar versos de sua autoria e dedilhar a viola que agora descansava num canto, guardando silêncio junto ao cachorro magro que lhe fazia companhia.
De repente, ouviu o trotar de um cavalo lá fora. Sentiu uma força misteriosa elevando seu corpo frágil, como se fosse convidado a atravessar os limites da realidade. Ao abrir a porta, o cenário se transformou: a noite deu lugar a um dia radiante, de céu azul e nuvens brancas.
Diante dele, surgiu a alma de seu fiel companheiro, o cavalo Pingo, agora alado, exalando bafos que se transformavam em flocos de neve suspensos no ar. Com um relincho e um gesto de cabeça, convidou-o a voar. E, como menino serelepe, montou no dorso do magnífico animal, percorrendo novamente as paisagens de sua juventude, as boiadas, os campos, os ventos e as tempestades que moldaram sua história.
Em êxtase, pediu que pousassem sob a paineira diante da antiga escola. Ali, recostado ao tronco frondoso, contemplou sua vida inteira como um filme que se encerrava. Com um último suspiro, fechou os olhos para sempre — não como despedida, mas como passagem.
Hoje, ao recordar essa cena, sinto que meu avô não partiu. Ele permanece vivo em nós, seus descendentes, como símbolo de coragem, simplicidade e esperança. Sua memória é chama que não se apaga, herança que nos guia. E eu, ao narrar sua história, presto devoção àquele homem que fez da vida um canto de fé e da luta um legado eterno.
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Antônio Vendramini Neto, escritor e cronista nascido em Jaú e radicado em Jundiaí, transforma memórias e vivências em literatura. Autor de diversos livros e presença em eventos como a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, dedica-se a imortalizar histórias humanas com sensibilidade e estratégia. Texto elaborado por terceiros, originalmente publicado em O Olhar do Escritor. “Meu blog vive dos leitores: acompanhe e deixe sua opinião.” Acesse meus espaços de
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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
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