Nos últimos tempos, tornou-se cada vez mais comum ouvir respostas como “cara” ou “fela” em diálogos cotidianos, até mesmo em entrevistas ou situações formais. O que antes poderia ser considerado apenas uma gíria passageira, hoje parece estar se consolidando como parte do vocabulário de muitos — especialmente em ambientes onde o verbo, a construção de ideias e o respeito à língua parecem ter perdido espaço.
Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos.
Imagine a cena: um jornalista se aproxima de um jogador após uma partida e pergunta, com profissionalismo, sobre o desempenho do time. A resposta vem carregada de descaso: “Cara, eu nem percebi que o time perdeu.” Em seguida, outra pergunta: “Onde você estudou?” E novamente: “Cara, eu já nem sei mais. Estou aqui para me divertir, não enche o saco.” Esse tipo de resposta não apenas empobrece a comunicação, mas também revela uma postura de desinteresse pelo diálogo e pela troca de ideias.
O mesmo ocorre com expressões como “fela”, que surgem em contextos de ofensa ou intimidação. “Sai da minha frente, fela, senão te quebro as pernas.” Trata-se de um termo pejorativo, derivado de insultos mais pesados, que se enraizou em certas camadas sociais como se fosse aceitável. O problema é que, ao se tornar frequente, corre o risco de ser normalizado, incluído nos dicionários e até absorvido pela educação formal — o que seria um retrocesso para a riqueza da nossa língua.
A questão que levanto é: até que ponto vamos aceitar que palavras de baixo nível substituam a construção de frases significativas? Será que estamos caminhando para um futuro em que o diálogo se resume a interjeições e ofensas, em vez de ideias e argumentos? A língua é viva, sim, mas também é reflexo da sociedade que a utiliza. Se permitirmos que o empobrecimento se torne regra, estaremos abrindo mão da capacidade de pensar e de nos expressar com clareza.
Portanto, minha indignação não é contra a existência das gírias em si — elas fazem parte da cultura e da identidade de cada grupo. O problema está em quando essas expressões passam a ocupar o lugar da comunicação consciente, do respeito e da riqueza que o idioma oferece. Defender o bom uso da língua não é elitismo, é preservar a ferramenta mais poderosa que temos para construir ideias, transmitir conhecimento e estabelecer relações humanas de verdade.
Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados.
“Entre retratos e ruídos, sigo escrevendo o que ainda ecoa"
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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
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