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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A NOITE EM QUE A "MULA SEM CABEÇA" PASSOU




Nel silenzio della memoria, racconto i segreti di Banharão. Il passo della mula senza testa risuona ancora nel cuore.

(No silêncio da memória, conto os segredos de Banharão. O trote da mula-sem-cabeça ainda ecoa no coração)

Memórias e Mistérios da Velha Banharão

Histórias guardam um poder raro: o de manter vivos aqueles que já partiram. Quando a lembrança é compartilhada, ela transforma o passado em presente e o cotidiano em encantamento. Este texto é mais do que uma homenagem ao meu avô Tonella e à minha avó Santa—é um tributo à magia oral, à sabedoria ancestral e ao mistério que ronda os cantos esquecidos do Brasil profundo.

Tive a felicidade de conviver muito de perto com Tonella, pois morávamos juntos com minha família e compartilhávamos o mesmo quarto até o dia de seu falecimento, quando eu tinha dezesseis anos. Essa convivência me permitiu conhecer, em detalhes, suas histórias, sua força e sua essência.

Tonella tinha o dom de contar causos e “estórias” de sua vida no sertão da velha Banharão, distrito da cidade de Jaú, onde nasceu a maioria dos nossos parentes. Seus relatos eram vívidos, cheios de emoção, e conseguiam transportar qualquer ouvinte para tempos remotos, onde bravura e mistério se entrelaçavam.

Com o avançar da idade, já sem forças para cuidar da plantação de café e dos animais, a família decidiu mudar-se para Jundiaí em busca de melhores condições de vida. Na juventude, porém, meu avô era um homem forte e destemido. Sua especialidade era treinar cavalos para espetáculos circenses, além de domar burros e mulas para o árduo trabalho nas lavouras. Essa habilidade lhe rendeu fama na região e bons ganhos financeiros, permitindo-lhe até comprar um Ford "Bigode" novinho. Curiosamente, apesar da coragem para enfrentar animais selvagens, ele tinha receio de dirigir o carro, deixando essa tarefa para meu pai, Vico.

Minha avó, segundo o velho Tonella, era uma benzedeira convicta e também parteira. Com o tempo, aperfeiçoou seus rituais, incorporando gestos e palavras que conferiam um toque ainda mais místico às suas práticas. Ela molhava ramos de uma planta do quintal em "água benta" e os agitava sobre a cabeça das pessoas, pronunciando palavras que pareciam vir de um tempo esquecido.

A tradição das mulheres benzedeiras da família remonta a gerações e tem raízes profundas nas terras europeias, mais precisamente nos confins da cidade de Treviso, na bela Itália. No entanto, com o passar dos anos e a chegada do modernismo, as jovens descendentes se afastaram das crenças antigas, deixando que a tradição se perdesse pelos caminhos da vida.

Ainda sobre os trabalhos de benzedura de minha avó, era comum ver gente vinda de longe para passar pelas suas mãos, buscando cura ou um bom parto. Durante o ritual, ela balbuciava frases em um idioma ancestral e difícil de compreender. Acreditava-se que aqueles que se sentavam no pequeno banco de madeira para receber suas bênçãos poderiam ter visões da temida mula-sem-cabeça. E então, instigados pelo medo e pelo misticismo, confessavam seus pecados e saíam dali acreditando estarem livres de seus males.

O tropel da mula-sem-cabeça, segundo meu avô, era um aviso. Quando o "doente" ouvia o som inquietante dos cascos rodeando a casa, era proibido olhar, nem mesmo por uma fresta da janela, sob o risco de ficar cego. As histórias contadas por minha avó eram envoltas em mistério e temor, e geravam respeito entre os que buscavam sua ajuda.

Ainda segundo Tonella, minha avó—ou mia nonna, meglio conosciuta come la vecchia signora—alertava sobre os perigos do pecado: moças que se entregassem a um amor proibido antes do casamento, comadres que se envolvessem com compadres, ou mesmo uma mulher que se casasse com um padre, todas estavam fadadas a se transformar na terrível mula-sem-cabeça.

Dizia também que ela aparecia nas noites de sexta-feira e, ao encontrar um pecador, sugava-lhe os olhos, as unhas e os dentes, soltando fogo pelas narinas. Se a vítima sobrevivesse, acreditava-se que a cura havia sido alcançada. E para aqueles que, tomados pelo medo, desejavam evitar o encontro com a criatura, bastava não cruzar correndo diante de uma cruz à meia-noite.

Mio Gran Finale:

Os mitos e lendas brasileiras percorrem os lares de nosso povo, despertando temor e alimentando a imaginação, assim como fazia minha avó Santa e seu fiel escudeiro, o marido, meu avô Tonella. Essas histórias vagam por diversos lugares ao mesmo tempo, mudam nomes e características, mas nunca desaparecem. Permanecem vivas, misturando-se às crendices e ao lado sombrio do inconsciente coletivo.

🔥

E enquanto houver alguém disposto a ouvir e lembrar, o tropel da mula continuará ecoando pelas noites da memória. 

💅

 Contos com um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola.

"Escrevo para inquietar silêncios. Depois, siga os rastros: os mais lidos abaixo, as palavras à direita."

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Pensador | Criador de conteúdos culturais
📬 Abaixo, - outro espaço de cultura e amizade - clique e divirta-se.

Antonio Vendramini Neto – (facebook) 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O DIA EM QUE O PATRIARCA PERDEU ATÉ AS CALÇAS

 

Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de São Paulo, lá pelos tempos em que o rádio ainda era luxo e carro de boi fazia mais sucesso que automóvel.

Antes da Segunda Guerra Mundial, uma família italiana, com medo do que estava por vir na Europa e já cansada de contar moedas para comprar pão, resolveu atravessar o oceano. Vieram animados pelas antigas políticas de imigração iniciadas ainda no Império, depois da abolição assinada pela Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. A promessa era de terra, trabalho e futuro. Não vinha com manual de instruções — mas vinha com esperança.

Desembarcaram em Santos, cada qual com uma mala, um santo de devoção e um medo danado do desconhecido. Parte da família seguiu para outra cidade, mas o patriarca — homem de voz grossa e bigode respeitável — fincou pé naquele pedaço de chão vermelho.

Começaram do zero. Montaram um armazém de secos e molhados que vendia de tudo: feijão, querosene, prego, enxada, tecido, sabão e até conselho grátis. O estabelecimento virou ponto de encontro. Quem entrava para comprar sal saía sabendo da vida inteira da vizinhança.

Veio a guerra, veio a escassez, e o patriarca fez o que todo bom italiano faz: chamou a parentada desgarrada para morar junto. Apertaram-se na mesma casa, dividiram a polenta e multiplicaram a coragem. Plantavam, colhiam, economizavam e sobreviviam — às vezes mais na teimosia do que na fartura.

O tempo passou. Os filhos cresceram, alguns foram tentar a vida na cidade grande. O velho ficou. Já tinha sido de tudo um pouco: funcionário dos Correios, vereador e até uma espécie de delegado informal — daqueles que resolviam briga só com um olhar atravessado.

Nas férias, os netos invadiam a cidade como uma praga feliz. Um mês inteiro de poeira, manga no pé e traquinagem. A rua principal ainda era de terra batida, e aos sábados virava espetáculo: chegavam os fregueses da zona rural em carros de boi para fazer as compras do mês.

Era aí que a tragédia — ou melhor, a comédia — começava.

Os netos adoravam provocar os bois. Atiçavam os bichos, puxavam o rabo, batiam palma. Os bois bufavam, o carroceiro xingava até santo do calendário, e a molecada ria como se estivesse no circo.

Lá do alto do sobrado, o patriarca assistia à cena. Já não tinha a mesma disposição de antes, mas conservava a autoridade — pelo menos na teoria. Descia as escadas resmungando, dava bronca, subia de novo e voltava à janela como um general aposentado fiscalizando a tropa.

O problema era o figurino.

Na velhice, o homem adotara um estilo próprio: calça presa por uma cinta improvisada, amarrada por fora, sem passar pelos passantes. Cueca? Achava exagero. Dizia que “arejava as ideias”. Qualquer movimento em falso era uma aposta contra a gravidade.

E naquele sábado o destino resolveu testar a física.

Ao ver os netos deixando um boi quase filosófico de tanto bufar, o velho perdeu a paciência.

Desceu as escadas decidido a restaurar a ordem do universo.

— Venham cá, seus desgraçados! Eu dou com a cinta na bunda de vocês!

A molecada, claro, continuou. Autoridade que ameaça e não age vira incentivo.

Tomado pelo fervor disciplinador, o patriarca foi até o meio da rua. Num gesto teatral, puxou a cinta para dar exemplo.

Só que a cinta era a única coisa segurando a dignidade.

A calça despencou num segundo histórico.

E ali ficou o antigo vereador, ex-carteiro, delegado sem título e coronel de si mesmo — nu da cintura para baixo, sob o sol do interior paulista.

Silêncio de dois segundos.

Depois, gargalhadas. Dos netos. Dos fregueses. Do carroceiro. Até o boi pareceu sorrir.

O filho, que assistia à cena ao lado do armazém, correu num sprint olímpico, ergueu as calças do pai e o rebocou para dentro, enquanto o velho ainda tentava manter a pose, como se aquilo fosse parte do discurso.

Dizem que no pequeno jornal da cidade — do qual ele também já fora dono — o episódio nunca foi publicado. Mistério editorial.

Mas na família? Ah… esse “causo” ganhou mais versões do que receita de molho de tomate.

E até hoje, quando alguém ameaça “dar com a cinta”, sempre tem um neto que pergunta:

— Mas vai passar nos passantes, nonno? 


Meu Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

 

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

 

 



terça-feira, 6 de maio de 2025

O SEGREDO DO VICO - MEU PAI

 

 A Guerra que Nunca o Levou

No Centro meu avô - a sua direita, de terno branco - Meu Pai

Certa noite, meu velho avô, já fragilizado pela idade e pelo tempo, chamou-me para perto. Compartilhávamos o mesmo quarto, e talvez por isso, sentisse que eu era a única pessoa a quem poderia confiar um segredo que guardara por toda a vida.

Com voz baixa, quase hesitante, ele revelou o motivo do apelido de seu filho mais novo, o Vico. Muitos haviam perguntado ao longo dos anos, mas meu avô sempre evitava contar a história por completo. E quando começou a falar, percebi que não era apenas um apelido, mas um símbolo de uma época marcada pelo medo e pela incerteza.

Meu pai era o caçula de nove irmãos—sete irmãs e dois homens. Pequeno e franzino, cresceu cercado pelas irmãs, enquanto seu irmão mais velho, Joaquim, já sentia o peso da idade e trabalhava incansavelmente nas lavouras de café que pertenciam ao meu avô. Como sua mãe havia falecido cedo, foram as irmãs que praticamente o criaram, e no lar ele não precisou se ocupar com trabalhos pesados.

O apelido veio por sua baixa estatura. Na língua italiana, Vico significa "beco estreito e pequeno", e foi assim que ele passou a ser chamado. Mas o verdadeiro peso dessa história se revelaria anos depois, quando a guerra cruzou o caminho de nossa família.

Veio então o ano de 1939. Meu pai tinha apenas 18 anos quando começaram os rumores de recrutamento para a Segunda Guerra Mundial. Participava do Tiro de Guerra, uma espécie de treinamento militar de meio período, enquanto o restante do dia trabalhava na plantação de café. Mas o medo rondava a casa como uma sombra crescente.

As notícias eram assustadoras. Jovens estavam sendo retirados de suas propriedades e levados para lutar na Itália. Meu avô, desesperado, sabia que, se meu pai fosse convocado, seu irmão Joaquim ficaria sozinho na roça, e as terras da família poderiam ruir sem o trabalho árduo que sustentava tudo.

Foi então que a decisão foi tomada: 

Esconder Vico a todo custo.

A princípio, meu pai não queria fugir. Queria lutar, queria estar entre os soldados que protegiam a pátria. Mas seu desejo esbarrava na realidade de nossa família e no desespero de meu avô, que via naquela guerra um destino cruel e sem escolha.

A partir daquele momento, ele desapareceu das ruas. Abandonou o treinamento, deixou de aparecer na cidade. 

Seu esconderijo foi montado entre as lavouras de café, onde o medo se misturava ao cheiro da terra.

As irmãs tornaram-se suas protetoras. Todos os dias, levavam comida, certificavam-se de que ele não fosse descoberto. Lá, no meio das plantações, criaram um colchão improvisado de palha de milho, onde ele passava as horas tentando não pensar no que poderia acontecer se fosse encontrado.

O medo era sufocante.

Meu pai não falava muito sobre isso, e talvez seja por isso que apenas eu saiba essa história. Os anos passaram, mas o pavor daquele tempo nunca deixou de assombrá-lo.

A cada dia, novas notícias de recrutamento chegavam. Os soldados vinham buscar os jovens, e ele ficava imóvel em seu esconderijo, rezando para não ser o próximo.

O silêncio das terras de café era quebrado apenas pelo som do vento e pelos passos das irmãs que vinham garantir que ele ainda estava ali.

E então, a notícia final chegou: os que foram levados embarcaram em navios para a guerra.

O destino decidiu poupá-lo, mas não sem cicatrizes invisíveis. Meu pai, apesar de tudo, dizia que gostaria de ter ido. Mas o governo priorizou os descendentes italianos, aqueles que haviam chegado ao Brasil como colonos, deixando de fora muitos brasileiros que, como ele, poderiam ter partido sem retorno.

Essa foi a história que ficou enterrada no tempo. Uma passagem marcada pelo medo e pela sobrevivência, que apenas eu conheço, porque meu avô escolheu confiar em mim para contá-la.

Agora, finalmente, posso registrá-la. Para que meus irmãos, filhos e netos saibam que, por trás do nome Vico, existe um capítulo de guerra que nunca aconteceu—mas que, mesmo assim, deixou marcas eternas.

🔅Se hoje meus textos ressoam mais, se envolvem mais, se alcançam mais corações, é porque sigo me dedicando a aprimorar minha forma de contar histórias. E é essa jornada de aprendizado e aperfeiçoamento que desejo compartilhar com vocês!

🙏O seu retorno, me motiva a buscar sempre o melhor.

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ONDE VÔ - UM PRESENTE CHAMADO MEMÓRIA

🌿 Introdução Há lembranças que não se apagam com o tempo — elas se transformam. O que antes foi tristeza, hoje é ternura.  O que foi au...