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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

HIDEO GALHO: ENTRE FIOS, CARDAS E A SEGUNDA GUERRA


No início de 1958, o Brasil ainda respirava os ares do pós-guerra e eu, com meus 14 anos, começava a minha jornada no mundo dos adultos. Meu primeiro palco foi uma fábrica de tecelagem que parecia uma miniatura da ONU. Pertencente a um conglomerado chinês — cujo dono era ninguém menos que primo de Chiang Kai-shek, o figurão da China Nacionalista —, a fábrica era um caldeirão de sotaques e temperamentos.

Meu trabalho era burocrático, mas exigia pernas. Eu circulava entre as máquinas para anotar a produção em um livro, lendo os ponteiros nos eixos das máquinas. Eu passava pelos Rings (os filatórios de anéis onde o algodão se tornava fio) e pelas temidas Cardas.
Foi nas Cardas que encontrei meu nêmesis: o Sr. Hideo.
Hideo era um japonês de poucas palavras, baixinho, de bigode impecável e um uniforme que parecia saído diretamente dos tempos do império japonês. Para um garoto abusado como eu, ele era um alvo irresistível. Todos os dias, às 13h30, o ritual se repetia. Eu passava por ele e disparava:
— Oh, Japonês! Veio lá da guerra?
Hideo não falava português, mas entendia a provocação. Seus olhos soltavam brasas. Ele batia no peito e gritava:
— Menino! Não sou "japonês". Sou HIDEO!
A vontade de provocar era maior que o medo. Entre os garotos da seção, surgiu a profecia: "Isso ainda vai dar galho". Naquela época, "dar galho" era o que hoje chamamos de "dar ruim". A gíria pegou tanto que rebatizamos nosso carrasco. Ele não era mais apenas Hideo; para nós, ele era o Hideo Galho.
Certo dia, o "galho" finalmente quebrou. Abusei da sorte e chamei-o de japonês pela última vez. Hideo perdeu a estribeira. Correu atrás de mim com uma fúria samurai. Eu disparei pelo corredor, passando pelo alojamento da fábrica, um lugar onde a hierarquia se misturava ao cheiro de comida.
Ali viviam os "especiais": o gerente italiano Ferdinando, o eletricista belga Bohumil e o mecânico Leite. No meio da minha fuga desesperada, invadi o refeitório na hora do lanche. Hideo estava quase me alcançando quando o destino interveio na forma de dois metros de altura: o belga Bohumil.
Havia uma rixa antiga ali. O belga bebia e roncava; o japonês odiava o barulho. Bohumil ergueu Hideo pelo colarinho como se fosse um boneco de pano.
— Você quer machucar o menino? — trovejou o gigante.
Hideo, em uma mistura de pânico e desespero, emitiu um som (e um cheiro!) que interrompeu qualquer combate. Era uma fragrância inesquecível de peixe morto e ovo podre, fruto de sua dieta rigorosa de sashimi. A cena era digna de um filme de comédia pastelão.
O caos só terminou quando a voz de trovão do Sr. Ferdinando, o italiano, ecoou pelo pátio:
— Siamo al lavoro, non in strada! Andate a lavorare!
A fábrica voltou ao normal, mas as lendas de corredor nunca morrem. Anos depois, reencontrei um antigo colega de turno que me contou o desfecho daquela convivência forçada. Em uma última briga no alojamento, o belga Bohumil, já arranhando o português, teria encerrado a discussão com a frase que nós criamos:
— Hideo... você é muito GALHO!
Saí da fábrica, mas levei comigo a lição: em um mundo de fios e tensões, às vezes é o humor (ou um susto bem dado) que impede que a máquina da vida trave de vez.

💢

Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais 

terça-feira, 3 de junho de 2025

O RASTRO BRANCO DE UMA HÉLICE


Vozes no Silêncio da Noite

Os Meus Antepassados...

Vieram de terras distantes, guiados pelo desejo de realizar sonhos e conquistar novos horizontes. A famiglia Vendramini tem suas raízes fincadas em Treviso, na Itália, localizada na encantadora região do Vêneto, próxima à majestosa Veneza.

A Itália Daqueles Dias...

A chegada ao Brasil aconteceu em 1884, num período em que a Itália ainda tentava se recompor da unificação, enfrentando desafios severos, principalmente no que se referia à produção de alimentos. A sobrevivência de seu povo, composto por diversas etnias, era um desafio constante, levando muitos a buscar novos caminhos além-mar.

O Brasil Daquela Época

O Brasil, ainda sob um império vacilante, com D. Pedro II no trono, dependia fortemente da mão de obra escravizada para sustentar suas vastas plantações de café, o motor de sua economia. A necessidade de substituir essa força de trabalho levou à abertura das portas para a imigração, justamente no momento em que o chamado Terceiro Reinado desenhava-se, tendo a Princesa Isabel como figura central de um projeto de "embranquecimento" da população. Assim, italianos, portugueses e espanhóis foram incentivados a migrar e recomeçar suas vidas em terras brasileiras.

O Desembarque da Família

Em 1884, o porto de Santos foi o primeiro solo que sentiram ao chegar ao Brasil. Seguiram rumo ao vilarejo de Banharão, nas proximidades de Jaú, Estado de São Paulo, onde começaram sua jornada como trabalhadores nas lavouras de café.

A vida não foi fácil. Como qualquer outro imigrante italiano da época, enfrentaram dificuldades extremas para se adaptar. Costumes desconhecidos, leis estrangeiras e, acima de tudo, um idioma completamente novo — o português — tornavam tudo mais árduo.

Os primeiros anos foram marcados por contratos injustos, obrigando-os a migrar de fazenda em fazenda na tentativa de encontrar melhores condições. Com o passar do tempo e muita luta, conseguiram comprar suas próprias terras, iniciando seu próprio cultivo de café.

Com o falecimento dos mais velhos, os filhos dividiram as propriedades, traçando destinos distintos na imensidão das possibilidades da vida.

O Chamado das Raízes

Minha afinidade com meus avós sempre foi profunda. Tanto que, em uma noite silenciosa, suas vozes ecoaram nos meus ouvidos, clamando por um retorno à terra que os viu nascer.

Movido por esse chamado ancestral, junto de minha esposa, embarquei em uma viagem de navio rumo a Treviso, carregando nos corações o sentimento daqueles que um dia partiram. Durante essa travessia, nasceu o poema que segue:

Vozes no Silêncio da Noite

Vozes ecoaram na noite,
choro sussurrado ao vento...
Eram meus ascendentes,
com saudades da pátria distante.

Falaram-me das terras abandonadas,
dos campos que jamais colheram,
dos parreirais que sonham rever...
Querem voltar.

Partiram tingidos de vermelho,
manchas de sangue e vinho
em camisas que se despediam.
Mulheres soluçavam,
com crianças em seus ventres.

No porto, águas verdes do Brasil...
Treviso ficava para trás,
Nápoles os conduzia ao mar azul,
na busca de sonhos e conquistas.

A embarcação não trouxe apenas corpos,
mas também a alma da família.

O tempo passou... Passou... Passou...
Agora retorno,
trazendo as cinzas do passado,
dos que viveram e sonharam
na terra de esperanças...

Mar revolto, canções antigas
acompanham o percurso,
na travessia das águas africanas.

Na primeira vista do continente,
solto ao oceano
uma nuvem cinza
guardada em velhas garrafas de vinho,
para marcar o caminho
daqueles que por ali passaram.

É o fim de um verão,
em um colóquio de emoções,
a bordo de um transatlântico branco europeu.
💩

Se hoje meus textos ressoam mais, se envolvem mais, se alcançam mais corações, é porque sigo me dedicando a aprimorar minha forma de contar histórias. E é essa jornada de aprendizado e aperfeiçoamento que desejo compartilhar com vocês!

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