sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O CAUSO DO TREM E O DOCE DE JABUTI

 

Contado por 

Toninho Vendramini

Pois bem, meus amigos(as)... Senta que vou te contar um causo que parece mentira, mas juro que aconteceu — ou pelo menos foi assim que me contaram, e eu acredito. Foi num tempo em que os trens ainda cortavam o interior de São Paulo, cuspindo fumaça e soltando apitos que entravam no ouvido e mexiam com a alma da gente.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

"Clique nas palavras em negrito e vá além do texto."

Há tempos, quando os trens ainda cortavam o interior paulista com seus vagões rangentes e apitos que ecoavam na alma, aconteceu um causo que até hoje é lembrado nas rodas de prosa da cidade de Barnabina. Era uma daquelas locomotivas a vapor, cuspindo fumaça que se espalhava por léguas, e que levava gente e histórias por trilhos esquecidos.

Naquele dia, o vagão de primeira classe — que de primeira só tinha o nome — estava mais para terceira, com bancos de madeira gastos e um cheiro que misturava poeira, suor e fumo. Sentado à frente, num desses bancos, estava um sujeito de aparência bravia, que chamaremos de Zé Grandão. Usava um chapéu de peão ensebado, suava como chaleira no fogo e fumava um picadão enrolado na palha que guardava num bolsinho da cueca. O fumo vinha das bandas de Minas, e ele o afinava com um canivete que mais parecia uma peixeira.

Zé Grandão era grande, forte e de modos rudes. Atrás dele, uma senhora de meia idade segurava firme uma sacola que exalava um cheiro bom, daqueles que despertam lembranças de infância. O aroma atiçava a fome do valentão, que lançava olhares de cão danado para a sacola, como se quisesse arrancá-la das mãos da mulher.

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Foi então que surgiu o rapaz do carrinho de lanches, empurrando seu arsenal de balas, bombons e quitutes. Zé Grandão, faminto e desajeitado, levantou-se para ver o que havia, tropeçou no carrinho e espalhou tudo pelo corredor. Sem cerimônia, começou a recolher os doces e enfiá-los nos bolsos, sem pagar um tostão.

A confusão se armou. O rapaz correu até o chefe do trem, que chegou com seu boné da companhia ferroviária, mas ao ver o tamanho do Zé, encolheu-se como cachorro que levou pontapé. Os passageiros torciam pelo chefe, mas Zé Grandão o agarrou pelo pescoço e o trancou no minúsculo sanitário do vagão, onde o pobre berrava por socorro.

O maquinista, ouvindo a gritaria, deixou o ajudante na locomotiva e correu até o telegrafista. Mandou um telegrama urgente para a próxima estação, avisando da confusão. O trem parou na pequena cidade de Barnabina — batizada em homenagem à esposa do fundador, o senhor Barnabé.

Ao saber do tumulto, Barnabé foi até a estação, mas mal pisou no chão e já levou um rabo de arraia do Zé Grandão, que se gabava de ter secado uma garrafa de pinga durante a viagem. Com medo, Barnabé resolveu agradar o valentão e o convidou para ser delegado da cidade, cargo vago desde que o anterior havia tombado num confronto com jagunços.

Zé Grandão aceitou. Tirou dos bolsos os doces que havia surrupiado e começou a distribuí-los, adoçando os ânimos e conquistando os moradores. Virou figura popular, botou ordem na cidade e se gabava de visitar as casas para receber guloseimas das senhoras, que o temiam e o agradavam.

Foi numa dessas visitas que conheceu o doce de jabuti — não o animal, mas uma geleia de jabuticaba feita por Dona Maroca. Bastava uma colherada para acalmar o valentão. Ele mesmo batizou a iguaria, dizendo que aquele doce era mais valente que ele.

🍇 Receita simbólica do Doce de Jabuti (geleia de jabuticaba)

1 kg de jabuticabas maduras

500 g de açúcar cristal

Suco de 1 limão

Modo de preparo: Lave bem as jabuticabas e leve ao fogo com o açúcar e o suco de limão. Cozinhe até que as frutas estourem e a mistura engrosse. Passe por uma peneira, volte ao fogo até atingir ponto de geleia. Sirva com carinho — e, se possível, com respeito à memória de Zé Grandão.

O FINAL DO VALENTÃO

O tempo passou, e um dia Zé Grandão foi encontrado morto à beira da estrada, perto da linha do trem. Dizem que foi acerto de contas, dizem que foi destino. Mas toda vez que o trem passa por ali, o maquinista apita demoradamente, como quem presta homenagem ao fim da carreira do valentão — para alívio dos moradores de Barnabina, que enfim puderam adoçar a vida sem medo.



Antonio Toninho Vendramini Neto
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DESCUBRA O VINHO PERFEITO PARA CADA PETISCO


 Um Brinde à 
Harmonia dos Sabores!

"Escrevo para provocar incêndios brandos. Após a leitura, desça aos mais lidos e caminhe pelas palavras que sussurram."


Imagine um fim de tarde dourado, uma mesa posta com petiscos irresistíveis e uma taça de vinho que dança à luz do sol. O vinho não é apenas uma bebida — é uma experiência sensorial, uma ponte entre culturas, estações e emoções. Neste artigo, você vai descobrir como harmonizar vinhos com petiscos de forma simples e prazerosa, explorando o frescor dos brancos, a sedução dos rosés e o aconchego dos tintos. E mais: ao final, uma receita especial e uma dica de ouro para escolher um vinho honesto e aromático que cabe no seu bolso. Vamos brindar?

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Brancos: Frescor e Leveza
Os vinhos brancos, frescos e ligeiros, onde a acidez se sobrepõe à maciez, são ideais para acompanhar petiscos leves e veranis. Bruschettas de shiitake, queijo brie e presunto de Parma se harmonizam perfeitamente com um Sauvignon Blanc ou um Viognier. Se a escolha for por petiscos mais elaborados, aposte em um branco amadurecido em madeira por pouco tempo, como um elegante Torrontés ou um Chardonnay levemente barricado.

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Rosés: Sedução à Primeira Vista
Encantadores ao primeiro olhar, os rosés trazem nuances delicadas de coral e rosa e seduzem com seus aromas leves e frescos. Combinam com frutos do mar em qualquer estação; no inverno, uma focaccia recheada ou pastéis de camarão são opções ideais. Já no verão, são companheiros perfeitos para uma mesa à beira-mar, acompanhados de queijos macios, frios laminados, pãezinhos e torradas.

Tintos: Aconchego e Intensidade
Ao contrário do que se pensa, os tintos também podem ser ótimos para acompanhar petiscos. Os mais leves e frescos, como um Beaujolais Nouveau, um Tempranillo Crianza ou um Chianti, são ideais para bruschettas mais elaboradas, pastéis de carne ou uma boa tábua de frios. Já os tintos encorpados, como Malbec e Cabernet Sauvignon, pedem pratos mais robustos e não harmonizam tão bem com petiscos.

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🍇 Pausa Poética: O Encanto do Vinho


Caule vigoroso,
Terra e raiz generosa.
Folhas verdes,
Cor esplendorosa.
Branco… Rosado… Tinto…
Aromas, sabores, amores.
Néctar dos deuses,
Baco ou Dionísio.
Paixão nas alturas,
Inebriantes,
Silhueta ofegante, loucuras.
Paladar no céu da boca,
Presença sublime,
Perfume sensual, cheiro de parreirais,
Fruta madura, ternura.
Bebida sensual,
Mistério em goles.
Compreendê-la é arte,
Amante da fruta e do pecado.
Incline a taça,
Acaricie os lábios.

🍷 Receita Rápida: Vinho Quente Aromático

Ingredientes:
1 garrafa de vinho tinto seco (Merlot ou Syrah)
1 xícara de açúcar mascavo
1 laranja em rodelas
5 cravos-da-índia
2 paus de canela
1 maçã picada
1 dose de cachaça (opcional)
Modo de preparo:
1. Em uma panela, aqueça o vinho com o açúcar, as especiarias e as frutas.
2. Mexa bem e deixe ferver por 10 minutos.
3. Adicione a cachaça, se desejar, e sirva bem quente.
Dica: Sirva em canecas de cerâmica com uma rodela de laranja na borda. O aroma vai conquistar até quem não é fã de vinho!

 Dica Final: Um Vinho Honesto e Aromático
Se você busca um vinho honesto, aromático e acessível, experimente um Carmenère chileno. Com notas de frutas vermelhas, pimenta e um toque herbáceo, ele é versátil, elegante e perfeito para quem está começando a explorar o mundo dos tintos. Para os brancos, um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia entrega frescor e aromas cítricos vibrantes — ideal para dias quentes e pratos leves.

 Encerramento:
O vinho é mais do que um acompanhamento — é um convite à contemplação. Seja em um encontro casual ou em uma celebração especial, ele transforma o ordinário em extraordinário. Compartilhe este artigo com quem aprecia bons momentos e bons goles. E lembre-se: cada taça tem uma história, cada aroma tem uma memória. Que o seu próximo brinde seja inesquecível. 

LIVRO DE VIAGENS E MEMÓRIAS

Antonio
 Toninho Vendramini Neto
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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O REENCONTRO: UMA VIAGEM DE EMOÇÕES E MEMÓRIAS

                  

 O REENCONTRO
 
Uma travessia 
de afetos
 e saboreS

O EGITO DE MUITAS LEMBRANÇAS



Viajar é mais do que deslocar-se no espaço — é mergulhar em histórias, reencontrar sentimentos e fortalecer laços. Esta crônica é um tributo à amizade, à cultura e aos momentos inesperados que transformam simples trajetos em lembranças eternas. Do Cairo a Assuã, passando por Jerusalém, cada passo foi marcado por descobertas e reencontros que merecem ser celebrados.

 Do Cairo a Assuã: trilhos que conduzem memórias

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SEGUINDO O CURSO DA HISTÓRIA...

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Após a visita ao Museu do Cairo, seguimos rumo à estação ferroviária para iniciar nossa jornada até Assuã, lar da imponente represa que empresta seu nome à cidade. Essa obra monumental, considerada a maior construção em solo egípcio desde as pirâmides, domou o Nilo, controlou suas águas e impôs a lógica humana às certezas da natureza. Um feito que impressiona tanto pela engenharia quanto pela ousadia.

 Ilha Elefantina: onde o Nilo nos levou ao inesperado

Ao chegarmos em Assuã, fomos informados que o trajeto até o hotel seria feito por barco, atravessando o majestoso Nilo até a encantadora Ilha Elefantina. O resort que nos acolheu parecia flutuar entre o tempo e a tradição. E foi ali, como num presente inesperado, que assistimos a um casamento típico egípcio — uma celebração vibrante, repleta de danças, músicas e cores que pareciam dançar com o vento do deserto.

Não apenas leia — clique no negrito nas palavras e mergulhe."

Fomos convidados a participar. E, como se a hospitalidade fosse uma arte milenar, nos serviram iguarias da gastronomia egípcia que encantaram nossos sentidos. Entre elas, o Mahshi, um prato tradicional feito com legumes recheados de arroz temperado com ervas e especiarias, cozidos lentamente em molho de tomate. Uma receita que carrega o sabor da terra e o afeto das mãos que a preparam.

🍽️

 Receita de Mahshi (Charuto de Legumes Egípcio)

Ingredientes:

1 berinjela, 1 abobrinha e 1 pimentão (ou folhas de uva)

1 xícara de arroz cru

1 cebola picada

2 tomates picados

2 colheres de sopa de salsinha e hortelã picadas

Sal, pimenta síria e cominho a gosto

Suco de 1 limão

2 colheres de sopa de azeite

1 xícara de molho de tomate

Modo de preparo:

1. Corte os legumes em formato de barquinhas ou retire o miolo para rechear.

2. Misture o arroz com os temperos, tomate, cebola, ervas, limão e azeite.

3. Recheie os legumes com essa mistura e acomode-os em uma panela.

4. Cubra com o molho de tomate e cozinhe em fogo baixo por cerca de 40 minutos.

🧳 


O desencontro e o reencontro com Vanderlan

Foi no desembarque que sentimos a ausência de nosso querido amigo Vanderlan — uma figura cativante, cuja habilidade em se comunicar é marca registrada. Por um erro da agência, seu nome constava no próximo horário do trem, e ele viajou sozinho. Imagino os pensamentos que o acompanharam: a expectativa do reencontro, a saudade da família, o desconforto de não estar em seu lar.

Mas Vanderlan é um homem de espírito leve. Ainda mais depois de sua visita a Jerusalém, onde, no Monte das Oliveiras, fez orações pela família e agradeceu pela transformação em sua vida. De proprietário de lotérica a corretor de imóveis bem-sucedido, sua trajetória inspira.

Quando finalmente nos reencontramos, tudo se iluminou. O sorriso, o abraço, a alegria — tudo voltou a pulsar com intensidade. Eu e minha esposa sentimos que a amizade se fortaleceu ainda mais. Com Vanderlan, Márcia, Thaís e Thiago. Com Elvira, Cícero e Davi. Com Ayala, Mila e o pequeno Miguel. A imagem que guardamos de cada um foi enriquecida por essa viagem repleta de cultura, guiados por Osama, que nos presenteou com conhecimentos preciosos.

 Reflexões dessa travessia

Essa experiência criou um elo que não queremos desfazer. E, graças à internet, podemos manter viva essa corrente de afeto e memória. Que essa conexão continue firme, como o Nilo que atravessamos, como os trilhos que nos conduziram, como os abraços que nos acolheram.

De Jundiaí, São Paulo, enviamos um abraço caloroso — cheio de saudade, gratidão e o sabor eterno do Mahshi.


🌍

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FUNCHAL: ONDE A TRADIÇÃO PORTUGUESA ENCONTRA O ESPLENDOR NATURAL


UM OLHAR PARA A HISTÓRIA
Olhares de um viajante encantado
Chegar a Funchal é como desembarcar em um cenário pintado à mão, onde o azul profundo do Atlântico se mistura ao verde exuberante das montanhas e ao charme das ruas de pedra. É uma cidade que acolhe com a alma portuguesa e surpreende com sua elegância europeia. Cada passo revela uma história; cada vista, um convite à contemplação.

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Capital da Ilha da Madeira e uma das cidades mais prósperas de Portugal, Funchal encanta com seu centro histórico charmoso, típico das vilas lusitanas, e com suas avenidas à beira-mar repletas de hotéis sofisticados, lembrando os balneários mais refinados da Europa. Cercada pelo oceano e por montanhas imponentes, a cidade desfruta de um clima ameno durante todo o ano. É o coração turístico, comercial e cultural da ilha, famosa por seu vinho Madeira, seu artesanato delicado e sua hospitalidade calorosa.

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Com cerca de 112 mil habitantes, Funchal já foi um porto estratégico para embarcações rumo às Índias e ao Novo Mundo. Reconhecida pela riqueza de seus mercadores, hoje é uma cidade moderna, moldada por uma geografia única: um anfiteatro natural que se ergue do porto até os 1.200 metros de altitude das encostas mais altas.
O centro é ideal para ser explorado a pé. Ruas estreitas, praças acolhedoras e fachadas históricas revelam uma cidade viva, onde o passado e o presente se entrelaçam. Os aromas, os sons e os sabores convidam a desacelerar e simplesmente apreciar.
Diz-se que Funchal recebeu esse nome há mais de cinco séculos, graças à abundância de funcho — a erva-doce — que crescia na região. Um nome simples, mas que carrega a essência perfumada de um lugar inesquecível. Ao ouvir “funcho”, não pude deixar de lembrar do chá que tantas vezes perfumou as tardes da minha infância — conhecido por muitos como erva-doce ou, erroneamente, confundido com erva-cidreira
Um aroma que conforta, que aquece, que traz memórias. E foi nesse instante, entre uma caminhada e outra, que percebi: Funchal também é isso — um lugar que desperta lembranças e cria novas.

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Entre os sabores que marcaram essa viagem, não posso deixar de mencionar o vinho do Porto — que, embora não seja típico da Madeira, é facilmente encontrado por lá. Visitamos uma adega centenária, onde o tempo parecia repousar entre barris e histórias. Saboreamos taças generosas e, claro, trouxe comigo duas garrafas cuidadosamente escolhidas, agora guardadas como tesouros na minha mala.
O vinho Madeira, por sua vez, é o anfitrião da ilha: um aperitivo elegante, servido antes ou depois das refeições, com notas que variam do seco ao doce, sempre com personalidade marcante. É o tipo de vinho que conversa com a paisagem, com o clima e com a alma da ilha.

Funchal: onde cada pôr do sol é uma promessa de retorno.




Escrevo para 
inquietar silêncios. 


Depois, siga os rastros: os mais lidos abaixo, as palavras à direita.


Antonio Toninho Vendramini Neto
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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

CELEBRAÇÕES ITALIANAS: UMA NOITE DE MÚSICA, EMOÇÃO E SPAGUETTI

 

Celebrações 
Italianas 

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Em um tempo que já não sei precisar, numa cidade vizinha marcada pela alma vibrante dos imigrantes italianos, aconteciam as festividades que celebravam a chegada das famílias da Vecchia Signora. Era como se, por alguns dias, o relógio parasse e a cidade se transformasse numa vila italiana — com bandeirolas nas ruas, música nas praças e aromas de alho e manjericão flutuando no ar.

O negrito nas palavras do texto é o convite. O clique, a resposta.

No coração dessa celebração, havia um restaurante rústico, com teto de sapé e paredes de toras de eucalipto, que mais lembrava uma cantina escondida nas colinas da Toscana. Ali, um pequeno palco recebia cantores vindos da Europa e, em outras noites, artistas brasileiros da velha guarda. Era um lugar onde a música não apenas tocava — ela acontecia.

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Numa dessas noites memoráveis, recebi um convite de um amigo italiano para prestigiar uma caravana de conterrâneos que se apresentariam no local. Com entusiasmo, embarcamos juntos nessa jornada: ele, sua esposa, eu e a minha. Ao chegarmos, fomos recebidos com um sorriso largo por Salvatore, nosso anfitrião, que já havia reservado uma mesa especial, bem próxima ao palco.

O ambiente era pura celebração. Luzes suaves pendiam do teto, criando um clima acolhedor. Canções napolitanas ecoavam pelo salão, embalando os corações e arrancando suspiros nostálgicos. As taças tilintavam em brindes espontâneos, e os pratos chegavam fumegantes, exalando os aromas irresistíveis da culinária italiana. O vinho, produzido com uvas cultivadas nas encostas da região, tinha um perfume terroso e profundo — como se cada gole contasse uma história.

Salvatore, já entregue ao espírito festivo, não conseguia conter sua empolgação. Cantava em sua própria mesa, gesticulando com paixão e entoando trechos como um verdadeiro amante da música. Até que, num momento de pura euforia, exclamou:

— É o Tony! Meu velho conhecido! Faz tempo que não o vejo! Olha só, com aquele paletó brilhante, digno de um grande cantor!

A cada garfada na comida e cada gole de vinho, sua animação aumentava. Até que, tomado pela euforia, decidiu ir até o palco. Ali, fazia sinais para Tony como se quisesse gritar: Estou aqui, velho amigo! O cantor, por sua vez, gesticulava de volta, indicando que estava ocupado com sua apresentação. Mas Salvatore não se conteve. Aos poucos, aproximou-se, pedindo para ouvir esta ou aquela canção da sua região. A plateia observava a cena, divertida com sua audácia.

E foi então que, movido pelo entusiasmo, ele subiu as escadinhas do palco. Os olhares se voltaram para ele. Tony tentava, com paciência, manter o controle da situação, mas a paixão italiana de ambos se transformou numa conversa acalorada — ou melhor, numa discussão exaltada, repleta de gestos largos, vozes cada vez mais altas e exclamações típicas da língua italiana.

Num rompante inesperado, Tony, já sem saber o que fazer, arrancou seu paletó brilhante e entregou para Salvatore, como se fosse um troféu.

E, de repente, Salvatore o vestiu e começou a sapatear no palco, sentindo-se o próprio cantor! A plateia delirava, gargalhando diante da cena cômica e absurda. O gerente do restaurante, percebendo que a situação havia fugido do controle, correu até o palco para intervir. Tony, indignado, exigia seu paletó de volta. Mas Salvatore, em seu estado de euforia e já "meio alto", segurava a peça com firmeza, recusando-se a devolvê-la.

O embate atingiu seu ápice: os dois rolaram pelo palco, em uma disputa hilariante e digna de um espetáculo teatral. O público italiano vibrava, ovacionando aquela confusão absurda e divertida.

No final, o paletó rasgou-se no corpo de Salvatore. Tony conseguiu recuperar o que restava da peça, mas, ao subir novamente para cantar, percebeu que faltava uma manga. Tomado pela raiva e pelo cansaço, ele simplesmente arrancou a outra, transformando seu elegante traje num colete improvisado.

A apresentação chegou ao fim em meio a risos e aplausos. Salvatore, ainda tomado pelo espírito da noite, entrou no carro com uma manga do paletó brilhante na mão, bradando:

— Eu sou Tony agora! Ano que vem, venho cantar aqui de novo! Vou mandar fazer um paletó com essa manga como amostra para o meu alfaiate!

Deixamo-lo em sua casa com sua esposa, ainda imerso em sua euforia musical. Enquanto isso, voltávamos para casa chorando de rir, com o sabor do vinho ainda na boca e a lembrança da macarronada ainda quente no coração.


🍝 Receita da Noite: 

Spaghetti alla Puttanesca

Porque toda boa história italiana termina com um prato inesquecível.

Ingredientes:

400g de spaghetti

4 colheres de sopa de azeite de oliva

3 dentes de alho picados

6 filés de anchova

1 xícara de azeitonas pretas sem caroço

2 colheres de sopa de alcaparras

500g de tomates pelados

Sal, pimenta-do-reino e salsinha a gosto

Modo de preparo:

1. Cozinhe o spaghetti al dente.

2. Em uma frigideira grande, aqueça o azeite e refogue o alho.

3. Adicione as anchovas e mexa até dissolver.

4. Acrescente as azeitonas, alcaparras e os tomates pelados. Cozinhe por 10 minutos.

5. Misture o molho à massa, finalize com salsinha e sirva com um bom vinho tinto da região.

E assim, entre risos, música e molho de tomate, celebramos a vida — como só os italianos sabem fazer.

 

Atuei nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo. 

Às vezes, basta abrir a janela para viver uma história. 

Antonio Toninho Vendramini Neto
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terça-feira, 28 de outubro de 2025

O CORONEL GALO PRETO E OS SABORES DO PODER



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Senta que vem mais um "causo" daqueles tempos

O Safadão

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

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Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

🍽️ Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

🐟 Bolinho de Bacalhau

Ingredientes:

500g de bacalhau dessalgado e desfiado

500g de batata cozida e amassada

1 ovo

1 colher de sopa de salsa picada

Sal e pimenta-do-reino a gosto

Óleo para fritar

Modo de preparo:

1. Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2. Tempere com sal e pimenta.

3. Modele os bolinhos com as mãos.

4. Frite em óleo quente até dourar.

5. Escorra em papel toalha e sirva quente.

🍗 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

Suco de 1 limão

2 dentes de alho amassados

Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

Farinha de trigo para empanar

Óleo para fritar

Modo de preparo:

1. Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2. Deixe marinar por 1 hora.

3. Passe os pedaços na farinha de trigo.

4. Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5. Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

☕ Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.

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Esse meu BLOG 

É um passeio por memórias, afetos e encantamentos, não tem capa dura nem páginas numeradas.

Ele vive nas entrelinhas do tempo.

Cada texto é uma fresta — por onde escapa o que ainda pulsa.

Escrevo como quem conversa com o silêncio.

Como quem guarda o mundo em palavras pequenas.

Como quem acredita que lembrar é uma forma de amar.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Pensador | Criador de conteúdos culturais

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Antonio Vendramini Neto – (facebook)

MITOLOGIA MARÍTIMA: ENTRE LENDAS E HORIZONTES

Odisseus em seu retorno à ilha de Ítaca . O mar sempre foi um palco fértil para o nascimento de mitos e lendas . Muito disso se deve à imag...