quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SERENATA NA PASSARELA - ALFREDO LOBÃO, O ÚLTIMO ROMÂNTICO DA CALÇADA

 

O Bar da Esquina e o Lobão da Madrugada

Naquela rua esquecida pelo progresso, onde os postes acesos pareciam resistir ao tempo como velhos guardiões da memória, havia um bar que não tinha nome — apenas uma placa torta com a palavra “Cerveja” escrita à mão. Era ali que Alfredo Lobão reinava todas as noites, como um rei sem trono, mas com violão.

Alfredo não era bonito. Nem elegante. Mas tinha algo que os outros não tinham: presença. Chegava sempre com o mesmo ritual — violão nas costas, cigarro apagado no canto da boca, e um olhar que misturava melancolia com malandragem. Os cabelos desgrenhados e a barba de vários dias compunham o figurino de um boêmio que já não se importava com o espelho, mas sim com o aplauso da rapaziada.

Sentava-se à mesa de madeira encostada na calçada e começava a tocar. Não pedia licença. Não fazia cerimônia. Alfredo era da velha guarda, daqueles que acreditavam que a música cura, conquista e embriaga mais que qualquer bebida. E quando soltava seus urros entre os acordes — que ele chamava de “afinadas de alma” — o bar virava palco, e a rua, plateia.

 Os Amores e as Mentiras

Alfredo dizia que já tivera mais de cem mulheres. Algumas ele nomeava com carinho: “A Lúcia do samba”, “A Neide da praia”, “A Marlene do vestido vermelho”. Outras ele inventava na hora, só para impressionar os novatos. Mas todos sabiam que, no fundo, Alfredo era um romântico incurável, desses que se apaixonam por um sorriso e sofrem por um olhar que não volta.

Tinha um jeito peculiar de conquistar: cantava uma música, oferecia um gole de cachaça e contava uma história triste. Era irresistível — não pela beleza, mas pela autenticidade. Alfredo não fingia ser o que não era. E isso, às vezes, bastava.

 A Musa da Passarela

Numa dessas noites de lua cheia, quando o mar parecia sussurrar segredos à areia, ela apareceu. A moça da cidade grande. Blusa azul, decote generoso, calça preta colante e salto alto que fazia o toc-toc ecoar como tambor de desfile. Caminhava pela passarela de madeira como quem sabe que está sendo vista. E era.

Os corações solitários se agitavam. Os copos tremiam. E Alfredo, como se tivesse recebido um chamado divino, parou de tocar. Olhou. Sentiu. E compôs.


A música nasceu ali, entre um gole e um suspiro. E quando ele cantou, a moça parou. Sorriu. E seguiu. Alfredo nunca soube seu nome. Mas naquela noite, ela virou eternidade.

 O Último Uivo

Os anos passaram. O bar fechou. A rua ganhou asfalto. A passarela virou calçada de concreto. Mas Alfredo continuou indo, mesmo sem plateia. Sentava-se com seu violão e cantava para o vento, para o mar, para as lembranças.

Diziam que ele ainda esperava a moça da blusa azul. Que ainda afinava a garganta com urros. Que ainda acreditava que uma boa música podia mudar tudo. E talvez pudesse.

Porque Alfredo Lobão não era apenas um seresteiro. Era um monumento à boemia, à saudade e ao amor sem medida. Um conquistador de almas, mesmo que a sua estivesse sempre um pouco partida.


“Escrevo como quem recolhe o tempo com as mãos.”

         “O silêncio também tem voz — e às vezes, ela escreve comigo.”

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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A LUZ QUE DECIDI SER



Depois de tanto esperar,
percebi que o dia certo não viria com fanfarra.

Ele chegaria como qualquer outro — discreto, comum —
e ainda assim, seria o dia do meu triunfo.

Aprendi que não vale a pena aguardar pelas oportunidades.

É preciso ir atrás delas, com coragem e intenção.
Cada problema passou a ser uma chance de encontrar soluções.

Cada deserto, uma promessa de oásis.
Passei a ver a noite como um mistério a ser decifrado,
e o dia como uma nova chance de ser feliz.

Compreendi que não sou o melhor — talvez nunca tenha sido —
e tudo bem.

O que importa agora não é vencer ou perder,
mas saber o que fazer com sabedoria.

Descobri que o difícil não é alcançar o topo,
mas continuar subindo.

E que o maior triunfo não está em medalhas,
mas no privilégio de chamar alguém de "amigo".
Deixei de ser reflexo dos meus triunfos passados.

Hoje, sou a minha própria luz — ainda tênue, mas presente.
E entendi: de nada serve ser luz
se não ilumina o caminho dos outros.
Já não durmo para descansar.
Durmo para sonhar.


📚

Este é o meu Blog

Aqui, escrevo como quem costura o tempo com palavras.

Cada texto é uma janela aberta para o mundo — um mundo que vivi, sonhei ou apenas imaginei com olhos de quem nunca deixou de se encantar.

Não escrevo para guardar. Escrevo para libertar.

Libertar memórias, afetos, lugares e pessoas que ainda vivem em mim.


Cada linha é um convite, cada frase uma travessia.
 

 O que você encontrará aqui

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domingo, 24 de agosto de 2025

O ÚLTIMO MALANDRO DO VELHO PORTO


 UMA TRANSFORMAÇÃO ACELERADA

Foi numa das minhas visitas ao Rio de Janeiro que esse texto nasceu. Eu e minha esposa havíamos desembarcado de um transatlântico vindo da Europa, direto no velho porto da cidade — aquele mesmo que, décadas atrás, era reduto de figuras lendárias, boêmias e cheias de ginga. Caminhar por ali foi como atravessar um portal: o cheiro do mar, os prédios antigos, os ecos de um tempo em que o samba ainda se escrevia em papel de pão e a malandragem era uma arte.

Durante as primeiras décadas do século XX, o Rio vivia uma transformação urbana acelerada. A especulação imobiliária empurrava populações para os morros, criando favelas que redesenhariam o mapa da cidade. E foi ali, entre becos e ladeiras, que o samba encontrou novos lares e vozes — subindo as encostas e se espalhando pelos subúrbios com força e identidade.

O bairro do Estácio de Sá, em especial, tornou-se um celeiro de talentos e inovações. De origem popular, com forte presença de negros e mulatos, o Estácio foi o berço dos “antigos malandros” — homens vistos com desconfiança pelas elites, mas que carregavam uma elegância própria, uma esperteza refinada e um gosto musical apurado. O malandro daquele tempo não era apenas um personagem da boemia: era também um artista, capaz de compor um samba inspirado no simples deslizar de uma mulata pela calçada.

E foi ali, naquele bairro que ainda guarda ecos do passado, que viveu o último deles.


 O Último Malandro — Meu Poema

É de manhã no último reduto 

 Sol a pino, como manda o figurino

 O botequim abre suas portas Para receber o famoso malandro! 

 Chega cheio de pose e prosa... 

 Terno de linho branco, rosa na lapela Chapéu panamá com moldura preta Sapato bicolor, salto carrapeta Passos cadenciados na chegada Saúda o velho garçom no balcão Naquelas gírias, com fala macia Senta-se à mesa de sempre Pede uma cerveja Joga um gole para as almas — Epaminondas... Cadê o repórter? — Aí do seu lado, mestre — Trouxe a grana? Que bom... Agora vou falar... 

 Fui boêmio cheio de bravata Do tempo da gravata Também bacana, lá de Copacabana Amigo da noite e de Noel Com jeito moleque Do samba de breque Do tempo em que se escrevia música no papel De embrulho ou de pão — e com a mão! 

 Recinto ritmado e perfumado Morena carioca rebolando Tudo preparado Para despertar o velho malandro Ficou em polvorosa Vendo aquela diva gostosa Velhos tempos... 

Água na boca Inspiração divina Rabiscos no guardanapo Versos benditos, samba-enredo Escolas na avenida Nos dias de glória No bairro do Estácio... 

 Ainda ecoa sua história.

🎩

          

Escrevo como quem recolhe o tempo com as mãos.”

         “Cada linha é um gesto contra o esquecimento.”

         “O silêncio também tem voz — e às vezes, ela escreve comigo.”

 

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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O SOM DAS SOMBRAS DO PORÃO

NAQUELA NOITE FRIA...


O eco das doze badaladas ressoou pelo quarto de dormir, trazido pelo imponente relógio da família, que há décadas dominava a sala de jantar e estar. Guardião das memórias, soberano em seu ofício, testemunhou incontáveis histórias, jantares memoráveis em que o patriarca, ladeado por sua esposa recatada, guiava os filhos pelas discussões cotidianas à mesa.

Naquela noite fria, o velho mecanismo continuava sua vigília, contando os passos dos habitantes da antiga casa, registrando a transformação das crianças felizes em adultos, que, um a um, foram deixando os pais reféns do último filho. Esse herdeiro solitário, imerso em reflexões furtivas, ouvia as ressonâncias do passado embaladas pelo compasso do relógio.

Enquanto a madrugada avançava, ele fitava a janela e via o tempo esgueirar-se. O sono, inclemente, recusava-se a chegar, e sua mente inquieta viajava em busca de respostas para os caminhos que se abriam à sua frente. Os pais, já muito idosos, haviam abandonado as descidas à sala de jantar. A governanta, tão envelhecida quanto o casal, cumpria suas funções com lentidão, levando-lhes o parco jantar e, ao passar pelo quarto do filho, murmurava que sua refeição estava no forno antes de se retirar.

Uma única badalada anunciou o início daquela madrugada gélida, acompanhada pelo sussurrar sinistro das árvores ao redor da casa. Pensamentos inquietantes começaram a se insinuar. Buscando distração, ele cogitou ligar a televisão, esquecida e quebrada havia anos. Tentou ler o livro à cabeceira, mas a mente fatigada se recusava a seguir a narrativa até o epílogo.

O silêncio, denso e sepulcral, foi rompido por um som vindo da cozinha, atravessando a ampla sala até seu quarto. Um ranger inquietante, como de porta mal fechada, desafiava seus ouvidos. Removendo as cobertas, calçou as chinelas e desceu, pé ante pé, as escadas que ladeavam o incansável relógio. A cada passo, o coração acelerava: teria alguém invadido a casa sem que os velhos percebessem?

Ao chegar à cozinha e acender a luz, a resposta revelou-se menos ameaçadora, mas igualmente intrigante. O velho gato da casa, cambaleando, subia as escadas do porão. Guiado pela curiosidade, ele seguiu o animal até as profundezas escuras, onde a ausência de luz exacerbava o cheiro de umidade e o mistério do lugar.

Munido de um lampião, cuja chama tímida mal dissipava as trevas, o filho desceu ao porão. Lá, encontrou a origem do ruído: uma caixa de papelão cheia de fotografias antigas, usada pelo gato como refúgio. O vento, sibilando pelo respiro na parede, fazia a tampa entreabrir-se e ranger.

Sentou-se em uma velha cadeira, resgatando da caixa fragmentos de seu passado. Cada fotografia parecia reanimar cenas há muito adormecidas: rostos sorridentes, momentos congelados no tempo. Entre sorrisos e lágrimas, separou algumas imagens para compartilhar com o pai, buscando compreender quem eram certos visitantes cujas lembranças se esvaneciam.

No entanto, ao raiar do dia, ao levar o café e as fotos aos pais, a vida reservava um desfecho silencioso e inevitável. Encontrou-os sem vida, marcados pela última badalada do velho relógio, que agora era o único guardião das memórias daquela casa. Restavam-lhe as fotografias e a missão de preservar a história da família – um legado envolto na eternidade dos instantes capturados.


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O DIABO E AS MULHERES DA TECELAGEM JAPY


Corria o ano de 1958 no qual o Brasil tornou-se campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e, como muitos outros, acompanhamos a narração do jogo pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema, mas nesse dia, “torcia pelo Brasil”.

No auge do segundo tempo, num avanço do Pelé, a voz do locutor “sumiu”. Foi uma loucura! As pessoas gritavam para o Serafim “acertar o rádio”; com a gritaria, não sabia se aumentava o volume ou servia os famosos “rabo-de-galo” (mistura de pinga com fernet); ele, inclusive, estava “tão-alto” que já não cobrava mais nada pelos petiscos que comíamos e as bebidas dos mais velhos sorvidos a cada gol do Brasil, naquele dia memorável.

Após o término do jogo, subi na carroceria de um caminhão que passava pela rua lotada de alegres pessoas e rodamos pela cidade afora, festejando a conquista, chegando em casa tarde da noite, para o desespero de meus pais.


No dia seguinte fui até o botequim para saber das novidades que ainda repercutiam sobre o jogo, pois o Serafim era o repórter da rua: sabia de tudo o que acontecia na cidade. Ouvi o português contando que o Diabo havia atacado algumas mulheres da Tecelagem Japy, que ficava lá pelas bandas da Vila Arens.

O fato tomou enorme proporção e era assunto em todos os lugares da cidade, de tal forma que foi noticiada até no jornal, dando conta de uma situação sinistra, assustando a população; fato que ocasionou uma investigação pelo delegado Joaquim Linguiça, que não constatou nada de anormal no local do “ataque” do Diabo: um pequeno capão de mato por onde as mulheres caminhava até chegar ao portão da Tecelagem.

A rádio local noticiava o episódio, entre um programa e outro, estranhando o fato do “Doutô Delegado”, não ter resolvido o caso. Passada uma semana, o assunto voltou à baila; o Diabo havia atacado outra vez e, agora, com relato detalhado das trabalhadoras da tecelagem: que ele se vestia de vermelho e rodopiava no ar uma capa preta esvoaçante, e seu rosto, com uma aparência horrível, também soltava urros impressionantes, assustando a mulherada, que até urinavam nas calças.

Serafim estava empolgado com o assunto e todos iam ao seu boteco saber dos detalhes. Sim, porque ele incrementava as notícias da rádio que ele ouvia sem cessar. Falava que a mulherada estava indo trabalhar, acompanhada de seus maridos e filhos, porque, nesse tipo de fábrica, a mão-de-obra era constituída, em sua maioria, só de mulheres. O contingente maior era de senhoras com muito tempo de serviço; eram hábeis teceloas, porém, com o decorrer da idade, não produziam mais o necessário, preocupando o dono da fábrica, de nacionalidade turca, chamado Salim.

Dentro da fábrica, o gerente “Seu Jorge”, não tinha mais como segurar a situação, as senhoras não queriam mais vir trabalhar. Com muito custo foi preciso a intervenção da Administração, que era o popular “Gerubal Pascoal-Chefe do Pessoal”, que conseguiu persuadi-las, alegando que ia providenciar uma proteção policial, lá na trilha do mato, que traria as mulheres até o portão da Tecelagem.

Nos dias que se seguiram, a rotina da fábrica estava completamente alterada; uma vez por causa do Diabo, outra, pela baixa produção, pois o Salim não conseguia atender aos pedidos de vendas dos tecidos. Então ele chamou o gerente Jorge e o Gerubal para uma reunião especial e falou:

·         Eu quero esse assunto da baixa produção resolvido; eu já estou cansado de falar, não dá para ficar mais segurando essas senhoras que não produzem o suficiente; é melhor aproveitar esse negócio do Diabo que não sei de onde surgiu, e pressioná-las a pedir demissão. Gerubal pediu a palavra e falou:

·         Seu Salim, eu já fiz isso e elas não querem perder a indenização que é dobrada; quem tem mais de dez anos de casa, recebe vinte pela Lei. Furioso Salim disse: -

·         Eu não tenho dinheiro para pagar as contas; vocês têm que resolver o assunto, senão eu mando embora vocês, que fica mais barato.

Depois dessa conversa, no dia seguinte, o Diabo voltou a atacar e o Turco Salim estava gostando do assunto, porque algumas delas não vinham mais trabalhar; até telefonou para a rádio e disse que não precisava ficar anunciando para todo mundo esse negócio do Diabo, era um assunto interno que ele ia resolver de um modo bem satisfatório.

A estação de rádio parou de noticiar, mas, na polícia, o assunto estava fervendo, porque pessoas das famílias tinham ido dar queixa, e já no dia seguinte, dois guardas foram destacados pelo Delegado, para ficarem de prontidão na boca da mata, dando guarida para a mulherada. Lá pelas quatro e trinta da madrugada, um dos guardas que acompanhava o pessoal escutou um terrível urro que veio lá do meio do mato: “é o Diabo, gritou a mulher que puxava a fila”. Foi um corre-corre danado... A mulherada acompanhada de um dos guardas conseguiu chegar até o portão; algumas “molhadas”, outras perderam os chinelos, o almoço que traziam nas marmitas foi perdido pela trilha. O outro guarda, que era um valentão, foi à procura do Diabo no meio do mato e, ao ouvir aquele urro, deu no pé e foi para a portaria da fábrica.

Os guardas chegaram da fábrica lá na Delegacia e relataram tudo ao “Doutô-Linguiça”, que, louco da vida, começou a desatinar, chamando-os de medrosos, incompetentes e outras coisas mais.

·         “Mais doutô”, eu não vi o Diabo, só escutei o urro. O outro já falou que viu, ele estava de vermelho, botas pretas e parecia ter umas orelhas compridas e cabelos encaracolados. Acho que era isso, disse, mas estava meio escuro, pois a entrada do turno da manhã começava às cinco horas.

Joaquim Linguiça estava muito pressionado pelo jornal e a rádio, que não noticiavam outra coisa, que não fosse o ataque do Diabo na mulherada da Tecelagem Japy. Na delegacia, chamou um jagunço que prestava serviços ao Delegado, para “casos especiais”, era um mulato grande e forte. Joaquim o chamou no canto da porta, fechou a janela e disse:

·         Ô cabra! Quero esse assunto resolvido. Você vai lá e, se não puder com o bicho, dê uns tiros para o alto para espantá-lo. Cheio de coragem, o destemido Epaminondas municiou-se de dois revólveres trinta e oito, colocou-os na cinta e foi para o local, “ficar de tocaia”, fazendo isso todos os dias na hora da entrada do pessoal.

Lá na fábrica, o turco Salim vibrava com as notícias de que as senhoras não vinham mais trabalhar e outras pediram demissão e até mudaram de cidade. Chamou, então, o Gerubal e falou:

·         Gerubal, esse Diabo tem trazido sorte para nós.

·         É mesmo, Seu Salim, já tem doze que pediram as contas e mais umas vinte faltando.

·         Mas Gerubal, como é que esse negócio de Diabo apareceu por aqui?

·         Eu não sei, patrão, está bom assim, não é mesmo? Agora não vai mais me mandar embora, não é?

·         Claro que não, disse Salim, só precisamos que mais umas trinta peçam demissão.

·         Tudo isso? Só se o Diabo atacar novamente.

·         É, faça as suas rezas, quem sabe ele lhe ajude, você já está recrutando moças para o lugar das que já foram?

·         Sim, Seu Salim, as mocinhas estão trabalhando e com uma produção muito boa, conforme relatou o seu Jorge.

Salim estava contente, apesar da desgraça e a fama repentina que sua fábrica tomou; o nome da Japy tinha chegado até nas cidades vizinhas e a notícia chegou até ser veiculada na capital São Paulo, em uma estação que só transmitia novelas.

Passada uma semana, o Diabo não atacava mais; parecia que tudo estava voltando à calma, havendo até disputas das jovens mocinhas para o lugar daquelas que tinham pedido demissão. Algumas daquelas que não vieram mais, com a calmaria, começaram a voltar, preocupando novamente o Sr. Salim.

Chamou o Gerubal e pediu providências, dizendo que se elas voltassem, era para dizer que o diabo poderia atacá-las, porque ele havia marcado a fisionomia... E assim, se viu novamente pressionado pelo patrão.

Terminado o expediente, foi para a casa muito preocupado e, durante algumas noites não dormiu direito, porém, sabia que ele mais o Seu Jorge tinha que fazer alguma coisa.

Uma bela manhã, a fila da volta das antigas empregadas havia aumentado e, no dia seguinte, o Diabo voltou a atacar, mas o Epaminondas estava na espreita, esperando o lazarento. E foi quando o maldito pulou do mato, envolto em sua capa e soltando aqueles urros de enlouquecer qualquer um. Epaminondas soltou um palavrão e falou:

·         Seu satanás dos infernos, venha aqui me pegar, você só ataca as mulheres, chegue aqui que sou cabra-macho e de saco roxo. Os dois ficaram frente a frente; daí um estampido foi ouvido e o Diabo caiu no chão, não se mexia! Todos que escutaram o som do projétil, principalmente na fábrica, correram para o local e constataram uma cena terrível: teria morrido? Epaminondas, ainda com o revólver na mão, pediu que ninguém chegasse perto e mandou alguém telefonar para o Joaquim Linguiça vir o mais rápido possível, para examinar o corpo do infeliz. Lá chegando, o Delegado notou que uma máscara envolvendo seu rosto estava meio solta.

Com as mãos trêmulas, hesitou em retirá-la: quem seria aquela pessoa travestida de Diabo? Pensou nos seus trinta e cinco anos de carreira, onde nenhum fato daquela natureza tinha acontecido, era um momento de júbilo para Joaquim. Sua velha memória começou a divagar, pensou na promoção que o fato poderia lhe dar, conseguindo uma aposentadoria com vencimentos mais altos.

Num repente, pediu que chamassem a reportagem do jornal, queria ter o privilégio de sair na foto e a manchete poderia lhe render tudo o que pensou naqueles minutos. Então o que se passou foi inenarrável!

Para o espanto de todos, foi constatado pelo velho policial, que o Diabo era o popularíssimo Gerubal Pascoal, Chefe do Pessoal.

O povo todo da cidade, por vários dias, ficou comentando a tragédia. A Polícia, capitaneada pelo glorioso Joaquim Linguiça, foi até a casa do Gerubal interrogar a mulher. Ela acabou confessando que fez a fantasia do Diabo e comprou aquela máscara que cobria o rosto em uma loja da cidade, dizendo que ele estava fazendo aquilo, porque tinha família para sustentar e muito receio de ser mandado embora pelo Sr. Salim.

O empresário ficou apavorado e fugiu para a Turquia, pois, de certa maneira, foi o mentor intelectual do caso; deixou no seu lugar o filho, que não tinha experiência nenhuma com o negócio, e faliu rapidamente, ficando muita gente sem receber nenhum centavo da empresa.

Hoje em dia, o local está abandonado; depois da falência, um supermercado se instalou e logo também faliu; depois veio uma rede de grande marca que, também, não teve sucesso; depois uma concessionária que também não deu certo. Todos os empresários que tiveram seus negócios ali diziam que, nas manhãs frias de inverno, aparecia o fantasma do Gerubal, urrando e pedindo o dinheiro de sua indenização.

Esse caso virou uma lenda na cidade e até hoje, pelos cantos escuros, se fala da história do Diabo que atacava as mulheres da Tecelagem da Japy.

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 Contos com um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola.


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OS MESTRES DA SABEDORIA E COMPAIXÃO




Desde muito jovem, sempre me senti atraído por figuras que transcendem o tempo, que deixam marcas profundas na história e na alma humana. Mahatma Gandhi é, para mim, uma dessas presenças luminosas. Ao estudar sua trajetória e mergulhar nas crenças orientais sobre os chamados Mahatmas — as "grandes almas" — encontrei não apenas inspiração, mas também um convite à reflexão sobre o verdadeiro sentido da evolução espiritual.


Mahatma Gandhi e os Mahatmas: Reflexões sobre Almas Grandiosas


Um Exemplo de Amor e Resistência.



Mahatma Gandhi foi um dos maiores líderes espirituais e políticos da história moderna. Nascido na Índia, dedicou sua vida à luta pela independência do seu país, enfrentando o domínio colonial britânico com uma arma poderosa e revolucionária: a não violência. Entre as décadas de 1920 e 1940, Gandhi liderou movimentos de desobediência civil e resistência pacífica, baseando-se em um princípio que ele mesmo desenvolveu — o Satyagraha, que significa "a força da verdade".

Sua coragem não estava nas armas, mas na firmeza de seus valores. Ele acreditava que a transformação social só seria verdadeira se viesse acompanhada de uma transformação interior. Gandhi não apenas libertou a Índia, mas também despertou consciências ao redor do mundo. Infelizmente, sua vida foi interrompida de forma trágica, ao ser assassinado por um extremista hindu em 1948. Ainda assim, sua luz permanece viva.

Confesso que meu entusiasmo por sua história se intensificou depois que assisti ao filme sobre sua vida. Ver sua trajetória retratada com tanta sensibilidade e profundidade me tocou profundamente. Foi como se eu pudesse sentir, mesmo à distância, a força de sua alma e a grandeza de seu propósito.

 Almas que Iluminam o Caminho

No Ocidente, pode parecer superstição falar sobre seres elevados, mas no Oriente existe uma crença profunda e respeitada na existência dos Mahatmas — palavra que une Maha (grande) e Atma (alma). São considerados seres de sabedoria incomensurável, que atingiram um grau de perfeição espiritual após inúmeras encarnações e experiências.

Acredita-se que esses seres tenham corpos que duram séculos e almas que atravessam milênios. São vistos como guias silenciosos da humanidade, irradiando compaixão, conhecimento e equilíbrio. Histórias fascinantes circulam sobre eles, e mesmo que não possamos provar tudo com os olhos da razão, há algo profundamente intuitivo e verdadeiro nessa crença.

Eu gosto de pensar que Gandhi foi um desses Mahatmas encarnados — uma alma antiga que veio à Terra para ensinar, curar e transformar. Sua vida é um testemunho de que é possível viver com propósito, mesmo em meio ao caos.

 O Legado que Vive em Mim

Ao contemplar a imagem de Gandhi, sinto que não estou apenas olhando para um homem, mas para uma ideia viva — a de que a paz é possível, que a verdade tem força e que a alma humana pode alcançar alturas inimagináveis. Os Mahatmas, reais ou simbólicos, nos lembram que a perfeição não é um ponto de chegada, mas um caminho de evolução constante.

E eu, como buscador, sigo inspirado por essas grandes almas. Que possamos todos cultivar em nós um pouco da sabedoria, da paciência e da coragem que elas representam.

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ESCRITOR, UMA EXPERIÊNCIA APAIXONANTE

Dançando com as Letras

Palavras que Me
 Habitam

Desde criança, as palavras exercem sobre mim um fascínio que nunca se dissipou. Lembro-me das tardes silenciosas em que me perdia entre livros antigos, imaginando histórias que ainda não haviam sido escritas. A literatura, para mim, sempre foi um refúgio — um universo paralelo onde podia criar mundos, dar voz às emoções e transformar experiências em narrativas.

Foi desse encantamento que nasceu meu desejo de escrever.

No início, eram apenas anotações soltas, pensamentos guardados em cadernos que, com o tempo, se transformaram em pequenas histórias. E então percebi: escrever não era apenas um passatempo — era uma parte essencial de quem eu sou.

Esse amor pelas palavras me proporcionou momentos inesquecíveis. Um deles ocorreu quando fui convidado, por meio de um projeto que conectava escritores e estudantes, a visitar uma escola para falar sobre meu livro Vozes no Silêncio da Noite.

Era uma manhã serena. Ao entrar na sala de aula, senti-me envolvido por uma energia especial — uma mistura de expectativa e nostalgia. Os rostos jovens diante de mim carregavam aquela curiosidade genuína de quem está prestes a descobrir um novo mundo.

Enquanto discutíamos um dos contos, pedi que os alunos lessem trechos e tentassem interpretar seus significados. Era uma troca viva, cheia de olhares atentos e frases que revelavam o despertar do encantamento literário. Foi então que um deles me lançou uma pergunta inesperada:

— Como o senhor se tornou escritor?


Por um instante, silenciei.

“Enquanto o mundo corre, eu caminho — e escrevo o que tropeça.”

A pergunta era simples, mas provocou em mim uma reflexão profunda. Nunca havia realmente parado para pensar na dimensão dessa jornada. Ali, diante daquelas mentes sedentas por inspiração, compreendi com mais clareza o sentido da minha vocação.

Ser escritor não é apenas colocar palavras no papel. É sentir profundamente, reviver experiências, dar forma ao invisível e permitir que outros enxerguem o mundo através de novas perspectivas.

Expliquei a eles que cada autor carrega histórias que se entrelaçam com a própria vida. Alguns se inspiram em romances, outros em contos, outros ainda nas pequenas coisas do cotidiano. No fundo, o escritor é um artesão — alguém que molda emoções em palavras.

A conversa fluiu como um rio tranquilo. E ao final, compartilhei um pensamento que sempre me acompanha:

Nascemos com o dom de escrever, independentemente de nossa origem. Podemos ser empresários, moradores de rua, professores ou estudantes — o talento reside na vontade de transformar sentimentos em palavras.

Com esforço, leitura e entrega, cada escritor constrói seu próprio universo. Dá vida a personagens, a paisagens e a vozes que atravessam o tempo e tocam outras almas.

Ainda guardo na memória o brilho nos olhos daqueles alunos. Saí da escola naquele dia com mais do que a satisfação de ter falado sobre literatura. Levei comigo o prazer de, talvez, ter despertado o sonho de futuros escritores.

Meu Poema

La Perra Gorda

(Uma cena singela, capturada com olhos contemplativos)

Aproximou-se, de forma suave, na varanda.
Veio ao meu encontro com passos lentos.

Cansada, sentou-se ao meu lado.
Seduziu-me com um olhar!

Acompanhei o seu caminhar...
Notei que seu corpo estava diferente.

Caminhou até sua casinha,
bem debaixo da janela da cozinha.

Lá dentro, guardava um segredo:
três perritos!

Negrito, Pedrito e Marquito.



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MITOLOGIA MARÍTIMA: ENTRE LENDAS E HORIZONTES

Odisseus em seu retorno à ilha de Ítaca . O mar sempre foi um palco fértil para o nascimento de mitos e lendas . Muito disso se deve à imag...