sábado, 4 de junho de 2016

A LEMBRANÇA DE UM AMIGO





U
m dia desses, remexendo os meus guardados, deparei-me com um livro de poesias; olhando o autor, veio à mente a figura de um moço, como era na época; hoje, não sei por onde trilha o seu caminho.

Seu currículo era impressionante.
No mundo literário, era comentarista da Radio/TV-Bandeirantes, onde tinha um programa semanal, no qual analisava os lançamentos dos livros de escritores iniciantes e, em especial, os renomados.

Na área política, desenvolvia assessoria no Palácio dos Bandeirantes, ao governo da época; aí se destacou de tal forma, que veio a ser contratado para coordenar a campanha política do então Vice- Presidente de um Grupo Empresarial, no qual eu trabalhava na área de Recursos Humanos. No momento em que nos conhecemos pessoalmente, já tinha recebido, como meta, ajudá-lo a desenvolver a coordenação da campanha em todo o Estado de São Paulo.

 Abrindo a contracapa, emocionei-me ao ver sua letra estampada na pagina branca, já meio amarelada, dirigindo uma dedicatória a mim e a minha esposa:

“À Dijanira para que junto com a sensibilidade do meu amigo Vendramini, possa caminhar pela estrada da minha poesia.”

Afonso Celso Calicchio
08 de Outubro de 1982.

Sempre gostei de poesias, tanto que, quando jovem, fazia e encantava as pessoas; e foi assim que conheci minha esposa e nos enamoramos e seguimos nossa vida até os dias de hoje.

Para homenageá-la, ameacei fazer uma pequena poesia, mas vi que estou meio destreinado; no momento, a minha verve está dirigida para a elaboração de crônicas e livros. Mas não faltará oportunidade, agora que estou nesse caminho...

Assim sendo, recorro ao livro do amigo Calicchio que tenho nas mãos.
Folheando as páginas, encontrei uma linda trajetória de incríveis palavras que transcrevo abaixo:


O ECO DO TEU GRITO

Alguém gritou no silêncio o meu nome, e o desespero fecundou o ventre da terra, violento, assustando os animais que dormiam a trégua dos homens, secando o leite no seio das mulheres, despertando o pranto na boca das crianças.

Alguém gritou no silêncio o meu nome, e a desesperança varreu o futuro dos encontros, agredindo o vento e profanando a verdade dos mortos, nos desertos, nos campos, nas cidades.

Ah! O desperdício do brado e do remorso, a escuridão estilhaçando o negro em mil caminhos num transbordamento de crepúsculos adormecidos em leitos sem amor e sem perdão.

Alguém gritou no silêncio o meu nome, e o arrependimento vagou pelas estradas e pelo tempo acreditando em todas as dúvidas, agigantando qualquer esperança de luz, de ruído, de sombra, de acaso.

Muito mais perdida que a aflição da verdade, perde-se a crença na indagação do talvez, do grito que verga o caule frágil dos pinheiros, levantando a poeira sem passadas, explode na vida em céu aberto, arrancando das nuvens o êxtase da luz.

A chuva desaba implacável, sobre a paisagem e, repentinamente, o gotejar das folhas nos caminhos, o silêncio dos pássaros em seus ninhos, o perfume do mato e da terra molhada, o rescender na profusão dos atalhos e na pequenez dos caminhos, traz a plenitude da paz, da calma e da harmonia.

Quando o silêncio retorna em madrugadas, o ruído exausto de teus passos levemente atemoriza.

Está toda molhada de angústias, exausta.
Teu grito adormeceu nos braços do infinito.
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Meu caro Calicchio:

Onde você estiver, receba o meu abraço de paz, harmonia e muita saúde.
  

Antonio Vendramini Neto

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