terça-feira, 14 de abril de 2026

EGITO: A CASA DA ALMA


O Cairo: A Joia do Oriente

Situada no coração das rotas entre Ásia, África e Europa, a cidade do Cairo é um verdadeiro tesouro do Oriente. Suas famosas pirâmides, rodeadas por minaretes que misturam passado e presente, fazem da região um lugar único, onde a história pulsa a cada esquina.

Ao nos aproximarmos da cidade ainda dentro do avião, avistamos, lá do alto, o magnífico panorama das pirâmides. O impacto visual foi deslumbrante, um espetáculo inenarrável que parecia nos conectar a uma era distante.

Naquela noite, uma experiência mágica nos aguardava: um show de luzes e sons projetado sobre as pirâmides. Imagens e vozes ecoavam no tempo, como se os próprios faraós estivessem ali, guiando-nos por sua gloriosa história.

A Grande Pirâmide e Seus Mistérios


Pela manhã, do hotel Intercontinental Pyramids Park, vislumbramos no horizonte o complexo monumental das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, construídas para abrigar os corpos dos faraós e garantir-lhes a eternidade.

Após explorar os imponentes monumentos sob o sol escaldante, nosso guia, Sr. Sahid, nos propôs uma jornada ao interior da pirâmide. Adquirimos os bilhetes e aguardamos nossa vez de entrar. A passagem era estreita, um túnel em declive onde só um grupo reduzido poderia avançar. A cada passo, a sensação de mistério aumentava.

Ao descermos, nos deparamos com corredores adornados com hieróglifos, narrando a vida do faraó desde seu nascimento até sua entrada triunfal na câmara mortuária, onde repousava seu sarcófago.

Ali dentro, um beduíno nos recebeu com um olhar enigmático, como se revivesse os dias do sepultamento do faraó. Mesmo sem entender suas palavras, sentíamos o peso da história e a energia daquele espaço ancestral.

Uma Queda Entre Milênios

Enquanto explorava os detalhes entalhados nas rochas, dei alguns passos para trás e, sem perceber, pisei em um espaço vazio. O chão parecia se abrir e me senti sendo puxado para baixo. A queda foi leve, mas meu coração disparou. Seria a maldição do faraó? Teria eu perturbado seu descanso eterno?

O beduíno gritou algo incompreensível. Minha esposa também exclamou um alerta. E, naquele instante, meu pensamento flutuou por milênios. Eu me sentia diante do próprio faraó, como se o reverenciasse e expressasse meu respeito por sua história e por tudo que seu povo construiu.

Após recuperar o equilíbrio, percebi que o ambiente ao meu redor era um testemunho vivo da grandiosidade egípcia. Tesouros saqueados, escrituras preservadas e mistérios ainda por descobrir mostravam a importância de preservar esse legado.

A Eternidade Gravada nas Pedras

A história egípcia resistiu ao tempo e continua a ser estudada por arqueólogos e egiptólogos do mundo inteiro. A descoberta da Pedra de Roseta por Champollion permitiu decifrar os segredos dessa civilização extraordinária.

Mais de cinco mil anos se passaram, mas os obeliscos e monumentos seguem imponentes, desafiando o tempo. O que mais estará oculto sob as areias e montanhas do Egito? Que novos mistérios ainda aguardam para serem revelados?

Sabores do Cairo: O Karkadé

Após o calor intenso das pirâmides, nada foi mais reconfortante do que saborear um copo de Karkadé, o tradicional chá de hibisco do Cairo. Sua cor rubra e sabor levemente ácido pareciam refletir a intensidade da própria história egípcia. Servido gelado, trouxe frescor e nos conectou à hospitalidade local, como se cada gole fosse um convite para mergulhar ainda mais na cultura dessa cidade fascinante.

O Cairo, Portal da Imortalidade

Entre pirâmides e mistérios, o Cairo revela sua alma milenar.
E quando o sol escaldante se despede, um simples gesto nos conecta à cidade:
um copo de Karkadé, o chá de hibisco rubro, refrescante e simbólico,
que traduz em sabor a intensidade da história egípcia.

Assim, cada gole é memória, cada aroma é tradição,
e o Cairo permanece não apenas como cenário,
mas como experiência viva de uma civilização eterna.


“No Cairo, cada pirâmide guarda segredos eternos — e cada gole de Karkadé revela a alma viva do Egito.”

 Um brinde à curiosidade

Este espaço é feito para quem gosta de descobrir. Falo de tudo um pouco: viagens, cultura, ideias que me atravessam. E como não há descoberta sem prazer, sempre encerro com uma receita ou uma dica de vinho — porque boas histórias merecem bons acompanhamentos.

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

JOÃO-DE-BARRO O CONSTRUTOR DA FLORESTA



Fiquei sabendo que o casal é único


A tarde de verão que era majestosa, repentinamente, transformou-se em um céu carregado de nuvens. Vieram os relâmpagos, cortando o horizonte com fios de luz, e ouvi o rugido grave dos trovões, estremecendo o solo e anunciando a tempestade. Logo, uma pesada chuva desabou, trazendo consigo o cheiro da terra molhada que subia como um perfume selvagem.

Olhei para o solo barrento na beira do meu gramado e percebi o frêmito de asas agitadas se espalhando pela lama, onde os pássaros, ávidos, disputavam a colheita inesperada da terra. O banquete estava servido: inúmeras larvas e insetos brotavam das entranhas do solo, expostos pela água que os desalojava.

Ali estava acontecendo o cio... Sedenta de amor, a terra sorvia a chuva como um amante sedento, esperando ansiosa pelo toque gentil da semente. Pedia a fecundação para que, em sua gestação, gerassem novos frutos, complementando seu estado de felicidade, acariciando suas novas crias e propiciando, aos seres humanos, alimentos saudáveis para a continuidade das espécies.

A cena era maravilhosa. Busquei em meu embornal, no quartinho de ferramentas, algumas sementes que estavam esperando esse momento sublime. Enquanto semeava nas covas mais fundas, os pássaros continuavam a procurar os insetos para alimentar os filhotes, que soltavam trinos altos, pedindo aos pais por comida. Foi nesse instante que ouvi um cantar mais estridente, bem próximo, ali naquele barro vermelho.

Era um casal de João-de-barro que, freneticamente, pedia passagem, chegando até dar voos rasantes perto da minha cabeça, expulsando-me do local; queriam aquele barro para iniciar a construção de seu ninho.

Observei, alegremente, o trabalhão incessante do casal e segui-os com os olhos para ver aonde levavam, nos bicos, as pelotas de barro. Cada pelotinha era encaixada na estrutura, como um operário que molda sua obra-prima com precisão e determinação. Notei, com alegria, que a construção se iniciava bem na minha área de lazer, na terça do telhado, acima do fogão de lenha.

Logo escureceu e o trabalho operário dos dois parceiros terminou, e o meu de observador também. Recolhi-me aos meus aposentos e busquei uma literatura em que pudesse ter mais informações a respeito desse magnífico pássaro.

Fiquei sabendo que o casal é único, ou seja, são parceiros até que a morte os separe. No dia seguinte, logo pela manhã, fui fazer as vezes de ferrenho observador, ficando contente em vê-los na obcecada tarefa da construção do ninho.

A tarefa de construção continuava; era um vai e vem desenfreado do casal, no transporte das pelotinhas de barro sob o telhado, colocando-as na base sobre a viga de madeira. O entusiasmo era grande, e quando se ausentavam, era porque estavam trançando pequenas raízes em outro local, para fortalecer as paredes do ninho. Nesse momento, corri para a torneira do jardim, peguei uma vasilha com água e coloquei em cima daquele barro perto do gramado que já estava secando, facilitando a árdua jornada dos "passaritos".

E assim fui ajudando os dois naquela empreitada. Era maravilhoso acompanhar a mesma rotina, que durou vários dias. Logo fui me municiando de dispositivos para poder observá-los à distância; então, arrumei um binóculo e uma câmera digital, para ir registrando a evolução da obra!

Com os olhos compridos, pude enxergá-los melhor na execução, sem espantá-los; e valeu a pena ficar observando. A evolução que meus olhos presenciavam era impressionante! Tudo tão perfeito: a circunferência ao redor da viga que suportava a edificação, os contornos de feixes de raízes formando uma malha, como se fosse um alicerce, o desenho da porta de entrada com a proteção contra intrusos.

Depois de terminada a casinha, iniciou-se um namoro meio maroto nas árvores próximas ao ninho, até que um dia não mais notei a presença do macho. Percebi, então, que ele examinava as redondezas para verificar a fertilidade da alimentação para os futuros filhotes, enquanto a fêmea iniciava a postura dos ovos.

Após o terceiro dia do início do choco, notei que quem alimentava a fêmea no ninho era outro macho, bem maior que aquele que a ajudou na construção da morada. Sim, porque ela não podia sair, garantindo que todos os ovos tivessem sucesso no nascimento dos filhotes.

O que teria acontecido? Fiquei em observação mais detalhada até que, na tarde do quarto dia, houve uma luta feroz no galho da árvore, culminando com a retirada do intruso, que tentava assumir o papel de condutor da família antes que os filhotes viessem ao mundo.

Seria uma traição? Certamente não, pois o macho não edificou uma parede na porta... Diz uma lenda do cancioneiro popular rural que, quando isso acontece, ele condena a fêmea dessa forma e parte para uma reclusão até a morte. Talvez fosse um macho viúvo querendo aproveitar a oportunidade para formar uma nova parceria, que foi, energicamente, repudiada.

Fiquei extremamente feliz em ver que tudo correu bem; depois de vários dias de choco, nasceram três belos filhotes, que o macho alimentou.

Passado todos esses dias, a fêmea saiu de seu confinamento e também ajudou o companheiro na criação das pequeninas aves que, logo, se tornaram bem maiores e seguiram seus destinos, sabe-se lá por onde.

E assim, o ciclo se perpetua. O casal parte, os filhotes seguem seu destino, e em algum outro telhado, sob um novo céu de verão, recomeçará a dança da vida. Esse tema encantador continuará servindo de inspiração para poetas, compositores de moda-de-viola, seresteiros, também de escritores e cronistas, relatando, através de canções, e “proseando no conto de causos”.


Entre palavras e aromas

Gosto de misturar assuntos como quem prepara uma boa receita: com cuidado, curiosidade e um toque pessoal, compartilho reflexões, histórias de viagem e, claro, em algumas vezes, uma sugestão culinária ou enológica para fechar com sabor. Que a leitura te leve longe.

Este meu blog não tem capa dura nem páginas numeradas.

Ele vive nas entrelinhas do tempo.

Cada texto é uma fresta — por onde escapa o que ainda pulsa.

Escrevo como quem conversa com o silêncio.

Como quem guarda o mundo em palavras pequenas.

Como quem acredita que lembrar é uma forma de amar.

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domingo, 12 de abril de 2026

O CANTO DO CARRO DE BOI E O VINHO DOS ITALIANOS


 O Canto do Carro de Boi 

Há histórias que se perpetuam como o aroma de um vinho antigo — intensas, marcadas pela terra e pelo tempo.

A trajetória de Antonio Vendramini, (meu avô) o Tonella, é uma dessas histórias que misturam suor, tradição e celebração. Entre o som do carro de boi e o tilintar dos copos de vinho nas fazendas, nasceu uma memória que atravessa gerações.

Meus Contos - Antonio Vendramini Neto -são como um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola. 

📖 

Antonio Vendramini, conhecido como Tonella, nasceu em Treviso, Itália, em 1882. Como tantos imigrantes europeus, sua família cruzou o oceano em busca de novas oportunidades e encontrou no interior paulista um solo fértil para recomeçar. Instalaram-se no Distrito de Banharão, em Jaú, onde o café era o ouro da terra e o trabalho, a medida da dignidade.

Desde menino, Tonella se encantava com o funcionamento dos carros de boi. Observava com curiosidade cada detalhe da montagem das carroças que levavam as sacas de café até a ferrovia. Com o tempo, tornou-se carreiro, dominando a arte de conduzir os bois e fazer o eixo “cantar” — aquele som característico que ecoava pelas estradas e anunciava sua chegada.

O canto do carro de boi era mais que um som: era um sinal de vida. Na cidade, despertava curiosidade; no Banharão, fazia as moças correrem às portas para ver Tonella e Anduim acenando com seus chapéus. O trabalho exigia técnica, paciência e respeito pelos animais, especialmente pelos bois malhados, dóceis e fiéis companheiros.

Mas havia também os momentos de pausa e confraternização. Ao fim do dia, nas fazendas, os italianos se reuniam à sombra dos galpões para saborear o vinho artesanal, muitas vezes o Chianti, trazido da Toscana ou produzido com uvas locais. Era o vinho que trazia o perfume da terra natal — o sabor da Itália misturado ao pó do café paulista. Entre um gole e outro, histórias se misturavam ao som distante do carro de boi, compondo uma sinfonia de trabalho e alegria. Tonella, com seu sorriso largo, costumava dizer que o vinho era “o sangue da terra que nos acolheu”.

Com o passar dos anos, novas formas de transporte surgiram. Tonella foi pioneiro nas tropas de burros em Jaú, agilizando o transporte das sacas de café até a estação. Mais tarde, os cavalos entraram em sua vida, levando-o a espetáculos rurais e apresentações em circos e feiras.

O carro de boi, símbolo de progresso e resistência, tornou-se lembrança viva. Hoje, é celebrado em festivais e encontros que preservam sua importância na história rural brasileira. O legado de Tonella permanece — entre o canto do eixo e o brinde do vinho — como testemunho de uma época em que o trabalho e a alegria caminhavam lado a lado.

O som do carro de boi pode ter se calado nas estradas, mas sua melodia ainda vibra na memória de quem reconhece o valor da tradição. E o vinho, sorvido nas fazendas italianas do interior paulista, continua sendo símbolo de união e gratidão — o sabor da terra e da história que Tonella ajudou a escrever.

🍇 Curiosidade histórica

O Chianti, vinho típico da região da Toscana, era um dos mais populares entre os imigrantes italianos no início do século XX. Produzido em garrafas envoltas em palha trançada — o famoso fiasco —, tornou-se símbolo de simplicidade e celebração. Nas fazendas paulistas, o Chianti era mais que bebida: era lembrança da pátria distante e brinde à nova vida no Brasil.

 Palavras que viajam, sabores que ficam

Meus textos são como malas abertas: cheios de lembranças, ideias e sabores. Ao final de cada um, deixo uma receita ou uma sugestão de vinho — porque viajar também é degustar. Que este texto te inspire a explorar, sentir e saborear cada detalhe.


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sábado, 11 de abril de 2026

ZEZINHO MUÇAMBÊ O ARTESÃO E FOTÓGRAFO DE MIL FACES



Zezinho Muçambê: Arte, Vida e Mistério   
José Epaminondas de Albuquerque Martins, ou simplesmente Zezinho, partiu do Nordeste com um sonho: transformar sua vida em São Paulo. Com a bênção da mãe e o coração apertado por deixar o pai e os oito irmãos, seguiu viagem carregando apenas uma matula e uma imensa vontade de vencer.

Desde cedo, Zezinho demonstrava talento. Em sua terra natal, criava peças de artesanato que encantavam nas feiras dominicais. Suas mãos habilidosas e sua imaginação fértil transformavam materiais simples em verdadeiras obras de arte. Mas ele queria mais. Inspirado pelo fotógrafo lambe-lambe da praça, sonhava em aprender a capturar momentos e eternizá-los em imagens.

Ao chegar à metrópole, enfrentou desafios. Conseguiu um ponto na praça, onde expunha suas peças em caixotes improvisados. Para complementar a renda, fez sociedade com um mascate e comprou uma câmera fotográfica. Assim, entre o artesanato e as fotografias, começou a construir sua reputação.

Foi nesse vai-e-vem que conheceu uma mulher com quem dividiu teto e aflições. Mas a relação azedou ao descobrir que ela se prostituía enquanto ele trabalhava. Desiludido, Zezinho aceitou a proposta de um fotógrafo profissional, Sr. Cícero, para trabalhar em seu ateliê no interior. Lá, aprimorou suas técnicas e ganhou o apelido de Zezinho das Artes, por nunca abandonar o artesanato.

Com o tempo, abriu seu próprio negócio, inovando com fotografias coloridas e cobrindo eventos sociais, esportivos e religiosos. Tornou-se figura conhecida, participando de carnavais e campeonatos, e até colaborava com o jornal local. Mas sua saúde começou a dar sinais de alerta. Uma tosse persistente o incomodava, e ele recorria a um xarope caseiro de muçambê, que carregava em um frasco no bolso. O hábito lhe rendeu um novo apelido: “Zezinho Muçambê”.

Apesar do sucesso, o destino foi cruel. Em um dia chuvoso, Zezinho não apareceu para trabalhar. Preocupado, um funcionário foi até sua casa e o encontrou sem vida, ao lado do frasco de muçambê. O velório foi marcado por homenagens emocionadas, mas o enterro virou um caos. Uma chuva torrencial interrompeu o cortejo, e o caixão foi abandonado na rua. Vagabundos o arrastaram para uma barraca de flores, e a polícia, sem opções, deixou o corpo ali até o dia seguinte.

Na manhã seguinte, o caixão havia desaparecido. O mistério permanece até hoje, alimentando histórias de assombração e curiosidade na cidade. Zezinho Muçambê, com sua vida cheia de altos e baixos, deixou um legado de talento, resiliência e um enigma que nunca será desvendado.

Boas histórias, bons sabores

O xarope de muçambê, que Zezinho carregava como amuleto, ainda hoje existe e continua sendo usado na medicina popular. Preparado a partir da planta Cleome spinosa L., conhecida também como “sete-marias” ou “beijo-fedorento”, é tradicionalmente indicado contra tosse, bronquite e asma. Em muitas cidades do interior, ainda se encontra em receitas caseiras e até em xaropes naturais vendidos em feiras e lojas de produtos medicinais.

Assim, entre memórias e mistérios, o sabor amargo e medicinal do muçambê permanece como testemunho de uma tradição que resiste ao tempo — e como lembrança viva de Zezinho, o homem que transformou arte, fotografia e cultura em sua marca eterna.

Receita de Lambedor de Muçambê

Ingredientes:

  • 1 punhado de folhas e flores de muçambê (bem lavadas)

  • 500 ml de água

  • 1 xícara de açúcar mascavo ou mel

  • 1 pedaço pequeno de gengibre (opcional)

  • Suco de 1 limão

Modo de preparo:

  1. Ferva a água e adicione as folhas e flores de muçambê.

  2. Deixe cozinhar por cerca de 10 minutos.

  3. Coe e volte o líquido ao fogo, acrescentando o açúcar mascavo ou mel.

  4. Mexa até formar uma calda espessa.

  5. Acrescente o suco de limão e o gengibre, se desejar.

  6. Armazene em frasco de vidro limpo e bem fechado.

Uso tradicional: uma colher de sopa, duas vezes ao dia, para aliviar tosse e bronquite.


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Entre palavras e aromas

Gosto de misturar assuntos como quem prepara uma boa receita: com cuidado, curiosidade e um toque pessoal, compartilho reflexões, histórias de viagem e, claro, em algumas vezes, uma sugestão culinária ou enológica para fechar com sabor. Que a leitura te leve longe.



quinta-feira, 9 de abril de 2026

CHICÃO, O ETERNO BOLEIRO E SUAS PÉROLAS INESQUECÍVEIS

                           A GORDUCHINHA BEIJOU A REDE...

Chicão foi aquele tipo de jogador genuíno, o "boleiro raiz", que conquistava a torcida mais pelo carisma do que pelo talento. Atuou em um dos grandes clubes de São Paulo, mas, como acontece com todos os atletas, o tempo lhe cobrou o preço. Sua técnica já não era a mesma e, no final da carreira, encontrou espaço em um clube menor do interior, ainda na divisão principal. Mas isso não diminuiu seu brilho—pelo contrário, tornou-se ídolo local.

Jogando como volante, era peça fundamental na organização das jogadas, distribuindo a bola pelo meio de campo. A torcida adorava seu estilo aguerrido e, especialmente aos domingos, as moças suspiravam com sua presença em campo. O carinho da torcida era tão grande que ele recebia flores antes dos jogos, gesto que retribuía com simpatia e elegância. Sempre atento aos fãs, fazia questão de dar atenção especial às crianças que o abordavam pedindo um cumprimento ou um afago.

Mesmo com dificuldades na expressão verbal, sua espontaneidade compensava qualquer problema com as palavras. Nas entrevistas, ele arrancava risadas, e foi justamente essa autenticidade que o ajudou a construir sua aura lendária.

De boleiro a político—ou quase

A fama extrapolou os limites do futebol e Chicão decidiu se aventurar na política. Sua popularidade garantiu uma enorme quantidade de votos, tornando-se vereador da cidade. No entanto, sua vocação para a política era bem menor do que sua paixão pelo futebol. Faltava a muitas reuniões porque preferia estar nos gramados, e sem projetos concretos, sua carreira política teve vida curta.

Mas foi nos microfones que seu carisma se revelou ainda mais. Suas entrevistas geraram momentos icônicos, como quando um repórter pediu que ele saudasse o público e ele respondeu com toda simplicidade:

"Boa noite, microfone!"

Ou quando, lesionado e impossibilitado de jogar, gritou palavras de incentivo ao seu substituto no alambrado e garantiu:

"Comigo ou sem-migo, o time vai ganhar!"

A cidade inteira repetia suas frases como bordões! E quando sua equipe jogou em Belém do Pará, soltou outra pérola histórica:

"É uma satisfação muito grande jogar aqui nesta terra onde nasceu Jesus Cristo!"

Da bola ao microfone—e a confusão que virou lenda

Após o fim da carreira, o clube tentou ajudá-lo conseguindo um emprego em uma rádio esportiva, onde começou como assistente de repórter. Seu entusiasmo era enorme, e ele gostava de estar próximo ao campo, vivendo intensamente cada jogo. Mas seu jeito irreverente também gerou episódios memoráveis.

Certa vez, substituindo um repórter que teve uma emergência intestinal durante uma transmissão, foi chamado para descrever uma jogada e soltou sem pensar:

"Nosso lateral tem pé de bosta, se fosse eu teria feito o gol."

O coordenador correu para alertá-lo, pedindo para ter cuidado com as palavras. Mas Chicão era Chicão—e sua espontaneidade era incontrolável. Durante uma tempestade que interrompeu um jogo, ouviu o locutor dizer:


"Chove torrencialmente pelos quatro cantos do gramado."

E completou sem hesitar:
"Inclusive no meio!"

Mas foi seu último erro no microfone que selou seu destino. Ao ser chamado para ajustar o som da transmissão, sem perceber que estava no ar, disparou:

"Aqui embaixo é uma merda só! É choque para tudo quanto é lado, até meu rabo tá pegando fogo!"

O presidente da rádio, furioso, dispensou Chicão e toda a equipe envolvida naquele desastre de transmissão. Com o tempo, os patrocinadores abandonaram a emissora, e as frases do Chicão viraram folclore na cidade, sendo contadas e recontadas como verdadeiras pérolas do futebol.

Curiosidades sobre Chicão

  • Seus bordões eram citados até na capital, ganhando espaço em colunas esportivas de jornais.

  • Mesmo sem grandes habilidades políticas, seu carisma conquistava os eleitores, que ainda lembram dele com carinho.

  • Após sua saída da rádio, ninguém soube seu paradeiro, tornando sua história uma verdadeira lenda urbana.

A trajetória de Chicão é uma mistura de paixão pelo futebol, espontaneidade e humor involuntário. Um personagem marcante, que deixou sua marca no esporte e na cultura popular de sua cidade!    

⚾     

Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. 

Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados...

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A PRAÇA DO PREFEITO DA CIDADE


Lendas e Mitos Urbanos

Durante muitos anos, alimentava o desejo de viver uma temporada em um hotel fazenda. Após diversas pesquisas em sites especializados, encontrei um local que parecia atender exatamente às nossas expectativas. Fizemos as malas e partimos rumo a uma cidadezinha remota, em busca de nosso destino.

À medida que o cenário se desenrolava diante de nossos olhos, seguíamos atentamente o GPS, garantindo que estávamos no caminho certo. Algumas horas depois, a voz metálica nos orientou: “Siga pela estrada de terra”. O aviso trouxe um curioso ar de antecipação, como se algo inesperado nos aguardasse.

Foi então que, ao lado da estrada, surgiu um menino trajando apenas um calção, segurando uma vara de pescar. Paramos e perguntamos:
– Onde fica o Hotel Fazenda chamado O Último Berro?
– Sei não, seu moço. Só vou pescar no rio ali adiante – respondeu com desinteresse.
– Não tem por aqui um hotel antigo que hospeda pessoas? – insisti.
– Ospeida? O que é isso? Não sei não. Só vou pescar e levar os peixes lá pra dona do casarão. Vocês vão lá? Tudo lá é mal-assombrado. Meu pai trabalhou lá e ficou todo quebrado, diz que saiu correndo com medo do fantasma do antigo dono. Naquele tempo, o tal coronel Biguá Dente de Ouro mandava em tudo e possuía muitos escravos. Agora meu pai trabalha na oficina ali, perto de onde eu moro.

A conversa deixou uma sensação inquietante no ar, mas seguimos o trajeto. Encontrar o local revelou-se uma tarefa difícil; tudo parecia deserto e envolto em uma atmosfera de estranheza. Seria mesmo assombrado?

Antes de chegar, cruzamos uma pequena propriedade com uma porteira peculiar: apenas dois mourões sem a parte móvel que a sustentava. No topo de um deles, uma placa desgastada indicava que ali funcionava uma oficina de conserto de carros – certamente do pai do menino. A cena era tão singular que decidi fotografá-la. Contudo, ao me aproximar, um cão enorme correu em minha direção, feroz. Não tive alternativa senão retornar ao carro apressado, deixando a foto para trás. Mesmo assim, as palavras da placa ficaram gravadas em minha memória.

Mais adiante, passamos por uma pracinha minúscula, quase esquecida pelo tempo. Ali, uma outra placa destoava completamente de qualquer padrão:

"Proibido jogá lixo nesce local. Multa di R$ 500,00. Por ordem do sinhor prefeito."

A escrita grotescamente errada era intrigante e despertava um misto de curiosidade e desconforto. Alguém teria deixado aquela placa propositalmente, como um aviso ou brincadeira macabra? O mistério apenas crescia, fazendo aquele lugar parecer ainda mais inusitado.

Ao finalmente chegarmos ao casarão/hotel, a inquietação continuava. Conversando com uma funcionária, perguntei sobre a propriedade e as curiosas placas que havíamos encontrado pelo caminho. Ela respondeu:
– Ah, aquele era o lugar onde o Coronel Dente de Ouro maltratava os escravizados. Vocês viram o Dente? Dizem que é ele quem vem assustar os clientes à noite. O Coronel morreu há anos, mas as histórias dizem que ele e o neto aparecem em noites de lua cheia, com aquele sorriso sinistro e o brilho do dente refletindo. Foi assim que o carro do neto caiu na ribanceira, e ele também morreu... Lá não resta mais ninguém.

 Nota do Autor

Lendas e mitos urbanos são pequenas histórias de caráter fabuloso ou sensacionalista, muitas vezes com elementos de mistério ou horror. Amplamente divulgadas pela tradição oral, constituem um tipo de folclore moderno que mistura realidade e fantasia, deixando sempre uma dúvida no ar: até onde é verdade, e onde começa a imaginação?


Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

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O Cairo: A Joia do Oriente Situada no coração das rotas entre Ásia, África e Europa, a cidade do Cairo é um verdadeiro tesouro do Oriente. ...