quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

UMA DESPEDIDA SOB O LUAR E A TEMPESTADE

UM RELÂMPAGO RASGOU O CÉU

UMA HOMENAGEM AO MEU AVÔ ITALIANO - O TONELLA.


Era uma noite escaldante de verão. A lua cheia lançava sua luz prateada sobre a janela aberta daquele ranchinho, já castigado pelo tempo. O vento começou a soprar forte, anunciando a chegada de uma tempestade, e os estalos da madeira misturavam-se ao som dos trovões distantes.

No interior do quarto simples, sobre um colchão de palha sem nenhuma coberta, repousava um velho caboclo. O rangido da janela contra a parede de taipa ecoava pelo espaço, fazendo o reboco se desprender e se espalhar pelo chão de terra batida. Cada ruído despertava memórias de um tempo que parecia tão distante, mas que ainda ardia em seu peito.

Um relâmpago rasgou o céu e, por um breve instante, iluminou seu rosto marcado pelo tempo. As rugas contavam histórias de luta, de dias árduos sob o sol, de noites frias nas campinas. A idade pesava sobre seu corpo, suas pernas já não tinham o vigor de antes, mas sua mente permanecia lúcida, vagando entre lembranças que se recusavam a partir.

Mergulhado no passado, ele revivia os dias de vaqueiro—tempos que hoje são apenas poeira levada pelo vento. Seus olhos, marejados de saudade, fitavam o nada enquanto resgatava imagens de companheiros que compartilharam sua jornada, de laços forjados na dureza da lida. Gostava daquela vida. Amava sentir a brisa da manhã e o calor do gado selvagem em movimento, sua viola sempre a postos para entoar versos que nasciam do coração.

No canto do quarto, sob os pés de um cachorro magro—seu último companheiro de solidão—jaziam as cordas emudecidas da velha viola. O tempo parecia se curvar diante de suas recordações quando, de repente, um som do lado de fora o fez despertar: o trotar de um cavalo. Não era um simples ruído; era um chamado.

Uma força misteriosa começou a elevá-lo. Seu corpo frágil desprendia-se da cama como se fosse guiado por algo invisível. Uma sonolência inebriante o tomou, mas, ao mesmo tempo, sentiu uma leveza inexplicável. Flutuou até a porta, e com um esforço suave, conseguiu abri-la.

O que viu do lado de fora o deixou sem fôlego. A tempestade havia se dissipado, dando lugar a um dia radiante. O céu azul, pontuado por nuvens brancas, estendia-se infinitamente. Ali, entre as brisas que dançavam, ele avistou a alma de um velho companheiro: seu cavalo Pingo. O corcel, outrora destemido, havia sido ceifado por uma chifrada em plena perseguição a um boi. Agora, surgia diante dele transformado, altivo, alado, exalando bafos que se transformavam em flocos de neve no ar.

Pingo relinchou e, com um movimento de cabeça, convidou-o a montar. O velho caboclo não hesitou. Ao se aproximar do magnífico animal, sentiu seu corpo rejuvenescer, transformando-se novamente em um menino. Com a mesma alegria de outrora, saltou para o dorso do cavalo e, juntos, partiram rumo ao passado.

Voaram sobre paisagens familiares, sobre aquelas boiadas que tantas vezes conduziu. Em um rasante, viu as terras onde bravamente percorreu sob o sol abrasador, sob chuvas torrenciais, sob ventos impiedosos. Estava novamente inteiro, radiante.

Em meio à euforia, pediu a Pingo que pousasse diante de sua antiga escola, sob a sombra da velha paineira. Desceu do cavalo, recostou-se contra o tronco frondoso e, com um último suspiro, fechou os olhos para sempre.

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 Toninho Vendramini

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domingo, 25 de janeiro de 2026

TONINHO VENDRAMINI - UM CAMINHANTE DAS PALAVRAS


A literatura sempre foi mais que expressão: é travessia. E foi nesse espírito que iniciei minha jornada como escritor, movido por inquietações silenciosas e pela vontade de dar voz ao que pulsa no invisível. Desde os primeiros passos em antologias até a publicação de obras autorais, cada página escrita é um reflexo da minha busca por sentido, beleza e verdade.

Primeiros Passos: A Antologia “Cidade”

Em 2010, dei meu primeiro passo no universo literário ao participar da antologia Cidade, publicada pela Word Press. Embora não fosse uma obra individual, estar entre autores consagrados foi um marco simbólico — uma estreia que me apresentou ao calor dos encontros literários e à vibração dos saraus.

O lançamento ocorreu no II Encontro de Poetas, em Salto-SP, no dia 9 de outubro de 2010. Ali, sob o céu aberto da Praça do Memorial do Tietê, autografei exemplares ao lado de poetas vindos de diversas partes do Brasil. Foi um momento de celebração e pertencimento.

Ainda em dezembro daquele ano, recebi uma edição especial de agendinhas de bolso para 2011, onde meu nome aparecia no rodapé das páginas de quintas e sextas-feiras — uma delicada forma de divulgação que me trouxe alegria e motivação para seguir escrevendo.

O Primeiro Livro Solo: Vozes no Silêncio da Noite

Em abril de 2011, comecei a preparar meu primeiro livro solo, Vozes no Silêncio da Noite, lançado em fevereiro de 2012. A obra nasceu da necessidade de aprofundar temas que me habitavam e de construir uma narrativa mais íntima e autoral. Foi um processo intenso, marcado por descobertas e revisões profundas.

No final do livro, deixei registrada uma reflexão que sintetiza bem essa travessia:

 Um Convite à Curiosidade

Cada livro, cada participação, cada encontro literário é uma peça de um mosaico que ainda está sendo formado. As fotos dos lançamentos — que guardo com carinho — são testemunhos visuais dessa caminhada. E há muito mais por vir.

Se você chegou até aqui, talvez esteja pronto para descobrir o que há nas entrelinhas. 


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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O DIABO E AS MULHERES DA TECELAGEM JAPY


Corria o ano de 1958 no qual o Brasil tornou-se campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e, como muitos outros, acompanhamos a narração do jogo pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema, mas nesse dia, “torcia pelo Brasil”.

No auge do segundo tempo, num avanço do Pelé, a voz do locutor “sumiu”. Foi uma loucura! As pessoas gritavam para o Serafim “acertar o rádio”; com a gritaria, não sabia se aumentava o volume ou servia os famosos “rabo-de-galo” (mistura de pinga com fernet); ele, inclusive, estava “tão-alto” que já não cobrava mais nada pelos petiscos que comíamos e as bebidas dos mais velhos sorvidos a cada gol do Brasil, naquele dia memorável.

Após o término do jogo, subi na carroceria de um caminhão que passava pela rua lotada de alegres pessoas e rodamos pela cidade afora, festejando a conquista, chegando em casa tarde da noite, para o desespero de meus pais.


No dia seguinte fui até o botequim para saber das novidades que ainda repercutiam sobre o jogo, pois o Serafim era o repórter da rua: sabia de tudo o que acontecia na cidade. Ouvi o português contando que o Diabo havia atacado algumas mulheres da Tecelagem Japy, que ficava lá pelas bandas da Vila Arens.

O fato tomou enorme proporção e era assunto em todos os lugares da cidade, de tal forma que foi noticiada até no jornal, dando conta de uma situação sinistra, assustando a população; fato que ocasionou uma investigação pelo delegado Joaquim Linguiça, que não constatou nada de anormal no local do “ataque” do Diabo: um pequeno capão de mato por onde as mulheres caminhava até chegar ao portão da Tecelagem.

A rádio local noticiava o episódio, entre um programa e outro, estranhando o fato do “Doutô Delegado”, não ter resolvido o caso. Passada uma semana, o assunto voltou à baila; o Diabo havia atacado outra vez e, agora, com relato detalhado das trabalhadoras da tecelagem: que ele se vestia de vermelho e rodopiava no ar uma capa preta esvoaçante, e seu rosto, com uma aparência horrível, também soltava urros impressionantes, assustando a mulherada, que até urinavam nas calças.

Serafim estava empolgado com o assunto e todos iam ao seu boteco saber dos detalhes. Sim, porque ele incrementava as notícias da rádio que ele ouvia sem cessar. Falava que a mulherada estava indo trabalhar, acompanhada de seus maridos e filhos, porque, nesse tipo de fábrica, a mão-de-obra era constituída, em sua maioria, só de mulheres. O contingente maior era de senhoras com muito tempo de serviço; eram hábeis teceloas, porém, com o decorrer da idade, não produziam mais o necessário, preocupando o dono da fábrica, de nacionalidade turca, chamado Salim.

Dentro da fábrica, o gerente “Seu Jorge”, não tinha mais como segurar a situação, as senhoras não queriam mais vir trabalhar. Com muito custo foi preciso a intervenção da Administração, que era o popular “Gerubal Pascoal-Chefe do Pessoal”, que conseguiu persuadi-las, alegando que ia providenciar uma proteção policial, lá na trilha do mato, que traria as mulheres até o portão da Tecelagem.

Nos dias que se seguiram, a rotina da fábrica estava completamente alterada; uma vez por causa do Diabo, outra, pela baixa produção, pois o Salim não conseguia atender aos pedidos de vendas dos tecidos. Então ele chamou o gerente Jorge e o Gerubal para uma reunião especial e falou:

·         Eu quero esse assunto da baixa produção resolvido; eu já estou cansado de falar, não dá para ficar mais segurando essas senhoras que não produzem o suficiente; é melhor aproveitar esse negócio do Diabo que não sei de onde surgiu, e pressioná-las a pedir demissão. Gerubal pediu a palavra e falou:

·         Seu Salim, eu já fiz isso e elas não querem perder a indenização que é dobrada; quem tem mais de dez anos de casa, recebe vinte pela Lei. Furioso Salim disse: -

·         Eu não tenho dinheiro para pagar as contas; vocês têm que resolver o assunto, senão eu mando embora vocês, que fica mais barato.

Depois dessa conversa, no dia seguinte, o Diabo voltou a atacar e o Turco Salim estava gostando do assunto, porque algumas delas não vinham mais trabalhar; até telefonou para a rádio e disse que não precisava ficar anunciando para todo mundo esse negócio do Diabo, era um assunto interno que ele ia resolver de um modo bem satisfatório.

A estação de rádio parou de noticiar, mas, na polícia, o assunto estava fervendo, porque pessoas das famílias tinham ido dar queixa, e já no dia seguinte, dois guardas foram destacados pelo Delegado, para ficarem de prontidão na boca da mata, dando guarida para a mulherada. Lá pelas quatro e trinta da madrugada, um dos guardas que acompanhava o pessoal escutou um terrível urro que veio lá do meio do mato: “é o Diabo, gritou a mulher que puxava a fila”. Foi um corre-corre danado... A mulherada acompanhada de um dos guardas conseguiu chegar até o portão; algumas “molhadas”, outras perderam os chinelos, o almoço que traziam nas marmitas foi perdido pela trilha. O outro guarda, que era um valentão, foi à procura do Diabo no meio do mato e, ao ouvir aquele urro, deu no pé e foi para a portaria da fábrica.

Os guardas chegaram da fábrica lá na Delegacia e relataram tudo ao “Doutô-Linguiça”, que, louco da vida, começou a desatinar, chamando-os de medrosos, incompetentes e outras coisas mais.

·         “Mais doutô”, eu não vi o Diabo, só escutei o urro. O outro já falou que viu, ele estava de vermelho, botas pretas e parecia ter umas orelhas compridas e cabelos encaracolados. Acho que era isso, disse, mas estava meio escuro, pois a entrada do turno da manhã começava às cinco horas.

Joaquim Linguiça estava muito pressionado pelo jornal e a rádio, que não noticiavam outra coisa, que não fosse o ataque do Diabo na mulherada da Tecelagem Japy. Na delegacia, chamou um jagunço que prestava serviços ao Delegado, para “casos especiais”, era um mulato grande e forte. Joaquim o chamou no canto da porta, fechou a janela e disse:

·         Ô cabra! Quero esse assunto resolvido. Você vai lá e, se não puder com o bicho, dê uns tiros para o alto para espantá-lo. Cheio de coragem, o destemido Epaminondas municiou-se de dois revólveres trinta e oito, colocou-os na cinta e foi para o local, “ficar de tocaia”, fazendo isso todos os dias na hora da entrada do pessoal.

Lá na fábrica, o turco Salim vibrava com as notícias de que as senhoras não vinham mais trabalhar e outras pediram demissão e até mudaram de cidade. Chamou, então, o Gerubal e falou:

·         Gerubal, esse Diabo tem trazido sorte para nós.

·         É mesmo, Seu Salim, já tem doze que pediram as contas e mais umas vinte faltando.

·         Mas Gerubal, como é que esse negócio de Diabo apareceu por aqui?

·         Eu não sei, patrão, está bom assim, não é mesmo? Agora não vai mais me mandar embora, não é?

·         Claro que não, disse Salim, só precisamos que mais umas trinta peçam demissão.

·         Tudo isso? Só se o Diabo atacar novamente.

·         É, faça as suas rezas, quem sabe ele lhe ajude, você já está recrutando moças para o lugar das que já foram?

·         Sim, Seu Salim, as mocinhas estão trabalhando e com uma produção muito boa, conforme relatou o seu Jorge.

Salim estava contente, apesar da desgraça e a fama repentina que sua fábrica tomou; o nome da Japy tinha chegado até nas cidades vizinhas e a notícia chegou até ser veiculada na capital São Paulo, em uma estação que só transmitia novelas.

Passada uma semana, o Diabo não atacava mais; parecia que tudo estava voltando à calma, havendo até disputas das jovens mocinhas para o lugar daquelas que tinham pedido demissão. Algumas daquelas que não vieram mais, com a calmaria, começaram a voltar, preocupando novamente o Sr. Salim.

Chamou o Gerubal e pediu providências, dizendo que se elas voltassem, era para dizer que o diabo poderia atacá-las, porque ele havia marcado a fisionomia... E assim, se viu novamente pressionado pelo patrão.

Terminado o expediente, foi para a casa muito preocupado e, durante algumas noites não dormiu direito, porém, sabia que ele mais o Seu Jorge tinha que fazer alguma coisa.

Uma bela manhã, a fila da volta das antigas empregadas havia aumentado e, no dia seguinte, o Diabo voltou a atacar, mas o Epaminondas estava na espreita, esperando o lazarento. E foi quando o maldito pulou do mato, envolto em sua capa e soltando aqueles urros de enlouquecer qualquer um. Epaminondas soltou um palavrão e falou:

·         Seu satanás dos infernos, venha aqui me pegar, você só ataca as mulheres, chegue aqui que sou cabra-macho e de saco roxo. Os dois ficaram frente a frente; daí um estampido foi ouvido e o Diabo caiu no chão, não se mexia! Todos que escutaram o som do projétil, principalmente na fábrica, correram para o local e constataram uma cena terrível: teria morrido? Epaminondas, ainda com o revólver na mão, pediu que ninguém chegasse perto e mandou alguém telefonar para o Joaquim Linguiça vir o mais rápido possível, para examinar o corpo do infeliz. Lá chegando, o Delegado notou que uma máscara envolvendo seu rosto estava meio solta.

Com as mãos trêmulas, hesitou em retirá-la: quem seria aquela pessoa travestida de Diabo? Pensou nos seus trinta e cinco anos de carreira, onde nenhum fato daquela natureza tinha acontecido, era um momento de júbilo para Joaquim. Sua velha memória começou a divagar, pensou na promoção que o fato poderia lhe dar, conseguindo uma aposentadoria com vencimentos mais altos.

Num repente, pediu que chamassem a reportagem do jornal, queria ter o privilégio de sair na foto e a manchete poderia lhe render tudo o que pensou naqueles minutos. Então o que se passou foi inenarrável!

Para o espanto de todos, foi constatado pelo velho policial, que o Diabo era o popularíssimo Gerubal Pascoal, Chefe do Pessoal.

O povo todo da cidade, por vários dias, ficou comentando a tragédia. A Polícia, capitaneada pelo glorioso Joaquim Linguiça, foi até a casa do Gerubal interrogar a mulher. Ela acabou confessando que fez a fantasia do Diabo e comprou aquela máscara que cobria o rosto em uma loja da cidade, dizendo que ele estava fazendo aquilo, porque tinha família para sustentar e muito receio de ser mandado embora pelo Sr. Salim.

O empresário ficou apavorado e fugiu para a Turquia, pois, de certa maneira, foi o mentor intelectual do caso; deixou no seu lugar o filho, que não tinha experiência nenhuma com o negócio, e faliu rapidamente, ficando muita gente sem receber nenhum centavo da empresa.

Hoje em dia, o local está abandonado; depois da falência, um supermercado se instalou e logo também faliu; depois veio uma rede de grande marca que, também, não teve sucesso; depois uma concessionária que também não deu certo. Todos os empresários que tiveram seus negócios ali diziam que, nas manhãs frias de inverno, aparecia o fantasma do Gerubal, urrando e pedindo o dinheiro de sua indenização.

Esse caso virou uma lenda na cidade e até hoje, pelos cantos escuros, se fala da história do Diabo que atacava as mulheres da Tecelagem da Japy.

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 Contos com um toque de magia

Histórias onde o impossível se torna íntimo.

Onde o tempo dobra, os objetos falam, e o coração é bússola.


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO CAUDILHO: ANATOMIA DE UM PODER QUE APODRECEU

 

CRÔNICA DE 

UM PODER 

EM RUÍNAS



Introdução

Todo caudilho acredita ser eterno.
Enquanto governa pelo medo, imagina-se invencível; enquanto o povo sofre, ele se proclama salvador. Mas o poder, quando sustentado pela violência e pela mentira, cobra seu preço — e o faz no silêncio, na solidão e no desespero dos que caem.

Esta é a história do último caudilho.
Não como ele desejava ser lembrado, mas como realmente foi: um homem consumido pelo próprio delírio de grandeza.

A HISTÓRIA DO CAUDILHISMO

O caudilhismo nasce do carisma distorcido e da força bruta. São lideranças políticas autoritárias, geralmente ligadas a setores tradicionais da sociedade — militares, latifundiários, chefes armados — que substituem instituições pelo culto à própria personalidade.

O caudilho não governa: domina.
Suas relações são pessoais, emocionais e profundamente manipuladoras. Ele se mantém no poder pela repetição de mandatos, pela fraude ou pela imposição vitalícia de sua vontade. Onde há caudilho, há silêncio forçado; onde há silêncio, há sofrimento acumulado.

O ÚLTIMO CAUDILHO

Restava apenas uma assinatura chamuscada.
Um pedaço de papel carbonizado repousava entre as cinzas frias da lareira, como um testemunho maldito de um passado que ele tentou apagar.

Por longos segundos, seus olhos permaneceram fixos naquele vestígio. Depois, o corpo pesado começou a se mover em círculos lentos, contornando o tapete desbotado, como um animal encurralado em sua própria jaula.

Afundado em pensamentos, lembrou-se de que aquele documento carregava confissões sombrias: ordens de morte, traições, pactos selados com sangue. Era o retrato fiel de uma vida construída sobre o medo alheio.

Após a fuga desesperada de seu reduto, seguindo caminhos tortuosos e clandestinos, restou-lhe o exílio. Vivendo à sombra, temia mostrar o rosto nas ruas estreitas da pequena cidade onde se refugiara. O terror agora não era mais sua arma — era sua sentença.

Já havia queimado quase todos os registros de seu passado criminoso. Agora desejava apagar o próprio rosto, transformar a identidade, sobreviver anônimo aos poucos dias que ainda lhe restavam.

Mas o passado não aceita ser esquecido.

LOBO NA PELE DE CORDEIRO

Chegara ao poder travestido de esperança.
Apresentou-se como caudilho carismático, mas governou como ditador. Proclamou-se salvador da pátria enquanto aprofundava a miséria que dizia combater.

Sem planejamento, sem projeto, sustentou-se pela violência. Eliminou opositores, silenciou vozes, transformou o medo em política de Estado. Cada execução fortalecia sua ilusão de soberania; cada mentira alimentava seu trono frágil.

O poder, porém, nunca foi real — era apenas imposto.

O POEMA DO SOFRIMENTO DE UM POVO

Ostentação e continuidade forçada
Manipulação dos meios de comunicação
Propaganda repetida até virar verdade
Mentiras servidas ao povo oprimido

Migalhas fingindo alimento
Olhos fundos, mãos vazias
Gente sofrida
Vozes enterradas no silêncio

Caminhos sem destino
Passos errantes
Descompassos de uma nação ferida

A LIBERTAÇÃO

Então, nasceu um novo dia.

Um canto de esperança ecoou pelas montanhas, embalado pelo vento livre. As estradas se abriram para as forças que vinham em nome da paz. As matas, antes murchas pela opressão, despertaram orvalhadas, recuperando o verde esquecido.

O povo respirava novamente.
A história mudava de rumo.

A MORTE NO EXÍLIO

Sabendo que o cerco se fechava, chamou o único ordenança que lhe restara fiel na fuga. Ordenou que recolhesse o fragmento de papel que escapara das chamas.

Com mãos trêmulas, soprou as cinzas.
Leu as últimas linhas. Reconheceu sua assinatura.

Ali estava a prova final de sua existência — e de seus crimes.

Amassou o papel, levou-o à boca e engoliu-o num gesto desesperado, como se pudesse, assim, apagar a própria história. Um soluço seco interrompeu sua respiração. O corpo tombou, derrotado não por soldados, mas pelo peso de seus atos.

Naquele instante, extinguia-se o último resquício de um poder manchado.
O caudilho caía — e com ele, sua mentira.

Meu Blog 

Vendramini Letras não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ALÉM DO HORIZONTE VERMELHO

 

O horizonte é mais do que um espetáculo visual: é um convite à reflexão. Cada pôr do sol carrega consigo mistérios, cores e significados que despertam emoções profundas. Ao contemplar esse cenário, somos levados a viajar para dentro de nós mesmos, em busca de paz, esperança e sentido para a existência.

Quantas pessoas já se perderam nesse panorama? São incontáveis. Alguns o observam do alto de uma montanha, outros à beira-mar, em viagens de carro, avião ou navio, ou ainda em lugares insólitos e indescritíveis.

Quando temos a oportunidade de contemplá-lo, nossa mente mergulha em uma retrospectiva íntima, vagueando por paisagens interiores em busca de paz — uma busca incessante, mas nem sempre alcançada.

Os olhos semicerrados percorrem esses cenários inenarráveis, como se estivéssemos em uma cabra-cega, tateando emoções. E por mais que tentemos abri-los, a carga de sentimentos nos impede, tamanha é a intensidade do momento.

Cada um pinta o seu próprio quadro. As cores variam, mas sempre predominam o branco da alma, o vermelho da vida e o azul do céu.

Qual será a força desse segredo, tão cheio de mistérios, que se esconde por trás de tamanha beleza?

Cabe a cada um imaginar e satisfazer seus desejos, traduzindo em sonhos e lutas a busca pela sobrevivência, pelo bem-estar dos que amamos e, sobretudo, pela humanidade. Somos responsáveis por moldar o mundo com nossas ações, na esperança de torná-lo melhor.

Alguns enxergam nesse horizonte o chamado para cuidar dos rios e das matas, celebrando a riqueza da fauna e da flora. Outros desejam que a paz entre os homens seja duradoura e que os amores sejam eternos. Fazemos votos fervorosos para que a compreensão entre os povos supere as diferenças, evitando guerras e mortes inocentes — sempre sob o pano de fundo do vermelho da dor.

Mas tudo se transforma quando nossos olhos se fixam nesse horizonte em busca de novas cores e significados. A natureza revela sua força, suavizando o céu e nos dando coragem para enfrentar o cotidiano. Nesse devaneio, a mente explode em pensamentos positivos, até que o azul da noite nos envolve, trazendo paz, leveza e descanso ao corpo e à alma.

Por mais que tentemos descrevê-lo, o espetáculo permanece indescritível. É o milagre dos matizes do crepúsculo, uma maravilha que deslumbra a visão e evoca a fé no superior.

Assim, mesmo diante da escuridão, vislumbramos a luz no fim do túnel. O sol, ainda que em seu ciclo derradeiro no horizonte, insiste em jorrar luminosidade, abrindo um caminho de esperança para que possamos seguir com serenidade, coerência e harmonia.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais 

O DIA EM QUE O PATRIARCA PERDEU ATÉ AS CALÇAS

  Esse “causo” — que a família jura ser verdade, embora cada narrador acrescente um detalhe — aconteceu numa pequena cidade do interior de S...