Há lembranças que não apenas resistem ao tempo, mas o transcendem — guardadas em cantos esquecidos, costuradas por afetos e reencontradas entre quinquilharias e silêncios. Neste texto, convido você a embarcar numa viagem por memórias que repousam no banco traseiro de um antigo Ford Bigode, sob o cuidado de um embornal que carrega histórias, sons e imagens de uma época que moldou tantas vidas. É uma celebração daquilo que é imutável, mesmo quando o tempo insiste em passar.
Ao assistir a um noticiário televisivo que conclamava o público a prestigiar a inauguração de um museu de carros antigos, minha mente começou a divagar por caminhos ainda não explorados. Entrei numa máquina do tempo, guiado pelas trilhas da memória, entre cenários que misturavam, por acaso, uma obra divina com personagens de ficção e realidade. Pensei no que é eterno — e na inevitável passagem do tempo.
Na antiga garagem da família, onde repousavam itens em desuso, encontrei uma verdadeira relíquia: o imponente e valente Ford Bigode que pertencera ao meu avô Tonella. Ali, entre quinquilharias amontoadas, ele descansava sob um encerado ornamentado por teias de aranha. Retirei a cobertura e, ao observar seu interior com atenção, recordei um dia da infância em que, sob a repreensão dos meus pais, escondi no banco traseiro pequenas relíquias tão características dos meninos daquela época. Perguntei-me, com inquietude, se ainda estariam lá.
Aproximei-me da junção entre o banco de couro e o encosto. Com cautela, enfiei a mão, apalpando o espaço até sentir aquele tesouro guardado — ainda lá, protegido pelo querido embornal.
Explorando seu interior, ouvi o farfalhar dos papéis. Trouxe-os à luz do tempo e, com a alegria de menino, contemplei aquelas preciosidades. No primeiro pacote, amarrado com barbante, havia figurinhas de jogadores de futebol. O destaque era Baltazar, herói corintiano do Campeonato Paulista do IV Centenário, cuja figurinha carimbada era um verdadeiro luxo, raríssima. No segundo pacote, imagens de artistas de cinema: primeiro, Frank Sinatra, os “olhos azuis” da célebre canção My Way. Depois, Marilyn Monroe, a musa encantadora que habitava os sonhos inenarráveis da juventude daquela era.
Enquanto limpava o embornal, lembrei-me com ternura de sua origem: havia sido costurado pelas mãos hábeis de minha mãe, feito de retalhos mágicos, pois ela era uma costureira excepcional.
Foram lembranças de um tempo que não volta mais. E assim, entre fios e memórias, vamos tecendo as cores da nossa vida.
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Antonio Toninho Vendramini Neto
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