sexta-feira, 13 de março de 2026

A DEUSA VENERADA: BELEZA E ETERNIDADE



Entre os antigos, foi uma das divindades mais veneradas, sobretudo na cidade de Pafos, cujo templo era admirado por sua grandiosidade. Seu olhar vago era cultuado como ideal de beleza.

A deusa possui inúmeras formas de representação artística, desde a clássica greco-romana até as modernas, passando pelo esplendor renascentista.

De anatomia divinal, era considerada pelos gregos e romanos como a deusa do erotismo, da beleza e do amor. 

Os romanos, por sua vez, viam-se como descendentes dela, através de Enéias — filho de Vênus e do mortal Anquises — fundador mítico da raça romana.

Na epopeia Os Lusíadas, Luís de Camões apresenta a deusa co
mo a principal apoiadora dos heróis portugueses, reforçando sua aura de poder e fascínio.

📝 Poema
Por: Antonio Vendramini Neto

Mito da antiguidade greco-romana,
Concebida pelos deuses Júpiter e Dione.

Nasceu dentro de uma concha de madrepérola,
Com suprema beleza, encanto e amor.

Doce olhar vago de estupenda beleza feminina.
Anatomia divina esculpida em mármore.

Venerada na antiguidade por nobres e guerreiros...
Conhecida como Deusa do erotismo,
Caminhava entre nuvens azuladas,

Flutuava nas plumas em forma de carruagem,
Puxada por elegantes cisnes brancos.

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Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia. 

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais
 

quarta-feira, 11 de março de 2026

PADROEIRO DE UMA NAÇÃO


Diz uma lenda que, por volta do século dois, uma princesa do país Líbio, incrustado no continente africano, seria dada como oferenda a um dragão que atemorizava a cidade. Todos os outros recursos para combatê-lo foram feitos à custa de muitos sacrifícios, não surtindo resultados satisfatórios, uma vez que seus ataques mortíferos vinham dizimando a população. 

 Essa proposta foi alardeada ao povo por um dos súditos do rei, informando que essa alternativa saciaria a sede da fera, em razão de uma visão na noite anterior, como a mais apropriada, e assim, a população seria salva por mais algum tempo. 

 O rei não achou nenhuma graça da situação e não queria perder a sua bela filha; lembrou, então, que, em suas fileiras de soldados, havia um guerreiro de nome Jorge, homem de sua inteira confiança e ferrenho admirador da princesa, e tudo faria por ela. Foi, então, escalado, no time do rei, para aniquilar o monstro que incomodava o povo e que vivia próximo a uma caverna e, à noite, lá se escondia. Jorge chegou ao local com um ar de quem não queria nada; pesquisou a situação, analisou sua estratégia guerreira, procurando um lugar para atacar e depois defender-se do animal. Senhor de si, montou em seu cavalo e com um escudo sobre o peito nas cores branco, preto, e de contornos vermelhos, entrou por uma abertura da caverna e foi logo “atiçando” o monstro com a sua espada pontiaguda, convidando-o a sair. 

 Fala a lenda que a luta foi infernal! O vento assoprado por suas narinas misturava-se com as labaredas que soltava pela boca e iam sendo lançadas por onde o guerreiro Jorge estava se protegendo. 

Mas, não deu outra: Jorge avançou mais um pouco e, meio sorrateiro, chegou à retaguarda do bicho e fincou sua lança, ferindo-o mortalmente. 

 Muito se fala de animais cuspidores de fogo, mas sem dúvida o mais famoso é o dragão. E, na escalada de emoções do povo daquela época, surgiu o guerreiro Jorge que, depois de salvar a donzela daquela situação de morte, entrou para a história como um símbolo de coragem, acabando com o monstro, exibindo toda a sua efervescência de um nobre lutador por amor à princesa, e que, por sua bravura e tenacidade, acabou virando um santo. 

 Desde então, passou a ser adotado como um ideal de coragem e abnegação. Fato que é transportado até os nossos dias, onde é tido como o padroeiro do nosso glorificado e sagrado time de futebol, chamado Corinthians, a paixão de mais de trinta milhões de brasileiros. Acredita-se que a devoção e a fidelidade à princesa fez com que se tornasse venerado por muitas pessoas; e o nosso ‘coringão’ adotou o termo fiel, para expressar a paixão de uma nação. Em 2009, a chegada do Ronaldo foi um baluarte na conquista do Paulistão e da Copa do Brasil; mas não conseguiu ajudar, no ano seguinte, conquistar a sonhada ‘Libertadores’. 

 Após sua aposentadoria, tornou-se um torcedor fanático pelo ‘timão’, sendo considerado por alguns, como um “guerreiro, discípulo de São Jorge”, entrando para a história do clube também como um embaixador, levando o nome do Corinthians aos quatro cantos do mundo. Os mais alucinados disseram que viram Ronaldo, após os jogos, em noites de conquistas, cavalgar no cavalo branco de São Jorge, pelas ruas do Parque, saudando as estátuas de Claudio, Luizinho, Baltazar, Idário, Gilmar e outros craques do passado e acenando para a imensa nação de torcedores, que foram lá reverenciá-lo.


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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

PRATO INDIGESTO


CANIBALISMO

O Governo das Ilhas Fiji, na Oceania, apresentou um pedido oficial de desculpas por uma refeição feita há mais de 150 anos. 

O prato principal foi o missionário inglês Thomas Baker, morto pelo povo do vilarejo de Navatusia por ter retirado um pente do cabelo do chefe da comunidade. 

Até hoje é proibido tocar a cabeça do chefe, mas os fijianos estão arrependidos porque acreditam ter sido amaldiçoados  desde o fatídico  episódio cometido por seus ancestrais. Baker, que converteu muitos nativos ao cristianismo, foi o único europeu devorado nas Ilhas Fiji, que já foram conhecidas pelo hábitos canibais de suas tribos. 

Em relatos da época, um dos homens que se esbaldaram com o corpo do reverendo teria dito:" 

Nós o comemos todinho. Só faltaram as botas" Uma delas é parte do acervo do museu da capital, Suva.
💥
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UMA NOITE INESQUECIVEL EM MILÃO

A NOITE DAS ZANZARAS



Em uma de nossas viagens pela Europa, enquanto vivíamos na Itália, tivemos o prazer de nos hospedar em um belo hotel nos arredores de Milão (Milano). Estávamos um pouco afastados do centro, mas o local oferecia uma tranquilidade única.

Uma noite, ao regressarmos ao hotel, deparamos com uma aglomeração inesperada: artistas de um festival internacional da canção estavam hospedados ali. Na manhã anterior, já havíamos percebido algo especial — no saguão, ouvia-se uma verdadeira sinfonia de línguas e dialetos. Foi então que soubemos que muitos dos convidados do festival estavam no hotel.

Curiosos, fomos até a recepção e pedimos a programação do evento. Entre os nomes listados, artistas de renome mundial! Na noite anterior, Celine Dion havia se apresentado. Para nossa surpresa, o destaque daquele dia era uma brasileira: Vanessa da Mata. Rapidamente garantimos nossos ingressos para o espetáculo.

Quando chegou a hora de ir, o hotel providenciou um táxi para nos levar. O motorista, um típico italiano — expansivo e cheio de gestos — começou a falar sobre as "zanzaras". No início, achamos que ele se referia a algum tipo de inseto perigoso. Não demorou muito para que fôssemos, literalmente, picados! Era verão, e as "zanzaras", que mais pareciam mosquitos, estavam por toda parte, causando irritação e deixando nossa pele marcada.

Combinamos com o motorista que ele nos buscaria após o show. Durante a apresentação, encontramos muitos brasileiros que viviam na Itália e aproveitamos para trocar impressões sobre a saudade do Brasil. Para nós, que também estávamos fora há bastante tempo, foi um momento emocionante.

Ao final do espetáculo, chamamos nosso motorista novamente. Mas, claro, não escapamos das malditas "zanzaras" durante o trajeto de volta! Ao chegar ao hotel, outro episódio inusitado nos aguardava: no gramado impecável do jardim, um grupo animado jogava bola e, aos gritos, reconhecemos algumas palavras familiares — eram brasileiros!

Descobrimos que aquele grupo era ninguém menos que o Olodum, que se apresentaria no dia seguinte. Animados, conversamos, tiramos fotos (infelizmente não tenho autorização para compartilhar) e observamos o gerente do hotel se aproximando, gesticulando freneticamente, enquanto reclamava em italiano sobre o estrago no gramado e na fachada do hotel — agora carimbada pelas bolas.

Depois da "pelada", o grupo se reuniu no saguão e fomos atrás. Contaram-nos que vinham do Japão, onde outro grupo do Olodum estava se apresentando. Durante a conversa, mais picadas das "zanzaras" nos alcançaram, gerando reações hilárias, que incluíam expressões bem brasileiras como "lazarento" e "fdp". Um deles comentou: "Isso vai dar samba".

Foi aí que as "zanzaras" viraram inspiração! Entre risos e batuques, o Olodum improvisou o samba "A Noite das Zanzaras", que varou madrugada adentro, cheio de palavrões (é verdade), mas memorável.

Essa foi mais uma das situações engraçadas em uma de nossas aventuras pelo mundo!

Curiosidade sobre as zanzaras: Na Itália, "zanzara" é o termo para "mosquito". Durante o verão, especialmente nas regiões mais quentes, esses insetos podem ser um verdadeiro incômodo — conhecidos por suas picadas persistentes e pelo ruído irritante que fazem ao voar. 

A NOITE DAS ZANZARAS

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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terça-feira, 10 de março de 2026

UM ENCONTRO INESQUECIVEL NO CLUBE


NAQUELE SABADO LA NO CLUBE ENCONTREI UM CANTOR FAMOSO

QUEM SERIA? COMO ACONTECEU? 

Naqueles tempos em que eu frequentava a sauna do Clube, cenário habitual dos nossos encontros de sábado à tarde, um episódio especial ficou gravado na memória. O bar do local era nosso ponto de encontro, onde amigos de longa data se reuniam para compartilhar histórias, atualizações e, claro, uma dose generosa de risadas. Sempre acompanhados das famosas "caipirinhas," bebida que é orgulho nacional e tão apreciada mundo afora, nossas tardes eram um verdadeiro alívio da rotina.

Em um sábado específico, notei uma aglomeração próxima ao bar. Intrigado, ainda aguardava o convite dos meus amigos para entrar na roda. Até que um deles chamou:
— Oi, Vendra, venha aqui! É o Altemar Dutra. Ele vai se apresentar hoje à noite no salão de bailes.

Altemar Dutra! O famoso cantor e seresteiro que encantava o Brasil e além com sua voz inconfundível. Não pude conter a empolgação e juntei-me aos demais. Fomos apresentados, e a conversa logo fluiu, recheada de perguntas sobre sua carreira e histórias das viagens que suas canções o levaram a fazer.

Mesmo com o clima descontraído e amistoso, havia quem abusasse um pouco dessa amizade relâmpago. Alguém do grupo pediu que ele nos presenteasse com uma interpretação ao vivo, ali mesmo. E Altemar, com toda a generosidade, atendeu. Sua voz preenchia o ambiente, transportando-nos para outra época, embalada por melodias que falavam de amor, saudade e sonhos.

Foi um momento único, desses que a vida nos dá como presente. Terminamos aquela tarde com a certeza de que estávamos vivendo algo especial, regados por boas bebidas, boa música e, principalmente, boa companhia.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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domingo, 8 de março de 2026

O TEATRO DE JUNDIAI ATRAVÉS DO TEMPO

 

Do Abandono à Revitalização: 
Uma Vitória de Toda Jundiaí.

No final do ano de 2012, recebi da Secretaria Municipal de Cultura uma série de livros relacionados com a nossa cidade, em razão de haver participado do projeto Versos da Primavera de Autores Jundiaienses. O evento, além da publicação de um livro, realizou uma conferência e, em seu clímax, resultou na colocação de cartazes e banners pelas calçadas e parques, ampliando o alcance da literatura na cidade. Foi uma satisfação imensa ver o meu poema Acalanto exibido em forma de banner na Avenida Nove de Julho e no Parque Botânico Eloy Chaves.

Dentre esses livros, alguns relacionados ao Teatro Polytheama despertaram minha atenção especial. Ao desfolhá-los, uma onda de emoção tomou conta de mim: cada imagem era como uma janela para o passado. Lá estavam as fotos do Cine Polytheama na década de 1950, época em que, nas matinês de domingo, assistia filmes em preto e branco, como Gordo e o Magro, Os Três Patetas, e as aventuras de Zorro e seu inseparável amigo, o índio chamado “Tonto”. Tudo era apresentado em episódios, mantendo viva a expectativa para os próximos capítulos e alimentando a paixão pelas aventuras idolatradas pelos meninos da época.

A empolgação durante os filmes era tanta que os mais ousados até atiravam pedras na tela, tentando atingir os inimigos do Zorro, que, em desabalada carreira montado em seu cavalo Silver, percorria as pradarias americanas “caçando” bandidos mal-encarados e índios desgarrados de suas tribos. Anos depois, chegaram as grandes produções cinematográficas em Cinemascope, projetadas em uma tela côncava que proporcionava uma sensação de imersão e efeitos especiais jamais vistos. Foi então que o Cine Polytheama trouxe para Jundiaí clássicos inesquecíveis, como Sansão e Dalila, O Manto Sagrado e O Poderoso Chefão, marcando uma época de ouro do cinema.

Infelizmente, a popularização dos videocassetes tornou mais cômodo assistir aos filmes em casa, provocando o declínio dos cinemas. Em uma tentativa desesperada, passaram a exibir filmes pornográficos, o que levou ao abandono dos espaços. O Polytheama, antes tão vibrante, tornou-se um abrigo para pombas, como se fossem fantasmas do passado protagonizando uma tragédia do presente.

A Luta de Jundiaí pelo Resgate de um Patrimônio


Os jundiaienses sentiram profundamente o abandono do Polytheama, mas não desistiram. Com união e empenho, a cidade conseguiu recuperar esse precioso patrimônio sociocultural. Reinaugurado em dezembro de 1996, o Teatro Polytheama hoje conta com modernos equipamentos de som e luz, além de conforto e segurança para 1326 espectadores distribuídos em plateia, frisas, camarotes e galerias. Mais do que um marco arquitetônico, o Polytheama se tornou um templo de expressão artística, simbolizando o poder da cultura em renascer das cinzas do esquecimento.

Palavras que viajam, sabores que ficam

Meus textos são como malas abertas: cheios de lembranças, ideias e sabores.

Atuei nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (Normas ISO 9001), com experiência como Auditor de Certificação de Sistemas. Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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sábado, 7 de março de 2026

XIXI POR CONTROLE REMOTO

MEDICINA & TECNOLOGIA


Um controle remoto que opera os músculos do esfincter - aqueles que tem a função de segurar o xixi - é a solução encontrada por pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, para pessoas com problemas de incontinência urinaria. 

A partir da remoção de tecidos de outras partes do corpo, os médicos criaram um anel muscular cuja contração é regulada por um pequeno estimulador elétrico semelhante as marcapasso. 

Depois de implantado no corpo do paciente, o esfincter artificial pode ser acionado quando a pessoa quiser ir ao banheiro, via controle remoto. 

"É uma ideia genial", diz Eric Wroclawski, professor de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo. Ele lembra os tratamentos existentes hoje para a incontinência ainda são muito limitados, principalmente para os homens."As vezes se resolve o problema com remédios ou com exercícios. Mas há casos em que a única alternativa é a cirurgia, e essa opção é muito-bem vinda"  

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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O CAUSO DO TREM E O DOCE DE JABUTI

 

Contado por 

Toninho Vendramini

Pois bem, meus amigos(as)... Senta que vou te contar um causo que parece mentira, mas juro que aconteceu — ou pelo menos foi assim que me contaram, e eu acredito. Foi num tempo em que os trens ainda cortavam o interior de São Paulo, cuspindo fumaça e soltando apitos que entravam no ouvido e mexiam com a alma da gente.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

Há tempos, quando os trens ainda cortavam o interior paulista com seus vagões rangentes e apitos que ecoavam na alma, aconteceu um causo que até hoje é lembrado nas rodas de prosa da cidade de Barnabina. Era uma daquelas locomotivas a vapor, cuspindo fumaça que se espalhava por léguas, e que levava gente e histórias por trilhos esquecidos.

Naquele dia, o vagão de primeira classe — que de primeira só tinha o nome — estava mais para terceira, com bancos de madeira gastos e um cheiro que misturava poeira, suor e fumo. Sentado à frente, num desses bancos, estava um sujeito de aparência bravia, que chamaremos de Zé Grandão. Usava um chapéu de peão ensebado, suava como chaleira no fogo e fumava um picadão enrolado na palha que guardava num bolsinho da cueca. O fumo vinha das bandas de Minas, e ele o afinava com um canivete que mais parecia uma peixeira.

Zé Grandão era grande, forte e de modos rudes. Atrás dele, uma senhora de meia idade segurava firme uma sacola que exalava um cheiro bom, daqueles que despertam lembranças de infância. O aroma atiçava a fome do valentão, que lançava olhares de cão danado para a sacola, como se quisesse arrancá-la das mãos da mulher.

Foi então que surgiu o rapaz do carrinho de lanches, empurrando seu arsenal de balas, bombons e quitutes. Zé Grandão, faminto e desajeitado, levantou-se para ver o que havia, tropeçou no carrinho e espalhou tudo pelo corredor. Sem cerimônia, começou a recolher os doces e enfiá-los nos bolsos, sem pagar um tostão.

A confusão se armou. O rapaz correu até o chefe do trem, que chegou com seu boné da companhia ferroviária, mas ao ver o tamanho do Zé, encolheu-se como cachorro que levou pontapé. Os passageiros torciam pelo chefe, mas Zé Grandão o agarrou pelo pescoço e o trancou no minúsculo sanitário do vagão, onde o pobre berrava por socorro.

O maquinista, ouvindo a gritaria, deixou o ajudante na locomotiva e correu até o telegrafista. Mandou um telegrama urgente para a próxima estação, avisando da confusão. O trem parou na pequena cidade de Barnabina — batizada em homenagem à esposa do fundador, o senhor Barnabé.

Ao saber do tumulto, Barnabé foi até a estação, mas mal pisou no chão e já levou um rabo de arraia do Zé Grandão, que se gabava de ter secado uma garrafa de pinga durante a viagem. Com medo, Barnabé resolveu agradar o valentão e o convidou para ser delegado da cidade, cargo vago desde que o anterior havia tombado num confronto com jagunços.

Zé Grandão aceitou. Tirou dos bolsos os doces que havia surrupiado e começou a distribuí-los, adoçando os ânimos e conquistando os moradores. Virou figura popular, botou ordem na cidade e se gabava de visitar as casas para receber guloseimas das senhoras, que o temiam e o agradavam.

Foi numa dessas visitas que conheceu o doce de jabuti — não o animal, mas uma geleia de jabuticaba feita por Dona Maroca. Bastava uma colherada para acalmar o valentão. Ele mesmo batizou a iguaria, dizendo que aquele doce era mais valente que ele.

🍇 Receita simbólica do Doce de Jabuti (geleia de jabuticaba)

• 1 kg de jabuticabas maduras

• 500 g de açúcar cristal

• Suco de 1 limão

Modo de preparo: Lave bem as jabuticabas e leve ao fogo com o açúcar e o suco de limão. Cozinhe até que as frutas estourem e a mistura engrosse. Passe por uma peneira, volte ao fogo até atingir ponto de geleia. Sirva com carinho — e, se possível, com respeito à memória de Zé Grandão.

O FINAL DO VALENTÃO

O tempo passou, e um dia Zé Grandão foi encontrado morto à beira da estrada, perto da linha do trem. Dizem que foi acerto de contas, dizem que foi destino. Mas toda vez que o trem passa por ali, o maquinista apita demoradamente, como quem presta homenagem ao fim da carreira do valentão — para alívio dos moradores de Barnabina, que enfim puderam adoçar a vida sem medo.



Antonio Toninho Vendramini Neto
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