sexta-feira, 31 de julho de 2026

SOB O CÉU DE MICHELANGELO

Há viagens que fazemos com os pés.
E há outras que percorremos com a alma.
 Primeiro o café, depois a conversa — aqui o texto vem depois, com calma.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. 

 💦

Em mais uma de nossas jornadas pela Europa, decidimos viver Cidade do Vaticano de maneira diferente. Não queríamos apenas passar pelos corredores históricos, observar monumentos ou fotografar paisagens eternizadas em cartões-postais. Desejávamos sentir o lugar. Respirar sua história. Ouvir o silêncio escondido entre mármores, pinturas e séculos.

Naquele dia, escolhemos visitar a lendária Capela Sistina.

Desde a entrada do complexo do Museus Vaticanos, o movimento era intenso. Uma verdadeira procissão humana seguia lentamente pelos corredores adornados por esculturas magníficas, tapeçarias centenárias e obras que atravessaram gerações sem perder o encanto. O cansaço já começava a pesar em nossos pés, mas os olhos continuavam famintos por beleza.

O teto da Capela Sistina, concebido por Michelangelo entre 1508 e 1512, é considerado uma das maiores realizações artísticas da humanidade. Convidado pelo Papa Júlio II, Michelangelo passou anos trabalhando praticamente suspenso sobre andaimes, pintando cenas bíblicas que até hoje parecem desafiar o tempo e a própria condição humana.

Pensávamos que o ingresso adquirido para o complexo contemplava automaticamente a entrada da capela. Mas, para nossa surpresa, não era assim. Descobrimos, já exaustos, que precisávamos retornar ao início para comprar um acesso específico. As filas pareciam intermináveis, e o relógio — sempre impiedoso com turistas sonhadores — avançava rapidamente.

Foi então que surgiu diante de nós um grupo guiado por uma pessoa que carregava um guarda-chuva colorido com uma pequena bandeira italiana na ponta. O grupo percorria outras alas antes de seguir para a tão desejada capela.

Olhei para minha esposa e perguntei, quase em tom de brincadeira:

— Vamos embarcar nessa de gaiatos?

Ela sorriu.

E fomos.

Seguimos discretamente na “rabeira” do grupo, tentando parecer turistas perfeitamente integrados naquela verdadeira torre de Babel. Havia italianos, espanhóis, franceses, americanos… uma mistura de idiomas e expressões. Conversávamos aqui e ali, tentando manter a naturalidade, embora alguns olhares denunciassem que éramos, claramente, estranhos no ninho.

Passamos por corredores adornados com as impressionantes pinturas de Rafael, observamos estátuas de antigos papas, santos e figuras históricas que pareciam vigiar silenciosamente a eternidade daqueles salões.

Mas a aventura terminou na porta da capela.

— I biglietti? Os ingressos?

Não havia argumento que resolvesse. Tivemos que regressar, enfrentar novamente a multidão e comprar as entradas corretas. O corpo já demonstrava sinais claros de esgotamento, mas algo dentro de nós insistia em continuar.

E valeu cada passo.

Quando finalmente atravessamos as portas da Capela Sistina, o mundo pareceu silenciar.

Ali dentro, o olhar não encontra repouso.

As paredes contam histórias sagradas em cores vivas e dramáticas. Em uma delas, o monumental “Juízo Final” domina o ambiente com intensidade quase sobrenatural. Cristo aparece poderoso e solene, enquanto almas ascendem aos céus ou mergulham nas sombras da condenação. Tudo pulsa movimento, emoção e espiritualidade.

Mas é o teto que rouba o fôlego da humanidade.

Michelangelo transformou aquele espaço em um universo celestial. Entre colunas pintadas e figuras monumentais, desfilam profetas, sibilas e cenas do livro do Gênesis. A mais célebre delas — “A Criação de Adão” — parece suspender o próprio tempo: Deus e o homem estendem as mãos quase se tocando, separados por um instante mínimo e eterno. É como se a centelha da vida estivesse prestes a acontecer diante de nossos olhos.

Cada figura possui músculos, expressões e movimentos tão vivos que parecem respirar acima de nós. As cores, mesmo após séculos, conservam uma força impressionante. Não é apenas pintura. É transcendência.

Estávamos tão cansados que minha esposa sentou-se junto a um banco de pedra e permaneceu imóvel, contemplando aquele cenário como quem tenta guardar a eternidade dentro do peito.

Eu fui mais adiante.

Então, vencido pelo cansaço e talvez também pela emoção, deitei-me no chão frio da capela.

Algumas pessoas talvez tenham imaginado que eu fosse um louco.

E talvez fossem certas.

Porque naquele instante, olhando para o teto pintado por Michelangelo, senti-me absurdamente pequeno diante da grandeza humana e divina. Observei aquelas figuras celestiais pairando sobre mim e pensei, quase como uma criança diante do infinito:

“Estou perto do céu.”

Ali, silenciosamente, conversei com Deus.

Pedi que nos abençoasse. Pedi forças para continuarmos nossa caminhada por Roma. Pedi saúde para novas viagens, novos reencontros com a beleza e novos momentos capazes de tocar a alma da mesma forma.

Saímos da Capela Sistina diferentes de quando entramos.

Porque certos lugares não são apenas visitados.

São sentidos.

E algumas obras não são apenas admiradas.

Elas nos transformam para sempre.


Aqui, no meu blog, deito nas letras, nas memórias nos afetos e encantamentos.

E você, já teve uma experiência que te fez sentir mais próximo do céu?

“Escrevo para que o tempo não apague o que a alma recorda.”

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Antonio Toninho Vendramini Neto
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LEMBRANÇAS DE UMA ÉPOCA QUE O PROGRESSO DESTRUIU









Que este blog seja um convite à contemplação: 

um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança. 


A foto que emoldura esta crônica é de 1986, retratando a estação ferroviária de banharão, localizada no município de Jaú, SP. Construída em 15 de novembro de 1941, ela foi um símbolo de progresso, administrada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro até 1971, quando passou para as mãos da Ferrovia Paulista S.A. Contudo, esse marco histórico não resistiu às mudanças; foi demolida em 1986, já abandonada e deteriorada. Assim começava o melancólico adeus às ferrovias no Brasil, que outrora movimentaram sonhos, pessoas e mercadorias.

Hoje, tudo o que resta são fragmentos: duas placas amarelas, alguns ladrilhos soterrados pelo mato e uma escadaria imponente que resiste ao tempo, encostada a um barranco. Lá em cima, uma antiga caixa d’água metálica e vestígios de um banheiro. Ao lado, as ruínas de uma igreja, com mármore e granito revelando o êxodo rural que desfigurou essa terra de esperança.

Revisito agora, na memória, aquele cenário encantador dos anos 1950, época de férias na fazenda dos meus avós. Era o refúgio do menino que buscava no campo o que hoje só encontra na saudade. As fazendas eram pura vida e alegria. Passeios de charrete, cavalos enfeitados e primos como guias dessas aventuras inesquecíveis. Tudo culminava em visitas aos casarões coloniais, onde o aroma do café torrado misturava-se com a língua materna, o dialeto da região de Vêneto, que fluía como música entre os descendentes italianos.

Meu avô materno, Giuseppe Gasparotto, o querido “Beppo,” recebia todos com entusiasmo. A fartura das mesas era de dar inveja: pão caseiro, broas, espigas de milho, leite fresco, ovos cozidos e frutas da estação – tudo temperado com mel do pomar. E o vinho! Ah, o vinho feito ali mesmo, que nem a molecada resistia... embora alguns acabassem sendo carregados de volta para as charretes.

O centro das conversas era sempre o café. Esse grão precioso era o sustento das famílias que ocupavam as colônias ao redor das fazendas. Era uma época em que as colheitas simbolizavam trabalho árduo, mas também união, festa e um constante pulsar de vida.

E então, há algo irresistivelmente poético na visão da estação ferroviária de banharão. Naqueles tempos, eu cavalgava pelas manhãs, guiado por meu avô Beppo, para admirar o movimento da estação. Lá, aprendi sobre o telégrafo – a magia tecnológica que conectava estações e permitia que o mundo se comunicasse em pulsos sonoros. Fascinava-me o movimento frenético das sacas de café sendo embarcadas nos vagões, destinadas ao porto de Santos. O ciclo de vida do café começava ali, conduzido pelas mãos calejadas dos carroceiros e engrandecido pelo fervor do povo.

O nome do meu avô paterno, Tonella, destacava-se entre os carroceiros. Ele não apenas trazia o café da própria fazenda, como também era contratado para transportar mercadorias de outras famílias. Seus famosos aboios, com comandos para as mulas, ecoavam como poesia nas estradas poeirentas. Era a trilha sonora da estação, do engenho de beneficiamento e do armazém abarrotado de histórias e trabalho. O velho patriarca encerrava seu dia na Igrejinha de Santo Antônio, agradecendo pela jornada concluída – a mesma igreja que, hoje, jaz em ruínas, denunciando o abandono de um bairro promissor.

Agora, ao recordar tudo isso, é impossível não me transportar, como em um sonho, de volta ao tempo em que tudo era mais simples e verdadeiro. O trem de passageiros chega à estação banharão, e eu embarco como aquele menino cheio de curiosidade e esperanças. Volto como homem, pai de família, morador de Jundiaí, carregado de emoções que permanecem vivas em minhas lembranças – do tempo em que as ferrovias uniam o Brasil e o progresso ainda era sinônimo de identidade.


Antonio Vendramini Neto é um contador de histórias do cotidiano. Escreve crônicas que brotam da terra, do fogo e da memória, compartilhando palavras que aquecem como pão no forno e perfumam como lavanda ao sol.

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terça-feira, 28 de julho de 2026

O DIABO DA TECELAGEM JAPY


TALVEZ SEJA O VENTO...

Corria o ano de 1958, quando o Brasil se tornou campeão mundial de futebol. Eu era um garoto e ouvi a final pelo rádio no botequim do Serafim, um português da gema que, naquele dia, jurava torcer pelo Brasil.

No auge do segundo tempo, num avanço de Pelé, a voz do locutor sumiu. Foi um desespero. Gritavam para o Serafim acertar o rádio, enquanto ele não sabia se mexia no botão ou se servia mais um rabo-de-galo. Estava tão alegre que já não cobrava nada — nem os petiscos da molecada, nem a bebida dos mais velhos.

Depois do jogo, subi na carroceria de um caminhão e rodei a cidade em festa. Cheguei em casa tarde, para o desespero dos meus pais.

No dia seguinte, voltei ao botequim em busca das novidades. Foi ali que ouvi, pela primeira vez, que o Diabo havia atacado mulheres da Tecelagem Japy, lá pelas bandas da Vila Arens. Diziam que surgia de um capão de mato, urrando, vestido de vermelho, com uma capa preta que rodopiava no ar.

O assunto tomou a cidade. O jornal noticiou. A rádio comentava. O delegado Joaquim Linguiça investigou, mas não encontrou nada além da trilha por onde as mulheres passavam antes do turno das cinco.

Uma semana depois, o Diabo atacou novamente. As trabalhadoras juravam que ele tinha rosto horrível e urros capazes de gelar o sangue. Algumas voltavam para casa molhadas de medo. Outras não voltavam mais à fábrica.

O Serafim dizia que agora iam trabalhar escoltadas por maridos e filhos. A tecelagem era quase só de mulheres, muitas já antigas de casa. Produziam menos, comentava-se, e isso preocupava o dono, o turco Salim.

Dentro da fábrica, ninguém segurava mais a situação. O gerente e o chefe do pessoal, Gerubal Pascoal, prometeram proteção policial. Dois guardas ficaram de prontidão na mata. Mesmo assim, numa madrugada fria, o urro ecoou outra vez. Houve correria, marmitas perdidas, chinelos abandonados pelo caminho.

O delegado perdeu a paciência e chamou Epaminondas, um jagunço grande e valente, para resolver o caso. Armado, passou a fazer tocaia no mato, à espera do Diabo.

Enquanto isso, comentava-se que o medo estava dando resultado: mulheres pediam demissão, outras mudavam de cidade. As moças novas produziam bem. O nome da fábrica corria a região.

Até que, numa manhã, o Diabo voltou.

Saltou do mato envolto na capa, urrando como sempre. Epaminondas não correu. Gritou um palavrão e disparou.

O corpo caiu.

Quando o delegado chegou, percebeu que a máscara estava frouxa. Ao retirá-la, o espanto foi geral: o Diabo era Gerubal Pascoal, o chefe do pessoal da fábrica.

Depois, soube-se que a mulher dele havia costurado a fantasia. Gerubal fizera tudo por medo de perder o emprego e não sustentar a família. O turco Salim fugiu do país. A fábrica faliu. Muita gente ficou sem receber nada.

Hoje, o prédio está abandonado. Dizem que, nas manhãs frias, ainda se ouvem urros vindos do mato.

Talvez seja o vento.
Ou talvez o Diabo ainda cobre o que lhe foi negado.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."

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terça-feira, 21 de julho de 2026

BURANO - CORES QUE FLUTUAM NA LAGOA DE VENEZA

 



Chegada à Ilha



Cheguei a Burano com o coração leve e o olhar curioso. Ao lado da minha esposa, senti que cada reflexo nas águas era um convite para descobrir um segredo antigo — um segredo que nasceu dos romanos e ainda vive nas cores das fachadas.

Cores que Contam Histórias


As casas, pintadas como se fossem sonhos sólidos, seguem regras antigas: quem deseja mudar a cor precisa pedir permissão ao governo.
Mas há algo mais profundo — uma lenda que diz que os pescadores pintavam suas casas para reconhecê-las ao voltar do mar.
E assim, cada tom guarda um pedaço de saudade e esperança.

Com a câmera nas mãos, o impulso de fotografar se tornou inevitável.
Cada esquina parecia pedir um flash, cada reflexo uma lembrança.
Burano é uma ilha que se oferece ao olhar — e o olhar, agradecido, se perde em suas cores.

A torre inclinada da igreja - Foi um dos assentamentos mais antigos e prósperos da lagoa.
Hoje, restam poucos habitantes, mas o silêncio guarda ecos de séculos.
As enchentes do inverno e o tempo impiedoso não apagaram sua alma — apenas a tornaram mais serena.

A   Arte   que   Resiste



Artefatos encontrados na Ilha é de um humano que desafia o esquecimento.


Gerar Linhas e fotos do tempo que unem passado e presente.


Ao partir, senti que Burano não é apenas um lugar — é uma lembrança viva.
Uma ilha que flutua entre o real e o imaginário, entre o ontem e o agora.
E cada cor que deixei para trás continua a me seguir, como um eco suave da lagoa.

Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

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domingo, 19 de julho de 2026

O ÚLTIMO CAUDILHO: ANATOMIA DE UM PODER QUE APODRECEU

 



CRÔNICA DE UM PODER EM RUÍNAS

Todo caudilho acredita ser eterno.
Enquanto governa pelo medo, imagina-se invencível; enquanto o povo sofre, ele se proclama salvador. Mas o poder, quando sustentado pela violência e pela mentira, cobra seu preço — e o faz no silêncio, na solidão e no desespero dos que caem.

Esta é a história do último caudilho.
Não como ele desejava ser lembrado, mas como realmente foi: um homem consumido pelo próprio delírio de grandeza.

O caudilhismo nasce do carisma distorcido e da força bruta. São lideranças políticas autoritárias, geralmente ligadas a setores tradicionais da sociedade — militares, latifundiários, chefes armados — que substituem instituições pelo culto à própria personalidade.

O caudilho não governa: domina.
Suas relações são pessoais, emocionais e profundamente manipuladoras. Ele se mantém no poder pela repetição de mandatos, pela fraude ou pela imposição vitalícia de sua vontade. Onde há caudilho, há silêncio forçado; onde há silêncio, há sofrimento acumulado.

O ÚLTIMO CAUDILHO

Restava apenas uma assinatura chamuscada.
Um pedaço de papel carbonizado repousava entre as cinzas frias da lareira, como um testemunho maldito de um passado que ele tentou apagar.

Por longos segundos, seus olhos permaneceram fixos naquele vestígio. Depois, o corpo pesado começou a se mover em círculos lentos, contornando o tapete desbotado, como um animal encurralado em sua própria jaula.

Afundado em pensamentos, lembrou-se de que aquele documento carregava confissões sombrias: ordens de morte, traições, pactos selados com sangue. Era o retrato fiel de uma vida construída sobre o medo alheio.

Após a fuga desesperada de seu reduto, seguindo caminhos tortuosos e clandestinos, restou-lhe o exílio. Vivendo à sombra, temia mostrar o rosto nas ruas estreitas da pequena cidade onde se refugiara. O terror agora não era mais sua arma — era sua sentença.

Já havia queimado quase todos os registros de seu passado criminoso. Agora desejava apagar o próprio rosto, transformar a identidade, sobreviver anônimo aos poucos dias que ainda lhe restavam.

Mas o passado não aceita ser esquecido.

LOBO NA PELE DE CORDEIRO

Chegara ao poder travestido de esperança.
Apresentou-se como caudilho carismático, mas governou como ditador. Proclamou-se salvador da pátria enquanto aprofundava a miséria que dizia combater.

Sem planejamento, sem projeto, sustentou-se pela violência. Eliminou opositores, silenciou vozes, transformou o medo em política de Estado. Cada execução fortalecia sua ilusão de soberania; cada mentira alimentava seu trono frágil.

O poder, porém, nunca foi real — era apenas imposto.

O POEMA DO SOFRIMENTO DE UM POVO

Ostentação e continuidade forçada
Propaganda repetida até virar verdade
Mentiras servidas ao povo oprimido

Migalhas fingindo alimento
Olhos fundos, mãos vazias
Gente sofrida
Vozes enterradas no silêncio

Caminhos sem destino
Passos errantes
Descompassos de uma nação ferida

A LIBERTAÇÃO

Então, nasceu um novo dia.

Um canto de esperança ecoou pelas montanhas, embalado pelo vento livre. As estradas se abriram para as forças que vinham em nome da paz. As matas, antes murchas pela opressão, despertaram orvalhadas, recuperando o verde esquecido.

A história mudava de rumo.

A MORTE NO EXÍLIO

Sabendo que o cerco se fechava, chamou o único ordenança que lhe restara fiel na fuga. Ordenou que recolhesse o fragmento de papel que escapara das chamas.

Com mãos trêmulas, soprou as cinzas.
Leu as últimas linhas. Reconheceu sua assinatura.

Ali estava a prova final de sua existência — e de seus crimes.

Amassou o papel, levou-o à boca e engoliu-o num gesto desesperado, como se pudesse, assim, apagar a própria história. Um soluço seco interrompeu sua respiração. O corpo tombou, derrotado não por soldados, mas pelo peso de seus atos.

Naquele instante, extinguia-se o último resquício de um poder manchado.
O caudilho caía — e com ele, sua mentira.

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

ÁS GÁRGULAS DOS CASTELOS MEDIEVAIS




AS 



Durante uma das nossas viagens à França, ao visitar um dos majestosos castelos da região do Loire, ergui os olhos e vi — lá no alto — figuras esculpidas em pedra, monstruosas e silenciosas. 


Naquele instante, como se despertassem memórias ancestrais, veio à mente tudo aquilo que a imaginação e a história já haviam me contado.


São desaguadouros, ou seja, partes salientes das calhas e telhados destinadas a escoar águas a certa distância das paredes. Mas na Idade Média, essas estruturas ganharam formas grotescas — híbridos de homens, feras e demônios — e passaram a ocupar um papel simbólico.


Acreditava-se que eram guardiãs das catedrais e castelos, e que, à noite, ganhavam vida. Sob ordens dos implacáveis senhores feudais, podiam atacar as propriedades dos camponeses, que viviam sob um regime de servidão. 

O medo era cultivado como ferramenta de controle.
O poema - ( INSPIRADO NAQUELA OCASIÃO) - abaixo retrata esse imaginário, onde o poder se alimenta do medo, e os camponeses, para proteger suas plantações, entregavam tributos em forma de alimentos — tudo para evitar a fúria das criaturas e dos cavaleiros que, segundo a lenda, rondavam na calada da noite.


Encravadas nas muralhas seculares
Enfouillées dans les murailles séculaires
Olhavam para o povo sofrido
Elles regardaient le peuple souffrant
Sentinelas do poder e do tempo
Sentinelles du pouvoir et du temps
Mistura de humanóide e dragão
Mélange d'humanoïde et de dragon
Guardavam a entrada do castelo
Elles gardaient l'entrée du château
Dos senhores feudais
Des seigneurs féodaux

À noite ganhavam vida e voavam
La nuit, elles prenaient vie et volaient
Mostrando poder e assustando os camponeses nos vilarejos
Montrant leur pouvoir et effrayant les paysans dans les villages
Que cumpriam com o pagamento de impostos
Qui s'acquittaient du paiement des impôts
Levando mantimentos
Apportant des provisions
Para o povo da corte viver na libertinagem
Pour que le peuple de la cour vive dans la débauche.




Em meus textos, compartilho reflexões sobre o cotidiano e relatos de viagens que me levaram a conhecer culturas e histórias ao redor do mundo.

Antonio Toninho Vendramini Neto
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