Humilhado por aquela cena medíocre, Lobão ficou arredio dos bailes durante algum tempo. Mas o bicho da dança e do orgulho voltou a morder-lhe e, passada a tempestade, resolveu dar uma passeada pelo clube. O azar bateu-lhe à porta logo na entrada. Na portaria estava um funcionário novo que não conhecia as velhas manhas de Lobão, habituado a ser um autêntico "entrão" que nunca pagava um centavo. O porteiro barrou-o. Lobão insistiu, a confusão escalou de tom e o próprio presidente do clube acabou por intervir, expulsando-o definitivamente do local.
Com o orgulho desfeito em pedaços, Lobão não hesitou. Chamou um táxi e seguiu direto para a estação rodoviária. Naquela mente fervilhante, a decisão estava tomada: era preciso deixar o Estado de São Paulo e recomeçar no Rio de Janeiro. Já dentro do ônibus interestadual, enquanto a paisagem desfilava na noite, uma pergunta insistentemente martelava-lhe a cabeça: "Onde é que eu vou ficar?". Foi aí que a intuição lhe soprou o destino ideal: o bairro do Estácio, o berço do samba e o reduto dos últimos malandros do Rio.
Ao desembarcar, a realidade impôs-se ao bolso. Com pouco dinheiro na carteira, o orçamento apenas deu para alugar um quartinho modesto, bem nos fundos de uma pensão barata. A convivência, contudo, não começou da melhor forma. Nas madrugadas, quando a necessidade o obrigava a ir ao sanitário, Lobão atravessava o longo corredor comum despido de preconceitos — e vestido apenas de cuecas. O hábito escandalizou a vizinhança e gerou um bate-boca monumental com a dona Fifi, a rigorosa dona da pensão.
Sem ambiente na pensão e com o orgulho ferido pelos risinhos de quem o via deambular de cuecas pelo corredor, Alfredo Lobão caiu definitivamente na desgraça local. No bairro, a sua pose de conquistador paulista desfez-se rapidamente. Os vizinhos, em tom de troça, passaram a chamar-lhe Fred, o Gatinho. Desalentado, mas sem perder o palpite, Fred fez da rua o seu verdadeiro refúgio. Foi ali, misturando-se com a boemia e os terreiros, que ele testemunhou e viveu a própria transformação da cidade.
Nas décadas seguintes, Fred viu o Rio de Janeiro mudar à força da especulação imobiliária, empurrando as gentes para os morros e subúrbios. Viu o samba, que conhecera miúdo no centro, galgar as encostas e consolidar-se como a voz nacional daquela população, maioritariamente de pretos e mulatos. O bairro do Estácio de Sá tornou-se o grande propulsor dessa revolução cultural, servindo de reduto para os "antigos malandros". Para as classes dominantes de outrora, aqueles homens de passo cadenciado eram vistos como figuras perigosas; mas para Fred, eles eram poetas da sobrevivência — homens espertos, de refinado gosto musical, capazes de compor um samba inteiro no simples olhar para uma mulata descendo a ladeira.
O tempo passou, o Rio modernizou-se e aquela velha malandragem romântica quase desapareceu. Alfredo Lobão envelheceu com a paisagem. O terno mudou, mas ele permaneceu no Estácio, transformando-se no último remanescente de uma era que o asfalto tentava apagar. Hoje, para garantir o sustento e ganhar algum dinheiro, o outrora orgulhoso bailarino vende o seu passado precioso em forma de entrevistas, cobrando cada centavo aos repórteres da atualidade que o procuram na mesa do bar.
É de manhã no último reduto,
Sol a pino como manda o figurino.
O botequim abriu as suas portas
Para receber o famoso malandro!
Chegou cheio de pose e prosa...
Terno de linho branco... Rosa na lapela...
Chapéu panamá com moldura preta,
Sapato bicolor com salto carrapeta.
— Epaminondas... Cadê o repórter?
— Aí do seu lado, mestre.
— Trouxe a grana? Que bom... Agora vou falar...
O jovem jornalista ajeitou o gravador na mesa de madeira, fascinado pelo terno de linho imaculado daquele homem.
— Mestre Fred, dizem que o senhor trocou a elegância de São Paulo pelo Estácio por causa de um tombo... O que o Rio lhe deu que os paulistas não entenderam? E vale a pena cobrar de nós para contar esse passado?
Fred ajeitou o chapéu panamá, deu um gole na cerveja e soltou um riso de canto de boca, com aquela fala macia de quem conhece a vida:
— Rapaz, em São Paulo eu era um "entrão" que buscava aplauso de plateia cega. O Rio me deu o chão, a ladeira e a verdade do samba. E sobre a grana... não estou vendendo segredos, estou cobrando o ingresso para o único museu vivo que restou desta era. Vocês pagam para ver o futuro, mas sou eu quem guarda a chave do passado. Quer saber de Noel e dos malandros de verdade? Então escuta...
Fui boémio cheio de bravata,
Do tempo da gravata,
Amigo da noite e de Noel,
Com jeito moleque
Do samba de breque...
Do tempo que escrevia música no papel...
De embrulho ou de pão, e com a mão...
Recinto ritmado e perfumado,
Morena carioca rebolando,
Tudo preparado...
Para despertar o velho malandro.
No bairro do Estácio...
Onde o ontem e o hoje se cruzam na mesa do bar. Ali, cobrando cada tostão aos jornalistas do presente, Fred guardava no bolso o preço da sua história — o último malandro a fazer da própria vida a sua última e mais bela composição.
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