quinta-feira, 17 de setembro de 2026

UMA MÚSICA NO FIM DO TÚNEL

 

Uma Odisseia pela Riviera Ligure

Algumas viagens são meros deslocamentos. 

Outras, porém, transformam-se em encontros com o tempo, com a natureza e, principalmente, com aquilo que carregamos dentro de nós.

Esta viagem pela Riviera Ligure foi assim.

Não guardo apenas as imagens do mar, das montanhas e das pequenas vilas agarradas às encostas. Guardo também sons, aromas, vozes, silêncios e, sobretudo, alguns encontros inesperados que permaneceram muito depois de termos deixado a Itália.

Há lugares que fotografamos.

Outros, simplesmente, ficam fotografados dentro da memória.

Uma visão e um contexto

Ao nos despedirmos da efervescente Roma, o trem nos levou ao coração da Ligúria, onde o tempo parecia correr mais devagar e as paisagens davam a impressão de terem sido desenhadas muito antes que nós chegássemos.

Gênova foi nosso ponto de partida — e também nosso lugar de contemplação — para conhecer algumas das pequenas vilas que pontuam aquela costa italiana com cores vivas, montanhas, mar e histórias.

Ficamos hospedados nas proximidades da estação Brignole e, em dias alternados, tomávamos o trem em direção a La Spezia.

Cada viagem ferroviária parecia fazer parte do próprio passeio.

O trem avançava entre túneis e curvas, surgindo aqui e ali diante do Mediterrâneo. Pela janela, as encostas apareciam sustentando vinhedos antigos, como se a terra tivesse sido construída em degraus para que o homem pudesse conversar com o mar.

E então vieram as famosas Cinque Terre:

Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore.

Cinco pequenas vilas, cinco maneiras diferentes de encontrar a mesma beleza.

Não eram apenas lugares para visitar. Eram quase versos escritos sobre as pedras.

Em cada uma delas encontramos sabores, texturas, vozes e silêncios.

O vinho branco Sciacchetrà acompanhava nossos almoços sob tendas acolhedoras, enquanto os frutos do mar e o pesto genovês completavam aquela experiência que parecia ter sido preparada não apenas para o paladar, mas também para a memória.

O sol fazia o mar brilhar como ouro líquido.

Mas foi em Vernazza que a viagem começou a guardar para mim uma história diferente.

O piano no fim do túnel

Vernazza foi uma canção.

Sob um promontório guardado por um castelo, caminhamos por vielas estreitas, passamos por igrejas e descobrimos aquele movimento próprio das pequenas cidades italianas, onde turistas e moradores parecem compartilhar o mesmo espaço sem pressa.

Até que ouvimos música.

Primeiro, apenas algumas notas.

Depois, uma melodia.

O som vinha de um túnel.

Não sei explicar por que aquele piano me chamou tanto a atenção. Talvez porque a música, naquele ambiente de pedras, ganhasse uma dimensão diferente. Ela não parecia apenas tocada. Parecia sair das próprias paredes e viajar pelo túnel antes de chegar aos nossos ouvidos.

Fui me aproximando.

No final do túnel estava o músico.

E junto dele, quase como se fizesse parte daquela apresentação improvisada, havia um cachorro magro.

O homem tocava sua pianola.

O cachorro ouvia.

E, de vez em quando, soltava um uivo.

Fiquei olhando aquela cena.

Era estranha e, ao mesmo tempo, comovente.

O músico continuava tocando, enquanto o animal parecia responder à música com sua própria linguagem.

Mas o que estaria querendo dizer aquele cão?

Seria apenas uma reação ao som?

Seria incômodo?

Seria chamado?

Ou seria, de alguma maneira que somente os animais conhecem, uma resposta à tristeza que existia naquele lugar?

Não sei.

Talvez cachorro não fale.

Mas talvez também não precise falar.

Às vezes, um uivo diz aquilo que nós, seres humanos, procuramos explicar com muitas palavras.

Observei melhor o músico.

Havia nele alguma coisa que me fez pensar que aquela não era a história de alguém que simplesmente escolhera tocar num túnel.

Não parecia um iniciante.

Suas mãos tinham segurança.

Havia domínio no modo como conduzia a música.

E então surgiu a pergunta inevitável:

O que teria acontecido com aquele homem?

Como alguém que demonstrava tamanho domínio da música havia chegado àquele lugar?

Teria conhecido outros palcos?

Teria tido oportunidades que não conseguiu conservar?

A vida teria lhe fechado alguma porta?

Ou simplesmente o destino, em algum momento, tomara uma direção que ele jamais imaginara?

Eu não tinha as respostas.

E talvez seja justamente por isso que aquela figura tenha permanecido tanto tempo na minha memória.

Diante dele havia um chapéu onde algumas pessoas depositavam moedas.

Não era exatamente um palco.

Não havia cortinas.

Não havia aplausos.

Havia apenas aquele túnel, a pianola, o músico, o cachorro e algumas moedas deixadas por quem passava.

Mas havia música.

E isso era suficiente para que aquele homem, ainda que por alguns minutos, recuperasse alguma coisa que talvez a vida tivesse lhe tirado.

Continuei observando.

O cachorro novamente uivou.

E tive a impressão de que os dois faziam uma apresentação a quatro mãos — embora somente duas fossem humanas.

Sorri diante da imagem, mas também senti uma certa tristeza.

Aquele encontro me fez pensar em como a vida pode mudar de palco sem pedir licença.

Há pessoas que um dia são aplaudidas e, depois, precisam tocar para sobreviver.

Há outras que jamais tiveram um grande palco, mas continuam oferecendo ao mundo aquilo que sabem fazer.

Talvez aquele homem pertencesse a uma dessas histórias.

Não sei.

E não quis perguntar.

Preferi guardar o mistério.

Porque algumas perguntas, quando não encontram resposta, continuam vivas dentro de nós.

Monterosso, Corniglia, Manarola e Riomaggiore

Depois de Vernazza, seguimos conhecendo as outras vilas.

Em Corniglia, o mundo parecia suspenso.

A vila, encravada no rochedo, parecia olhar o mar de uma posição privilegiada. O trem passava por baixo, e seu eco chegava como um sussurro subterrâneo.

Ali, a paisagem parecia pedir silêncio.

Em Manarola, os vinhedos em terraços desenhavam linhas sobre a encosta. Os barcos repousavam nas proximidades das casas e das ruas estreitas, como personagens que haviam terminado seu trabalho e agora aguardavam o próximo capítulo.

Riomaggiore, escondida entre as rochas, guardava a famosa Via dell'Amore.

Não percorremos aquele caminho com os pés, mas ele permaneceu conosco pelo significado que carrega.

Monterosso completou aquele conjunto de imagens que, reunidas, pareciam formar uma única grande pintura.

Entretanto, por mais bonitas que fossem as paisagens, eu começava a perceber que aquela viagem não seria lembrada somente por elas.

O pianista continuava comigo.

E o cachorro também.

Santa Margherita Ligure

Santa Margherita Ligure surgiu depois como uma pausa vibrante entre a contemplação e o movimento.

Ali tomamos café entre os risos e as conversas italianas e almoçamos no Ristorante Antonio, envolvidos por praças, construções monumentais e pelo mar que parecia refletir a própria arquitetura da cidade.

Era uma paisagem alegre.

Uma cidade viva.

Mas, dentro de mim, alguma coisa ainda permanecia em outro lugar.

Num túnel.

Entre pedras.

Ao lado de uma pianola.

E de um cachorro magro que, vez ou outra, levantava a cabeça e uivava.

Portofino — quando duas músicas se encontraram

E então veio Portofino.

Talvez eu tenha chegado àquela cidade levando comigo uma lembrança que ainda não compreendia completamente.

Portofino apareceu diante de nós como um daqueles lugares que parecem ter sido criados para encerrar uma viagem.

O pequeno porto, as construções coloridas, as montanhas e o mar compunham uma paisagem difícil de esquecer.

Mas foi ali que aconteceu uma curiosa associação dentro da minha cabeça.

Havia poucos dias, Andrea Bocelli havia se apresentado na região.

Os cartazes de sua apresentação ainda estavam espalhados por Portofino.

Eu não havia assistido ao espetáculo.

E talvez justamente por isso tenha acontecido algo estranho.

Ao olhar aqueles cartazes, minha memória imediatamente voltou para o músico do túnel.

De um lado, Andrea Bocelli, uma das vozes mais conhecidas da música mundial, apresentado nos grandes espaços e diante de grandes públicos.

Do outro, aquele homem que encontrei tocando sua pianola num túnel, diante de algumas pessoas que passavam.

Duas apresentações.

Duas músicas.

Dois mundos.

E, de repente, para mim, elas se encontraram.

Eu não tinha ouvido Bocelli naquela apresentação.

Mas, ao olhar os cartazes, senti como se sua presença tivesse chegado até mim através da lembrança daquele outro músico.

Talvez a música tenha esse poder.

Ela não precisa necessariamente estar diante de nós para ser ouvida.

Às vezes, basta uma lembrança.

Uma imagem.

Uma associação.

Uma nota que permanece na cabeça depois que o som desapareceu.

E naquele momento compreendi que, de certa maneira, eu havia assistido a uma apresentação dupla.

Uma delas, grandiosa, eu não presenciei.

A outra, pequena, inesperada e quase anônima, aconteceu diante de mim.

E foi justamente esta que ficou pregada na minha memória.

Não sei o nome daquele pianista.

Não sei onde havia tocado antes.

Não sei por que sua vida o levou até aquele túnel.

Também não sei o que aconteceu depois.

Mas sei que, quando penso em Portofino, às vezes não vejo primeiro o porto.

Vejo um homem diante de sua pianola.

E vejo um cachorro magro ao seu lado.

E ainda escuto aquele uivo.

Talvez fosse apenas um cachorro respondendo à música.

Talvez fosse alguma coisa que somente ele compreendia.

Mas, naquela tarde, eu preferi acreditar que o animal também sabia que havia ali uma história que não terminava quando a última nota desaparecesse.

O suspiro final

Sentados diante do Golfo Paradiso, vimos o tempo aquietar-se.

Depois de tantos caminhos, tantos trens, tantas vilas e tantos encontros, parecia que a viagem chegava ao seu último capítulo.

Mas uma viagem verdadeiramente vivida nunca termina exatamente quando voltamos para casa.

Alguma coisa permanece.

Permanece o cheiro do mar.

Permanece o vinho.

Permanecem as vielas.

Permanecem as cores das casas.

Permanecem os vinhedos agarrados às montanhas.

E permanecem, sobretudo, aqueles pequenos acontecimentos que não estavam no roteiro.

Foi assim com o pianista de Vernazza.

Foi assim com seu cachorro.

E foi assim com os cartazes de Bocelli encontrados em Portofino.

A Riviera Ligure me ensinou, mais uma vez, que as grandes lembranças nem sempre nascem diante dos grandes monumentos.

Às vezes, elas aparecem no fim de um túnel.

Tocam uma pianola.

Recebem algumas moedas.

E, ao lado delas, um cachorro magro levanta a cabeça e uiva.

A viagem terminou.

Mas aquela música, de alguma maneira, ainda continua tocando dentro de mim.

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Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto

Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias

O SOM DAS SOMBRAS DO PORÃO

NAQUELA NOITE FRIA...


O eco das doze badaladas ressoou pelo quarto de dormir, trazido pelo imponente relógio da família, que há décadas dominava a sala de jantar e estar. Guardião das memórias, soberano em seu ofício, testemunhou incontáveis histórias, jantares memoráveis em que o patriarca, ladeado por sua esposa recatada, guiava os filhos pelas discussões cotidianas à mesa.

Naquela noite fria, o velho mecanismo continuava sua vigília, contando os passos dos habitantes da antiga casa, registrando a transformação das crianças felizes em adultos, que, um a um, foram deixando os pais reféns do último filho. Esse herdeiro solitário, imerso em reflexões furtivas, ouvia as ressonâncias do passado embaladas pelo compasso do relógio.

Enquanto a madrugada avançava, ele fitava a janela e via o tempo esgueirar-se. O sono, inclemente, recusava-se a chegar, e sua mente inquieta viajava em busca de respostas para os caminhos que se abriam à sua frente. Os pais, já muito idosos, haviam abandonado as descidas à sala de jantar. A governanta, tão envelhecida quanto o casal, cumpria suas funções com lentidão, levando-lhes o parco jantar e, ao passar pelo quarto do filho, murmurava que sua refeição estava no forno antes de se retirar.

Uma única badalada anunciou o início daquela madrugada gélida, acompanhada pelo sussurrar sinistro das árvores ao redor da casa. Pensamentos inquietantes começaram a se insinuar. Buscando distração, ele cogitou ligar a televisão, esquecida e quebrada havia anos. Tentou ler o livro à cabeceira, mas a mente fatigada se recusava a seguir a narrativa até o epílogo.

O silêncio, denso e sepulcral, foi rompido por um som vindo da cozinha, atravessando a ampla sala até seu quarto. Um ranger inquietante, como de porta mal fechada, desafiava seus ouvidos. Removendo as cobertas, calçou as chinelas e desceu, pé ante pé, as escadas que ladeavam o incansável relógio. A cada passo, o coração acelerava: teria alguém invadido a casa sem que os velhos percebessem?

Ao chegar à cozinha e acender a luz, a resposta revelou-se menos ameaçadora, mas igualmente intrigante. O velho gato da casa, cambaleando, subia as escadas do porão. Guiado pela curiosidade, ele seguiu o animal até as profundezas escuras, onde a ausência de luz exacerbava o cheiro de umidade e o mistério do lugar.

Munido de um lampião, cuja chama tímida mal dissipava as trevas, o filho desceu ao porão. Lá, encontrou a origem do ruído: uma caixa de papelão cheia de fotografias antigas, usada pelo gato como refúgio. O vento, sibilando pelo respiro na parede, fazia a tampa entreabrir-se e ranger.

Sentou-se em uma velha cadeira, resgatando da caixa fragmentos de seu passado. Cada fotografia parecia reanimar cenas há muito adormecidas: rostos sorridentes, momentos congelados no tempo. Entre sorrisos e lágrimas, separou algumas imagens para compartilhar com o pai, buscando compreender quem eram certos visitantes cujas lembranças se esvaneciam.

No entanto, ao raiar do dia, ao levar o café e as fotos aos pais, a vida reservava um desfecho silencioso e inevitável. Encontrou-os sem vida, marcados pela última badalada do velho relógio, que agora era o único guardião das memórias daquela casa. Restavam-lhe as fotografias e a missão de preservar a história da família – um legado envolto na eternidade dos instantes capturados.


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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

HIDEO GALHO: ENTRE FIOS, CARDAS E A SEGUNDA GUERRA


No início de 1958, o Brasil ainda respirava os ares do pós-guerra e eu, com meus 14 anos, começava a minha jornada no mundo dos adultos. Meu primeiro palco foi uma fábrica de tecelagem que parecia uma miniatura da ONU. Pertencente a um conglomerado chinês — cujo dono era ninguém menos que primo de Chiang Kai-shek, o figurão da China Nacionalista —, a fábrica era um caldeirão de sotaques e temperamentos.

Meu trabalho era burocrático, mas exigia pernas. Eu circulava entre as máquinas para anotar a produção em um livro, lendo os ponteiros nos eixos das máquinas. Eu passava pelos Rings (os filatórios de anéis onde o algodão se tornava fio) e pelas temidas Cardas.
Foi nas Cardas que encontrei meu nêmesis: o Sr. Hideo.
Hideo era um japonês de poucas palavras, baixinho, de bigode impecável e um uniforme que parecia saído diretamente dos tempos do império japonês. Para um garoto abusado como eu, ele era um alvo irresistível. Todos os dias, às 13h30, o ritual se repetia. Eu passava por ele e disparava:
— Oh, Japonês! Veio lá da guerra?
Hideo não falava português, mas entendia a provocação. Seus olhos soltavam brasas. Ele batia no peito e gritava:
— Menino! Não sou "japonês". Sou HIDEO!
A vontade de provocar era maior que o medo. Entre os garotos da seção, surgiu a profecia: "Isso ainda vai dar galho". Naquela época, "dar galho" era o que hoje chamamos de "dar ruim". A gíria pegou tanto que rebatizamos nosso carrasco. Ele não era mais apenas Hideo; para nós, ele era o Hideo Galho.
Certo dia, o "galho" finalmente quebrou. Abusei da sorte e chamei-o de japonês pela última vez. Hideo perdeu a estribeira. Correu atrás de mim com uma fúria samurai. Eu disparei pelo corredor, passando pelo alojamento da fábrica, um lugar onde a hierarquia se misturava ao cheiro de comida.
Ali viviam os "especiais": o gerente italiano Ferdinando, o eletricista belga Bohumil e o mecânico Leite. No meio da minha fuga desesperada, invadi o refeitório na hora do lanche. Hideo estava quase me alcançando quando o destino interveio na forma de dois metros de altura: o belga Bohumil.
Havia uma rixa antiga ali. O belga bebia e roncava; o japonês odiava o barulho. Bohumil ergueu Hideo pelo colarinho como se fosse um boneco de pano.
— Você quer machucar o menino? — trovejou o gigante.
Hideo, em uma mistura de pânico e desespero, emitiu um som (e um cheiro!) que interrompeu qualquer combate. Era uma fragrância inesquecível de peixe morto e ovo podre, fruto de sua dieta rigorosa de sashimi. A cena era digna de um filme de comédia pastelão.
O caos só terminou quando a voz de trovão do Sr. Ferdinando, o italiano, ecoou pelo pátio:
— Siamo al lavoro, non in strada! Andate a lavorare!
A fábrica voltou ao normal, mas as lendas de corredor nunca morrem. Anos depois, reencontrei um antigo colega de turno que me contou o desfecho daquela convivência forçada. Em uma última briga no alojamento, o belga Bohumil, já arranhando o português, teria encerrado a discussão com a frase que nós criamos:
— Hideo... você é muito GALHO!
Saí da fábrica, mas levei comigo a lição: em um mundo de fios e tensões, às vezes é o humor (ou um susto bem dado) que impede que a máquina da vida trave de vez.


Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DO PEIDO À METÁFORA: O CORONEL GALO PRETO

 


O Coronel Galo Preto: Entre o Causo e a Crítica

Nota do Autor

Este conto nasceu primeiro como um causo popular, cheio de humor, exageros e até receitas. Depois, foi retrabalhado em chave acadêmica, com prefácio crítico e leitura literária. Aqui reúno as duas versões para mostrar como um mesmo episódio pode ser saboreado de formas diferentes. Quem quiser mergulhar nos textos completos, encontrará abaixo as duas versões — primeiro a satírica, depois a acadêmica — seguidas de uma reflexão comparativa.

Introdução Crítica

O conto do Coronel Galo Preto é um exemplo curioso de como a literatura pode assumir diferentes registros sem perder sua essência. Na primeira versão, ele surge como um causo popular, cheio de humor escrachado, exageros grotescos e até receitas culinárias — uma narrativa que mistura oralidade, memória cultural e comicidade.

Na segunda versão, o mesmo episódio é retrabalhado em chave acadêmica. O coronel deixa de ser apenas figura folclórica e passa a encarnar a metáfora do poder rural, autoritário e teatral. O detalhe escatológico — o famoso “peido” — transforma-se em recurso literário consciente, revelando a fragilidade da autoridade diante da humanidade.

Assim, o leitor pode saborear o conto em duas camadas: como anedota divertida que arranca gargalhadas, e como sátira crítica que expõe os vícios da vida pública. Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um causo escatológico pode virar metáfora da política.

O Conto Satírico (versão popular)

Entre peidos e bolinhos: o causo do Coronel Galo Preto

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

 Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

Ingredientes:

•  500g de bacalhau dessalgado e desfiado

•  500g de batata cozida e amassada

•  1 ovo

•  1 colher de sopa de salsa picada

•  Sal e pimenta-do-reino a gosto

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2.  Tempere com sal e pimenta.

3.  Modele os bolinhos com as mãos.

4.  Frite em óleo quente até dourar.

5.  Escorra em papel toalha e sirva quente.

 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

•  1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

•  Suco de 1 limão

•  2 dentes de alho amassados

•  Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

•  Farinha de trigo para empanar

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2.  Deixe marinar por 1 hora.

3.  Passe os pedaços na farinha de trigo.

4.  Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5.  Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

 Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.


O Conto Acadêmico (versão crítica)

O Coronel Galo Preto


Este conto inscreve-se na tradição satírica brasileira, que desde Gregório de Matos até Lima Barreto expõe os vícios e grotescos da vida pública por meio da caricatura literária. A escolha de um coronel do café como protagonista não é casual: ele representa a figura do poder rural, autoritário e teatral, que dominou a política e a economia do interior paulista.

A palavra “peido”, aqui utilizada sem pudor, é recurso literário consciente. Não é vulgaridade gratuita, mas instrumento de comicidade e crítica: o som inconveniente torna-se metáfora da fragilidade humana diante da pompa do poder. O ridículo do coronel, incapaz de controlar o próprio corpo, revela a contradição entre sua autoridade e sua humanidade.

Ao lado dele, surge Seu Ambrósio, o zelador. Personagem humilde, mas astuto, que observa, denuncia e finalmente desmascara o poderoso. Sua presença dá ao conto uma dimensão ética: é o olhar do povo, silencioso, mas firme, que expõe o ridículo dos grandes. Assim, o texto não é apenas uma anedota escatológica, mas uma crítica social, em que o humor serve de lente para revelar a teatralidade da política rural.

O Conto

No interior de São Paulo, entre vastas plantações de café disputadas por negociantes internacionais, ergueu-se a bolsa cafeeira, onde os preços eram cotados em dólar e decididos sob o comando do temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, o Coronel Galo Preto. Pernambucano de origem, ganhou fama pela bravura entre jagunços e pela brutalidade com que resolvia conflitos.

Presidente da bolsa estadual, sentava-se à cabeceira da mesa com bolsos abarrotados de frango e bolinhos de bacalhau, devorando-os sem cerimônia, limpando a gordura na gravata e soltando baforadas de charuto que impregnavam o ambiente. Os cafeicultores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Mas havia um homem que observava: o zelador Seu Ambrósio. Simples, mas atento, providenciou escarradeira para conter os pigarros e cusparadas do coronel. E foi ele quem percebeu que os estrondos que o coronel atribuía ao arrastar da cadeira eram, na verdade, peidos inconvenientes — trovões grotescos que ecoavam como sátira involuntária no salão.

Em uma reunião decisiva, Ambrósio pregou a cadeira no chão. Sem poder disfarçar, o coronel foi desmascarado diante de todos. Furioso, ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que desapareceu misteriosamente. Dias depois, o coronel faleceu. No sepultamento, para espanto geral, Ambrósio reapareceu e revelou a verdade.

Após sua morte, as reuniões foram transferidas para a capital. E as histórias sobre os peidos, os charutos e as peculiaridades do Coronel Galo Preto tornaram-se lendas — contadas entre goles de café e gargalhadas. Mas foi a coragem silenciosa de Ambrósio que deu à narrativa sua verdadeira força: a lembrança de que até os mais humildes podem desafiar o poder.

Encerramento

Com humor escatológico e crítica social, este conto se inscreve na linhagem de narrativas que revelam o Brasil profundo, onde o grotesco e o poder caminham lado a lado. Ao transformar o coronel em caricatura e o zelador em herói silencioso, o texto convida à reflexão sobre a fragilidade da autoridade e a força dos pequenos gestos.

O Coronel Galo Preto: sátira e crítica social

Comparação e Reflexão

Na versão popular, o coronel diverte e escandaliza, transformado em caricatura grotesca.
Na versão acadêmica, ele se torna metáfora do poder rural e da fragilidade da autoridade.
O humor escatológico, que arranca gargalhadas, é também recurso literário de crítica social.

Versão PopularVersão Acadêmica
Humor escrachado e oralidade
Humor como recurso literário
Coronel grotesco e folclóricoCoronel como metáfora do poder rural
Receita culinária como memória culturalPrefácio crítico como enquadramento satírico
Gargalhadas e saborReflexão e crítica social

Encerramento

Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto virou lenda.
Seja como causo ou como crítica, sua história nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um peido pode virar metáfora da política.
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DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO

A despedida de Alfredo Lobão , transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga ...