Uma Odisseia pela Riviera Ligure
Algumas viagens são meros deslocamentos.
Outras, porém, transformam-se em encontros com o tempo, com a natureza e, principalmente, com aquilo que carregamos dentro de nós.
Esta viagem pela Riviera Ligure foi assim.
Não guardo apenas as imagens do mar, das montanhas e das pequenas vilas agarradas às encostas. Guardo também sons, aromas, vozes, silêncios e, sobretudo, alguns encontros inesperados que permaneceram muito depois de termos deixado a Itália.
Há lugares que fotografamos.
Outros, simplesmente, ficam fotografados dentro da memória.
Uma visão e um contexto
Ao nos despedirmos da efervescente Roma, o trem nos levou ao coração da Ligúria, onde o tempo parecia correr mais devagar e as paisagens davam a impressão de terem sido desenhadas muito antes que nós chegássemos.
Gênova foi nosso ponto de partida — e também nosso lugar de contemplação — para conhecer algumas das pequenas vilas que pontuam aquela costa italiana com cores vivas, montanhas, mar e histórias.
Ficamos hospedados nas proximidades da estação Brignole e, em dias alternados, tomávamos o trem em direção a La Spezia.
Cada viagem ferroviária parecia fazer parte do próprio passeio.
O trem avançava entre túneis e curvas, surgindo aqui e ali diante do Mediterrâneo. Pela janela, as encostas apareciam sustentando vinhedos antigos, como se a terra tivesse sido construída em degraus para que o homem pudesse conversar com o mar.
E então vieram as famosas Cinque Terre:
Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore.
Cinco pequenas vilas, cinco maneiras diferentes de encontrar a mesma beleza.
Não eram apenas lugares para visitar. Eram quase versos escritos sobre as pedras.
Em cada uma delas encontramos sabores, texturas, vozes e silêncios.
O vinho branco Sciacchetrà acompanhava nossos almoços sob tendas acolhedoras, enquanto os frutos do mar e o pesto genovês completavam aquela experiência que parecia ter sido preparada não apenas para o paladar, mas também para a memória.
O sol fazia o mar brilhar como ouro líquido.
Mas foi em Vernazza que a viagem começou a guardar para mim uma história diferente.
O piano no fim do túnel
Vernazza foi uma canção.
Sob um promontório guardado por um castelo, caminhamos por vielas estreitas, passamos por igrejas e descobrimos aquele movimento próprio das pequenas cidades italianas, onde turistas e moradores parecem compartilhar o mesmo espaço sem pressa.
Até que ouvimos música.
Primeiro, apenas algumas notas.
Depois, uma melodia.
O som vinha de um túnel.
Não sei explicar por que aquele piano me chamou tanto a atenção. Talvez porque a música, naquele ambiente de pedras, ganhasse uma dimensão diferente. Ela não parecia apenas tocada. Parecia sair das próprias paredes e viajar pelo túnel antes de chegar aos nossos ouvidos.
Fui me aproximando.
No final do túnel estava o músico.
E junto dele, quase como se fizesse parte daquela apresentação improvisada, havia um cachorro magro.
O homem tocava sua pianola.
O cachorro ouvia.
E, de vez em quando, soltava um uivo.
Fiquei olhando aquela cena.
Era estranha e, ao mesmo tempo, comovente.
O músico continuava tocando, enquanto o animal parecia responder à música com sua própria linguagem.
Mas o que estaria querendo dizer aquele cão?
Seria apenas uma reação ao som?
Seria incômodo?
Seria chamado?
Ou seria, de alguma maneira que somente os animais conhecem, uma resposta à tristeza que existia naquele lugar?
Não sei.
Talvez cachorro não fale.
Mas talvez também não precise falar.
Às vezes, um uivo diz aquilo que nós, seres humanos, procuramos explicar com muitas palavras.
Observei melhor o músico.
Havia nele alguma coisa que me fez pensar que aquela não era a história de alguém que simplesmente escolhera tocar num túnel.
Não parecia um iniciante.
Suas mãos tinham segurança.
Havia domínio no modo como conduzia a música.
E então surgiu a pergunta inevitável:
O que teria acontecido com aquele homem?
Como alguém que demonstrava tamanho domínio da música havia chegado àquele lugar?
Teria conhecido outros palcos?
Teria tido oportunidades que não conseguiu conservar?
A vida teria lhe fechado alguma porta?
Ou simplesmente o destino, em algum momento, tomara uma direção que ele jamais imaginara?
Eu não tinha as respostas.
E talvez seja justamente por isso que aquela figura tenha permanecido tanto tempo na minha memória.
Diante dele havia um chapéu onde algumas pessoas depositavam moedas.
Não era exatamente um palco.
Não havia cortinas.
Não havia aplausos.
Havia apenas aquele túnel, a pianola, o músico, o cachorro e algumas moedas deixadas por quem passava.
Mas havia música.
E isso era suficiente para que aquele homem, ainda que por alguns minutos, recuperasse alguma coisa que talvez a vida tivesse lhe tirado.
Continuei observando.
O cachorro novamente uivou.
E tive a impressão de que os dois faziam uma apresentação a quatro mãos — embora somente duas fossem humanas.
Sorri diante da imagem, mas também senti uma certa tristeza.
Aquele encontro me fez pensar em como a vida pode mudar de palco sem pedir licença.
Há pessoas que um dia são aplaudidas e, depois, precisam tocar para sobreviver.
Há outras que jamais tiveram um grande palco, mas continuam oferecendo ao mundo aquilo que sabem fazer.
Talvez aquele homem pertencesse a uma dessas histórias.
Não sei.
E não quis perguntar.
Preferi guardar o mistério.
Porque algumas perguntas, quando não encontram resposta, continuam vivas dentro de nós.
Monterosso, Corniglia, Manarola e Riomaggiore
Depois de Vernazza, seguimos conhecendo as outras vilas.
Em Corniglia, o mundo parecia suspenso.
A vila, encravada no rochedo, parecia olhar o mar de uma posição privilegiada. O trem passava por baixo, e seu eco chegava como um sussurro subterrâneo.
Ali, a paisagem parecia pedir silêncio.
Em Manarola, os vinhedos em terraços desenhavam linhas sobre a encosta. Os barcos repousavam nas proximidades das casas e das ruas estreitas, como personagens que haviam terminado seu trabalho e agora aguardavam o próximo capítulo.
Riomaggiore, escondida entre as rochas, guardava a famosa Via dell'Amore.
Não percorremos aquele caminho com os pés, mas ele permaneceu conosco pelo significado que carrega.
Monterosso completou aquele conjunto de imagens que, reunidas, pareciam formar uma única grande pintura.
Entretanto, por mais bonitas que fossem as paisagens, eu começava a perceber que aquela viagem não seria lembrada somente por elas.
O pianista continuava comigo.
E o cachorro também.
Santa Margherita Ligure
Santa Margherita Ligure surgiu depois como uma pausa vibrante entre a contemplação e o movimento.
Ali tomamos café entre os risos e as conversas italianas e almoçamos no Ristorante Antonio, envolvidos por praças, construções monumentais e pelo mar que parecia refletir a própria arquitetura da cidade.
Era uma paisagem alegre.
Uma cidade viva.
Mas, dentro de mim, alguma coisa ainda permanecia em outro lugar.
Num túnel.
Entre pedras.
Ao lado de uma pianola.
E de um cachorro magro que, vez ou outra, levantava a cabeça e uivava.
Portofino — quando duas músicas se encontraram
E então veio Portofino.
Talvez eu tenha chegado àquela cidade levando comigo uma lembrança que ainda não compreendia completamente.
Portofino apareceu diante de nós como um daqueles lugares que parecem ter sido criados para encerrar uma viagem.
O pequeno porto, as construções coloridas, as montanhas e o mar compunham uma paisagem difícil de esquecer.
Mas foi ali que aconteceu uma curiosa associação dentro da minha cabeça.
Havia poucos dias, Andrea Bocelli havia se apresentado na região.
Os cartazes de sua apresentação ainda estavam espalhados por Portofino.
Eu não havia assistido ao espetáculo.
E talvez justamente por isso tenha acontecido algo estranho.
Ao olhar aqueles cartazes, minha memória imediatamente voltou para o músico do túnel.
De um lado, Andrea Bocelli, uma das vozes mais conhecidas da música mundial, apresentado nos grandes espaços e diante de grandes públicos.
Do outro, aquele homem que encontrei tocando sua pianola num túnel, diante de algumas pessoas que passavam.
Duas apresentações.
Duas músicas.
Dois mundos.
E, de repente, para mim, elas se encontraram.
Eu não tinha ouvido Bocelli naquela apresentação.
Mas, ao olhar os cartazes, senti como se sua presença tivesse chegado até mim através da lembrança daquele outro músico.
Talvez a música tenha esse poder.
Ela não precisa necessariamente estar diante de nós para ser ouvida.
Às vezes, basta uma lembrança.
Uma imagem.
Uma associação.
Uma nota que permanece na cabeça depois que o som desapareceu.
E naquele momento compreendi que, de certa maneira, eu havia assistido a uma apresentação dupla.
Uma delas, grandiosa, eu não presenciei.
A outra, pequena, inesperada e quase anônima, aconteceu diante de mim.
E foi justamente esta que ficou pregada na minha memória.
Não sei o nome daquele pianista.
Não sei onde havia tocado antes.
Não sei por que sua vida o levou até aquele túnel.
Também não sei o que aconteceu depois.
Mas sei que, quando penso em Portofino, às vezes não vejo primeiro o porto.
Vejo um homem diante de sua pianola.
E vejo um cachorro magro ao seu lado.
E ainda escuto aquele uivo.
Talvez fosse apenas um cachorro respondendo à música.
Talvez fosse alguma coisa que somente ele compreendia.
Mas, naquela tarde, eu preferi acreditar que o animal também sabia que havia ali uma história que não terminava quando a última nota desaparecesse.
O suspiro final
Sentados diante do Golfo Paradiso, vimos o tempo aquietar-se.
Depois de tantos caminhos, tantos trens, tantas vilas e tantos encontros, parecia que a viagem chegava ao seu último capítulo.
Mas uma viagem verdadeiramente vivida nunca termina exatamente quando voltamos para casa.
Alguma coisa permanece.
Permanece o cheiro do mar.
Permanece o vinho.
Permanecem as vielas.
Permanecem as cores das casas.
Permanecem os vinhedos agarrados às montanhas.
E permanecem, sobretudo, aqueles pequenos acontecimentos que não estavam no roteiro.
Foi assim com o pianista de Vernazza.
Foi assim com seu cachorro.
E foi assim com os cartazes de Bocelli encontrados em Portofino.
A Riviera Ligure me ensinou, mais uma vez, que as grandes lembranças nem sempre nascem diante dos grandes monumentos.
Às vezes, elas aparecem no fim de um túnel.
Tocam uma pianola.
Recebem algumas moedas.
E, ao lado delas, um cachorro magro levanta a cabeça e uiva.
A viagem terminou.
Mas aquela música, de alguma maneira, ainda continua tocando dentro de mim.
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