sexta-feira, 6 de novembro de 2026

MEMÓRIAS NAS TRILHAS DO SERTÃO: CORONÉIS E JANTARES À FRANCESA

 

Entre trilhos esquecidos e aromas de cozinha francesa, o sertão revive suas histórias.
Coronéis, doces e lembranças dançam ao som do vento — onde o passado ainda serve poesia à mesa.


Introdução

Há histórias que não se apagam com o tempo — ficam guardadas como lembranças que o vento do sertão insiste em soprar. Nos meus tempos de consultor, quando o trabalho me levava a terras distantes e áridas, vivi uma dessas passagens que se transformam em memória viva. Foi lá pelas bandas de Petrolina, às margens do Rio São Francisco, que o destino me apresentou um cenário improvável: coronéis nordestinos, um restaurante francês e o doce sabor das histórias que só o sertão sabe contar.

O Relato

Em 1982, fui contratado por uma empresa paulista do ramo alimentício para avaliar as condições de instalação de uma fábrica de polpa de tomate em Pernambuco. A missão incluía estudar benefícios para futuros empregados e analisar um restaurante recém-construído nas dependências da fábrica — um espaço que prometia unir o sabor da terra à elegância da mesa.

Hospedei-me em um hotel próximo à antiga estação ferroviária de Petrolina, que havia sido restaurada e transformada em um restaurante fino. O lugar era um ponto de encontro entre o passado e o presente: pratos típicos nordestinos dividiam espaço com iguarias francesas preparadas por um chef que trocara Paris pelo sertão. À noite, o som dos repentistas ecoava pelas paredes centenárias, misturando poesia improvisada e risadas de turistas que vinham conhecer o novo polo industrial da região.

A estação, inaugurada em 1923, fora o coração pulsante da cidade. Por ali passavam coronéis, comerciantes e viajantes, até que os trilhos foram arrancados nos anos 1970. Restou o prédio histórico — testemunha silenciosa de tempos em que o poder se media por chapéus de couro e revólveres à cintura.

Foi ali que conheci o dono do restaurante, um francês de fala arrastada e olhar curioso. Ao perceber meu sotaque paulista, veio até minha mesa e, antes mesmo de servir o prato, começou a contar histórias dos antigos coronéis. Falou-me de Tibúrcio Barlavento, homem de posses e temperamento feroz, conhecido por seu colete de couro, o relógio “cebolão” e o revólver calibre 38. Diziam que esperava, toda semana, uma mulher que vinha de trem — e quando ela não aparecia, o sertão inteiro ouvia seus impropérios cuspidos junto ao fumo mascado.

Entre as histórias de poder e paixão, havia também as de simplicidade. Os moleques que vendiam doces na estação eram parte viva daquele cenário. Um deles, filho da cozinheira do coronel, carregava consigo um doce sem nome, mas tão saboroso que acabou batizado por acaso. Ao roubar um pedaço ainda quente da travessa, sua mãe exclamava:
— Pede, moleque!
E assim nasceu o doce que atravessou gerações: o pé-de-moleque, símbolo da doçura que brota até nas terras mais secas.

Terminei o jantar, despedi-me do francês e voltei ao hotel. Pela janela, vi o reflexo das luzes da estação sobre o rio e pensei em como o sertão guarda suas histórias — algumas de poder, outras de amor, todas de resistência.

Final Poético

O sertão é feito de trilhos invisíveis, onde cada lembrança é um vagão que carrega saudade.
Entre o som dos repentistas e o aroma do doce roubado, percebi que o Nordeste não é apenas um lugar — é uma alma que canta, que cozinha, que conta.
E ali, nas trilhas do tempo, entendi que toda história, por mais simples que pareça, é um pedaço de eternidade guardado no coração da terra.

 Minibiografia 

do

 Autor


Antonio Toninho Vendramini Neto é consultor e contador de histórias que transforma experiências profissionais em narrativas literárias. Entre relatórios e viagens pelo Brasil, descobriu que cada cidade guarda memórias únicas — algumas escondidas em antigas estações ferroviárias, outras reveladas em mesas de restaurantes improváveis. Apaixonado pelo sertão nordestino e pela cultura brasileira, escreve para preservar tradições, sabores e encontros que atravessam o tempo.

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias 

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