Introdução
Há histórias que não se apagam com o tempo — ficam guardadas como lembranças que o vento do sertão insiste em soprar. Nos meus tempos de consultor, quando o trabalho me levava a terras distantes e áridas, vivi uma dessas passagens que se transformam em memória viva. Foi lá pelas bandas de Petrolina, às margens do Rio São Francisco, que o destino me apresentou um cenário improvável: coronéis nordestinos, um restaurante francês e o doce sabor das histórias que só o sertão sabe contar.
O Relato
Em 1982, fui contratado por uma empresa paulista do ramo alimentício para avaliar as condições de instalação de uma fábrica de polpa de tomate em Pernambuco. A missão incluía estudar benefícios para futuros empregados e analisar um restaurante recém-construído nas dependências da fábrica — um espaço que prometia unir o sabor da terra à elegância da mesa.
Hospedei-me em um hotel próximo à antiga estação ferroviária de Petrolina, que havia sido restaurada e transformada em um restaurante fino. O lugar era um ponto de encontro entre o passado e o presente: pratos típicos nordestinos dividiam espaço com iguarias francesas preparadas por um chef que trocara Paris pelo sertão. À noite, o som dos repentistas ecoava pelas paredes centenárias, misturando poesia improvisada e risadas de turistas que vinham conhecer o novo polo industrial da região.
A estação, inaugurada em 1923, fora o coração pulsante da cidade. Por ali passavam coronéis, comerciantes e viajantes, até que os trilhos foram arrancados nos anos 1970. Restou o prédio histórico — testemunha silenciosa de tempos em que o poder se media por chapéus de couro e revólveres à cintura.
Foi ali que conheci o dono do restaurante, um francês de fala arrastada e olhar curioso. Ao perceber meu sotaque paulista, veio até minha mesa e, antes mesmo de servir o prato, começou a contar histórias dos antigos coronéis. Falou-me de Tibúrcio Barlavento, homem de posses e temperamento feroz, conhecido por seu colete de couro, o relógio “cebolão” e o revólver calibre 38. Diziam que esperava, toda semana, uma mulher que vinha de trem — e quando ela não aparecia, o sertão inteiro ouvia seus impropérios cuspidos junto ao fumo mascado.
Terminei o jantar, despedi-me do francês e voltei ao hotel. Pela janela, vi o reflexo das luzes da estação sobre o rio e pensei em como o sertão guarda suas histórias — algumas de poder, outras de amor, todas de resistência.
Final Poético
Minibiografia
do
Autor
Antonio Toninho Vendramini Neto é consultor e contador de histórias que transforma experiências profissionais em narrativas literárias. Entre relatórios e viagens pelo Brasil, descobriu que cada cidade guarda memórias únicas — algumas escondidas em antigas estações ferroviárias, outras reveladas em mesas de restaurantes improváveis. Apaixonado pelo sertão nordestino e pela cultura brasileira, escreve para preservar tradições, sabores e encontros que atravessam o tempo.
"As histórias não sobrevivem porque são
extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a
esquecê-las."
Acesse meus espaços de
cultura e amizade:
🔗 YouTube 🔗 Slides e conteúdos 🔗 Blog Vendramini Letras
Antonio Vendramini Neto –
Face Book.
Antonio Toninho Vendramini Neto
Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias


Nenhum comentário:
Postar um comentário