quinta-feira, 23 de abril de 2026

COLEÇÃO DE TEXTOS RENOVADOS





Nos últimos tempos, vocês têm visto por aqui muitos textos com datas recentes. 

Mas há um detalhe especial: muitos deles nasceram há anos, guardados comigo, quando eu ainda não tinha nos meus textos os maneirismos de escritor que hoje cultivo. Resolvi revisitar esse acervo, dar nova vida às palavras e compartilhar com vocês essa coleção que mistura passado e presente.

Um olhar atual sobre escritos antigos

Hoje, mais calejado e amadurecido na escrita, percebo como cada texto revisitado carrega não apenas a memória de quem eu era, mas também a evolução de quem me tornei. 

É um prazer dividir com vocês essa jornada literária, onde o tempo não apaga, mas fortalece as palavras.


Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros, de memórias e de afetos. Aqui, cada palavra é servida como se fosse pão fresco, acompanhado de café quente e da saudade que tempera a vida. É um lugar onde a literatura se mistura ao cotidiano, onde uma crônica pode nascer de uma receita, uma flor plantada ou uma lembrança acesa. Mais do que textos, é um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — feita de raízes, de amizade e de poesia.



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quarta-feira, 22 de abril de 2026

HANS STADEN: O ALEMÃO QUE QUASE VIROU JANTAR NO BRASIL



“Você sabia que um alemão quase virou jantar no Brasil? 
 Vem comigo descobrir a história inacreditável de Hans Staden — o aventureiro que escapou da panela e entrou para a história!”


Gente, vocês já ouviram falar de Hans Staden? Pois é, esse alemão nasceu lá em Homberg, em 1525, e resolveu se aventurar pelo mundo. Resultado: veio parar no Brasil e viveu umas histórias que parecem roteiro de filme!

Depois de sobreviver a naufrágios (sim, vários!), ele achou que finalmente teria sossego quando se instalou na Ilha de Santo Amaro, no que hoje é o Guarujá. Lá, virou arcabuzeiro numa fortaleza, fez amizade com os tupiniquins e até com o governador Tomé de Souza. Vida tranquila? Só que não.

Em janeiro de 1554, Hans foi capturado pelos tupinambás, que eram inimigos mortais dos tupiniquins. E olha, os tupinambás tinham fama de praticar antropofagia. Imagina o desespero do alemão achando que ia virar prato principal!

Mas Hans era esperto. Se fingiu de francês (que eram aliados dos tupinambás), dizia estar sempre doente e ainda usava uns truques de teatro para convencer os índios de que seu Deus estava bravo. Resultado: os tupinambás ficaram com medo e ele escapou da panela. Depois de nove meses e meio nesse sufoco, conseguiu fugir num barco francês.

De volta à Alemanha, escreveu um livro com um título enorme: A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Devoradores de Homens. Publicado em 1557, virou uma obra histórica superimportante, porque mostra tanto os costumes indígenas quanto a visão europeia da época.

Hans morreu em 1579, mas sua memória continua viva. Em Ubatuba, por exemplo, tem até rua com o nome dele. E cá entre nós: que personagem incrível da nossa história, não?


Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

UM LUGAR CHAMADO PAI JACÓ



Pai Jacó é mais que um lugar: é um palco onde a natureza se revela com humor e surpresa. Entre pássaros, ventos e sons misteriosos, descobri que até a mata sabe brincar com quem se aventura por seus caminhos.

Em uma manhã de sábado, acordei com o tradicional gorjeio dos pássaros saltitando nas árvores próximas ao meu quarto. Abri a porta-balcão e, respirando profundamente o frescor do dia, fiz uma saudação de louvor por estar à frente de mais um capítulo da vida.

Deixei-me levar por pensamentos, refletindo que cada dia é uma dádiva única e deveria ser bem aproveitado. Quem sabe em outra ocasião não teria a mesma chance? Com horas livres à frente, decidi caminhar pelas áreas verdes.

Enquanto me preparava, um som estridente vindo de uma pequena mata no final da rua despertou minha curiosidade. O som desafiava meu instinto explorador e, sem programar muito, resolvi investigar. Ao chegar, olhei para o alto das árvores, procurando por pássaros raros ou pequenos animais silvestres.

De repente, aquele som, tão peculiar, soou novamente. Meu coração acelerou, e comecei a buscar de um lado para o outro. Meus olhos rodopiavam, minha curiosidade era quase palpável. Cada movimento das árvores parecia esconder um segredo, e o sol, em pequenos clarões entre as folhagens, me cegava momentaneamente.

Foi então que, de forma súbita, senti algo explodir sobre minha cabeça. Uma dor forte me atingiu. Era um caroço de uma fruta desconhecida. Olhei novamente para cima, e lá estava ele: um pequeno animal dependurado em um grande galho seco. Seus movimentos ágeis o tornavam quase invisível, mas sua presença era inegável.

Percebi que ele saboreava uma fruta com tamanho deleite que quase me fez querer provar também. Após devorá-la, o malandro lançou outro caroço, que por pouco não me atingiu novamente. "Ô, seu mal-educado!", gritei. E ao lado dele, lá estava um companheiro, tão debochado quanto. Os dois pareciam rir de minha indignação com uma "cantoria" que ecoava pela mata.

Não satisfeitos, ainda soltaram um esguicho em minha direção, trazido pelo vento. Antes que me atingisse, pulei para trás, mas acabei tropeçando e caindo sentado sobre a guia da rua. Levantei-me, indignado. Quando olhei para o alto, os dois haviam desaparecido. Foram rápidos, deixando-me apenas com a memória da aventura.

Em casa, consultei a enciclopédia e descobri que se tratavam de guaribas, uma espécie de primatas notórios por seus sons estridentes. 

Curioso, mas agora mais precavido, decidi: da próxima vez que ouvir tais sons, "recomendo" aos vizinhos investigarem. Quem sabe, terão a mesma sorte que eu de cruzar o caminho.

 Final poético e divertido

Pai Jacó não é apenas um lugar de beleza natural, mas também de histórias que arrancam sorrisos. Ali, até os guaribas sabem como transformar um simples passeio em uma lembrança inesquecível — e hilariante.



 Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

NO SILÊNCIO DA SERRA, UM BEM-TE-VI ESCOLHEU OS FIOS COMO GALHOS


O Silêncio das Manhãs – Os Pássaros Elétricos da Serra

Entre pipocas e fios, nasceram os pássaros elétricos — bem-te-vis que cantam como se tivessem tomado café com energia da própria praça.


Há lugares onde o tempo parece respirar mais devagar. Serra Negra- SP - é um desses refúgios — uma estância de águas e brisas frescas, onde o silêncio das manhãs tem cheiro de terra úmida e som de viola ecoando ao longe. Foi ali, entre montanhas e lembranças, que vivi uma história que ainda me faz sorrir quando o sol nasce.

 O Texto

Cheguei num sábado, como quem busca descanso e reencontro. Após o jantar, fomos à praça central, onde o coreto abrigava uma apresentação de violeiros da região. As notas sertanejas se misturavam ao murmúrio das conversas e ao perfume das pipocas que se espalhava pelo ar.

A música parecia tocar o coração da cidade — simples, sincera, feita de mãos calejadas e vozes que conhecem o campo.

No dia seguinte, ao abrir a janela do apartamento, vi um poste de fiação elétrica bem próximo. Entre os fios, algo se movia. Pedi um binóculo na recepção e lá estava ele: um bem-te-vi, acomodado num ninho improvisado, como se tivesse escolhido aquele ponto para observar o mundo.

Fiquei imaginando se chocava ovos ou se já havia filhotes sob suas asas. A cena era tão curiosa quanto poética — um pássaro que trocou o galho por fios elétricos, talvez buscando calor ou abrigo, talvez apenas reinventando a natureza.

Mais tarde, na praça, enquanto uma banda tocava dobrados e modas de viola, vi outro bem-te-vi bicando pipocas caídas perto do carrinho. Ele voou em direção ao hotel, e percebi que levava uma dessas pipocas no bico.

De volta ao quarto, notei o ninho novamente — agora com três pequenas aves sendo alimentadas com pipocas.

Sorri. Aqueles filhotes, pensei, cresceriam fortes, talvez até elétricos — pássaros de energia e coragem, prontos para dominar a praça do coreto com seus cantos vibrantes.

A natureza é sábia. Ensina sem alarde.
Enquanto os humanos constroem muros e fios, os pássaros constroem ninhos — e ambos buscam abrigo, alimento e continuidade.

O silêncio das manhãs na serra me fez perceber isso: há uma harmonia invisível entre o que somos e o que observamos. Basta olhar com calma para entender que tudo está conectado — o som da viola, o voo do bem-te-vi, o aroma do café, o calor do sol que desperta.

🌿 Gran Finale

Naquele instante, compreendi que o verdadeiro descanso não está apenas nas águas da estância, mas na capacidade de ver o mundo com olhos de quem escuta.

O bem-te-vi elétrico tornou-se símbolo de adaptação e esperança — lembrando que, mesmo entre fios e ruídos, a vida encontra um jeito de cantar.

E quando o sol se ergue sobre Serra Negra, o silêncio das manhãs se transforma em música — uma melodia que só o coração entende.

Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do chá e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

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quarta-feira, 15 de abril de 2026

O MURO DAS LAMENTAÇÕES


O PEDIDO COMPRIMIDO ENTRE AS PEDRAS ANCESTRAIS

Jerusalém é mais que uma cidade — é um portal entre o humano e o divino. Suas muralhas guardam séculos de fé, dor e esperança, e cada pedra parece pulsar com histórias que o tempo não apagou. Foi nesse cenário que eu e minha esposa, movidos por uma emoção quase sagrada, iniciamos nossa peregrinação pelas vielas estreitas da cidade antiga, onde cada passo ecoava como uma prece.

A ansiedade nos dominava. Cruzávamos as ruas sinuosas de Jerusalém como quem busca um destino espiritual. O brilho em nossos olhos denunciava a expectativa de chegar ao coração da cidade antiga — um enclave histórico envolto por muralhas que testemunharam séculos de devoção e conflito.

Ali, onde o tempo se dobra sobre si mesmo, repousa o epicentro espiritual da humanidade. Nomeado pela UNESCO como Patrimônio Mundial, Jerusalém abriga as marcas das três grandes religiões monoteístas, entrelaçadas por fé e história.

Cada um de nós trazia consigo um bilhete — um pedido simples, uma súplica íntima — destinado às fendas do Muro das Lamentações. À medida que nos aproximávamos, um arrepio percorria a espinha. O ar vibrava com murmúrios de oração, o som dos shofares ecoava, e as vozes dos minaretes muçulmanos se misturavam às canções hebraicas, criando uma sinfonia espiritual que parecia tocar o próprio céu.

A diversidade humana era fascinante: mulheres árabes cobertas por véus negros, judeus ortodoxos com seus longos casacos e barbas cerimoniais, peregrinos de todas as partes do mundo. Cada olhar carregava uma história, cada gesto era uma expressão de fé.

Enquanto observava, pensei na força dessa confluência — três religiões, três caminhos, um mesmo anseio: a busca por Deus. Jerusalém, palco de promessas e conflitos, guarda as pegadas do Cristo e o eco de Sua jornada pela Via Dolorosa, o Monte das Oliveiras e o Santo Sepulcro. Cada pedra parece conter um fragmento de eternidade.

Ao inserir nossos bilhetes entre as fendas do muro, pedimos por fé, saúde, união familiar e dignidade. E, como se o tempo parasse, senti que cada papel ali guardava não apenas pedidos, mas fragmentos de alma — dores, esperanças e sonhos comprimidos entre as pedras ancestrais.

Para celebrar aquele instante, sentamo-nos em um pequeno café próximo ao portão de Jaffa. O aroma do chá de hortelã com cardamomo, bebida tradicional da região, envolveu o ambiente. Seu sabor refrescante e levemente picante parecia traduzir Jerusalém: intensa, espiritual e acolhedora. Cada gole aquecia o corpo e serenava o espírito, como se fosse uma bênção líquida.

 Gran Finale

Ao nos despedirmos do Muro, percebi que deixávamos ali mais do que bilhetes — deixávamos parte de nós. Um fragmento de fé, uma centelha de esperança, um desejo de paz universal.
Jerusalém não é apenas um lugar; é um estado de alma. E entre suas pedras milenares, nossos pedidos repousam, eternos, como orações que o vento leva ao coração do mundo.

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terça-feira, 14 de abril de 2026

EGITO: A CASA DA ALMA


O Cairo: A Joia do Oriente

Situada no coração das rotas entre Ásia, África e Europa, a cidade do Cairo é um verdadeiro tesouro do Oriente. Suas famosas pirâmides, rodeadas por minaretes que misturam passado e presente, fazem da região um lugar único, onde a história pulsa a cada esquina.

Ao nos aproximarmos da cidade ainda dentro do avião, avistamos, lá do alto, o magnífico panorama das pirâmides. O impacto visual foi deslumbrante, um espetáculo inenarrável que parecia nos conectar a uma era distante.

Naquela noite, uma experiência mágica nos aguardava: um show de luzes e sons projetado sobre as pirâmides. Imagens e vozes ecoavam no tempo, como se os próprios faraós estivessem ali, guiando-nos por sua gloriosa história.

A Grande Pirâmide e Seus Mistérios


Pela manhã, do hotel Intercontinental Pyramids Park, vislumbramos no horizonte o complexo monumental das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, construídas para abrigar os corpos dos faraós e garantir-lhes a eternidade.

Após explorar os imponentes monumentos sob o sol escaldante, nosso guia, Sr. Sahid, nos propôs uma jornada ao interior da pirâmide. Adquirimos os bilhetes e aguardamos nossa vez de entrar. A passagem era estreita, um túnel em declive onde só um grupo reduzido poderia avançar. A cada passo, a sensação de mistério aumentava.

Ao descermos, nos deparamos com corredores adornados com hieróglifos, narrando a vida do faraó desde seu nascimento até sua entrada triunfal na câmara mortuária, onde repousava seu sarcófago.

Ali dentro, um beduíno nos recebeu com um olhar enigmático, como se revivesse os dias do sepultamento do faraó. Mesmo sem entender suas palavras, sentíamos o peso da história e a energia daquele espaço ancestral.

Uma Queda Entre Milênios

Enquanto explorava os detalhes entalhados nas rochas, dei alguns passos para trás e, sem perceber, pisei em um espaço vazio. O chão parecia se abrir e me senti sendo puxado para baixo. A queda foi leve, mas meu coração disparou. Seria a maldição do faraó? Teria eu perturbado seu descanso eterno?

O beduíno gritou algo incompreensível. Minha esposa também exclamou um alerta. E, naquele instante, meu pensamento flutuou por milênios. Eu me sentia diante do próprio faraó, como se o reverenciasse e expressasse meu respeito por sua história e por tudo que seu povo construiu.

Após recuperar o equilíbrio, percebi que o ambiente ao meu redor era um testemunho vivo da grandiosidade egípcia. Tesouros saqueados, escrituras preservadas e mistérios ainda por descobrir mostravam a importância de preservar esse legado.

A Eternidade Gravada nas Pedras

A história egípcia resistiu ao tempo e continua a ser estudada por arqueólogos e egiptólogos do mundo inteiro. A descoberta da Pedra de Roseta por Champollion permitiu decifrar os segredos dessa civilização extraordinária.

Mais de cinco mil anos se passaram, mas os obeliscos e monumentos seguem imponentes, desafiando o tempo. O que mais estará oculto sob as areias e montanhas do Egito? Que novos mistérios ainda aguardam para serem revelados?

Sabores do Cairo: O Karkadé

Após o calor intenso das pirâmides, nada foi mais reconfortante do que saborear um copo de Karkadé, o tradicional chá de hibisco do Cairo. Sua cor rubra e sabor levemente ácido pareciam refletir a intensidade da própria história egípcia. Servido gelado, trouxe frescor e nos conectou à hospitalidade local, como se cada gole fosse um convite para mergulhar ainda mais na cultura dessa cidade fascinante.

O Cairo, Portal da Imortalidade

Entre pirâmides e mistérios, o Cairo revela sua alma milenar.
E quando o sol escaldante se despede, um simples gesto nos conecta à cidade:
um copo de Karkadé, o chá de hibisco rubro, refrescante e simbólico,
que traduz em sabor a intensidade da história egípcia.

Assim, cada gole é memória, cada aroma é tradição,
e o Cairo permanece não apenas como cenário,
mas como experiência viva de uma civilização eterna.


“No Cairo, cada pirâmide guarda segredos eternos — e cada gole de Karkadé revela a alma viva do Egito.”

 Um brinde à curiosidade

Este espaço é feito para quem gosta de descobrir. Falo de tudo um pouco: viagens, cultura, ideias que me atravessam. E como não há descoberta sem prazer, sempre encerro com uma receita ou uma dica de vinho — porque boas histórias merecem bons acompanhamentos.

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

JOÃO-DE-BARRO O CONSTRUTOR DA FLORESTA



Fiquei sabendo que o casal é único


A tarde de verão que era majestosa, repentinamente, transformou-se em um céu carregado de nuvens. Vieram os relâmpagos, cortando o horizonte com fios de luz, e ouvi o rugido grave dos trovões, estremecendo o solo e anunciando a tempestade. Logo, uma pesada chuva desabou, trazendo consigo o cheiro da terra molhada que subia como um perfume selvagem.

Olhei para o solo barrento na beira do meu gramado e percebi o frêmito de asas agitadas se espalhando pela lama, onde os pássaros, ávidos, disputavam a colheita inesperada da terra. O banquete estava servido: inúmeras larvas e insetos brotavam das entranhas do solo, expostos pela água que os desalojava.

Ali estava acontecendo o cio... Sedenta de amor, a terra sorvia a chuva como um amante sedento, esperando ansiosa pelo toque gentil da semente. Pedia a fecundação para que, em sua gestação, gerassem novos frutos, complementando seu estado de felicidade, acariciando suas novas crias e propiciando, aos seres humanos, alimentos saudáveis para a continuidade das espécies.

A cena era maravilhosa. Busquei em meu embornal, no quartinho de ferramentas, algumas sementes que estavam esperando esse momento sublime. Enquanto semeava nas covas mais fundas, os pássaros continuavam a procurar os insetos para alimentar os filhotes, que soltavam trinos altos, pedindo aos pais por comida. Foi nesse instante que ouvi um cantar mais estridente, bem próximo, ali naquele barro vermelho.

Era um casal de João-de-barro que, freneticamente, pedia passagem, chegando até dar voos rasantes perto da minha cabeça, expulsando-me do local; queriam aquele barro para iniciar a construção de seu ninho.

Observei, alegremente, o trabalhão incessante do casal e segui-os com os olhos para ver aonde levavam, nos bicos, as pelotas de barro. Cada pelotinha era encaixada na estrutura, como um operário que molda sua obra-prima com precisão e determinação. Notei, com alegria, que a construção se iniciava bem na minha área de lazer, na terça do telhado, acima do fogão de lenha.

Logo escureceu e o trabalho operário dos dois parceiros terminou, e o meu de observador também. Recolhi-me aos meus aposentos e busquei uma literatura em que pudesse ter mais informações a respeito desse magnífico pássaro.

Fiquei sabendo que o casal é único, ou seja, são parceiros até que a morte os separe. No dia seguinte, logo pela manhã, fui fazer as vezes de ferrenho observador, ficando contente em vê-los na obcecada tarefa da construção do ninho.

A tarefa de construção continuava; era um vai e vem desenfreado do casal, no transporte das pelotinhas de barro sob o telhado, colocando-as na base sobre a viga de madeira. O entusiasmo era grande, e quando se ausentavam, era porque estavam trançando pequenas raízes em outro local, para fortalecer as paredes do ninho. Nesse momento, corri para a torneira do jardim, peguei uma vasilha com água e coloquei em cima daquele barro perto do gramado que já estava secando, facilitando a árdua jornada dos "passaritos".

E assim fui ajudando os dois naquela empreitada. Era maravilhoso acompanhar a mesma rotina, que durou vários dias. Logo fui me municiando de dispositivos para poder observá-los à distância; então, arrumei um binóculo e uma câmera digital, para ir registrando a evolução da obra!

Com os olhos compridos, pude enxergá-los melhor na execução, sem espantá-los; e valeu a pena ficar observando. A evolução que meus olhos presenciavam era impressionante! Tudo tão perfeito: a circunferência ao redor da viga que suportava a edificação, os contornos de feixes de raízes formando uma malha, como se fosse um alicerce, o desenho da porta de entrada com a proteção contra intrusos.

Depois de terminada a casinha, iniciou-se um namoro meio maroto nas árvores próximas ao ninho, até que um dia não mais notei a presença do macho. Percebi, então, que ele examinava as redondezas para verificar a fertilidade da alimentação para os futuros filhotes, enquanto a fêmea iniciava a postura dos ovos.

Após o terceiro dia do início do choco, notei que quem alimentava a fêmea no ninho era outro macho, bem maior que aquele que a ajudou na construção da morada. Sim, porque ela não podia sair, garantindo que todos os ovos tivessem sucesso no nascimento dos filhotes.

O que teria acontecido? Fiquei em observação mais detalhada até que, na tarde do quarto dia, houve uma luta feroz no galho da árvore, culminando com a retirada do intruso, que tentava assumir o papel de condutor da família antes que os filhotes viessem ao mundo.

Seria uma traição? Certamente não, pois o macho não edificou uma parede na porta... Diz uma lenda do cancioneiro popular rural que, quando isso acontece, ele condena a fêmea dessa forma e parte para uma reclusão até a morte. Talvez fosse um macho viúvo querendo aproveitar a oportunidade para formar uma nova parceria, que foi, energicamente, repudiada.

Fiquei extremamente feliz em ver que tudo correu bem; depois de vários dias de choco, nasceram três belos filhotes, que o macho alimentou.

Passado todos esses dias, a fêmea saiu de seu confinamento e também ajudou o companheiro na criação das pequeninas aves que, logo, se tornaram bem maiores e seguiram seus destinos, sabe-se lá por onde.

E assim, o ciclo se perpetua. O casal parte, os filhotes seguem seu destino, e em algum outro telhado, sob um novo céu de verão, recomeçará a dança da vida. Esse tema encantador continuará servindo de inspiração para poetas, compositores de moda-de-viola, seresteiros, também de escritores e cronistas, relatando, através de canções, e “proseando no conto de causos”.


Entre palavras e aromas

Gosto de misturar assuntos como quem prepara uma boa receita: com cuidado, curiosidade e um toque pessoal, compartilho reflexões, histórias de viagem e, claro, em algumas vezes, uma sugestão culinária ou enológica para fechar com sabor. Que a leitura te leve longe.

Este meu blog não tem capa dura nem páginas numeradas.

Ele vive nas entrelinhas do tempo.

Cada texto é uma fresta — por onde escapa o que ainda pulsa.

Escrevo como quem conversa com o silêncio.

Como quem guarda o mundo em palavras pequenas.

Como quem acredita que lembrar é uma forma de amar.

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DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO

A despedida de Alfredo Lobão , transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga ...