quarta-feira, 17 de junho de 2026

SOB O CÉU DE MICHELANGELO

Há viagens que fazemos com os pés.
E há outras que percorremos com a alma.
 Primeiro o café, depois a conversa — aqui o texto vem depois, com calma.

Bem-vindo ao Vendramini Letras — um espaço onde a palavra é servida com café, pão e saudade. Aqui, cada texto vem depois de um gesto simples: uma receita compartilhada, uma flor plantada, uma lembrança acesa. É um convite à pausa, à escuta e ao sabor da vida como ela é — com afeto, raízes e poesia. Sinta-se em casa.

 💦

Em mais uma de nossas jornadas pela Europa, decidimos viver Cidade do Vaticano de maneira diferente. Não queríamos apenas passar pelos corredores históricos, observar monumentos ou fotografar paisagens eternizadas em cartões-postais. Desejávamos sentir o lugar. Respirar sua história. Ouvir o silêncio escondido entre mármores, pinturas e séculos.

Naquele dia, escolhemos visitar a lendária Capela Sistina.

Desde a entrada do complexo do Museus Vaticanos, o movimento era intenso. Uma verdadeira procissão humana seguia lentamente pelos corredores adornados por esculturas magníficas, tapeçarias centenárias e obras que atravessaram gerações sem perder o encanto. O cansaço já começava a pesar em nossos pés, mas os olhos continuavam famintos por beleza.

O teto da Capela Sistina, concebido por Michelangelo entre 1508 e 1512, é considerado uma das maiores realizações artísticas da humanidade. Convidado pelo Papa Júlio II, Michelangelo passou anos trabalhando praticamente suspenso sobre andaimes, pintando cenas bíblicas que até hoje parecem desafiar o tempo e a própria condição humana.

Pensávamos que o ingresso adquirido para o complexo contemplava automaticamente a entrada da capela. Mas, para nossa surpresa, não era assim. Descobrimos, já exaustos, que precisávamos retornar ao início para comprar um acesso específico. As filas pareciam intermináveis, e o relógio — sempre impiedoso com turistas sonhadores — avançava rapidamente.

Foi então que surgiu diante de nós um grupo guiado por uma pessoa que carregava um guarda-chuva colorido com uma pequena bandeira italiana na ponta. O grupo percorria outras alas antes de seguir para a tão desejada capela.

Olhei para minha esposa e perguntei, quase em tom de brincadeira:

— Vamos embarcar nessa de gaiatos?

Ela sorriu.

E fomos.

Seguimos discretamente na “rabeira” do grupo, tentando parecer turistas perfeitamente integrados naquela verdadeira torre de Babel. Havia italianos, espanhóis, franceses, americanos… uma mistura de idiomas e expressões. Conversávamos aqui e ali, tentando manter a naturalidade, embora alguns olhares denunciassem que éramos, claramente, estranhos no ninho.

Passamos por corredores adornados com as impressionantes pinturas de Rafael, observamos estátuas de antigos papas, santos e figuras históricas que pareciam vigiar silenciosamente a eternidade daqueles salões.

Mas a aventura terminou na porta da capela.

— I biglietti? Os ingressos?

Não havia argumento que resolvesse. Tivemos que regressar, enfrentar novamente a multidão e comprar as entradas corretas. O corpo já demonstrava sinais claros de esgotamento, mas algo dentro de nós insistia em continuar.

E valeu cada passo.

Quando finalmente atravessamos as portas da Capela Sistina, o mundo pareceu silenciar.

Ali dentro, o olhar não encontra repouso.

As paredes contam histórias sagradas em cores vivas e dramáticas. Em uma delas, o monumental “Juízo Final” domina o ambiente com intensidade quase sobrenatural. Cristo aparece poderoso e solene, enquanto almas ascendem aos céus ou mergulham nas sombras da condenação. Tudo pulsa movimento, emoção e espiritualidade.

Mas é o teto que rouba o fôlego da humanidade.

Michelangelo transformou aquele espaço em um universo celestial. Entre colunas pintadas e figuras monumentais, desfilam profetas, sibilas e cenas do livro do Gênesis. A mais célebre delas — “A Criação de Adão” — parece suspender o próprio tempo: Deus e o homem estendem as mãos quase se tocando, separados por um instante mínimo e eterno. É como se a centelha da vida estivesse prestes a acontecer diante de nossos olhos.

Cada figura possui músculos, expressões e movimentos tão vivos que parecem respirar acima de nós. As cores, mesmo após séculos, conservam uma força impressionante. Não é apenas pintura. É transcendência.

Estávamos tão cansados que minha esposa sentou-se junto a um banco de pedra e permaneceu imóvel, contemplando aquele cenário como quem tenta guardar a eternidade dentro do peito.

Eu fui mais adiante.

Então, vencido pelo cansaço e talvez também pela emoção, deitei-me no chão frio da capela.

Algumas pessoas talvez tenham imaginado que eu fosse um louco.

E talvez fossem certas.

Porque naquele instante, olhando para o teto pintado por Michelangelo, senti-me absurdamente pequeno diante da grandeza humana e divina. Observei aquelas figuras celestiais pairando sobre mim e pensei, quase como uma criança diante do infinito:

“Estou perto do céu.”

Ali, silenciosamente, conversei com Deus.

Pedi que nos abençoasse. Pedi forças para continuarmos nossa caminhada por Roma. Pedi saúde para novas viagens, novos reencontros com a beleza e novos momentos capazes de tocar a alma da mesma forma.

Saímos da Capela Sistina diferentes de quando entramos.

Porque certos lugares não são apenas visitados.

São sentidos.

E algumas obras não são apenas admiradas.

Elas nos transformam para sempre.


Aqui, no meu blog, deito nas letras, nas memórias nos afetos e encantamentos.

E você, já teve uma experiência que te fez sentir mais próximo do céu?

Escrevo para que o tempo não apague o que a alma recorda.”

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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

2 comentários:

Anônimo disse...

O Vendramini Neto ,é sem dúvida um poeta com uma sensibilidade extraoirdinária ,quando digo poeta ,é num todo ,os textos são sempre de uma enorme inspiração .Esta descrição da sua visita á Capela Sistina ,é inspiradora , Miguel Ângelo ,foi um ser cuja alma estava ligada a algo que não era acessível a qualquer outro humano .
,

Antonio Vendramini Neto disse...

Obrigado de coração ao leitor(ora)

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