domingo, 16 de agosto de 2026

MINHAS MANHÃS COM CHEIRO DE CAFÉ, HISTÓRIAS QUE RESISTEM AO TEMPO


Entre pedras antigas e histórias que resistem ao tempo, este espaço nasce como um refúgio para a alma. Aqui, cada texto é uma travessia — um olhar sobre o humano, o divino e o cotidiano. São relatos que unem fé e sensibilidade, onde o silêncio das ruas, o aroma do café e o brilho das velas se transformam em palavras.

Que este blog seja um convite à contemplação: um lugar onde o leitor possa repousar o pensamento, saborear a beleza das pequenas coisas e reencontrar-se com o que há de mais essencial — a esperança.

" minhas Histórias que atravessam línguas e mundos. Use o Translate à direita e descubra minhas crônicas em qualquer idioma." 

 "Stories that cross languages and worlds. Use Translate on the right and explore my chronicles in any language."

Você já parou para pensar que o café que está na sua chávena hoje já mudou o destino de uma nação inteira? 

Muito além de nos despertar todas as manhãs, esse grão foi o verdadeiro protagonista que financiou o progresso, sustentou o Império e pavimentou o caminho para a nossa República. Mas a sua maior magia ainda acontece dentro de casa: ele une a família ao redor da mesa e liberta a nossa imaginação.
No novo texto do blog, faço uma viagem afetiva e histórica sobre como esse velho companheiro moldou o nosso país e se tornou a maior inspiração para as minhas crónicas.
Ele sempre foi o verdadeiro chefe da casa, embora nunca tenha assinado um contrato ou ocupado a cadeira principal à cabeceira da mesa. O café, esse velho companheiro de grão escuro e alma aromática, assiste à nossa vida quotidiana como quem guarda os segredos mais profundos de uma família. Antes mesmo de as palavras nascerem no papel, o perfume dele já preenche os cantos da sala. É ele quem traz os corpos sonolentos para o redor da mesa, desarmando as pressões do dia que começa e criando um espaço de partilha. O café não é apenas uma bebida rápida; ele funciona como o fio invisível que une as nossas memórias afetivas, servindo como um abraço morno em cada conversa de cozinha.
Mas o protagonismo desse fruto não nasceu hoje, nem se limita às paredes do nosso lar. Para entender a força que nos move a escrever, a ler e a dialogar à mesa, é preciso recordar que o Brasil já se apoiou inteiramente nos ombros desse gigante verde e rubro. No século XIX, foi a riqueza da lavoura cafeeira que financiou os primeiros caminhos de ferro, ergueu palacetes aristocráticos e sustentou as estruturas financeiras de um Império que já cambaleava. O grão que brilhava nos vales do Paraíba e nas terras roxas do interior paulista tornou-se a moeda forte, o motor económico irrefreável que empurrou uma nação agrária e colonial em direção à modernidade.
Mais do que gerar riqueza material, o café desenhou o nosso destino político. Foi sob o efeito da sua expansão, da urbanização acelerada e das profundas transformações sociais provocadas pela sua economia que as velhas bases da monarquia ruíram. O dinamismo do oeste paulista e as novas elites cafeicultoras criaram o cenário ideal para a derrocada do trono, pavimentando o caminho que nos fez seguir adiante até à proclamação da República. O progresso que hoje respiramos foi colhido, grão a grão, por mãos que moldaram a identidade nacional. O café transformou a nossa história pública muito antes de se aninhar nas nossas rotinas e tornar-se o guardião das nossas confissões privadas.
Por isso, quando a minha máquina moderna desperta e o aroma invade o escritório, sinto que não estou apenas a desfrutar de uma praticidade tecnológica. Estou, na verdade, a conectar-me com uma ancestralidade vigorosa que moveu oceanos e derrubou regimes. A boa crônica imita com precisão o comportamento do café: ela aproxima os distantes, gera debates calorosos e convida ao convívio descontraído, cativando até quem não tem o hábito frequente da leitura. Ela é a nossa grande roda de conversa.
Ao terminar cada texto, olho para o fundo da chávena vazia e compreendo que o mistério permanece perfeitamente intacto. Continua a ser impossível decifrar o que é mais verdadeiro: se é o café que gentilmente inspira a minha escrita, ou se é a minha escrita que serve de desculpa eterna para saudar este velho membro da família.

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."

"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos e crônicas não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."

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Antonio Vendramini Neto – Face Book.

Antonio Toninho Vendramini Neto
Criador de Conteúdo Culturais que escolheu contar histórias

💅 

coloco abaixo, um poema do meu amigo poeta português.

A BELEZA ESTÁ ALÉM DO OLHAR

A vida é sempre bela

E mesmo quando não vemos beleza nela
É porque somos nós quem estamos doentes dos olhos e despidos
De seu encanto.

A beleza está além do olhar e assimila.  

Jorge Humberto
13/08/2026

A AMIZADE TAMBÉM ESCREVE POEMAS



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 "Cada crônica é uma viagem sem fronteiras. Quer ler em outro idioma? Clique em Translate à direita do blog e siga comigo." 

 "Each chronicle is a journey without borders. Want to read in another language? Click Translate on the right side of the blog and come along."

 

Ele não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias, mas sim, porque alguém como eu, se recusou a esquecê-las."


"A tecnologia guarda arquivos; a poesia guarda vidas."


A poesia que nem o tempo consegue apagar

Há amizades que o tempo não mede em quilômetros, mas em lembranças. Assim é a amizade que cultivo há muitos anos com o poeta português Jorge Humberto. Embora separados pelo Atlântico, sempre estivemos próximos pela palavra escrita, pela admiração mútua e pelo prazer de compartilhar a poesia.

Durante muito tempo, tive a alegria de receber seus poemas e transformá-los em apresentações ilustradas. Eram imagens escolhidas com carinho, procurando acompanhar a delicadeza de cada verso. Hoje, por problemas em seu computador, meu amigo já não consegue abrir aqueles antigos arquivos. As imagens desapareceram, os textos deixaram de surgir na tela e parte desse trabalho ficou perdida no tempo.

Mas foi justamente aí que compreendi uma verdade muito bonita: a poesia nunca dependeu das imagens para existir.

Elas ajudavam a emocionar os olhos. Os versos, porém, sempre falaram diretamente ao coração.

É esse sentimento que encontro em "Teu Inconstante Amor".

Jorge Humberto nos conduz às recordações de um amor que nasceu envolto pela beleza da juventude, pelo brilho das manhãs e pelo encanto do mar. Tudo parece sólido, promissor, construído com esperança. O poeta vai erguendo esse pequeno universo com a delicadeza de quem acredita que alguns sentimentos possam durar para sempre.

Entretanto, como tantas vezes acontece na vida, o céu muda de cor.

Sem recorrer ao exagero ou ao drama, seus versos mostram que também os sonhos conhecem o entardecer. O amor perde o rumo, as certezas se desfazem e resta apenas a silenciosa companhia da saudade. É uma tristeza contida, elegante, profundamente humana, daquelas que dispensam explicações porque cada leitor, em algum momento da vida, já experimentou algo semelhante.

Talvez seja justamente essa simplicidade que torna a poesia de Jorge Humberto tão verdadeira. Ela não procura impressionar. Apenas fala baixinho ao coração de quem lê.

Tenho a alegria de compartilhar este belo soneto com os leitores do Vendramini Letras. É também uma forma de celebrar uma amizade construída entre Portugal e Brasil, unida pela literatura, pelo respeito e pelo carinho de tantos anos.

Os computadores envelhecem. Os arquivos podem desaparecer. As imagens, por vezes, se perdem.

Mas os poemas...

Ah, os poemas encontram sempre um novo caminho para continuar vivendo

E agora, convido você a fazer o que realmente importa nesta publicação: ler.

Leia sem pressa. Permita que cada verso encontre seu próprio lugar dentro de você. Tenho certeza de que, ao chegar ao último verso, compreenderá por que alguns poemas permanecem vivos muito depois que o tempo apaga as imagens.

TEU INCONSTANTE AMOR

 

Jovens, belos e apaixonados,
levávamos a vida encantados,
nas manhãs grávidas de sol,
nas ondas do mar ao arrebol.

Na distância criámos o ninho,
raminhos e flores de azevinho.
E foram tantas as esperanças,
tantas e alicerçadas alianças,

que alcei vôo: e fomos nós,
bastando-nos um ao outro.
Porém, escureceu-se o céu,

da cintura do universo ao cós
vulgo da ganga. Nado morto,
que descreu e me pôs no breu. 

Jorge Humberto
12/07/2026

Se você chegou até aqui, talvez tenha percebido que este não é apenas um poema sobre um amor que mudou com o tempo. É também uma lembrança de que a vida transforma pessoas, modifica caminhos e, às vezes, apaga registros que pareciam eternos.

Felizmente, há coisas que resistem.

A amizade sincera resiste.

A boa literatura resiste.

E a poesia, quando nasce do coração, sempre encontra novos leitores, novos caminhos e novos horizontes.

Meu abraço fraterno ao amigo Jorge Humberto, com a gratidão de quem teve a alegria de caminhar ao seu lado por tantos anos, unidos pela palavra escrita.

Que este soneto continue atravessando o Atlântico, levando consigo a mesma sensibilidade com que foi criado e encontrando abrigo no coração de todos aqueles que ainda acreditam na força transformadora da poesia.

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Escritor | Criador de conteúdos culturais

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O BANDOLEIRO DOS SERTOES NORDESTINOS - ELE AINDA CAVALGA...


Blog Vendramini Letras

Não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."



SENTA QUE LÁ VEM MAIS UMA, DAQUELAS LÁ DOS SERTÕES NORDESTINOS

ONDE LAMPIÃO AINDA CAVALGA

Crônica literária

Há lugares onde a História termina nos livros. No sertão, ela continua sendo contada entre um café quente, um verso de cordel e a sombra comprida de um fim de tarde.

Viajar é colecionar paisagens, mas algumas viagens nos oferecem muito mais do que aquilo que os olhos conseguem registrar. Há lugares que deixam fotografias na memória e outros que, além das fotografias, nos entregam pessoas, histórias e personagens que continuam conosco muito depois de a viagem terminar. Foi assim que aconteceu comigo em uma viagem de recreio com a família a Aracaju, capital de Sergipe.

Logo nos primeiros dias, a cidade me chamou a atenção pela organização de suas ruas centrais, que formam um curioso tabuleiro de xadrez, e pelo conjunto de lugares que fomos conhecendo durante o city tour: a Catedral, a Colina de Santo Antônio, de onde se descortina uma bela vista panorâmica da cidade, a Praia de Atalaia e o Mirante do Calçadão da 13 de Julho. Mas, entre todos esses lugares, foi o Mercado Municipal que realmente despertou minha curiosidade.

Havia ali qualquer coisa diferente.

Não era apenas um mercado onde se compravam produtos. Era um pedaço vivo do Nordeste, com seu artesanato, seu folclore, seus cheiros, suas cores, sua música e, principalmente, sua gente. Entre uma banca e outra, encontravam-se vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, músicos e personagens que pareciam ter saído diretamente de algum daqueles folhetos de cordel que contam histórias de geração em geração. Foi também ali que avistei um contador de histórias que me chamou a atenção.

Comentei com minha esposa que deveríamos voltar ao mercado em outro dia, com mais calma, para conhecer melhor suas peculiaridades. Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquela decisão acabaria tendo um papel importante na história que eu levaria comigo daquela viagem.

Em outro dia, seguimos rumo aos Cânions do Rio São Francisco. À medida que nos afastávamos de Aracaju, a paisagem ia se modificando e as terras áridas começavam a anunciar o sertão. De repente, porém, surgiu diante de nós um contraste impressionante: o projeto de irrigação chamado Califórnia, onde a água transformava a paisagem e fazia nascer plantações de quiabo, uva, acerola, coco, maçã, feijão e outras culturas. Era como se a terra, depois de enfrentar durante tanto tempo a dureza do sol, tivesse encontrado uma maneira de responder à seca com abundância.

Mais adiante, às margens do Velho Chico, erguia-se a imponente Usina Hidrelétrica de Xingó, cujo reservatório formava os cânions de uma beleza que dificilmente pode ser descrita apenas por palavras.

O passeio foi feito de catamarã, e fomos avançando lentamente pelas águas enquanto os paredões de pedra se erguiam ao nosso redor. Admiramos paisagens deslumbrantes e passamos pela Gruta do Telhado, que despertava a curiosidade de todos. No retorno, ainda visitamos o Museu de Arqueologia, cujo acervo era proveniente das escavações realizadas na região do reservatório.

Quando voltamos a embarcar no catamarã, o cicerone tomou a palavra. Falava com entusiasmo, daquele jeito peculiar de quem não está simplesmente transmitindo informações aos turistas, mas contando uma história que conhece e aprecia.

Foi então que mencionou Lampião.

Contou que, dois dias antes, na pequena cidade de Piranhas, havia acontecido uma missa em homenagem à morte do famoso cangaceiro. Segundo ele, fora uma grande concentração popular, com gente vinda de diversos lugares para lembrar Lampião e seu bando. Ali perto, na Grota do Angico, Lampião havia sido morto juntamente com seus companheiros, surpreendidos pelas forças policiais conhecidas como volantes.

O nome ficou ressoando em minha cabeça.

Lampião.

Eu já conhecia alguma coisa sobre o personagem, como praticamente todo brasileiro conhece, mas ouvir aquela história naquele lugar, tendo diante dos olhos o próprio Rio São Francisco e aquelas paredes de pedra que pareciam guardar segredos de outros tempos, produziu em mim uma curiosidade diferente.

Quem teria sido, afinal, aquele homem?

Um bandido?

Um herói?

Um homem cruel transformado em lenda?

Ou talvez todas essas coisas ao mesmo tempo, dependendo de quem contasse a história?

O pacote turístico incluía o almoço em um restaurante rústico à beira da represa e, quando nos aproximávamos das mesas, o cicerone fez outro anúncio que aumentou ainda mais minha curiosidade:

— Depois do almoço, não deixem de conhecer Dona Expedita, filha de Lampião, que os receberá com sua filha Vera.

Aquela informação mudou completamente o meu interesse pelo passeio.

Dona Expedita, filha de Lampião.

A mulher nos recebeu com simplicidade e, aos poucos, foi contando um pouco de sua história. Disse que, ao nascer, fora entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos e que, até a morte de Lampião e Maria Bonita, havia sido visitada por eles apenas três vezes.

Então disse algo que me surpreendeu:

— Eu tinha medo das roupas e das armas, mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava no colo para conversar.

A frase ficou comigo.

Até aquele momento eu vinha tentando conhecer Lampião como personagem histórico. De repente, porém, sua filha me apresentou uma outra imagem: a do pai que a colocava no colo.

Era uma lembrança simples, quase doméstica, e talvez justamente por isso tão forte.

Naquele instante compreendi que, por trás de toda figura histórica, existe uma pessoa que foi pai, filho, irmão, amigo ou inimigo de alguém. A História registra os grandes acontecimentos, mas muitas vezes é a memória das pessoas comuns que consegue devolver humanidade aos personagens que o tempo transformou em lenda.

Voltamos para Aracaju, mas Lampião continuou comigo.

Eu queria saber mais sobre aquela figura que atravessava as fronteiras de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia e que parecia ter sobrevivido ao próprio tempo.

Foi então que me lembrei do contador de histórias que havia visto no Mercado Municipal.

No último dia da viagem, voltamos ao mercado.

E encontrei um verdadeiro espetáculo nordestino.

Havia lojas, barbeiros, cabeleireiras, manicures, vendedores de queijo, castanhas e manteiga de garrafa, artesãos, grupos de forró, dançarinos e tocadores. Era um daqueles lugares onde o comércio e a cultura parecem ter feito um acordo para viverem juntos.

Fui direto à bancada dos causos e das lendas.

E lá estava ele, cercado de gente e de repentistas.

Foi ali que conheci João Firmino Cabral, mestre da literatura de cordel, um homem que parecia compreender que determinadas histórias não foram feitas para permanecer quietas dentro de livros: elas precisam ser ditas, ouvidas e novamente contadas.

Naquele momento, João lia trechos de um livreto chamado Lampião — Herói ou Bandido.

Parei para ouvi-lo.

Ao final, comprei um exemplar e pedi que o autografasse. Trocamos cartões e falei sobre minha paixão por escrever. Confesso que, depois de tudo que havia ouvido, de herói eu ainda tinha dificuldade para enxergar Lampião.

João, porém, não parecia preocupado em me convencer de coisa alguma.

Ele simplesmente contava.

E talvez seja justamente aí que esteja a força do cordel.

O cordelista não precisa dar a última palavra. Ele apresenta o personagem, coloca a história diante do povo e deixa que cada ouvinte tire suas próprias conclusões.

Foi assim que João me contou uma passagem envolvendo Padre Cícero.

Segundo o causo, Padre Cícero teria mandado um recado a Lampião:

— Virgulino, meu afilhado, venha urgente! A Coluna Prestes quer invadir Juazeiro, saquear a cidade, queimar o mercado e matar o povo romeiro.

Lampião teria atendido ao chamado. Ao entrar em Juazeiro, os invasores, sabendo de sua presença, recuaram. Em agradecimento, recebeu o título simbólico de Capitão e, ao partir, teria cantado pelas ruas:

— O meu nome é Virgulino, mas me chamam Lampião, e agora sou capitão!

João continuou contando outras curiosidades.

Lampião havia sido criado com sete irmãos, três dos quais também se tornariam companheiros de cangaço. Sabia ler e escrever, tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês e possuía habilidade com o couro, confeccionando seus próprios chapéus e indumentárias.

A imagem que se formava diante de mim era cada vez mais complexa.

Não era apenas o homem bruto da peixeira.

Era também um personagem cheio de contradições, capaz de produzir medo e admiração, violência e poesia, brutalidade e cuidado com a própria aparência.

Talvez fosse justamente essa mistura que tivesse permitido que sua figura ultrapassasse a História e entrasse definitivamente no imaginário popular.

Mas a História tinha uma data para encerrar a vida de Virgulino Ferreira da Silva.

Na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, na margem sergipana do São Francisco, uma tropa alagoana surpreendeu o bando. O combate durou poucos minutos e, entre os mortos, estava o temido Lampião.

Terminava ali a saga do pernambucano que havia entrado para o cangaço depois do assassinato do pai e que, juntamente com três irmãos, jurara vingança. Ele se juntara ao bando de Sinhô Pereira e, quando este deixou o cangaço, o jovem Virgulino, então com apenas 24 anos, assumiu o comando.

Nascia o Lampião que entraria para a história.

Durante anos, perseguiu-se e foi perseguido pela caatinga, até chegar àquele desfecho.

Depois de sua morte, muitas histórias começaram a circular. Falava-se de tesouros enterrados, de ouro, de dinheiro e das riquezas que os cangaceiros teriam escondido pelo sertão. Quanto mais o tempo passava, mais a fronteira entre o que realmente acontecera e aquilo que o povo imaginava parecia desaparecer.

E talvez seja exatamente assim que nascem as lendas.

A História conta o que aconteceu.

O povo acrescenta aquilo que gostaria de ter visto acontecer.

E o contador de histórias mistura as duas coisas com tanta habilidade que, depois de algum tempo, ninguém mais sabe onde termina uma e começa a outra.

Foi então que percebi que Lampião, embora morto há décadas, continuava vivo.

Não como homem.

Como personagem.

Vivo na memória popular, nos livros, nos folhetos de cordel, nos causos contados nas feiras e nas conversas de quem conhece o sertão.

E, depois de tudo o que havia ouvido e visto, senti vontade de deixar minha própria imaginação entrar naquela história.

Foi assim que nasceu o causo que segue.

LAMPIÃO E O “LAMPARINA”

Conta-se que uma pequena cidade do sertão já não aguentava mais as passagens do bando de Lampião. A vila ficava justamente numa das rotas utilizadas pelos cangaceiros e, sempre que apareciam, deixavam atrás de si medo, confusão e uma população obrigada a suportar as exigências daqueles homens.

O prefeito, cansado de viver naquela situação, resolveu tomar uma providência. Reuniu alguns jagunços e contratou-os para proteger a cidade. Os homens se instalaram no galpão da Prefeitura, armados e cheios de confiança, pois sabiam que Lampião poderia aparecer novamente a qualquer momento.

Numa noite escura, o bando se aproximou da cidade e Lampião decidiu acampar ali mesmo, ao pé do fogo. Chamou o cabra Azulão e mandou que levasse um bilhete ao prefeito, exigindo dinheiro e comida para seus homens.

Azulão partiu.

Ao chegar à cidade, percebeu logo que havia alguma coisa diferente. Nas entradas da vila havia jagunços armados, vigiando as ruas. Um deles, ao ser perguntado sobre o motivo daquela movimentação, respondeu que estavam ali a mando do prefeito para espantar o bando de Lampião.

Azulão não se intimidou. Foi até a Prefeitura e entregou o bilhete.

O prefeito, sentindo-se protegido pelos novos defensores, respondeu com uma coragem que talvez não tivesse demonstrado sozinho:

— Manda Lampião ir tomar no rabo! Aqui quem manda sou eu. Que venham, se tiverem coragem. Agora tenho proteção.

Azulão voltou e contou tudo a Lampião.

O cangaceiro ficou furioso.

— Quantos cabras tem na vila?

Azulão hesitou.

— Sei não, capitão. Tem gente escondida, não contei.

Lampião perdeu a paciência.

— Seu inútil! Não serve pra nada!

Mandou então alguns homens descerem o morro para observar melhor a situação. Os jagunços, ao perceberem que se tratava de gente do bando de Virgulino, trataram logo de desaparecer. A valentia que parecia tão grande quando estavam protegidos pela escuridão e pelas armas se dissolveu rapidamente diante da realidade.

Quase todos fugiram.

Restou apenas o chefe.

Na manhã seguinte, Lampião mandou seu irmão Bico-Fino verificar o terreno.

Pouco depois, ele voltou.

— Meu irmão, só tem um cabra. Os outros fugiram.

Lampião sorriu.

— Então vamos!

O bando entrou na cidade.

O prefeito, desesperado, correu até o chefe dos jagunços e gritou:

— Dê um fim nesses bandidos!

O homem, ainda tentando manter a fama de valente, abriu a janela e chamou:

— Venham aqui! Vamos acabar com eles!

Esperou.

Nada.

Chamou novamente.

Silêncio.

Foi então que percebeu que estava sozinho.

Mesmo assim, saiu para a rua.

E lá estava Lampião, esperando por ele, com a peixeira na mão.

O homem que até poucos minutos antes se julgava o grande defensor da cidade começou a perder a valentia. As pernas tremiam e o medo tomou conta de seu corpo.

Lampião olhou para ele e perguntou:

— Ué, seu frouxo, tu não é macho? Sabe com quem está falando? Sou o temido Capitão Virgulino, o Rei do Cangaço. E tu, quem é?

O homem, já completamente desarmado pela própria covardia, encolheu-se, ajoelhou-se diante de Lampião e respondeu:

— Sou o Lamparina...

Fez uma pausa.

Olhou para o chão.

E completou:

— ...o Rei do Cagaço.

E foi assim que, depois de ouvir tantas histórias sobre Lampião, acabei criando mais uma.

Talvez tenha acontecido.

Talvez não.

Mas pouco importa.

No sertão, algumas histórias não precisam de certidão de nascimento.

Elas simplesmente começam a ser contadas.

Passam de uma boca para outra, ganham um detalhe aqui, outro ali, recebem uma risada, um exagero, uma lembrança e, quando percebemos, já se transformaram em parte da memória de um povo.

Foi o que aconteceu comigo naquela viagem.

Voltei para casa com fotografias dos cânions, lembranças do Velho Chico, o folheto de cordel de João Firmino e, principalmente, com a recordação daquela frase de Dona Expedita, quando falou do homem que era seu pai e não apenas do cangaceiro que o mundo conheceu.

Foi então que compreendi que Lampião poderia ter morrido naquela madrugada de julho de 1938, mas o personagem não morreu.

Ele continua vivendo no cordel, nos causos, nas feiras, nas conversas e na imaginação de quem ainda encontra prazer em sentar-se para ouvir uma boa história.

Talvez seja esse o verdadeiro poder de uma lenda.

O homem desaparece.

A história permanece.

E, enquanto houver alguém disposto a contar, alguém disposto a ouvir e alguém disposto a acrescentar mais um pedaço de imaginação ao que já foi contado, Lampião continuará atravessando a caatinga.

Não necessariamente montado num cavalo.

Não necessariamente empunhando uma peixeira.

Mas cavalgando pela memória de um povo que aprendeu a transformar a própria história em literatura.

Foi assim que voltei de Sergipe.

Com a sensação de que não havia simplesmente conhecido um lugar.

Havia encontrado personagens.

E, entre eles, um que parecia insistir em permanecer no caminho.

Talvez seja por isso que, quando penso naquela viagem, ainda consigo imaginar o Velho Chico correndo silenciosamente entre os paredões, o mercado cheio de vozes, o cordel aberto nas mãos de João Firmino e, ao longe, perdido entre a poeira e a lembrança, um cavaleiro atravessando o sertão.

Lampião ainda cavalga.

Não pela estrada.

Pela memória.

E talvez continue cavalgando enquanto houver um sertanejo, um poeta, um cordelista ou simplesmente alguém disposto a dizer:

— Dizem que... 


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terça-feira, 4 de agosto de 2026

A VELHA GUARDA ITALIANA: VOZES ETERNAS ENTRE SANGUE, VINHO E CANÇÃO.

 

Chamada editorial

"Três vozes italianas que marcaram gerações se despediram da vida, mas nunca da música. Fred Bongusto, Peppino Gagliardi e Peppino di Capri permanecem eternos em nossas memórias, como vinho, canto e saudade que atravessam mares e tempos."

A velha guarda italiana partiu. Fred Bongusto, Peppino Gagliardi, Peppino di Capri — vozes que se calaram no corpo, mas que permanecem eternas na alma. Fred trouxe sua música até nós, dividindo palcos com Toquinho, e deixou o Brasil impregnado de sua ternura. Gagliardi, com sua suavidade, ensinou que cada despedida pode soar como promessa de reencontro. E Peppino di Capri, que tantas vezes esteve em nosso país, fez do Brasil sua segunda casa, cantando Roberta, Champagne e tantas outras melodias que se tornaram parte de nossa própria memória.

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"As histórias não sobrevivem porque são extraordinárias. Sobrevivem porque alguém se recusou a esquecê-las."

SENTA QUE LÁ VEM A CRÔNICA

Alfredo Antonio Carlo Buongusto, conhecido artisticamente como Fred Bongusto, nasceu em Campobasso em 6 de abril de 1935 e faleceu em Roma em 8 de novembro de 2019, aos 84 anos. Cantor, compositor e músico italiano, tornou-se famoso por sucessos como Una rotonda sul mare, Spaghetti a Detroit e Doce Doce. Sua carreira foi marcada por um estilo romântico e intimista, que conquistou plateias na Itália e no mundo. Fred também esteve no Brasil, onde se apresentou ao lado de Toquinho, criando um encontro musical que uniu duas culturas irmãs. Seu legado permanece vivo como trilha sonora de noites inesquecíveis.

Peppino Gagliardi, nascido em Nápoles em 25 de maio de 1940 e falecido em 9 de agosto de 2023, foi um famoso cantor, compositor e músico italiano. Tornou-se conhecido por canções que atravessaram fronteiras e marcaram gerações, como Che vuole questa musica stasera e Come le viole. Sua voz suave e elegante transformava sentimentos em melodia, e por isso continua presente em cada lembrança que desperta. Gagliardi foi intérprete de uma Itália romântica e nostálgica, capaz de traduzir em música o amor, a saudade e a beleza da vida.

Giuseppe Faiella, conhecido mundialmente como Peppino di Capri, nasceu em 27 de julho de 1939 na Ilha de Capri e faleceu em 11 de julho de 2026, aos 86 anos. Cantor, compositor e pianista, misturou o rock e o twist com a tradição melódica italiana e napolitana, tornando-se um ícone romântico mundial. Com mais de 500 músicas gravadas e cerca de 35 milhões de discos vendidos, venceu o Festival de Sanremo em 1973 e 1976. Sucessos como Champagne e Roberta se tornaram hinos de gerações. Sua ligação com o Brasil foi profunda: apresentou-se inúmeras vezes entre 1961 e 2019, sempre recebido com entusiasmo e carinho pelo público brasileiro, que fez dele quase um compatriota. Peppino não foi apenas um cantor — foi o intérprete de uma Itália que se tornou sentimento universal. Sua voz doce e elegante transformou o Mediterrâneo em canção, e sua presença em palcos brasileiros deixou marcas indeléveis na memória de gerações.

Eles se despediram da vida, mas nunca da música. Cada acorde é raiz, cada melodia é memória. Suas canções continuam a nos embalar, como o vento que sopra sobre Capri, como o sino que ecoa em Nápoles, como o sol que se põe sobre Roma.

E eu, descendente de italianos, trago comigo não apenas a lembrança da Itália, mas o sangue e os sonhos de meus ascendentes. No sangue, a vida bela; nas canções, a alma que nunca morre; no vinho, a tradição que nos faz recordar para sempre das pessoas que nasceram na Itália e nos legaram cultura, poesia e amor.

Assim como o vinho renasce da videira, suas vidas — as dos artistas e as dos meus — renascem em nós.
E suas músicas, eternas, continuam a nos acompanhar — como estrelas que não se apagam, como perfumes que permanecem no ar.
Fred, Gagliardi e Peppino se despediram da vida, mas deixaram em nossos corações a Itália inteira — viva, cantada e eterna.

Frase de encerramento

"Sou descendente de italianos e trago no sangue a vida bela, nas canções a alma eterna, e no vinho a memória que nunca se apaga."



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DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO

A despedida de Alfredo Lobão , transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga ...