quarta-feira, 16 de setembro de 2026

HIDEO GALHO: ENTRE FIOS, CARDAS E A SEGUNDA GUERRA


No início de 1958, o Brasil ainda respirava os ares do pós-guerra e eu, com meus 14 anos, começava a minha jornada no mundo dos adultos. Meu primeiro palco foi uma fábrica de tecelagem que parecia uma miniatura da ONU. Pertencente a um conglomerado chinês — cujo dono era ninguém menos que primo de Chiang Kai-shek, o figurão da China Nacionalista —, a fábrica era um caldeirão de sotaques e temperamentos.

Meu trabalho era burocrático, mas exigia pernas. Eu circulava entre as máquinas para anotar a produção em um livro, lendo os ponteiros nos eixos das máquinas. Eu passava pelos Rings (os filatórios de anéis onde o algodão se tornava fio) e pelas temidas Cardas.
Foi nas Cardas que encontrei meu nêmesis: o Sr. Hideo.
Hideo era um japonês de poucas palavras, baixinho, de bigode impecável e um uniforme que parecia saído diretamente dos tempos do império japonês. Para um garoto abusado como eu, ele era um alvo irresistível. Todos os dias, às 13h30, o ritual se repetia. Eu passava por ele e disparava:
— Oh, Japonês! Veio lá da guerra?
Hideo não falava português, mas entendia a provocação. Seus olhos soltavam brasas. Ele batia no peito e gritava:
— Menino! Não sou "japonês". Sou HIDEO!
A vontade de provocar era maior que o medo. Entre os garotos da seção, surgiu a profecia: "Isso ainda vai dar galho". Naquela época, "dar galho" era o que hoje chamamos de "dar ruim". A gíria pegou tanto que rebatizamos nosso carrasco. Ele não era mais apenas Hideo; para nós, ele era o Hideo Galho.
Certo dia, o "galho" finalmente quebrou. Abusei da sorte e chamei-o de japonês pela última vez. Hideo perdeu a estribeira. Correu atrás de mim com uma fúria samurai. Eu disparei pelo corredor, passando pelo alojamento da fábrica, um lugar onde a hierarquia se misturava ao cheiro de comida.
Ali viviam os "especiais": o gerente italiano Ferdinando, o eletricista belga Bohumil e o mecânico Leite. No meio da minha fuga desesperada, invadi o refeitório na hora do lanche. Hideo estava quase me alcançando quando o destino interveio na forma de dois metros de altura: o belga Bohumil.
Havia uma rixa antiga ali. O belga bebia e roncava; o japonês odiava o barulho. Bohumil ergueu Hideo pelo colarinho como se fosse um boneco de pano.
— Você quer machucar o menino? — trovejou o gigante.
Hideo, em uma mistura de pânico e desespero, emitiu um som (e um cheiro!) que interrompeu qualquer combate. Era uma fragrância inesquecível de peixe morto e ovo podre, fruto de sua dieta rigorosa de sashimi. A cena era digna de um filme de comédia pastelão.
O caos só terminou quando a voz de trovão do Sr. Ferdinando, o italiano, ecoou pelo pátio:
— Siamo al lavoro, non in strada! Andate a lavorare!
A fábrica voltou ao normal, mas as lendas de corredor nunca morrem. Anos depois, reencontrei um antigo colega de turno que me contou o desfecho daquela convivência forçada. Em uma última briga no alojamento, o belga Bohumil, já arranhando o português, teria encerrado a discussão com a frase que nós criamos:
— Hideo... você é muito GALHO!
Saí da fábrica, mas levei comigo a lição: em um mundo de fios e tensões, às vezes é o humor (ou um susto bem dado) que impede que a máquina da vida trave de vez.


Depois de muitos anos atuando nas áreas de Recursos Humanos e Gestão da Qualidade (ISO 9001), inclusive como auditor de certificação, troquei os relatórios por passagens aéreas e os manuais por mapas. Hoje, escrevo sobre o que vejo, vivo e sinto — misturando histórias do cotidiano com experiências de viagens que me levaram dos desertos ao gelo, das vielas escondidas às grandes avenidas do mundo. Cada texto é uma bagagem aberta, cheia de curiosidades, reflexões e encontros que merecem ser compartilhados.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

DO PEIDO À METÁFORA: O CORONEL GALO PRETO

 


O Coronel Galo Preto: Entre o Causo e a Crítica

Nota do Autor

Este conto nasceu primeiro como um causo popular, cheio de humor, exageros e até receitas. Depois, foi retrabalhado em chave acadêmica, com prefácio crítico e leitura literária. Aqui reúno as duas versões para mostrar como um mesmo episódio pode ser saboreado de formas diferentes. Quem quiser mergulhar nos textos completos, encontrará abaixo as duas versões — primeiro a satírica, depois a acadêmica — seguidas de uma reflexão comparativa.

Introdução Crítica

O conto do Coronel Galo Preto é um exemplo curioso de como a literatura pode assumir diferentes registros sem perder sua essência. Na primeira versão, ele surge como um causo popular, cheio de humor escrachado, exageros grotescos e até receitas culinárias — uma narrativa que mistura oralidade, memória cultural e comicidade.

Na segunda versão, o mesmo episódio é retrabalhado em chave acadêmica. O coronel deixa de ser apenas figura folclórica e passa a encarnar a metáfora do poder rural, autoritário e teatral. O detalhe escatológico — o famoso “peido” — transforma-se em recurso literário consciente, revelando a fragilidade da autoridade diante da humanidade.

Assim, o leitor pode saborear o conto em duas camadas: como anedota divertida que arranca gargalhadas, e como sátira crítica que expõe os vícios da vida pública. Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um causo escatológico pode virar metáfora da política.

O Conto Satírico (versão popular)

Entre peidos e bolinhos: o causo do Coronel Galo Preto

No coração do interior paulista, onde o aroma do café se misturava ao cheiro da terra molhada, não eram apenas os grãos que decidiam o rumo da economia — mas também os homens que os negociavam. Entre eles, um se destacava: o temido e folclórico Coronel Galo Preto, figura lendária que comandava a bolsa cafeeira com mão de ferro e hábitos… peculiares.

Este conto resgata não só os bastidores das negociações que moviam o Brasil, mas também os sabores que acompanhavam o poder — como os bolinhos de bacalhau e o frango frito que o coronel devorava entre uma baforada de charuto e outra. Ao final, você encontrará uma receita inspirada nesses tempos de coronéis, para reviver um pouco da história à mesa.

Em uma importante cidade do interior de São Paulo, região de extensas plantações de café reconhecidas por sua qualidade excepcional, os grãos eram disputados por compradores do ramo, transformando-se na famosa bebida conhecida no Brasil e mundo afora. Negociantes internacionais frequentemente visitavam o local para adquirir as safras, enquanto os fazendeiros da região se reuniam em uma espécie de bolsa cafeeira, onde os preços eram estabelecidos e cotados em dólar. Grande parte da produção era exportada, deixando pouco para consumo interno.

À frente dessas reuniões, estava o temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, conhecido como Coronel Galo Preto. Nascido em Pernambuco, o apelido veio de sua reputação de bravura e liderança entre seus jagunços. Ele resolvia problemas de forma imediata, não hesitando em delegar punições ou eliminar adversários.

Essas reuniões, que contavam com a presença dos cafeicultores da região, eram lideradas pelo coronel, então presidente da bolsa cafeeira estadual. Dotado de um corpanzil imponente, o coronel tinha hábitos bastante peculiares. Sentava-se na cabeceira da mesa com os bolsos recheados de pedaços de frango e bolinhos de bacalhau, que devorava enquanto limpava a gordura na gravata. Depois, acendia seu charuto e soltava baforadas que impregnavam o ambiente com uma fedentina insuportável. Apesar do desconforto, os produtores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Sua postura grosseira não parava por aí. Ao fumar, pedaços de fumo ficavam em sua boca e, para aliviar, ele pigarreava e cuspia no chão até que o zelador providenciou uma escarradeira para conter os estragos. As cadeiras pesadas de madeira maciça arrastavam-se pelo assoalho sempre que alguém se levantava, causando barulho ensurdecedor. E o coronel, frequentemente com a barriga cheia, tinha o hábito de soltar discretos, porém malcheirosos, peidos durante as reuniões. Para disfarçar, ele alegava que os sons vinham do arrasto de sua cadeira.

Nas reuniões com estrangeiros, o zelador advertiu o coronel sobre seus hábitos desagradáveis. Porém, em um momento inesperado, o coronel soltou um peido ensurdecedor e sem cheiro, causando escândalo. Ele insistiu que o barulho era causado pela cadeira, mas os participantes já desconfiavam de sua estratégia. O zelador, então, pregou sua cadeira no assoalho, deixando o coronel sem alternativas para disfarçar.

Quando chegou o dia da reunião final, o coronel, ao comer seu habitual frango, foi acometido por um novo episódio. Tentou disfarçar, mas sem sucesso: o peido soou alto e todos perceberam. Furioso, ele descobriu que o zelador havia pregado a cadeira. Pouco depois, o coronel ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que nunca mais foi visto.

O Coronel Galo Preto faleceu dias depois, e no sepultamento, o zelador “apareceu” para revelar a verdade aos presentes. Após sua morte, as reuniões nunca mais foram as mesmas. A sede foi transferida para a capital, e as histórias sobre os peidos e peculiaridades do coronel tornaram-se lendárias, arrancando gargalhadas daqueles que as relembravam.

 Receita da Época dos Coronéis: Bolinho de Bacalhau & Frango Frito do Galo Preto

Ingredientes:

•  500g de bacalhau dessalgado e desfiado

•  500g de batata cozida e amassada

•  1 ovo

•  1 colher de sopa de salsa picada

•  Sal e pimenta-do-reino a gosto

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Misture o bacalhau com a batata, o ovo e a salsa.

2.  Tempere com sal e pimenta.

3.  Modele os bolinhos com as mãos.

4.  Frite em óleo quente até dourar.

5.  Escorra em papel toalha e sirva quente.

 Frango Frito do Coronel

Ingredientes:

•  1 kg de coxas e sobrecoxas de frango

•  Suco de 1 limão

•  2 dentes de alho amassados

•  Sal, pimenta-do-reino e páprica a gosto

•  Farinha de trigo para empanar

•  Óleo para fritar

Modo de preparo:

1.  Tempere o frango com limão, alho, sal, pimenta e páprica.

2.  Deixe marinar por 1 hora.

3.  Passe os pedaços na farinha de trigo.

4.  Frite em óleo quente até ficarem dourados e crocantes.

5.  Sirva com uma boa dose de coragem — como fazia o coronel.

 Final empolgante: 

Entre peidos e bolinhos, o poder se decidia à mesa

Naqueles tempos, o café era ouro, e os coronéis eram reis. Mas por trás das cifras e dos contratos, havia frango frito, bolinho de bacalhau e histórias que hoje viraram lenda. Que esta receita traga à sua mesa um pouco do sabor — e do humor — de uma época em que até um peido podia mudar os rumos da economia.


O Conto Acadêmico (versão crítica)

O Coronel Galo Preto


Este conto inscreve-se na tradição satírica brasileira, que desde Gregório de Matos até Lima Barreto expõe os vícios e grotescos da vida pública por meio da caricatura literária. A escolha de um coronel do café como protagonista não é casual: ele representa a figura do poder rural, autoritário e teatral, que dominou a política e a economia do interior paulista.

A palavra “peido”, aqui utilizada sem pudor, é recurso literário consciente. Não é vulgaridade gratuita, mas instrumento de comicidade e crítica: o som inconveniente torna-se metáfora da fragilidade humana diante da pompa do poder. O ridículo do coronel, incapaz de controlar o próprio corpo, revela a contradição entre sua autoridade e sua humanidade.

Ao lado dele, surge Seu Ambrósio, o zelador. Personagem humilde, mas astuto, que observa, denuncia e finalmente desmascara o poderoso. Sua presença dá ao conto uma dimensão ética: é o olhar do povo, silencioso, mas firme, que expõe o ridículo dos grandes. Assim, o texto não é apenas uma anedota escatológica, mas uma crítica social, em que o humor serve de lente para revelar a teatralidade da política rural.

O Conto

No interior de São Paulo, entre vastas plantações de café disputadas por negociantes internacionais, ergueu-se a bolsa cafeeira, onde os preços eram cotados em dólar e decididos sob o comando do temido Coronel Tertuliano Telles Noronha Mangabeira, o Coronel Galo Preto. Pernambucano de origem, ganhou fama pela bravura entre jagunços e pela brutalidade com que resolvia conflitos.

Presidente da bolsa estadual, sentava-se à cabeceira da mesa com bolsos abarrotados de frango e bolinhos de bacalhau, devorando-os sem cerimônia, limpando a gordura na gravata e soltando baforadas de charuto que impregnavam o ambiente. Os cafeicultores suportavam tudo em busca da aprovação dos preços.

Mas havia um homem que observava: o zelador Seu Ambrósio. Simples, mas atento, providenciou escarradeira para conter os pigarros e cusparadas do coronel. E foi ele quem percebeu que os estrondos que o coronel atribuía ao arrastar da cadeira eram, na verdade, peidos inconvenientes — trovões grotescos que ecoavam como sátira involuntária no salão.

Em uma reunião decisiva, Ambrósio pregou a cadeira no chão. Sem poder disfarçar, o coronel foi desmascarado diante de todos. Furioso, ordenou que seu jagunço punisse o zelador, que desapareceu misteriosamente. Dias depois, o coronel faleceu. No sepultamento, para espanto geral, Ambrósio reapareceu e revelou a verdade.

Após sua morte, as reuniões foram transferidas para a capital. E as histórias sobre os peidos, os charutos e as peculiaridades do Coronel Galo Preto tornaram-se lendas — contadas entre goles de café e gargalhadas. Mas foi a coragem silenciosa de Ambrósio que deu à narrativa sua verdadeira força: a lembrança de que até os mais humildes podem desafiar o poder.

Encerramento

Com humor escatológico e crítica social, este conto se inscreve na linhagem de narrativas que revelam o Brasil profundo, onde o grotesco e o poder caminham lado a lado. Ao transformar o coronel em caricatura e o zelador em herói silencioso, o texto convida à reflexão sobre a fragilidade da autoridade e a força dos pequenos gestos.

O Coronel Galo Preto: sátira e crítica social

Comparação e Reflexão

Na versão popular, o coronel diverte e escandaliza, transformado em caricatura grotesca.
Na versão acadêmica, ele se torna metáfora do poder rural e da fragilidade da autoridade.
O humor escatológico, que arranca gargalhadas, é também recurso literário de crítica social.

Versão PopularVersão Acadêmica
Humor escrachado e oralidade
Humor como recurso literário
Coronel grotesco e folclóricoCoronel como metáfora do poder rural
Receita culinária como memória culturalPrefácio crítico como enquadramento satírico
Gargalhadas e saborReflexão e crítica social

Encerramento

Entre bolinhos e baforadas, o Coronel Galo Preto virou lenda.
Seja como causo ou como crítica, sua história nos lembra que até os mais humildes podem desafiar o poder — e que até um peido pode virar metáfora da política.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O VÉIO CHARULETA

 

O "Véio" Charuleta

Em um dia em que as recordações se apoderaram de minha mente, percorri a estrada dos primeiros passos da minha vida profissional. Foi então que me veio à lembrança uma figura inesquecível da empresa onde trabalhei: conhecido em todos os departamentos, sempre sorridente, sempre disposto a uma boa conversa. Era o “veio charuleta”, como gostava de ser chamado.

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VAMOS TODOS A SEGUIR, AO CLÍMAX DA CRÔNICA 

Durante décadas, sua presença foi constante. O som da sua risada ecoava pelos corredores, e todos sabiam que, se precisassem de uma palavra amiga, bastava procurá-lo. Mas chegou o momento inevitável: o aviso da aposentadoria. O RH recebeu a carta oficial da previdência e, com ela, veio a notícia de que sua vida mudaria. Os vencimentos seriam menores, bem inferiores ao que recebia na empresa. Ainda assim, era o início de uma nova etapa.

Naquela manhã, saiu da fábrica com a carta em mãos e foi assinar os papéis. No caminho, porém, um pensamento o atormentava:
— E agora? Trabalhei trinta e cinco anos, todos me conhecem... o que vou fazer da vida?

Ao chegar em casa, não contou nada à esposa. Guardou o segredo como quem guarda uma ferida. No dia seguinte, repetiu a rotina: levantou cedo, vestiu-se como sempre e pegou o ônibus da empresa. Os colegas estranharam:
— Charuleta, você não se aposentou?
Ele desconversou, dizendo que tinha pendências no RH. Mas ao chegar ao portão, seu crachá já não abria a catraca. Ficou ali, conversando com os porteiros, como quem não queria aceitar a realidade.

Decidiu então inventar uma nova rotina. Todos os dias pegava o ônibus, descia em frente à fábrica e seguia para a praça vizinha, onde havia um lago. Comprou uma vara de pescar e ali passava as horas, enganando a si mesmo e à esposa, que acreditava que ele ainda trabalhava. Os peixes que pescava eram entregues ao bar da esquina, e o garçom os preparava para o almoço.
— Mais um, seu Charuleta? — perguntava o garçom, já cúmplice silencioso daquela farsa.
— É, rapaz... peixe fresco nunca faz mal. — respondia ele, com um sorriso que escondia a angústia.

Mas um dia, sua ausência foi notada. O banco da praça estava vazio, o lago refletia apenas o céu, e o silêncio parecia mais pesado sem sua figura ali. Um garoto, que sempre passava e o observava pescando, estranhou não vê-lo. Inquieto, foi até a portaria da fábrica e perguntou aos porteiros:
— Vocês viram o Charuleta hoje?

O Big Pig, porteiro mais antigo, respondeu com naturalidade:
— Ontem ele foi ver o jogo do Corinthians... até agora não voltou.

A resposta simples abriu espaço para o mistério. Onde estaria o Charuleta?

Na fábrica, durante os horários de refeição, o assunto dominava as conversas. “Onde estaria o veio charuleta?”, perguntavam uns aos outros. Alguns diziam que o tinham visto vagando pela manhã na porta do cemitério, como se buscasse respostas entre os túmulos. Outros juravam que o viram na estação de trem, com um bilhete na mão para um destino que nem ele parecia saber qual era.

Houve ainda quem jurasse que, numa noite silenciosa, ele apareceu na portaria. Aproveitando a ausência dos vigilantes, vestiu-se com o uniforme esquecido numa cadeira e ficou ali, de pé, recebendo os trabalhadores do turno da madrugada. Cumprimentava cada um com alegria, como se ainda fosse parte da rotina da fábrica. Mas quando o Big Pig voltou ao posto, encontrou apenas o uniforme pendurado e o portão vazio.

Outros relatos falavam de sua tentativa de passar pela catraca com o crachá antigo. No cartão, além da foto já desbotada, havia colado um distintivo do Corinthians ao lado do símbolo da empresa. Ele dizia sempre:
— Sou trabalhador e corinthiano aqui.

Mas a catraca não reconhecia mais aquele crachá. O som seco da negativa parecia simbolizar o fim de uma era. Ainda assim, alguns garantem que, em noites silenciosas, o barulho da catraca ecoava como se alguém insistisse em atravessá-la.

Com o tempo, sua ausência deixou de ser apenas uma preocupação. Tornou-se um mistério, uma história repetida nos corredores e nos refeitórios. Uns diziam que ele vagava pela porta do cemitério, outros que embarcara num trem sem destino. Para alguns, era apenas um homem que não soube aceitar a aposentadoria. Para outros, era já uma lenda da fábrica, um espírito que não conseguia se desligar do trabalho que lhe deu identidade.

Epílogo

O veio Charuleta não desapareceu de verdade. Ele permanece na memória de todos que o conheceram, como um símbolo da dificuldade de se despedir daquilo que nos define. Entre o crachá desbotado e o distintivo do Corinthians, entre o lago da praça e a catraca da fábrica, ele se tornou parte da paisagem invisível da cidade.

Talvez nunca saibamos onde foi parar. Mas sempre que alguém pergunta “Onde estaria o veio Charuleta?”, é como se sua presença voltasse, sorridente, lembrando-nos que o trabalho é mais do que sustento: é também identidade, e que se despedir dele pode ser tão difícil quanto se despedir da própria vida.

Contos são obras e textos de ficção, onde é permitido criar um universo paralelo de acontecimentos, fantasias e muita imaginação. Esses tipos de textos costumam ser curtos em extensão, porém seus significados nos fazem pensar e refletir muito...

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sábado, 22 de agosto de 2026

A NOITE EM QUE A "MULA SEM CABEÇA" PASSOU




Nel silenzio della memoria, racconto i segreti di Banharão. Il passo della mula senza testa risuona ancora nel cuore.

(No silêncio da memória, conto os segredos de Banharão. O trote da mula-sem-cabeça ainda ecoa no coração)

Memórias e Mistérios da Velha Banharão, o texto vem logo a seguir:

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Aqui, não é apenas um espaço de escrita: é uma casa de encontros. Um contador de Histórias que transforma um instante em memória coletiva da alma Humana. 

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VAMOS  A  ELAS

Histórias guardam um poder raro: o de manter vivos aqueles que já partiram. Quando a lembrança é compartilhada, ela transforma o passado em presente e o cotidiano em encantamento. Este texto é mais do que uma homenagem ao meu avô Tonella e à minha avó Santa—é um tributo à magia oral, à sabedoria ancestral e ao mistério que ronda os cantos esquecidos do Brasil profundo.

Tive a felicidade de conviver muito de perto com Tonella, pois morávamos juntos com minha família e compartilhávamos o mesmo quarto até o dia de seu falecimento, quando eu tinha dezesseis anos. Essa convivência me permitiu conhecer, em detalhes, suas histórias, sua força e sua essência.

Tonella tinha o dom de contar causos e “estórias” de sua vida no sertão da velha Banharão, distrito da cidade de Jaú, onde nasceu a maioria dos nossos parentes. Seus relatos eram vívidos, cheios de emoção, e conseguiam transportar qualquer ouvinte para tempos remotos, onde bravura e mistério se entrelaçavam.

Com o avançar da idade, já sem forças para cuidar da plantação de café e dos animais, a família decidiu mudar-se para Jundiaí em busca de melhores condições de vida. Na juventude, porém, meu avô era um homem forte e destemido. Sua especialidade era treinar cavalos para espetáculos circenses, além de domar burros e mulas para o árduo trabalho nas lavouras. Essa habilidade lhe rendeu fama na região e bons ganhos financeiros, permitindo-lhe até comprar um Ford "Bigode" novinho. Curiosamente, apesar da coragem para enfrentar animais selvagens, ele tinha receio de dirigir o carro, deixando essa tarefa para meu pai, Vico.

Minha avó, segundo o velho Tonella, era uma benzedeira convicta e também parteira. Com o tempo, aperfeiçoou seus rituais, incorporando gestos e palavras que conferiam um toque ainda mais místico às suas práticas. Ela molhava ramos de uma planta do quintal em "água benta" e os agitava sobre a cabeça das pessoas, pronunciando palavras que pareciam vir de um tempo esquecido.

A tradição das mulheres benzedeiras da família remonta a gerações e tem raízes profundas nas terras europeias, mais precisamente nos confins da cidade de Treviso, na bela Itália. No entanto, com o passar dos anos e a chegada do modernismo, as jovens descendentes se afastaram das crenças antigas, deixando que a tradição se perdesse pelos caminhos da vida.

Ainda sobre os trabalhos de benzedura de minha avó, era comum ver gente vinda de longe para passar pelas suas mãos, buscando cura ou um bom parto. Durante o ritual, ela balbuciava frases em um idioma ancestral e difícil de compreender. Acreditava-se que aqueles que se sentavam no pequeno banco de madeira para receber suas bênçãos poderiam ter visões da temida mula-sem-cabeça. E então, instigados pelo medo e pelo misticismo, confessavam seus pecados e saíam dali acreditando estarem livres de seus males.

O tropel da mula-sem-cabeça, segundo meu avô, era um aviso. Quando o "doente" ouvia o som inquietante dos cascos rodeando a casa, era proibido olhar, nem mesmo por uma fresta da janela, sob o risco de ficar cego. As histórias contadas por minha avó eram envoltas em mistério e temor, e geravam respeito entre os que buscavam sua ajuda.

Ainda segundo Tonella, minha avó—ou mia nonna, meglio conosciuta come la vecchia signora—alertava sobre os perigos do pecado: moças que se entregassem a um amor proibido antes do casamento, comadres que se envolvessem com compadres, ou mesmo uma mulher que se casasse com um padre, todas estavam fadadas a se transformar na terrível mula-sem-cabeça.

Dizia também que ela aparecia nas noites de sexta-feira e, ao encontrar um pecador, sugava-lhe os olhos, as unhas e os dentes, soltando fogo pelas narinas. Se a vítima sobrevivesse, acreditava-se que a cura havia sido alcançada. E para aqueles que, tomados pelo medo, desejavam evitar o encontro com a criatura, bastava não cruzar correndo diante de uma cruz à meia-noite.

Mio Gran Finale:

Os mitos e lendas brasileiras percorrem os lares de nosso povo, despertando temor e alimentando a imaginação, assim como fazia minha avó Santa e seu fiel escudeiro, o marido, meu avô Tonella. Essas histórias vagam por diversos lugares ao mesmo tempo, mudam nomes e características, mas nunca desaparecem. Permanecem vivas, misturando-se às crendices e ao lado sombrio do inconsciente coletivo.

E enquanto houver alguém disposto a ouvir e lembrar, o tropel da mula continuará ecoando pelas noites da memória.


"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História.

"Cada interpretação abre uma janela para novos horizontes."

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DE ALFREDO LOBÃO: PARA: O ÚLTIMO MALANDRO DO ESTÁCIO

A despedida de Alfredo Lobão , transformado em Fred, como o último representante de uma era que se esvaiu. Ele é direto, marcante e dialoga ...