TALVEZ SEJA O VENTO...
Corria o ano de 1958, quando o Brasil se tornou campeão
mundial de futebol. Eu era um garoto e ouvi a final pelo rádio no botequim do
Serafim, um português da gema que, naquele dia, jurava torcer pelo Brasil.
No auge do segundo tempo, num avanço de Pelé, a voz do
locutor sumiu. Foi um desespero. Gritavam para o Serafim acertar o rádio,
enquanto ele não sabia se mexia no botão ou se servia mais um rabo-de-galo.
Estava tão alegre que já não cobrava nada — nem os petiscos da molecada, nem a
bebida dos mais velhos.
Depois do jogo, subi na carroceria de um caminhão e rodei a
cidade em festa. Cheguei em casa tarde, para o desespero dos meus pais.
No dia seguinte, voltei ao botequim em busca das novidades.
Foi ali que ouvi, pela primeira vez, que o Diabo havia atacado mulheres da
Tecelagem Japy, lá pelas bandas da Vila Arens. Diziam que surgia de um capão de
mato, urrando, vestido de vermelho, com uma capa preta que rodopiava no ar.
O assunto tomou a cidade. O jornal noticiou. A rádio
comentava. O delegado Joaquim Linguiça investigou, mas não encontrou nada além
da trilha por onde as mulheres passavam antes do turno das cinco.
Uma semana depois, o Diabo atacou novamente. As
trabalhadoras juravam que ele tinha rosto horrível e urros capazes de gelar o
sangue. Algumas voltavam para casa molhadas de medo. Outras não voltavam mais à
fábrica.
O Serafim dizia que agora iam trabalhar escoltadas por
maridos e filhos. A tecelagem era quase só de mulheres, muitas já antigas de
casa. Produziam menos, comentava-se, e isso preocupava o dono, o turco Salim.
Dentro da fábrica, ninguém segurava mais a situação. O
gerente e o chefe do pessoal, Gerubal Pascoal, prometeram proteção policial.
Dois guardas ficaram de prontidão na mata. Mesmo assim, numa madrugada fria, o
urro ecoou outra vez. Houve correria, marmitas perdidas, chinelos abandonados
pelo caminho.
O delegado perdeu a paciência e chamou Epaminondas, um
jagunço grande e valente, para resolver o caso. Armado, passou a fazer tocaia
no mato, à espera do Diabo.
Enquanto isso, comentava-se que o medo estava dando
resultado: mulheres pediam demissão, outras mudavam de cidade. As moças novas
produziam bem. O nome da fábrica corria a região.
Até que, numa manhã, o Diabo voltou.
Saltou do mato envolto na capa, urrando como sempre.
Epaminondas não correu. Gritou um palavrão e disparou.
O corpo caiu.
Quando o delegado chegou, percebeu que a máscara estava
frouxa. Ao retirá-la, o espanto foi geral: o Diabo era Gerubal Pascoal, o chefe
do pessoal da fábrica.
Depois, soube-se que a mulher dele havia costurado a
fantasia. Gerubal fizera tudo por medo de perder o emprego e não sustentar a
família. O turco Salim fugiu do país. A fábrica faliu. Muita gente ficou sem
receber nada.
Hoje, o prédio está abandonado. Dizem que, nas manhãs
frias, ainda se ouvem urros vindos do mato.
Talvez seja o vento.
Ou talvez o Diabo ainda cobre o que lhe foi negado.
"Não escrevo para recuperar o passado, e sim, para impedir que certas pessoas desapareçam. Meus contos não colecionam heróis; recolhem aqueles homens e mulheres que a vida colocou discretamente à margem, mas que continuam sustentando a memória de um país. Talvez seja essa a missão mais bonita da literatura: salvar do esquecimento aquilo que parecia pequeno demais para a História."
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Antonio Toninho Vendramini Neto
Escritor | Criador de conteúdos culturais

2 comentários:
Muito bom. Curiosa e bem narrada crônica. abraço, kleber
Obrigado pelas palavras. Um abraço.
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