sábado, 31 de janeiro de 2015

CIÚMES DA VIOLA



Em uma longínqua cidadezinha do interior, conhecida por Jacundá Mirim, vivia um caboclo muito conhecido por “Juca guizo de cobra”. Carregava esse apelido desde criança, porque seu pai, em uma noite de festa de São João, com muita pinga rolando de boca em boca, teve uma visão, anunciando que o seu filho mais novo, iria se tornar um grande violeiro.

Para tanto, deveria, junto com o menino, capturar uma cascavel, enrolá-la em seu braço direito e fazer várias rezas em uma capela abandonada na beira da estrada do local onde moravam, para que a “profecia” fosse realizada.

Partiram para lá e viram uma cobra enrolada nos pés do único santo que estava postado em um altar todo empoeirado, que todos diziam milagreiro, pois as pessoas, em desespero de causa, iam buscar, naquele local, apoio para suas dificuldades. Foi uma correria danada dentro do local, até que conseguiram apanhar a serpente.

Ainda na visão do Zé Mangabeira, pai do Juca, no dia seguinte deveria sacrificá-la, pois era sexta-feira dia treze e, tudo estava acontecendo, conforme recebido em sua visão.

Feito isso, pai e o filho deveriam cortar a cabeça e o guizo e deixar aquelas partes secarem ao sol, sobre um pé de aroeira.

Depois dessa etapa, os ossos deveriam ser colocados dentro de uma viola, que não podia ser comprada, tinha que ser presenteada, o que fez um dos seus tios, por imposição do pai, o Zé Mangabeira.

Assim sendo, Juca não precisou aprender a tocar o instrumento; esse “dom” foi concebido em uma noite de luar, quando o tio entregou-lhe a viola na presença do pai. Acarinhou-a de mansinho e logo foi colocando o nome, Lucinda, que já tinha no pensamento. Naquele instante, começou a palmeá-la com sutileza e muita delicadeza, tornando-se desde então, um tocador inigualável.

Não deixava ninguém chegar perto de Lucinda, porque alguns sabiam daquela “estória do guizo” e queriam ver o chacoalhar diferente da caixa de som, produzido pelo dedilhar do Juca, ágeis que nem uma cobra, transformando velhas canções como “Abismos de Rosas”, em solos entorpecedores, deixando as pessoas maravilhadas.
 
 Sua fama correu fronteiras, e assim, era chamado para tocar nas festas de peão-boiadeiro, casamentos e bailes de cocheiras.

Nos momentos dos intervalos dos shows, quando ia ao sanitário, tinha que levá-la, pois não confiava em deixá-la com alguém; assim, comprou um cachorro, daquele tipo policial, a quem confiou a guarda, o que fazia com dedicação; ninguém se atrevia chegar perto da viola, que ele, Pitoco, rosnava e latia.

Não tinha empresário, tudo era acertado nos momentos que antecediam uma apresentação; não gostava de tratar nada por telefone. E assim foi crescendo ainda mais sua fama de violeiro, tendo por companheiros a viola Lucinda e o cachorro Pitoco.

Em suas apresentações, o locutor do rodeio assim o apresentava:

- E agora, no ápice da noite, para abrilhantar a nossa festa, vem aí o violeiro Juca, acompanhado de sua viola Lucinda e seu fiel escudeiro, o cachorro Pitoco.

Era uma alegria imensa, porque, conforme Juca dedilhava a viola, Pitoco uivava sem parar, como se fosse um acompanhante da música, mas no fundo eram ciúmes da Lucinda; ele a queria tanto, que dormia ao seu lado, e Juca podia ir para a farra, que não havia perigo de ninguém entrar em seu camarim, para olhar o que tinha dentro da caixa de som; curiosidade que tinham, pois o solo que Juca apresentava era diferente, tinha algo enfeitiçado que todos queriam desvendar.

============================================
Acesse o link abaixo e poderá ver outros textos formatados em ppsx.
www.sergrasan.com/toninhovendraminislides/


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O ESCULTOR E A FONTE


A praça daquela pequena cidade situada em frente à igreja estava em festa, não cabia mais ninguém. Era dia santo, as pessoas se acotovelavam e a cruzavam ansiosamente, aguardando o inicio da procissão.

Nesse mesmo lugar em outras ocasiões, os aldeões ouviam os proclamas do administrador da cidade, impondo severos impostos aos moradores, que pagavam com muito sacrifício, amaldiçoando o velho alcaide, representado por uma estatua fincada a poucos metros dali. Foi esculpida em granito branco, por um mestre do oficio vindo da cidade grande, que não recebeu nenhuma paga pelos serviços, o que muito lhe aborreceu e também amaldiçoou o solicitante, no dia que foi embora.

E assim procedia com outras pessoas não pagando corretamente as prestações de serviços, o dinheiro era desviado dos cofres da comunidade para o seu recôndito castelo, não destinando recursos para outras obras que o povo merecia, pelos sacrifícios realizados.

A cidade era muito aprazível: os muros que a cercavam, em estilo medieval, ostentavam, em seu interior, edificações seculares que sombreavam as poucas vielas,
trazendo encantos perfumados nas floreiras espalhadas sob as janelas, onde as senhoras faziam os seus pedidos aos vendedores de frutas e verduras que ficavam circulando nas vielas.

Mas o momento era especial, pois, dias antes, chegou um recado ao pároco, encaminhado pelo Prefeito, dizendo para repassar aos seus fieis na missa de domingo, que uma coisa muito boa iria acontecer, e a notícia seria dada, antes do início da procissão. O boato correu fronteiras, trazendo dessa forma o escultor para a cidade, na esperança de receber o pagamento pela estátua, que ficou tão perfeita, que alguns diziam, só faltava falar:

O padre já estava impaciente, uma vez que o arauto do alcaide ainda não havia chegado para ler, naquele bendito pergaminho, que continha a notícia.     

Ao som de um tropel de cavalo, chegou o mensageiro, apeou, tirou o pó da garganta com um gole de água fornecido por um aldeão e começou a ler: 

- Por ordem do nosso amado Prefeito, informo que... Nesse momento, um estrondo aconteceu no céu, seguido de uma forte ventania, e o pergaminho saltou de suas mãos caindo no solo, bem perto do escultor que estava entre o povo.

Ficou estupefato com o que leu! As pessoas com aquela tempestade caindo, correram para abrigarem-se na igreja. A chuva caia... Imóvel no local, amassou o papel, enfiou no bolso e começou a esbravejar, soltando urros de indignação.

As pessoas de longe queriam saber da noticia, mas chovia muito e não se atreviam chegar perto. Foi quando caminhou até uma loja de ferragens, apanhou uma marreta que estava exposta para a venda, dirigiu-se até a estátua e começou a marretar a sua bela obra, que ficou somente na base. No último golpe, um esguicho de água molhou o seu rosto cansado. Olhou para o solo e constatou que atingira o velho aqueduto que abastecia à cidade.

Sua ira era tão grande que, de repente, teve um momento de lucidez; então, em alto e bom som, bradou para o povo que ainda estava abrigado em alguns lugares que contornavam a praça.

- Vou construir nesse local, aproveitando o veio da água, uma fonte de muita beleza, para refrescar o povo nos dias de verão e servir de contemplação.

Um rico comerciante apreciador das belas artes, por nome Pierluigi que tudo ali presenciava, aproximou-se e disse:

- Caro Signor Domenico, serei o seu patrono nessa empreitada, acomode suas coisas em um dos meus aposentos e dê início a sua obra. Financiarei tudo em prol do nosso povo, para que tenham mais alegria quando vierem à cidade.
                 
- Ao saber do acontecido, Dom Cármino, iniciou uma verdadeira guerra com o escultor Domenico e seu patrono Pierluigi, não conseguindo o seu intuito, que era o de destruir os vestígios do começo da obra, pois o povo estava apoiando o escultor e seu patrono, vigiando diuturnamente o local.

E assim, todas as pessoas que passavam pelo local, faziam aquela mesma pergunta:

- Signori Domenico, o que estava escrito...

- Não posso dizer, com o tempo todos vão entender o meu gesto.

Terminado a construção, houve festejos, com o povo dançando e entoando canções em louvor as águas que corriam na fonte e a bela estação da primavera, onde as flores predominavam nas mãos das pessoas.

No dia da partida do escultor, ao receber de seu patrono o pagamento pelos seus serviços, foi lhe perguntado mais uma vez.
     
- Domenico, sei que tem evitado dizer o conteúdo do pergaminho que Dom Cármino entregou para o seu fiel escudeiro ler, e que o vento levou às suas mãos.

- O que dizia...

- Não posso... Só tenho a dizer:

“O cuore há speranza che scorre fonti”
(o coração tem esperança, faz jorrar as fontes).


O CONTO QUE ACABARAM DE LER É DE ORIGEM FICTÍCIA, NÃO FAZENDO NENHUMA ALUSÃO AO ESCULTOR BERNINI, CUJAS OBRAS EMBELEZAM ESTA FORMATAÇÃO, EM RAZÃO DO TEMA DO TEXTO.

A Fontana del Tritone, foi uma das primeiras fontes de Gian Lorenzo Bernini, localiza-se na Piazza Barberini, em Roma, encomendada  pelo Papa Urbano VIII, um amante da arte e fã do escultor. Bernini a esculpiu entre 1642 e 1643,   indiscutivelmente barroca e de grande dramaticidade.
A escultura mostra Tritone, mítico personagem da mitologia grega, filho de Netuno, cujo tronco era de um homem e as pernas eram a cauda de um peixe, sorvendo água de uma concha, apoiado por quatro grandes peixes de duras feições.

Era natural na época de Bernini que todos os seres representados fossem de grande exatidão fisionômica, másculo e artisticamente perfeito.

Através do tempo, algumas formas especificas de esculturas foram mais utilizadas que outras: O busto, a estátua equestre e as fontes de água, especialmente em Roma, para coroar seus fabulosos aquedutos.



ACESSE MEU SITE E PODERÁ VER FORMATAÇÕES DE VIAGENS REALIZADAS MUNDO AFORA - www.sergrasan.com/toninhovendraminislides/ 

O CAMINHO DA CRUZ

O CAMINHO DA CRUZ Tudo estava quieto... Naquele momento, pressentia-se que alguma coisa pudesse acontecer a qualquer instante;...